Morte no Teatro La Fenice

Donna Leon · Capítulo 16 de 25

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Morte no Teatro La Fenice

Capítulo 16

 

 

Como ele estava bem perto do teatro, dirigiu-se diretamente para lá, parando apenas para comer um sanduíche com um copo de cerveja. Na verdade não estava com fome, apenas com o vago mal-estar que sentia toda vez que passava muito tempo sem comer.

Na entrada dos artistas, mostrou sua carteira de identidade e perguntou se o sr. Traverso já havia chegado. O portiere lhe disse que Traverso chegara havia quinze minutos e que estava esperando pelo comissário no bar que ficava nos bastidores. Brunetti encontrou um homem alto e de aspecto cadavérico que se parecia muito com o primo, o dentista de Brunetti. O barulho e a confusão provocados pelas muitas pessoas que iam e vinham, com e sem trajes de cena, dificultavam a conversa entre eles, por isso Brunetti sugeriu que procurassem um lugar mais tranqüilo.

“Desculpe-me”, disse o músico. “Devia ter pensado nisso. O único lugar aonde podemos ir é um dos camarins que não estão sendo usados.” O homem pôs o dinheiro no balcão do bar, pegou a caixa com o violino e saiu na frente, conduzindo Brunetti através do teatro, tomando as escadas que este usara da primeira vez que lá estivera. No alto da escada, uma mulher corpulenta, com uma bata azul, veio lhes perguntar o que desejavam.

Traverso trocou algumas palavras com ela, explicando quem era Brunetti e o que ele queria. Ela aquiesceu e conduziu-os por um corredor estreito. Tirando um enorme molho de chaves do bolso, ela abriu uma porta e afastou-se um pouco para que eles pudessem entrar. Era um lugar em que não havia nenhum glamour teatral, apenas uma salinha com duas cadeiras, uma de cada lado de uma mesa baixa e um banco em frente a um espelho. Eles se sentaram nas cadeiras, um de frente para o outro.

“Durante os ensaios, o senhor notou alguma coisa inabitual?”, perguntou Brunetti. Como não queria sugerir o que estava querendo descobrir, Brunetti fez essa pergunta de ordem bem geral — tão geral, pensou ele, que praticamente não tinha sentido.

“O senhor se refere à apresentação? Ou ao maestro?”

“Refiro-me aos dois, a ambos.”

“A apresentação? A mise-en-scène e os cenários eram novos, mas os trajes já tinham sido usados duas vezes. Contudo, os cantores são bons, exceto o tenor. Merecia morrer. Mas não é culpa dele. É por causa da má direção, do maestro. Todos nos perguntávamos o que se esperava de nós. Bem, talvez não no começo, mas na segunda semana. Acho que estávamos tocando de memória. Não sei se me faço entender.”

“O senhor poderia ser mais preciso?”

“Era Wellauer; era como se ele tivesse envelhecido de repente. Eu já tinha tocado com ele antes. Duas vezes. O melhor maestro com quem trabalhei. Não há ninguém como ele, embora muitos procurem imitá-lo. Da última vez, tocamos Cosi com ele. Nunca tocamos tão bem. Só que desta vez não foi assim. De repente ele ficou velho. Era como se não estivesse prestando atenção ao que estava fazendo. Vez por outra, quando estávamos num crescendo, ele fuzilava com um olhar e com a batuta alguém que estivesse atrasado um oitavo do tempo que fosse. Era magnífico. Mas no resto do tempo era um vale-tudo. Porém, ninguém dizia nada. Cada um de nós parecia ter decidido consigo mesmo tocar a música tal como estava na partitura e orientar-se pelo primeiro violino. Acho que a coisa funcionou. O maestro parecia contente com aquilo. Mas não era como nos outros tempos.”

“O senhor acha que o maestro percebia o que estava acontecendo?”

“O senhor quer dizer se ele sabia que estávamos tocando mal?”

“Sim.”

“Ele devia saber, sim. Um sujeito não pode ser o melhor regente do mundo e não ouvir o que sua orquestra está executando, pode? Mas era como se na maior parte do tempo ele estivesse pensando em outra coisa. Como se não estivesse ali, como se não estivesse prestando atenção.”

“E quanto à noite da apresentação? O senhor notou alguma coisa anormal?”

“Não. Não notei. Estávamos todos muito preocupados em tocar em sintonia, para evitar um desastre.”

“Nada mesmo? Ele não falou com ninguém de um jeito estranho?”

“Naquela noite ele não falou com ninguém. Nós só o vimos quando ele veio ter conosco no fosso da orquestra e subiu no pódio.” O músico fez uma pausa, vasculhando a memória. “Estou lembrando uma coisa, mas não sei se vale a pena dizer.”

“O quê?”

“Foi no fim do segundo ato, logo depois da grande cena em que Alfredo joga dinheiro a Violetta. Não sei como os cantores conseguiram se sair daquilo. Estávamos na maior confusão. Bem, a cena acabou, o público — essa gente não tem ouvidos — começou a aplaudir e o maestro deu um risinho de quem acabou de ouvir uma coisa engraçada. Então ele largou a batuta. Ele não a jogou no pódio, como costumava fazer. Ele a soltou com todo o cuidado, e sorriu novamente. Depois, desceu do pódio e foi para os bastidores. Essa foi a última vez que o vi. Imaginei que estivesse sorrindo porque o ato acabara e o resto iria ser mais fácil. Aí mudaram o maestro para o terceiro ato.” Ele olhou o relógio. “Talvez não seja bem isso que o senhor está procurando.”

O músico pegou a caixa com o violino, e Brunetti lhe disse: “Uma última coisa. Será que o resto da orquestra notou? Não o sorriso, mas que ele estava diferente?”.

“Muitos deles notaram, principalmente os que tinham tocado com ele antes. Quanto aos outros, não saberia dizer. Trabalhamos com maestros tão ruins que não sei se notam alguma diferença entre eles. Talvez eu tenha prestado mais atenção ao maestro por causa de meu pai.” Ele notou que Brunetti não tinha entendido e explicou. “Meu pai tem oitenta e sete anos. Ele faz a mesma coisa: olha por cima dos óculos para nós como se estivéssemos escondendo algum segredo dele e quisesse saber o que é.” Ele consultou novamente o relógio. “Tenho que ir embora. Faltam apenas dez minutos para começar o espetáculo.”

“Obrigado pela ajuda”, disse Brunetti, embora não soubesse ao certo o que fazer com o que o músico lhe dissera.

“Sinto como se tudo não passasse de meras impres sões. Nada mais que isso. Mas espero que possa ajudar.”

“Será que há algum problema se eu ficar no teatro durante o espetáculo?”, perguntou Brunetti.

“Não, acho que não. Mas quando sair avise Lúcia, para que ela feche esta sala a chave.” Em seguida, acrescentou apressadamente: “Tenho que ir”.

“Obrigado mais uma vez.”

“Por nada.” Trocaram um aperto de mão e o músico saiu.

Brunetti continuou na sala, pensando em aproveitar a oportunidade para ver como era o movimento de pessoas nos bastidores durante a apresentação e durante os intervalos e com que facilidade se poderia entrar e sair do camarim do maestro sem ser notado.

Ele ficou na sala por uns quinze minutos, sentindo-se grato pela oportunidade de ficar sozinho num lugar tranquilo. Pouco a pouco, todo o barulho que chegava até ele cessou e ele imaginou que os cantores deviam ter descido para tomar seus lugares no palco. Continuou na sala, desfrutando o silêncio.

Brunetti ouviu a abertura, abafada pelos tabiques, e achou que já era tempo de ir ao camarim do maestro. No corredor, olhou em volta tentando descobrir onde estava a mulher que os levara à sala, mas não a viu. Como devia cuidar para que a porta fosse fechada, foi pelo corredor até a escada, olhou para baixo. “Signora Lúcia”, chamou, porém ninguém respondeu. Foi até o camarim mais próximo e bateu, sem ouvir resposta. Nem no segundo. No terceiro, alguém disse “Avanti” e ele abriu a porta, pronto para explicar que deixara a porta aberta e que era necessário fechá-la a chave.

“Signora Lúcia”, principiou ele entrando na sala, mas estacou quando viu Brett Lynch sentada confortavelmente numa poltrona, com um livro aberto no colo e um copo de vinho tinto na mão.

Ela ficou tão surpresa quanto ele, no entanto se recompôs mais rapidamente. “Boa noite, comissário. Posso ajudá-lo em alguma coisa?” Ela colocou o copo na mesa próxima à poltrona, fechou o livro e sorriu.

“Queria avisar a senhora Lúcia que podia fechar a porta do outro camarim”, explicou.

“Com certeza ela está lá embaixo, olhando dos bastidores. É uma grande fã de Flavia. Quando ela subir, digo-lhe que pode fechar a porta a chave. Não se preocupe, vão cuidar disso.”

“É muita gentileza sua. Você não está vendo o espetáculo?”

“Não”, respondeu ela. Percebendo a reação dele, ela perguntou: “Isso o surpreende?”.

“Não sei se sim ou se não. Mas se eu perguntei é porque sim.”

O sorriso com que ela respondeu à observação agradou a Brunetti porque não era o tipo de reação que esperava da americana e também porque suavizava as linhas de seu rosto anguloso.

“Se o senhor prometer não contar a Flavia, vou confessar que não gosto muito de Verdi nem da Traviata.”

“Por que não?”, perguntou ele, intrigado com a revelação de que a secretária e amiga — vamos chamar assim — da mais famosa soprano de Verdi não gostava de Verdi.

“Por favor, comissário, sente-se”, convidou ela, indicando uma poltrona diante da sua. “Não vai acontecer lá grande coisa — ela olhou o relógio rapidamente — nos próximos vinte e quatro minutos.”

Brunetti sentou-se na poltrona que ela lhe indicara, mudou de posição para que ficasse bem voltada para a dela e perguntou: “Por que a senhora não gosta de Verdi?”.

“Não é bem isso. Gosto de algumas músicas. Otelo, por exemplo. Mas não é do século que me agrada.”

“Qual a senhorita prefere?”, ele perguntou, embora já imaginasse o que ela iria responder. Rica, americana, de espírito moderno, só poderia gostar do século em que vivia, o século que fez dela o que ela era.

“O século dezoito”, respondeu ela, para surpresa do policial. “Mozart e Handel; e, por meus pecados, Flavia não mostra interesse em cantar nenhum dos dois.”

“A senhorita tentou convertê-la?”

Ela pegou o copo, tomou mais um pouco de vinho e recolocou-o na mesa. “Eu a converti a algumas coisas, mas me parece impossível tentar afastá-la de Verdi.”

“Para grande sorte nossa”, respondeu ele, adotando o seu tom de ironia, que insinuava muito mais do que dizia. “Mas sempre lhe restam outras coisas.”

Ela o surpreendeu dando uma gargalhada, e ele se surpreendeu acompanhando-a. “Bem, está feito, confessei. Agora acho que podemos falar como seres humanos e não como personagens de um romance barato.”

“Seria muito melhor assim, signorina.”

“Meu nome é Brett, e sei que o seu é Guido”, disse ela, passando a tratá-lo informalmente e com isso dando o primeiro passo para um relacionamento mais próximo. Ela se levantou da poltrona e foi até uma pequena pia a um canto. Pegou a garrafa que lá estava e pôs vinho em outro copo, veio com os dois na mão e ofereceu um a ele.

“O senhor voltou aqui para falar com Flavia?”, perguntou ela.

“Não, não pretendia isso. Mas vou ter que falar com ela mais cedo ou mais tarde.”

“Por quê?”

“Para perguntar o que ela foi fazer no camarim de Wellauer depois do primeiro ato.” Ela não mostrou nenhum sinal de surpresa. “Você tem uma ideia do motivo?”

“Por que o senhor diz que ela esteve lá?”

“Porque pelo menos duas pessoas a viram entrar. Depois do primeiro ato.”

“Mas não depois do segundo?”

“Não, não depois do segundo.”

“Ela estava aqui, comigo, depois do segundo ato.”

“Da última vez que conversamos, você também disse que ela estava com você depois do primeiro ato. E ela não estava. Por que eu haveria de acreditar que está me falando a verdade agora, quando mentiu da outra vez?” Brunetti tomou um gole de vinho. Barolo, e muito bom.

“É a verdade.”

“Por que eu acreditaria nisso?”

“Acho que na verdade o senhor não tem motivo para isso.” Ela tomou mais um pouco de vinho, como se os dois tivessem toda a noite para conversar. “Mas ela estava.” Ela esvaziou o copo e pôs mais um pouco de vinho nele. “Flavia foi vê-lo depois do primeiro ato. Ela me contou. Havia dias que ele vinha fazendo a maior guerra de nervos com ela, ameaçando-a de escrever para seu ex-marido. Tanto que ela resolveu ir falar com ele.”

“O momento não me parece bem escolhido. Durante uma apresentação.”

“Flavia é assim mesmo. Ela não pensa muito no que está fazendo. Ela simplesmente age, faz o que quer fazer. Essa é uma das razões pelas quais é uma grande cantora.”

“Deve ser difícil conviver com isso.”

Ela sorriu. “E, mas tem suas compensações.”

“O que ela lhe contou?”, perguntou Brunetti. Como a americana não entendeu a pergunta, ele acrescentou: “Da conversa com Wellauer”.

“Disse que eles discutiram. Ele não deu uma resposta clara sobre se escrevera ou não ao marido dela. Ela só falou isso, mas ainda estava tremendo de raiva quando voltou para cá. Não sei como conseguiu cantar.”

“E ele escreveu ao marido dela?”

“Não sei. Ela não falou mais nada sobre isso. Desde aquela noite.” Ela notou a surpresa dele. “Como eu lhe disse, Flavia é assim. Quando está cantando, não gosta de falar sobre nada que a esteja preocupando.” Depois acrescentou, em tom de pesar: “Ela também não gosta de falar quando não está cantando. Diz que lhe tira a concentração pensar em qualquer coisa que não seja música. E acho que todo mundo tem se contentado com essa explicação. Como também é o meu caso”.

“Wellauer seria capaz de escrever ao marido dela?”

“O homem era capaz de qualquer coisa. Pode acreditar. Ele se via como uma espécie de guardião da moral. Não suportava saber que alguém vivia fora de seus padrões de certo e errado. Enlouquecia só de pensar que alguém fosse capaz de ousar tal atitude. Ele achava que tinha um direito divino de fazer justiça, a justiça dele.”

“E o que Flavia seria capaz de fazer?”

“Flavia?”

“Sim.”

A pergunta não a surpreendeu. “Não sei. Acho que ela não seria capaz de fazer aquilo, não a sangue-frio. Ela seria capaz de fazer qualquer coisa para manter a guarda dos filhos, mas não acho... Não, dessa maneira não. Além do mais, ela não iria sair por aí carregando veneno, iria?” A americana parecia aliviada de ter pensado naquilo. “Mas a coisa ainda não acabou. Se houver um processo ou um simples depoimento, então virá a público tudo o que discutiram, não é?” Brunetti aquiesceu. “E para o marido dela seria o bastante.”

“Não sei se é bem assim”, disse Brunetti.

“Ora, vamos”, respondeu ela, ríspida. “Estamos na Itália, na terra da família feliz, a sagrada família. Ela pode ter quantos amantes quiser, desde que sejam homens. Seria uma forma de reentronizar o pai, uma espécie de pai, na casa. Mas no momento em que isto vier a público, ela não vai ter nenhuma chance contra ele.”

“Não acha que está exagerando?”

“Exagerando o quê?”, perguntou ela. “Minha vida nunca foi segredo. Sempre fui rica o bastante para não precisar me preocupar com o que as pessoas pensam ou falam de mim. Mas isso não as impedia de falar. Por isso, ainda que nada pudesse ser provado contra nós, pense só no que um juiz inteligente iria dizer: ‘A soprano com uma secretária milionária’. A coisa saltaria aos olhos.”

“Ela podia mentir”, disse Brunetti, sugerindo o perjúrio.

“Com um juiz italiano, penso que não faria muita diferença. Além do mais, acho que ela não iria mentir. Não sobre esse assunto. Flavia realmente acha que está acima da lei.” Ela pareceu se arrepender imediatamente do que acabara de dizer. “Mas ela é só de falar, como no palco. É capaz de gritar, de se enfurecer, mas isso não passa de gestos. Nunca soube de um ato de violência de sua parte contra ninguém. São só palavras.”

Brunetti era italiano o bastante para saber que as palavras podiam facilmente se transformar em outra coisa, ainda mais se tratando de uma mãe lutando por seus filhos, porém guardou esse pensamento consigo. “Você não se importa se lhe fizer algumas perguntas pessoais?”

Ela soltou um suspiro de cansaço, já prevendo o que estava por vir, e balançou a cabeça afirmativamente.

“Alguém já tentou fazer chantagem contra uma de vocês?”

Com certeza não era aquele tipo de pergunta que ela temia. “Não, nunca. Nem a mim nem a Flavia, ou pelo menos ela nunca me falou nada disso.”

“E as crianças? Como é seu relacionamento com elas?”

“Ótimo. Paolo tem treze e Vittoria, oito, de forma que pelo menos ele pode ter uma ideia do que está acontecendo. Mas também nesse caso Flavia não contou nada a eles, nada foi dito.” Ela deu de ombros, magnânima, e com aquele gesto deixou de ser italiana, mostrando-se totalmente americana.

“E o futuro?”

“Você quer dizer a velhice? Quando então iremos juntas tomar chá da tarde no Florian’s?”

O quadro era muito mais sereno do que Brunetti imaginara, mas ele aquiesceu.

“Não tenho ideia. Quando estou com ela, não consigo trabalhar, por isso tenho que me decidir quanto a isso, saber o que realmente quero.”

“Qual é o seu trabalho?”

“Sou arqueóloga. Faço pesquisas na China. Foi assim que encontrei Flavia. Participei da organização de uma exposição de arte chinesa no Palácio dos Doges, há três anos. Os manda-chuvas a convidaram porque ela estava cantando Lúcia no La Scala. E então ela foi à recepção que se seguiu à inauguração. Logo depois tive que ir a Xian; é lá que estão sendo feitas as escavações em que estou trabalhando. Somos apenas três, três ocidentais. E já estou afastada há três meses, e agora tenho que voltar para lá, senão serei substituída.”

“São aqueles soldados?”, perguntou ele, ainda lembrando-se das estátuas de terracota da exposição, cada uma com traços individuais e semelhantes ao retrato de um homem.

“Aquilo foi só o começo”, disse ela. “Há milhares delas, mais do que podemos imaginar. Nem ao menos começamos a escavar o tesouro no túmulo central. Você não imagina quanta burocracia administrativa temos que enfrentar. Mas no outono passado conseguimos permissão para trabalhar no túmulo do tesouro. Do pouco que vi, vai ser a maior descoberta arqueológica desde a do túmulo de Tutancamon. Na verdade, não haverá nada que se lhe compare, quando começarmos a retirar o que está enterrado lá.”

Brunetti sempre achou que a paixão dos eruditos era uma invenção de pessoas que escreviam livros, uma tentativa de torná-los mais humanos. Observando-a, ele se deu conta do quanto se enganara.

“Mesmo seus instrumentos são bonitos, mesmo as tigelinhas em que os operários comiam.”

“E se você não voltar para lá?”

“Se eu não voltar, perco tudo isso. Não a fama. Só os chineses a merecem. Mas a oportunidade de ver aquelas coisas, de tocá-las, de ter uma ideia bastante aproximada de como eram as pessoas que as produziram. Se eu não voltar, perco tudo isso.”

“E essas coisas são mais importantes para você que isto aqui?”, perguntou ele, abarcando com um gesto o camarim.

“Essa não é uma pergunta que se faça.” Ela fez seu próprio gesto largo, abrangendo com ele a penteadeira com seus cosméticos, os trajes de cena pendurados atrás da porta, as perucas nos respectivos suportes. “Este tipo de coisa não é o meu futuro. O meu é feito de vasos, de fragmentos, de restos de uma civilização de milhares de anos. E Flavia está aqui, em meio a isto. Dentro de cinco anos, ela será a maior cantora de Verdi do mundo. Acho que aí não há lugar para mim. É algo de que ela ainda não se deu conta, mas eu já lhe disse como Flavia é. Ela só vai pensar nisso quando acontecer.”

“Mas você pensou, não é?”

“Naturalmente.”

“O que vai fazer?”

“Ver o que acontece aqui, com essa história toda.” Ela repetiu o gesto, dessa vez abarcando a morte que tivera lugar naquele teatro havia quatro noites. “Então vou voltar para a China. Ou pelo menos acho que vou.”

“Assim, sem mais nem menos?”

“Não ‘sem mais nem menos’, mas de qualquer forma vou.”

“Você acha que vale a pena?”, perguntou ele.

“O que vale a pena?”

“A China.”

Ela deu de ombros novamente. “É o meu trabalho. E o que faço. E é também uma coisa que amo. Não posso passar a minha vida sentada em camarins, lendo poesia chinesa e esperando que a ópera acabe para que eu possa viver minha vida.”

“Já contou a ela?”

“Já contou a mim o quê?”, perguntou Flavia Petrelli, fazendo uma entrada absolutamente teatral e batendo a porta atrás de si. Ela atravessou a sala qual um barco seguido de sua esteira — a cauda de um vestido azul-claro. Estava totalmente transfigurada, radiante, tão linda quanto uma mulher podia ser, pensou Brunetti. E isso não se devia à roupa ou à maquiagem; Flavia estava vestida de acordo com o que ela era e com o que fazia. Isso a transfigurara. Seu olhar deslizou pela sala, notou os dois copos e como os outros dois estavam à vontade. “Ela me disse o quê?”, perguntou pela segunda vez.

“Que ela não gosta da Traviata”, disse Brunetti. “Achei estranho encontrá-la aqui lendo, enquanto a senhora cantava, e ela explicou que não é a sua ópera preferida.”

“Também é muito estranho encontrá-lo aqui, comissário. E eu sei que esta ópera não está entre as suas prediletas.” Ela não deixou transparecer nenhum sinal de que não acreditara nele. Brunetti se levantou à sua entrada. Flavia passou em frente dele, pegou um dos copos do balcão e encheu-o com água mineral, que bebeu em quatro goladas. Encheu-o novamente e tomou metade do conteúdo. “E como estar numa sauna, com todos aqueles refletores.” Terminou de tomar a água e devolveu o copo ao balcão. “Sobre o que estavam falando?”

“Ele lhe disse, Flavia. La Traviata.”

“É mentira”, replicou a cantora. “Mas não tenho tempo para falar sobre isso.” Voltando-se para Brunetti, ela disse com a voz cheia de cólera e o tom agudo que tem a voz das cantoras que acabam de cantar: “Pode fazer a gentileza de sair do meu camarim? Eu gostaria de me trocar para o próximo ato”.

“Claro, signora”, disse ele, com toda a polidez. Fazendo um aceno para Brett, que lhe respondeu com um breve sorriso, permanecendo, porém, em sua poltrona, Brunetti saiu depressa da sala. Lá fora ele parou e tentou ouvir alguma coisa, o ouvido próximo à porta, sem a menor vergonha do que estava fazendo. Mas o que quer que tenham conversado, falaram em voz baixa.

A mulher de bata azul apareceu no topo da escada. Brunetti afastou-se rapidamente da porta e dirigiu-se a ela. Explicou-lhe que ela já podia fechar o camarim a chave, sorriu, agradeceu-lhe e desceu as escadas chegando aos bastidores, onde encontrou uma desordem que o surpreendeu. Mulheres de vestido longo, encostadas às paredes, fumavam e riam. Um grupo de homens de smoking falavam de futebol. E empregados do teatro iam e vinham em todos os sentidos, trazendo samambaias de papel e bandejas nas quais se encontravam colados copos de champanhe.

O camarim do maestro ficava no pequeno corredor à direita, e nele se encontrava, com a porta fechada, o novo maestro. Brunetti ficou no fim do corredor por pelo menos dez minutos, e ninguém veio lhe perguntar quem ele era ou o que estava fazendo ali. Finalmente, soou uma campainha e um homem de barba e de casaco e gravata foi passando, pelos grupos dos bastidores, um a um, apontando em várias direções e enviando-os às tarefas que deles se esperavam.

O maestro saiu do camarim, fechou a porta atrás de si e passou por Brunetti sem prestar atenção nele. Logo que ele se foi, Brunetti percorreu o corredor e entrou na sala. Ninguém o viu entrar ou, se viu, não se deu ao trabalho de perguntar o que ele estava fazendo ali.

Nada havia mudado na sala desde a noite do crime, exceto que havia uma pequena xícara e um pires na mesa, e não no chão. Ele ficou no camarim por um instante, depois saiu. Sua saída foi tão pouco notada quanto sua entrada, e isso apenas quatro dias depois que um homem fora morto naquela sala.

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