Morte no Teatro La Fenice
Capítulo 10
Nesse meio tempo caíra a noite; aquela escuridão súbita do começo do inverno vinha se somar ao triste manto de desolação que pairava sobre a cidade até a libertação trazida pela primavera. Ele preferiu não voltar ao escritório para não correr o risco de se aborrecer caso ainda não tivesse chegado o relatório do laboratório e estava sem a mínima vontade de reler o relatório da polícia alemã. Enquanto andava, refletiu sobre quão pouco ficara sabendo sobre o morto. Não, na verdade ele tinha muitas informações, mas todas incrivelmente fora de foco, muito formais e impessoais. Um gênio, um homófobo, adorado no mundo da música, um homem capaz de inspirar amor numa mulher com metade de sua idade, mas ainda assim um homem cuja substância lhe escapava. Brunetti dispunha de alguns fatos, porém nada sabia sobre a realidade.
Continuando a andar, ele pensou nas fontes de informação às quais podia recorrer. Tinha à sua disposição os recursos da Interpol, a total cooperação da polícia alemã, e a importância do seu posto lhe permitia mobilizar todo o sistema policial da Itália. Ora, obviamente a maneira mais segura de conseguir informações confiáveis sobre o homem era recorrer à fonte mais infalível de toda informação — a fofoca.
Seria um exagero dizer que Brunetti não gostava dos pais de Paola, o conde e a condessa Falier, contudo seria igualmente exagero dizer que gostava deles. Eles o espan tavam da mesma maneira que um casal de grous espantaria alguém acostumado a jogar amendoim aos pombos no parque. Pertenciam a uma espécie rara e elegante, e Brunetti, que já os conhecia havia quase duas décadas, tinha que admitir possuir sentimentos bastante ambíguos quanto à perspectiva de seu inevitável desaparecimento.
O conde Falier, que podia apontar dois doges entre seus ancestrais do lado materno, tinha uma árvore genea-lógica que remontava ao século X e que ele nunca perdia a oportunidade de exibir. Havia cruzados nos ramos dessa árvore, um ou dois cardeais, um compositor não muito importante, e o antigo embaixador italiano na corte do rei Zog da Albânia. A mãe de Paola era florentina, mas seus pais tinham vindo morar em Veneza logo depois de seu nascimento. Eles afirmavam descender dos Mediei e, numa espécie de jogo de xadrez genealógico — que exercia um estranho fascínio sobre as pes soas de seu círculo —, ela apontava o parentesco dos doges da família do marido com um papa e um milionário da indústria têxtil, do cardeal com um primo de Petrarca, do compositor com um famoso castrato (o qual, infelizmente, não deixou descendência), e do embaixador com o banqueiro de Garibaldi.
Moravam num palazzo que pertencia aos Falieri havia pelo menos três séculos; o edifício, imenso, labiríntico, junto ao Grand Canal, era praticamente impossível de aquecer no inverno e só resistia aos ataques do tempo, da água e da poluição industrial graças ao trabalho constante de um exército de pedreiros, mestres de obras, encanadores e eletricistas, que se uniam sob o comando do próprio conde naquele combate contínuo e tão tipicamente veneziano.
Brunetti nunca contara o número de aposentos do palazzo e nunca se sentira à vontade para perguntar quantos eram. O edifício, de quatro pavimentos, era rodea do por canais em três lados, e o fundo dava para uma igreja desconsagrada. Ele só ia ao palazzo por ocasião de festas oficiais: a véspera de Natal, quando iam comer peixe e trocar presentes; o aniversário do conde Orazio, quando, por alguma razão misteriosa, comia-se faisão e novamente ofereciam-se presentes; e na Páscoa, quan do se servia pasta fagioli e se assistia aos fogos de artifício queimados na praça San Marcos. Seus filhos adoravam ir à casa dos avós nessas ocasiões, e ele sabia que costumavam ir, sozinhos ou acompanhados de Paola, visitá-los algumas vezes por ano. Ele preferia achar que era por causa do palazzo e das possibilidades de exploração que oferecia, entretanto alimentava a incômoda suspeita de que eles gostavam dos avós e da companhia deles, o que lhe causava grande perplexidade.
O conde estava “nas finanças”. Naqueles dezessete anos em que Brunetti estava casado com Paola, essa fora a única descrição que ouviu da profissão do sogro. Não se dizia que ele era um “financista”, sem dúvida porque isso poderia sugerir alguma atividade manual, como contar dinheiro ou ir ao escritório. Não, o conde estava “nas finanças”, da mesma maneira que os Beers estavam “nas minas” e Von Thyssen, “no aço”.
A condessa, por sua vez, estava “na sociedade”, o que significava que era vista na noite de gala que abria a temporada das quatro maiores óperas da Itália, que ela organizava concertos em benefício da Cruz Vermelha, e todo ano dava um baile de máscaras para quatrocentas pessoas no carnaval.
De sua parte, Brunetti ganhava pouco mais que três milhões de liras por mês como comissário de polícia, soma que, por seus cálculos, era apenas um pouco mais que o seu sogro pagava pelo direito de deixar o barco em frente ao palazzo. Uma década atrás, o conde tentara convencer Brunetti a deixar a polícia para fazer carreira, com o seu apoio, na área bancária. Vivia dizendo que Brunetti não devia passar a vida em companhia de sonegadores, espancadores de mulheres, proxenetas, ladrões e degenerados. Essas propostas cessaram abruptamente num Natal em que, perdendo a paciência, Brunetti lhe disse que, embora ele e o conde trabalhassem com pessoas de mesma laia, ele pelo menos tinha o consolo de poder prendê-las, ao passo que o conde era obrigado a convidá-las para jantar.
Por isso, foi com certa apreensão que, naquela noite, Brunetti perguntou a Paola se eles poderiam comparecer à festa que os pais dela iriam dar na noite seguinte para celebrar a abertura de uma nova exposição de pinturas francesas impressionistas no Palácio dos Doges.
“Mas como você soube da festa?”, perguntou Paola espantada.
“Li no jornal.”
“Uma festa de meus pais... e você ficou sabendo pelo jornal?” Aquilo parecia uma afronta à concepção atávica que Paola tinha de família.
“Sim, mas você vai perguntar a eles?”
“Guido, normalmente tenho que fazer ameaças para conseguir que vá à ceia de Natal na casa de meus pais, e agora de repente você quer ir a uma festa deles. Por quê?”
“Porque eu quero falar com o tipo de gente que frequenta esse tipo de coisa.”
Paola, que estava lendo e avaliando trabalhos de seus alunos quando ele entrou, pôs a caneta sobre a mesa com todo o cuidado e lançou-lhe o olhar com que costumava reagir ao emprego de termos grosseiros. Embora estes não fossem raros nos trabalhos que corrigia, não estava acostumada a ouvi-los de seu marido. Ela o olhou demoradamente, formulando uma daquelas respostas que Brunetti tanto apreciava e tanto temia. “Duvido que eles nem sequer pudessem pensar em recusar, dada a elegância de seu pedido”, disse ela; depois pegou a caneta e tornou a debruçar-se sobre os trabalhos.
Era tarde e ele sabia que Paola estava cansada, por isso ele foi ao balcão preparar um café. “Você sabe que não consegue dormir quando toma café tão tarde”, disse ela, sabendo o que o marido estava fazendo pelo ruído que vinha da cozinha.
Brunetti passou por ela e despenteou-lhe os cabelos. “Vou pensar em alguma coisa para fazer.”
Paola soltou um resmungo e riscou uma frase. “Por que você quer encontrar essas pessoas?”
“Para descobrir o máximo que puder sobre Wellauer. Tenho lido bastante sobre o grande gênio que era, sobre sua carreira, sobre suas mulheres, mas não tenho ideia a respeito de que tipo de homem na realidade ele era.”
“E você acha que o tipo de gente”, disse ela com grande ênfase, “que frequenta meus pais pode ter informações sobre ele?”
“Quero saber de sua vida particular, e é justamente esse tipo de pessoa que está a par do que quero saber.”
“Esse é o tipo de coisa que você pode ler em Stop.” Ele sempre se surpreendia com o fato de que uma pessoa que dava aula de Literatura Inglesa na universidade tivesse tanta intimidade com a imprensa marrom.
“Paola”, disse ele, “quero descobrir coisas verdadeiras sobre ele. Stop é o tipo de publicação onde você lê sobre os abortos de Madre Teresa.”
Ela resmungou e virou uma página, deixando um rastro raivoso de tinta vermelha atrás dela.
Brunetti abriu a geladeira, tirou uma garrafa de leite e pôs um pouco para esquentar numa panela. Há muito ele sabia que, por mais que acrescentasse leite, ela se recusaria a aceitar uma xícara de café, insistindo em que isso a manteria acordada. No entanto, uma vez que ele punha o café na xícara, Paola vinha lhe roubar um pouquinho e terminava por tomar quase tudo, para depois dormir como uma pedra. Ele tirou do armário um pacote de biscoitos doces que costumavam comprar para as crianças e deu uma olhada para ver quantos tinham sobrado.
Quando o café terminou de passar para a parte de cima da cafeteira, ele o despejou numa caneca, acrescentando o leite fumegante e um pouco de açúcar, menos do que ele gostava, e foi se sentar diante de Paola. Distraidamente, ainda concentrada na página que tinha diante de si, ela estendeu a mão e tomou um pouco de café antes mesmo que ele tivesse tempo de tomar o primeiro gole. Quando ela o pôs de volta sobre a mesa, Brunetti envolveu a caneca com as mãos, mas ainda não tomou o café. Ela virou uma página, estendeu a mão para a caneca e olhou para o marido quando este se recusou a soltá-la.
“Eh?”, resmungou ela.
“Só depois que você prometer ligar para a sua mãe.”
Paola tentou puxar as mãos do marido, mas como ele as manteve firmes, ela escreveu um palavrão nelas com sua caneta vermelha. “Você vai ter que ir de terno.”
“Eu sempre uso terno quando vou visitar seus pais.”
“Quando você usa terno, nunca dá a impressão de estar satisfeito.”
“Está bem”, disse Brunetti sorrindo. “Prometo vestir um terno e parecer muito feliz por estar usando um. Você vai ligar para a sua mãe?”
“Está bem. Mas eu estava falando sério quanto ao terno.”
“Sim, meu tesouro”, disse ele carinhosamente. Ele largou a caneca e empurrou-a em sua direção. Quando ela acabou de tomar mais um gole, Brunetti tirou um biscoito do pacote e mergulhou-o no café.
“Que coisa mais repugnante”, disse ela sorrindo.
“Coisa de camponês”, concordou ele, enfiando o biscoito na boca.
Paola nunca falava muito sobre como tinha sido ser criada no palazzo com uma ama inglesa e um bando de criados, mas se alguma coisa ele sabia daqueles anos era que nunca lhe permitiram molhar pão ou biscoito no leite ou no café. Ele considerava aquilo uma grande falha em sua educação e insistia em que seus filhos deviam poder fazer isso. Ela terminara por concordar, embora com bastante relutância. Nenhum dos dois filhos, ele sempre lembrava à esposa, mostrou graves indícios de degradação moral ou física por causa disso.
Pela forma como ela rabiscava às pressas um comentário ao pé de uma página, ele percebeu que, por aquela noite, ela já estava no limite de sua paciência.
“Estou tão cansada desses cabeças de vento, Guido”, disse Paola pondo a tampa na caneta e jogando-a na mesa. “Acho que eu preferiria lidar com assassinos. Pelo menos eles podem ser punidos.”
Se o café não tivesse acabado, ele empurraria a caneca para ela. Em vez disso, levantou-se e pegou uma garrafa de grappa do armário. Foi o único consolo em que pôde pensar naquele momento.
“Que beleza”, disse ela. “Primeiro café, agora grappa. Não vamos conseguir dormir nunca.”
“E se a gente tentasse manter um ao outro acordado?”, ele perguntou. Ela corou.
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