Morte no Teatro La Fenice

Donna Leon · Capítulo 14 de 25

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Morte no Teatro La Fenice

Capítulo 14

 

A ilha de Giudecca era uma parte de Veneza que Brunetti raramente visitava. Visível da praça San Marcos, visível, na verdade, de muitos lugares e não se distanciando de alguns deles mais que uma centena de metros, ela se encontrava, porém, num estranho isolamento do resto da cidade. As histórias terríveis que os jornais publicavam com freqüência sobre crianças mordidas por ratos e pessoas que morriam de overdose pareciam acontecer sempre em Giudecca. Nem mesmo a presença de um monarca destronado ou a de uma estrela de cinema dos anos 50 podiam livrá-la da imagem de um lugar decadente e sinistro onde aconteciam coisas esca brosas.

Brunetti, assim como boa parte dos venezianos, nor malmente ia àquele lugar em julho, para a festa do Redentor, em celebração ao fim da peste, ocorrido em 1576. Durante dois dias, uma ponte composta de barcos unia Giudecca à ilha principal, permitindo aos fiéis ir a pé até a igreja do Redentor, para render graças à intervenção divina — que por tantas vezes salvou ou poupou a cidade.

De pé no convés do vaporetto (linha 8) que singrava as ondas, ele olhava ao longe o inferno industrial de Marghera; as chaminés das fábricas soltavam grandes nuvens de fumaça que, sopradas insidiosamente pelos ventos acima das águas da laguna, terminavam por corroer o mármore branco de Veneza. Ele se perguntava que intercessão divina poderia salvar a cidade da maré negra de óleo, essa peste moderna que cobria as águas da laguna e já havia destruído, aos milhões, os caranguejos que povoavam seus pesadelos de infância. Que Redentor poderia salvar a cidade daquele véu de fumaça esverdeada que pouco a pouco transformava o mármore em merengue? Homem de pouca fé, Brunetti não conseguia imaginar nenhuma salvação, humana ou divina.

Ele desceu na parada Zittele, dobrou à esquerda e andou margeando o canal, procurando a Corte Mosca. Às suas costas do outro lado das águas, estava a cidade, cintilando à luz do pálido sol de inverno. Passou pela igreja, agora fechada para a siesta de Deus, e viu, logo adiante dela, a entrada para o pátio. Estreita, baixa e mergulhada na penumbra, a passagem cheirava a urina de gato.

No final do túnel de pedra, encontrou-se próximo a um jardim exuberante, no centro do pátio interno, onde as plantas vicejavam na mais total desordem. De um lado do pátio, um animalzinho que devia ser um gato estava comendo os restos de algum passarinho. Ao ruído dos seus passos, o gato escondeu-se sob uma roseira, sem largar o que estava comendo. Uma porta empenada abria-se na parede, do outro lado do pátio. Para chegar até ela, Brunetti teve que afastar, por várias vezes, os ramos espinhosos. Ele bateu, esperou, depois esmurrou a porta.

Após alguns minutos a porta se abriu cerca de um palmo e dois olhos o fitaram. Ele explicou que estava procurando a sra. Santina. Os olhos o examinaram, cheios de perplexidade, e recuaram para a completa escuridão da casa. Considerando a debilidade devida à idade avançada, ele repetiu a pergunta, dessa vez quase gritando. Abriu-se então um pequeno orifício sob os dois olhos e uma voz masculina lhe disse que a senhora morava do outro lado do pátio.

Brunetti voltou-se e olhou o jardim. Próximo à entrada do túnel, mas quase escondida por um monte de folhas e galhos em decomposição, havia outra porta baixa. Quando ele se voltou para agradecer, a porta fechou-se brutalmente. Com muito cuidado, ele cruzou o jardim e bateu na outra porta.

Dessa vez Brunetti teve que esperar ainda por mais tempo. Quando a porta se abriu, ele viu um par de olhos na mesma altura que os da outra porta, e se perguntou se aquela criatura conseguira de alguma forma correr de uma casa para a outra. Contudo, observando melhor, percebeu que aqueles olhos eram mais claros e que o rosto era sem dúvida o de uma mulher, embora, como o outro, coberto de rugas e engelhado de frio.

“Sim?”, perguntou ela, olhando para ele. Era uma velhinha baixinha, envolta em mantas e cachecóis. Por baixo da última manta via-se uma nesga do que parecia ser uma camisola de flanela. Ela calçava um par de grossos chinelos de lã, iguais aos que a avó dele costumava usar. Por cima de tudo isso, um grande casaco masculino, desabotoado.

“Signora Santina?”

“O que o senhor quer?” Ouvindo aquela voz, alta e aguda por causa da idade, era-lhe difícil acreditar que pertencia a uma das grandes cantoras do pré-guerra. Naquela voz, também, ele sentia toda a desconfiança em relação à autoridade, instintiva nos italianos, especialmente os mais velhos. Essa desconfiança o ensinara a adiar o mais possível a revelação de que era um policial.

“Signora”, disse ele, inclinando-se para a frente e falando alto e com voz clara, “gostaria de falar com a senhora sobre o maestro Helmut Wellauer.”

Nada parecia indicar, na expressão de seu rosto, que ela ouvira falar da morte do maestro. “O senhor não precisa gritar, não sou surda. O que o senhor é, um jornalista? Como o outro?”

“Não, senhora. Não sou. Mas gostaria de falar com a senhora sobre o maestro.” Agora Brunetti falava com toda a cautela, atento às reações que provocava. “Sei que a senhora cantou com ele. Em seus dias de glória.” A essa palavra, o olhar dela se tornou subitamente atento, suavizando-se um pouco.

Ela o examinou, procurando um músico por trás da conservadora gravata azul. “Sim, eu cantei com ele. Mas isso foi há muito tempo.”

“Sim, senhora, sei disso. Mas ficaria honrado se a senhora se dispusesse a falar sobre sua carreira.”

“Minha carreira junto com ele, é isso o que o senhor quer dizer?” Brunetti percebeu o exato momento em que ela se deu conta de quem — ou o quê — ele era.

“O senhor é um policial, não é?”, perguntou ela como se aquilo lhe tivesse chegado como um cheiro e não como uma idéia. Ela apertou mais o casaco contra si, cruzando os braços sobre o peito.

“Sim, senhora, sou, mas sempre fui um admirador seu.”

“Então por que o senhor nunca veio aqui antes? Mentiroso.” Ela disse aquilo como uma mera constatação, sem a menor raiva. “Mas vou falar com o senhor. Se eu não fizer isso, o senhor vai voltar com uma ordem do juiz.” Ela se voltou abruptamente, e recuou para a escuridão. “Vamos, entre. Não posso me dar ao luxo de aquecer o pátio inteiro.”

Ele a seguiu e imediatamente sentiu-se incomodado pelo grande frio e pela umidade. Talvez pelo fato de ter saído tão bruscamente do sol, o cômodo parecia ainda mais frio que o pátio. Ela deslizou por trás dele e fechou a porta, separando-o completamente da luz e da lembrança do calor. Com o pé, ela empurrou um grosso rolo de flanela para com ele fechar a abertura sob a porta. Depois trancou a porta a chave e passou o ferrolho. Com um policial dentro de casa, ela fechou a porta o mais que pôde.

“Por aqui”, murmurou ela, e entrou num longo corredor. Brunetti foi obrigado a esperar até seus olhos se acostumarem à escuridão, antes de poder segui-la pelo corredor úmido; eles chegaram a uma pequena cozinha, também escura, no centro da qual havia um velho aquecedor a querosene. A mais fraca das chamas bruxuleava em sua base; uma pesada poltrona, tão cheia de cobertores quanto sua dona de mantas, estava junto ao aquecedor.

“Imagino que o senhor deseja café”, disse ela enquanto fechava a porta da cozinha, novamente chutando trapos enrolados para fechar a abertura embaixo da porta.

“É muita gentileza de sua parte, senhora”, disse ele.

Ela apontou uma cadeira de espaldar reto em frente à sua, e Brunetti adiantou-se para sentar nela, não sem antes observar que a cobertura de vime trançado estava gasta ou estragada em vários lugares. Ele sentou-se com todo o cuidado e percorreu o aposento com os olhos. Viu os sinais de uma pobreza desesperada: a pia de cimento com apenas uma torneira, a inexistência de geladeira ou fogão, manchas de bolor nas paredes. Mais do que ver, ele sentia o cheiro da pobreza, cheirava-a no ar fétido, o cheiro de esgoto comum a todas as habitações térreas de Veneza, restos de salame e de queijo à temperatura ambiente sobre o balcão, uma pobreza denunciada também pelo odor azedo de roupas não lavadas que vinha dos cobertores e xales amontoados na cadeira da velha senhora.

Com movimentos contidos pela idade e pela falta de espaço, ela derramou café de uma cafeteira numa pequena caçarola e caminhou com passos hesitantes até o fogareiro a querosene, em cima do qual pôs a caçarola. Andou devagar até a pia e voltou para colocar duas xícaras trincadas na mesa ao lado de sua poltrona. Repetiu ainda uma vez os mesmos passos, voltando então com um pequeno açucareiro de cristal com um montículo de açúcar sujo e empedrado. Enfiando o dedo na caçarola e considerando a temperatura adequada, ela derramou o líquido nas duas xícaras, uma das quais empurrou em sua direção sem maior cuidado. Depois lambeu o dedo para limpá-lo.

Em seguida, inclinou-se sobre a poltrona para afastar as mantas e, como alguém que se preparasse para deitar-se numa cama, sentou-se na cadeira. Automaticamente, como se depois de muito treino, as mantas deslizaram das costas e dos braços da poltrona, cobrindo-a.

Ela estendeu a mão para pegar a xícara da mesa ao seu lado, e ele notou que as mãos dela eram deformadas e cheias de nós por causa da artrite, de tal modo que a esquerda se transformou numa espécie de gancho, com o polegar apontando. Brunetti imaginou que a mesma doença era a causa de sua lentidão. E então, como o frio e a umidade continuavam a dominar seu corpo, ele pensou em como seria para ela morar num apartamento como aquele.

Nenhum dos dois dissera uma palavra enquanto ela preparava o café. Agora ambos estavam num silêncio quase agradável, quando ela se inclinou para a frente e disse: “Pegue um pouco de açúcar”.

Ela não fez nenhum movimento para sair de sob suas mantas. Brunetti pegou a única colher e conseguiu tirar um pedaço do açúcar. “Permita-me, signora”, disse ele colocando o açúcar na xícara dela, e mexendo o café com a colher. Conseguiu retirar outro pedaço de açúcar e colocou-o em sua própria xícara, onde ele ficou duro e insolúvel. O líquido que Brunetti sorveu era espesso, morno e letal. Um pedaço de açúcar veio se chocar contra seus dentes sem nada ter feito para adoçar o gosto amargo do café. Ele tomou outro gole, depois o colocou sobre a mesa. A sra. Santina não tocou no seu.

Ele sentou-se novamente na cadeira e, sem tentar disfarçar sua curiosidade, olhou em volta. Se esperava encontrar algum sinal de uma carreira tão meteórica como breve, estava enganado. Nenhum pôster de antigas estreias pendia daquelas paredes, nenhuma foto da cantora vestida a caráter. O único objeto que poderia ser um indício de seu passado era uma grande fotografia numa moldura de prata que estava em cima de uma cômoda cheia de rachaduras. Dispostas em V numa pose arranjada, três jovens mulheres, na verdade mocinhas, sentadas, sorrindo para a câmera.

Ainda ignorando a xícara ao seu lado, ela perguntou abruptamente: “O que o senhor deseja saber?”.

“É verdade que a senhora cantou com ele, signora?”

“Sim, na temporada de 1937. Mas não aqui.”

“Onde?”

“Em Munique.”

“E qual foi a ópera, signora?”

“Don Giovanni. Os alemães sempre foram loucos por seus compositores. E os austríacos. Por isso lhes demos Mozart.” Depois acrescentou, com certo tom de desprezo: “E Wagner. E naturalmente ele lhes deu Wagner. Ele amava Wagner”.

“Quem? Wellauer?”

“Não. Uimbianchino”, disse ela, usando o termo que significa caiador, apelido dado a Hitler, conhecido por ser um pintor medíocre, expressando com isso o sentimento que custara a vida a inúmeras pessoas.

“E o maestro também gostava de Wagner?”

“Ele gostava de tudo de que o outro gostava”, disse ela com um desprezo que não procurou dissimular. “Mas tinha seu gosto pessoal por Wagner. Todos eles gostam. A melancolia e o sofrimento. Eles gostam disso. Acho que gostam do sofrimento. O deles e o dos outros.”

Ignorando isso, ele perguntou: “A senhora conheceu bem o maestro?”.

Ela desviou os olhos de Brunetti, fitou a fotografia e em seguida as próprias mãos, que ela mantinha sempre separadas, como se mesmo o mínimo contato pudesse provocar dor. “Sim, eu o conhecia muito bem”, disse enfim.

Depois do que lhe pareceu um longo tempo, Brunetti fez outra pergunta. “O que pode me dizer sobre ele, signora?”

“Ele era vaidoso”, disse ela finalmente. “Mas com razão. Ele era o maior maestro com quem trabalhei. Não cantei com todos; minha carreira foi curta demais. Mas entre aqueles com quem cantei ele era o melhor. Não sei como conseguia aquilo, mas ele podia pegar qualquer música, por mais conhecida que fosse, e fazê-la parecer nova, como se nunca tivesse sido executada ou ouvida antes. Os músicos em geral não gostavam dele, mas o respeitavam. Ele conseguia fazê-los tocar como anjos.”

“A senhora disse que sua própria carreira foi muito curta. O que a interrompeu?”

Ela o fitou, mas não lhe perguntou como uma pessoa que dizia ser sua fã poderia ignorar a história. Afinal de contas, ele era um policial, e eles sempre mentem. Sobre qualquer coisa. “Recusei-me a cantar para o Duce. Foi em Roma, na abertura da temporada de 1938. Norma. O diretor veio pessoalmente aos bastidores, pouco antes de se abrirem as cortinas, e me disse que tínhamos a honra de ter Mussolini na plateia naquela noite. E...” Ela hesitou, como se procurasse uma maneira de explicar aquilo. “E eu era jovem e corajosa, e disse que não iria cantar. Era jovem e famosa, e achava que podia fazer uma coisa daquelas e que minha fama iria me proteger. Pensava que os italianos amavam a arte da música o bastante para que eu pudesse fazer isso impunemente.” Ela balançou a cabeça a essa ideia.

“O que aconteceu, signora?”

“Eu não cantei. Não cantei aquela noite, e nunca mais cantei em público. Ele não podia me matar por causa daquela atitude, por não cantar, mas podia me prender. Fiquei em minha casa em Roma até o final da guerra e, quando ela acabou, nunca mais cantei.” Ela mudou de posição na poltrona. “Não quero falar sobre isso.”

“Então falemos sobre o maestro. A senhora se lembra de mais alguma coisa sobre ele?” Embora nenhum dos dois tivesse mencionado a sua morte, ambos falavam dele como de um morto.

“Não, nada.”

“É verdade, signora, que teve desentendimentos com ele?”

“Eu o conheci há cinquenta anos.” Ela deu um suspiro. “Que importância pode ter isso?”

“Signora, eu só quero ter uma ideia de como ele era. Tudo o que sei dele é sua música, que era bela, e seu corpo, que tive oportunidade de ver e que não o era. Quanto mais eu souber sobre ele, mais poderei entender como foi sua morte.”

“Foi veneno, não foi?”

“Sim.”

“Perfeito.” Não havia nenhuma maldade, nenhum sarcasmo em sua voz. Ela disse aquilo como quem comentasse uma passagem de música ou um prato. Brunetti notou que agora suas mãos estavam juntas e que seus dedos se entrelaçavam e se separavam nervosamente. “Mas lamento que alguém o tenha matado.” O que significava aquilo?, pensou ele. “Eu preferiria que fosse suicídio, porque assim ele perderia a vida e também danaria a alma.” Seu tom continuava neutro, desapaixonado.

Brunetti tiritava de frio; começou a bater os dentes. Num movimento quase involuntário, levantou-se da cadeira e começou a andar em volta para esquentar um pouco os membros. Quando chegou à cômoda, parou diante da fotografia e examinou-a. As três moças usavam os trajes extravagantes dos anos 30: vestidos longos rendados que iam até o chão, sapatos de bico aberto e saltos muito altos. As três tinham a mesma boca em forma de coração e sobrancelhas finíssimas. Sob a maquiagem e o cabelo frisado, podia-se ver que eram muito jovens. Elas estavam dispostas em ordem decrescente de idade. A mais velha, que estava à esquerda, teria uns vinte e poucos anos e a do meio era um pouco mais nova. A última, quase uma criança, mal entrara na ado- lescência.

“Qual delas é a senhora?”

“A que está entre as duas. Eu era a do meio.”

“E as outras duas?”

“Clara. Ela era a mais velha. E Camilla, a caçula. Éramos uma boa família italiana. Minha mãe teve seis filhos em doze anos, três meninas e três meninos.”

“Suas irmãs também cantavam?”

Ela deu um suspiro, depois um risinho cético. “Houve um tempo em que toda a Itália conhecia as irmãs Santina, as Três Cs. Mas isso foi há muito tempo, como o senhor poderia saber?” Brunetti viu a maneira como ela olhava a fotografia e se perguntou se, para ela, todas continuavam como na fotografia, jovens e bonitas.

“Começamos cantando em music-halls, depois dos filmes. Éramos muito pobres, por isso nós, as filhas, cantávamos para ganhar algum dinheiro. Começamos a ser reconhecidas, e passamos a ganhar mais dinheiro. Terminei por descobrir que eu tinha uma voz muito boa, então comecei a cantar em teatros, mas Camilla e Clara continuaram cantando em music-halls.” Ela parou de falar e pegou o café, tomou-o em três goles e depois escondeu as mãos sob o calor de suas mantas.

“O seu desentendimento com ele tem algo a ver com suas irmãs?”

Sua voz se tornou de repente cansada e velha. “Que importância pode ter uma coisa tão antiga?”

“Tem algo a ver com elas, signora?”

Sua voz se elevou ao nível de soprano. “Por que o senhor quer saber? Que importância tem isso? Ele está morto. Elas morreram. Todos estão mortos.” Ela ajeitou melhor as mantas para se proteger do frio e da frieza da voz do policial. Brunetti esperou que ela continuasse, entretanto a única coisa que lhe chegava aos ouvidos era o sopro e o chiado do aquecedor a querosene, em sua vã tentativa de vencer o frio glacial da sala.

Passaram-se minutos. Brunetti ainda sentia o gosto amargo do café em sua boca, e nada podia fazer para atenuar o frio que continuava a penetrar-lhe os ossos.

Finalmente, ela voltou a falar, dessa vez num tom definitivo. “Se o senhor já terminou o seu café, pode ir embora.”

Ele foi até a mesa e levou as duas xícaras para a pia. Quando se voltou, ela já se desvencilhara de sua pilha de mantas e estava na porta da sala. Ela tomou a sua frente e foi andando com seu passo hesitante pelo longo corredor que, se é que era possível, estava ainda mais frio que a sala. Devagar, mexendo nas chaves e na fechadura com suas mãos deformadas, puxou os ferrolhos e abriu a porta apenas o suficiente para que ele pudesse sair. Quando se voltou para agradecer, ouviu o barulho do correr dos ferrolhos. Embora fizesse um pouco de frio, pois o inverno estava começando, Brunetti soltou um suspiro de alívio e de prazer ao sentir a fraca carícia do sol da tarde em suas costas.

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