Morte no Teatro La Fenice
Capítulo 11
Na manhã seguinte, chegou à Questura às oito, levando consigo os jornais do dia, que leu rapidamente. Havia pouca informação nova; quase tudo tinha sido noticiado no dia anterior. Os informes sobre a carreira de Wellauer eram mais longos, os clamores de que o assassino devia ser levado à justiça mais estridentes, mas não havia nada que Brunetti não soubesse.
O relatório do laboratório estava em sua escrivaninha. As únicas impressões digitais na xícara, nas quais se encontraram resíduos de cianureto, eram do próprio Wellauer. No camarim havia tantas outras impressões que seria impossível examiná-las todas. Ele decidiu deixar de lado a pista das impressões digitais. Como as únicas que havia na xícara eram do maestro, não via sentido em identificar todas as outras encontradas na sala.
Junto com o relatório sobre as impressões digitais, havia uma lista de objetos encontrados no camarim. Ele se lembrava de ter visto a maioria deles: a partitura de La Traviata, com todas as páginas cheias de anotações nas margens em caracteres góticos, feitas por Wellauer; um pente, uma carteira, dinheiro; as roupas que o maestro estava usando e as que se encontravam no closet; um lenço e um cartucho de balas de menta. Havia também um relógio Rolex, uma caneta e uma pequena caderneta de endereços.
Os policiais que foram à casa do maestro — no caso, não se podia falar de busca — escreveram um relatório, mas como não tinham ideia do que deveriam procurar Brunetti tinha pouca esperança de que ele contivesse alguma coisa interessante ou importante. Apesar disso, o leu com toda a atenção.
O maestro tinha um guarda-roupa notavelmente completo para um homem que passava apenas poucas semanas por ano na cidade. Brunetti ficou fascinado com a precisão das observações sobre as roupas: “Casaco preto traspassado de cashmere (Duca D’Aosta); suéter cobalto e cor de ferrugem, tamanho 52 (Missoni)”. Por um momento ele imaginou ter perdido o rumo, indo parar numa butique Valentino e não no comissariado de polícia. Leu depressa o resto do relatório e encontrou no final, como temia, as assinaturas de Alvise e Riverre, os dois tiras que tinham escrito, um ano antes, a propósito de um cadáver tirado do mar na praia do Lido: “Parece ter morrido por asfixia”.
Ele voltou ao relatório. A signora parecia não partilhar o interesse do marido por roupas. E, pelo que tinha lido, Alvise e Riverre não pareciam ter em alta conta o gosto da esposa do maestro. “Botas Varese, apenas um par. Casaco de lã, sem marca.” Em compensação, pareceram ter ficado impressionados com a biblioteca, que descreveram como “grande, em três línguas, mais uma quarta que parece ser o húngaro”.
Brunetti virou mais uma página. Havia dois quartos de hóspede no apartamento, cada um com seu banheiro próprio. Toalhas limpas, closets vazios, sabonete Christian Dior.
Não havia nem um traço da filha da senhora Wellauer; nada no relatório indicava a presença do terceiro membro da família. Em nenhum dos quartos vazios havia roupas de adolescente, livros, ou outros objetos. Lembrando-se de como ele vivia tropeçando em sinais da presença da filha, Brunetti achou aquilo estranho. A sra. Wellauer explicara que a filha frequentava uma escola em Munique. Então tratava-se de uma criança extraordinária, que conseguia levar consigo todos os seus pertences, aonde quer que fosse.
Havia uma descrição do quarto da criada belga, que os dois policiais devem ter achado pobremente mobiliado, e da própria criada, que lhes pareceu submissa mas prestativa. O último a ser descrito foi o escritório do maestro, onde eles encontraram “documentos”. Alguns tinham sido levados à polícia e examinados pela tradutora de alemão, que explicou, numa página acrescentada ao relatório, tratar-se de transações comerciais e contratos. Uma agenda fora examinada e julgada sem interesse.
Brunetti resolveu procurar os dois autores do relatório, poupando-se da irritação de ter que esperar que atendessem ao pedido de que fossem ao seu escritório. Como já eram quase nove horas, sabia que podia encontrá-los no bar situado do outro lado da ponte dei Greci, no final da rua. Aquela conclusão era inescapável, não pela hora precisa, mas porque ainda não era meio-dia.
Por mais que temesse a indicação daqueles dois para trabalhar com ele em algum caso, Brunetti não conseguia deixar de gostar deles. Alvise era um homem atarracado, beirando os cinquenta anos, quase uma caricatura do siciliano de pele escura, com a ressalva de que era de Tarvisio, na fronteira com a Áustria. Ele era considerado o especialista da casa em música popular, porque certa vez, quinze anos atrás, conseguira um programa autografado por Mina, a rainha da canção popular italiana. Com o passar dos anos, esse evento foi tomando proporções cada vez maiores — o que também aconteceu com a própria Mina — à força de ser contado e recontado, a ponto de Alvise agora sugerir, com os olhos brilhantes de desejo satisfeito, que houvera muito mais entre ele e a cantora. A história parecia não ser minimamente afetada pelo fato de que a heroína era bem mais alta que Alvise e duas vezes mais corpulenta que ele.
Riverre, seu parceiro, era um palermitano de cabelos ruivos cujo único interesse na vida era futebol e mulheres, nessa ordem. O ponto alto de sua vida foi ter escapado ileso do famoso tumulto do estádio de futebol de Bruxelas. Ele recheava o relato do que fizera naquele dia, antes da chegada da polícia belga, com histórias de conquistas de mulheres, em geral estrangeiras, que, pelo que ele dizia, rendiam-se irresistivelmente ao seu charme.
Brunetti os encontrou, como previra, no balcão do bar. Riverre estava lendo o jornal de esportes e Alvise conversava com Arianna, a dona do bar. Os dois só notaram a chegada de Brunetti quando este pediu um café. Alvise lhe deu um sorriso e Riverre só desviou a atenção do jornal para cumprimentar seu superior.
“Mais dois cafés, Arianna”, disse Alvise. “Todos por minha conta.”
Brunetü percebeu a manobra que visava torná-lo devedor de seu subordinado. Quando os três cafés chegaram, Riverre se juntou a eles e o jornal se transformou milagrosamente num dossiê de capa azul, que agora estava aberto sobre o balcão.
Brunetti pôs duas colheres de açúcar na xícara e mexeu o café. “Vocês é que foram à casa do maestro, não é?”
“Sim, senhor”, respondeu vivamente Alvise.
“E que casa!”, completou Riverre.
“Eu estava acabando de ver o relatório.”
“Arianna, traga uns brioches.”
“Li com toda a atenção.”
“Obrigado, senhor.”
“Principalmente os comentários sobre o guarda-roupa dele. Pelo que senti, vocês não gostaram muito dos ternos ingleses.”
“Não, senhor”, respondeu Riverre que, como de costume, não entendeu nada. “Acho que as calças são muito largas nas pernas.”
Alvise, fazendo um movimento em direção ao dossiê, deu uma cotovelada no companheiro, talvez mais forte do que o necessário. “Mais alguma coisa, senhor?”, perguntou ele.
“Sim. Quando estiveram lá, não notaram alguma coisa que indicasse a presença da filha da signora?”
“Ela tem uma filha, senhor?” A pergunta, naturalmente, foi feita por Riverre.
“É por isso que estou perguntando. Havia algum sinal da existência de uma criança? Livros? Roupas?”
Ambos pareceram mergulhar em profunda reflexão. Riverre fitou o espaço, que lhe pareceu muito mais perto do que a outros, e Alvise olhou para o chão, as mãos enfiadas no bolso do uniforme. O minuto de praxe passou-se antes que ambos respondessem. “Não, senhor”, disseram ao mesmo tempo, quase como se tivessem ensaiado.
“Absolutamente nada?”
Novamente o espaço para um, o chão para o outro, depois a resposta em coro. “Não, senhor.”
“Vocês falaram com a criada, a belga?”
Riverre virou os olhos ao se lembrar da criada, sugerindo que o tempo passado com aquela lesma era tempo perdido, mesmo ela sendo estrangeira. Alvise contentou-se em dizer: “Sim, senhor”.
“E ela disse alguma coisa que lhes pareceu importante?”
Riverre tomou fôlego, preparando-se para responder, mas seu parceiro foi mais rápido. “Não exatamente o que ela disse, senhor. Mas tive a impressão de que ela não gosta da patroa.”
Riverre não podia deixar passar aquilo e perguntou, com um sorriso feio: “O que é que ela pode não ter gostado ali?”, pronunciando com ênfase a última palavra.
Brunetti lançou-lhe um olhar glacial e se dirigiu ao outro. “Por quê?”
“Nada de muito preciso”, principiou ele. Riverre deu um risinho de desprezo. Não é preciso dizer mais sobre a eficiência dos olhares glaciais.
“Como eu estava dizendo, senhor, não era nada muito concreto, mas ela parecia muito mais... formal quando a viúva estava presente. Difícil imaginar que ela conseguisse ser mais formal do que quando estava conosco, mas era essa a impressão que dava. Acho que ela parecia mais... fria na presença da senhora, principalmente quando tinha que falar com ela.”
“E quando foi isso?”
“Logo que chegamos. Nós lhe perguntamos se podíamos dar uma olhada no apartamento, em suas coisas. Pela maneira como nos respondeu — estou falando da senhora Wellauer, senhor —, parece que não gostou muito da ideia. Mas ela nos disse que sim, chamou a criada e disse-lhe para nos mostrar onde estavam as coisas do marido. Foi nesse momento, quando estavam falando uma com a outra, que a criada pareceu... bem, fria. Depois, quando estava falando conosco, parecia um pouco melhor. Não que se mostrasse cordial ou coisa assim — afinal de contas, ela é belga —, mas estava melhor conosco, mais à vontade conosco do que na presença da outra.”
“Vocês voltaram a falar com a viúva?”
“Só na hora de sair, senhor. Estávamos levando os papéis. Ela não gostou que levássemos os documentos conosco. Foi só um olhar, mas foi essa a impressão que nos deu. Nós lhe perguntamos se podíamos levar os documentos. Tínhamos que fazer isso. É o regulamento.”
“Sim, eu sei”, respondeu Brunetti. “Mais alguma coisa?”
“Sim”, interveio Riverre.
“O quê?”
“Ela não se importou que olhássemos suas roupas e os closets. Mandou a criada nos acompanhar, nem fez questão de vir ela mesma. Mas quando nos dirigimos à sala onde estavam os documentos ela nos acompanhou e pediu à criada que esperasse do lado de fora. Ela não gostou de nos ver mexendo naquilo, senhor, documentos e outras coisas.”
“Que coisas?”
“Pareciam documentos oficiais, senhor. Tudo em alemão, e trouxemos para cá para serem traduzidos.”
“Sim, eu li no relatório. O que foi feito dos docu mentos depois de traduzidos?”
“Não sei, senhor”, respondeu Alvise. “Ou estão com o tradutora ou já foram devolvidos.”
“Riverre, você podia ver isso para mim?”
“Agora, senhor?”
“Sim, agora.”
“Sim, senhor.” Ele fez um arremedo de continência e saiu do bar o mais devagar que pôde.
“E... Riverre!”, chamou Brunetti quando o outro já estava saindo. Riverre se voltou, esperando ser chamado de volta e não precisar ir até a Questura e subir dois lances de escada. “Se os documentos estiverem lá, peça que os mandem ao meu escritório.”
Brunetti pegou um dos brioches do prato à sua frente e mordeu-o, depois pediu a Arianna que preparasse mais um café. “Quando vocês estavam lá, notaram alguma outra coisa?”
“Que coisa, senhor?”, indagou Alvise, como se eles tivessem que observar só o que lhes fosse mandado.
“Qualquer coisa. Você falou da tensão entre as duas. Alguma delas se comportou de uma forma que lhe pareceu estranha?”
Alvise pensou um pouco e deu uma mordida num brioche. “Não, senhor.” Vendo que Brunetti ficou decepcionado com a resposta, acrescentou: “Só quando pegamos os documentos”.
“Você tem alguma ideia do que são?”
“Não, senhor. Só que sua atitude foi muito diferente da que teve quando examinamos seus objetos pessoais, como se aquilo não tivesse nenhuma importância. Eu imagino que as pessoas não devem gostar que fiquem mexendo em suas roupas. Mas documentos são apenas documentos.” Percebendo que essa última observação despertara o interesse de Brunetti, ele foi ficando cada vez mais loquaz. “Mas isso talvez porque ele era um gênio. E claro que não entendo nada desse tipo de música.” Brunetti se preparou para o inevitável. “A única cantora que conheço pessoalmente é Mina, e ela nunca cantou com ele. Mas como eu estava dizendo, se ele era famoso, talvez os papéis sejam importantes. Devia ter coisas sobre música neles, não é?”
Naquela altura, Riverre havia chegado de volta. “Sinto muito, senhor, mas os papéis já foram devolvidos.”
“Como? Pelo correio?”
“Não, senhor, a própria tradutora os levou. Ela disse que com certeza a viúva iria precisar deles.”
Brunetti pegou a carteira e pôs uma nota de dez mil liras no balcão antes que os outros pudessem protestar.
“Obrigado, senhor”, disseram ambos.
“Não há de quê.”
Quando ele se voltou para sair, os dois não o acompanharam, embora fizessem continência.
O porteiro da Questura lhe disse que o vice-questore Patta queria falar com ele imediatamente em seu gabinete.
“Gesú Bambino”, disse Brunetti para si mesmo, uma expressão que aprendera de sua mãe que, como ele, só a usava quando estava no limite da paciência.
Bateu à porta do seu superior e teve o cuidado de esperar pelo “Avanti!” antes de entrar. Como ele esperava, encontrou Patta atrás de sua escrivaninha, com uma pilha de dossiês dispostos em leque à sua frente. Ele ignorou Brunetti por um momento, continuando a ler o papel que tinha na mão. Brunetti se limitou a examinar os traços esmaecidos do afresco que havia muito fora pintado no teto.
Patta levantou a cabeça de repente, fingiu surpresa em ver Brunetti. “Onde o senhor está?”
Brunetti simulou a mesma confusão fingida de Patta, como se achasse a pergunta curiosa mas não quisesse chamar a atenção para isso. “Em seu gabinete, senhor.”
“Não, não. Quero saber onde o senhor está no caso.” Indicando com um gesto uma das cadeiras douradas em frente à sua escrivaninha, ele pegou a caneta e começou a tamborilar no desktop.
“Conversei com a viúva e duas das pessoas que estiveram no camarim. Falei com o legista e sei a causa da morte.”
“Sei de tudo isso”, disse Patta, aumentando o ritmo das batidas da caneta, sem fazer o menor esforço para esconder a irritação. “Em outras palavras, o senhor não descobriu nada importante?”
“Sim, senhor. Acho que se pode dizer isso.”
“Sabe, Brunetti, refleti muito sobre essa investigação e acho que seria conveniente tirar o senhor do caso.” A voz de Patta estava carregada de ameaça, como se ele tivesse passado a noite anterior folheando seu exemplar de Maquiavel.
“Sim, senhor.”
“Acho que poderia entregar o caso a outra pessoa. Talvez assim conseguíssemos algum progresso nas investigações.”
“Acho que Mariani no momento não está trabalhando em nenhum caso.”
Só à custa de um extraordinário esforço Patta conseguiu se conter e não estremecer à menção do nome do mais jovem dos outros dois comissários, homem de caráter irrepreensível e de estupidez insondável, que todos sabiam ter conseguido o posto por ser sobrinho do ex-prefeito. Brunetti sabia que o terceiro comissário estava investigando o tráfico de drogas no porto de Marghera. “Ou talvez o senhor mesmo possa assumi-lo”, disse Brunetti, acrescentando depois de um silêncio enervante, “senhor”.
“Sim, essa possibilidade sempre existe”, disse Patta, que ou não entendeu a impertinência de seu subordinado ou resolveu ignorá-la. Ele pegou um maço de cigarros russos de sua escrivaninha e encaixou um deles em sua piteira de ônix. Muito bonita, pensou Brunetti; e as cores combinam. “Eu o chamei porque tenho recebido telefonemas da imprensa e de Pessoas do Alto Escalão.” Pela forma como pronunciou essas palavras, percebia-se que usara iniciais maiúsculas. “E todos estão preocupados porque o senhor não fez nada.” Dessa vez a ênfase foi colocada duramente em “o senhor”. Patta tirou algumas delicadas baforadas do cigarro e fitou Brunetti. “O senhor está me ouvindo? Eles não estão nada satisfeitos.”
“Sei muito bem como é isso, senhor. Tenho em minhas mãos o cadáver de um gênio e ninguém a quem incriminar.”
Era só impressão sua ou Patta estava repetindo men talmente, para si mesmo, aquela fala brilhante, para usá-la naquele dia à hora do almoço? “Sim, exatamente”, disse Patta. Seus lábios novamente se movimentaram: “E ninguém a quem incriminar”. Brunetti nunca ouvira antes o homem expressar de forma tão clara seu conceito de justiça. Talvez Patta fosse repetir aquelas palavras durante o almoço.
“De agora em diante, Brunetti, quero um relatório por escrito na minha escrivaninha às... — ele parou um pouco, tentando se lembrar da hora em que o comissariado abria — às oito”, disse ele, conseguindo acertar.
“Sim, senhor. É só isso?” Pouca diferença fazia para Brunetti se o relatório fosse verbal ou por escrito; ele continuaria sem nada a dizer até ter uma ideia mais clara do homem que fora assassinado. Gênio ou não, a pergunta continuava a exigir resposta.
“Não. Não é só isso. Quais são os planos do senhor hoje?”
“Vou ao enterro. Vai ser daqui a uns vinte minutos. E quero examinar seus documentos pessoalmente.”
“Só isso?”
“Sim, senhor.”
Patta bufou, exprimindo seu desprezo. “Não é de surpreender que não estejamos chegando a parte alguma.”
Aquilo parecia o sinal de que a conversa tinha se encerrado; Brunetti levantou-se e dirigiu-se à porta, perguntando-se a que distância estaria dela no momento em que Patta o lembraria do relatório escrito. Pelos seus cálculos ele ainda estava a três passos da porta quando ouviu: “Lembre-se, às oito horas”.
A conversa com Patta fez que ele chegasse à igreja de San Moisè só poucos minutos antes das dez. O barco negro que levava o caixão coberto de flores já estava atracado à margem do canal, e três homens de ternos azuis azafamavam-se para colocar o féretro no carrinho de metal que o conduziria à porta da igreja. Na multidão de pessoas que se concentravam no adro, Brunetti reconheceu alguns rostos venezianos conhecidos, os repórteres e fotógrafos de sempre, mas não avistou a viúva; ela já devia ter entrado.
Quando os três homens chegaram às portas, um quarto homem se juntou a eles, e levantaram o caixão, colocaram-no nos ombros com a facilidade que lhes dava a longa experiência e subiram os dois degraus baixos da igreja. Brunetti se juntou às pessoas que entraram na igreja. Ele viu os homens levarem o caixão à nave central, depositando-o em seguida num suporte baixo diante do altar principal.
Brunetti sentou-se na ponta de um banco no fundo da igreja apinhada de gente. Olhando por entre as cabeças, a custo conseguia divisar a primeira fileira, onde a viúva, de preto, estava sentada entre um homem e uma mulher grisalhos, provavelmente os mesmos que ele vira com ela no teatro. Atrás dela, sozinha num banco, estava uma mulher de preto; Brunetti imaginou que fosse a criada. Embora nada esperasse da missa, Brunetti surpreendeu-se com a austeridade da cerimônia. O mais espantoso era a ausência total de música, nem mesmo alguns acordes do órgão. As palavras familiares pairavam sobre a cabeça das pessoas, pronunciaram-se as bênçãos e fizeram-se as aspersões imemoriais. Dada a sua simplicidade, a missa foi breve.
Brunetti esperou na extremidade do banco que o caixão e os últimos acompanhantes saíssem da igreja. Do lado de fora, os flashes pipocavam e os repórteres rodeavam a viúva, que se encolhia e procurava proteger-se colando-se ao senhor que a acompanhava.
Sem pensar, Brunetti abriu caminho por entre a multidão e tomou-lhe o outro braço. Ele reconhecera alguns dos fotógrafos; estes o conheciam e Brunetti ordenou que os deixassem passar. Os homens que rodeavam a viúva recuaram, deixando o caminho aberto até o cais. Apoiando a sra. Wellauer, ele a levou até o barco que a esperava, ajudou-a a subir nele, seguindo-a, depois, até a cabine.
O casal idoso juntou-se a ela; a senhora pôs o braço nos ombros da viúva, e o homem apenas sentou-se ao lado dela e lhe tomou a mão. Brunetti ficou à porta da cabine e seguiu com os olhos o barco fúnebre que avan çava lentamente pelo canal. Quando eles já estavam suficientemente longe da igreja e da multidão, Brunetti, baixando a cabeça, voltou à cabine.
“Obrigada”, disse a sra. Wellauer, sem procurar esconder as lágrimas.
Ele não soube o que responder.
O barco entrou no Grand Canal e dobrou à esquerda, em direção a San Marcos, por onde teriam que passar para chegar ao cemitério. Brunetti voltou à porta da cabine e ficou olhando para fora, por discrição e respeito pela dor da viúva. Eles passaram ao lado do campanário, diante da fachada retangular, qual tabuleiro de damas, do Palácio dos Doges, e diante da alegre desordem das cúpulas. Quando estavam se aproximando do canal do Arsenal, Brunetti subiu ao convés e perguntou ao barqueiro se podia parar no píer do Palasport. Em seguida foi mais uma vez à cabine, onde os três ocupantes estavam conversando em voz baixa.
“Dottor Brunetti”, disse a viúva.
Ele se voltou.
“Obrigada mais uma vez. Aquilo era mais do que eu podia suportar”.
Ele fez um movimento com a cabeça, concordando. O barco começou a fazer o grande giro à esquerda que o levaria ao canal do Arsenal. “Gostaria de falar com a senhora novamente”, disse ele. “Quando for conveniente para a senhora.”
“É necessário?”
“Sim, creio que sim.”
O ronco do motor se fez mais grave no momento em que o barco se aproximou do molhe do lado direito do canal.
“Quando?”
“Amanhã?”
Nem ela nem os outros dois deram mostras de terem se ofendido. “Está bem”, disse ela. “A tarde.”
“Obrigado”, disse ele enquanto o barco balançava junto ao píer. Ninguém respondeu e ele saiu da cabine, saltou do barco para a plataforma e esperou enquanto o barco retomava o seu lugar atrás do que levava o caixão. Depois o cortejo rumou para as águas mais profundas da laguna.
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