Morte no Teatro La Fenice
Capítulo 12
Como muitos dos palazzi do Grand Canal, inicialmente só se podia chegar ao Palácio Falier de barco, e os convidados tinham que passar por quatro degraus baixos que iam até o píer. Mas havia muito essa entrada fora fechada com uma pesada grade de metal que só era aberta quando se recebiam grandes entregas, feitas por barco. Nessa época de decadência, os convidados chegavam a pé, vindos fosse de Cà Rezzonico, a estação do vaporetto mais próxima, fosse de outras partes da cidade.
Brunetti e Paola chegaram ao palazzo a pé, passan do pela universidade, atravessando em seguida o campo San Barnaba, depois dobrando à esquerda e andando ao longo do estreito canal que levava à entrada lateral do palazzo.
Eles tocaram a campainha. Paola nunca vira o homem que os recebeu. Provavelmente um extra contratado para a soirée.
“Pelo menos ele não está de calções nem peruca”, comentou Brunetti enquanto subiam a escada externa. O jovem não se dera ao trabalho de perguntar-lhes quem eram ou se tinham sido convidados. Ele sabia a lista de convidados de cor — com os respectivos rostos — ou, o que era mais provável, não se importava com quem introduzia no palácio.
Quando estavam no alto da escadaria, ouviram música vinda da esquerda, onde ficavam os três enormes salões de recepção. Orientando-se pelo som, entraram num corredor ladeado de espelhos, acompanhados por seu reflexo esmaecido. As grandes portas de carvalho do primeiro salão estavam abertas. De dentro vinham luz, música e o cheiro de flores e de perfumes caros.
A luz que banhava o salão vinha de dois gigantescos lustres em cristal de Murano, cobertos de anjinhos e de cupidos brincalhões, que pendiam de um teto com afrescos, e de candelabros ao longo das paredes. A música era conduzida por um trio que, postado num canto, tocava o repertório mais batido de Vivaldi. Quanto ao perfume, era exalado pelo bando que abrilhantava o lugar: o das mulheres, que se entregavam a conversas ainda mais brilhantes e coloridas que seus trajes.
Poucos minutos depois que os viu entrar, o conde veio até eles, inclinou-se para beijar o rosto de Paola e estendeu a mão ao seu genro. Era um homem alto, beirando os setenta anos, que não fazia nenhum esforço para disfarçar o fato de que estava ficando calvo; usava cabelos curtos em volta da tonsura, o que lhe dava um ar de monge muito estudioso. Paola herdara seus olhos castanhos e a boca grande, mas felizmente fora poupada do grande nariz aristocrático adunco que era o traço mais marcante do rosto de seu pai. Seu smoking era tão bem-feito que mesmo que fosse cor-de-rosa a única coisa que iria chamar a atenção das pessoas seria a perfeição do corte.
“Sua mãe está encantada por vocês dois terem vindo.” A ênfase em “vocês dois” devia-se ao fato de que era a primeira vez que Brunetti comparecia a uma de suas festas. “Espero que se divirtam.”
“Tenho certeza de que Vamos nos divertir”, respondeu Brunetti pelos dois. Durante dezessete anos ele evitara chamar o sogro de alguma coisa. Não podia usar o título nem chamar o homem de papá. Chamá-lo pelo primeiro nome, Orazio, seria intimo demais, e soaria como o velho apelo à igualdade social. Por isso Brunetti jogava com paráfrases, evitando chamá-lo até mesmo de “signore”. Mas eles chegaram a um acordo tácito de se chamarem por você, embora lhes custasse algum esforço usar esse tratamento familiar.
O conde viu sua esposa atravessando a sala, sorriu-lhe e fez um sinal para que viesse juntar-se a eles. Ela esquivou-se por entre a multidão com um misto de graça e traquejo social que Brunetti invejou, parando para beijar alguém aqui, tocar no braço de alguém ali. Ele apreciava a condessa, empertigada e cerimoniosa com suas pérolas e seus recamos de musselina negra. Como sempre, ela calçava sapatos de bico fino e saltos altos como paralelepípedos, sem nem com isso conseguir chegar a altura dos ombros do marido.
“Paola, Paola”, exclamou ela, sem tentar esconder seu prazer em ver a filha única. “Estou muito contente que tenha finalmente conseguido trazer Guido com você.” Ela parou de falar um instante para beijar ambos. “Gosto muito de ver vocês aqui e não apenas no Natal e por ocasião daqueles horríveis fogos de artifício.” A condessa não tinha papas na língua.
“Vamos”, disse o Conde, “vou lhe dar algo para beber, Guido.”
“Obrigado”, respondeu este, dirigindo-se em seguida a Paola e à sogra. “Querem que traga alguma coisa?”
“Não, não. Mamma e eu vamos tomar um copo daqui a pouco.”
O conde Falier atravessou o salão com Brunetti, parando de vez em quando para trocar um cumprimento ou algumas palavras com um ou outro convidado. No bar, ele pediu champanhe para si mesmo e um uísque para o genro.
Quando ele ofereceu o copo a Brunetti, perguntou-lhe: “Imagino que está aqui a serviço, não é?”.
“Sim, é”, respondeu Brunetti, satisfeito com a franqueza do outro.
“Ótimo, então não perdi meu tempo.”
“Não estou entendendo muito bem...”, disse Brunetti.
O conde fez um aceno a uma mulher enorme que acabara de se instalar na frente do piano. “Paola me falou que você está trabalhando nessa história do Wellauer. Não é bom para a cidade um crime como esse.” Ao falar, o conde não podia reprimir uma expressão de desaprovação para com um regente que se deixou matar, principalmente na temporada das recepções sociais. “De qualquer modo, quando Paola nos disse que vocês dois queriam vir à recepção, telefonei para algumas pessoas. Imaginei que você gostaria de saber alguma coisa sobre a situação financeira do maestro.”
“Sim, tem razão.” Será que existia alguma informa ção que o conde não pudesse conseguir, bastando para isso pegar o telefone e discar o número certo? “Posso saber o que descobriu?”
“Ele não era tão rico como se pensava.” Brunetti esperou que aquilo fosse traduzido em números que fizessem algum sentido para ele. Não havia dúvida de que ele e o conde tinham conceitos muito diferentes do que constituía “riqueza”. “O conjunto de seu patrimônio, carteira de ações e bens imóveis, com certeza não ultrapassa os dez milhões de marcos. Ele tem quatro milhões de francos na Suíça, depositados em um banco de Lugano, mas duvido que a receita federal alemã tenha ouvido falar disso.” Enquanto Brunetti estava calculando que levaria cerca de trezentos e cinquenta anos para ganhar aquela soma, o conde acrescentou: “O que ganhava com gravações e apresentações lhe rendia pelo menos três a quatro milhões de marcos por ano.”
“Entendo”, disse Brunetti. “E o testamento?”
“Não consegui obter uma cópia dele”, desculpou-se o conde. Como o homem morrera havia apenas dois dias, Brunetti concluiu que aquilo não era uma falha grave. “Mas os bens vão ser divididos igualmente entre os filhos do maestro e sua mulher. Fala-se, porém, que ele tentou entrar em contato com seus advogados poucas semanas antes de morrer; ninguém sabe por quê, pode não ter nada a ver com o testamento.”
“O que quer dizer com ‘tentou entrar em contato’?”
“Ele ligou para o escritório de seus advogados em Berlim, mas ao que parece a ligação estava ruim, e ele não ligou mais.”
“Alguma das pessoas com quem falou revelou algo sobre a vida pessoal de Wellauer?”
O copo que o conde estava levando à boca parou de forma tão súbita que um pouco do líquido claro caiu na lapela de seu smoking. Ele fitou Brunetti atônito, como se todas as reservas que tivera em relação ao genro durante quase vinte anos acabassem de se mostrar justificadas. “O que acha que eu sou? Um espião?”
“Desculpe-me”, disse Brunetti, oferecendo ao conde o lenço para enxugar a lapela. “É o trabalho. Eu esqueci.”
“Entendo”, concordou o conde, embora a inflexão de voz não indicasse nenhuma aprovação. “Vou ver se encontro Paola e a mãe.” Ele se afastou levando o lenço de Brunetti, o qual imaginou que seria lavado, engomado e passado, e mandado de volta por um portador especial.
Brunetti afastou-se do bar e mergulhou no mar de gente para também procurar sua mulher. Ele conhecia muitos dos que estavam no salão, porém de forma indireta. Embora nunca tivesse sido apresentado à maioria deles, sabia de seus escândalos, de suas histórias, de seus negócios e de seus casos, Isso em parte por ser policial, em parte por morar numa cidade provinciana onde o mexerico era uma verdadeira religião e onde, se o cristianismo não fosse a religião oficial, se renderia culto ao deus Boato.
Durante os mais de cinco minutos que levou para achar Paola, cumprimentou muitas pessoas e recusou convites para tomar mais um drinque. A condessa sumira; seu marido com certeza a advertira do risco de contaminação moral que havia na sala.
Quando Paola veio ao seu encontro, tomou-o pelo braço e cochichou em seu ouvido. “Encontrei o que você está procurando.”
“Uma maneira de sair daqui?”, disse ele, mas só para si mesmo. Com ela, ele se continha um pouco. “O que é?”
“A encarnação da própria fofoca. Estudamos juntos na universidade.”
“Quem? Onde?”, perguntou Brunetti, interessando-se pelos convidados pela primeira vez naquela noite.
“Ele está ali adiante, na porta que dá para a sacada.” Paola cutucou-o com o cotovelo e apontou com o queixo um homem que estava do outro lado da sala, na janela francesa central que dava para o canal. O homem parecia ter a mesma idade de Paola, embora desse a impressão de ter tido muito mais dificuldade para chegar a ela. A distância, tudo o que Brunetti conseguia ver era uma barba curta, já um tanto grisalha, e um casaco preto que parecia ser de veludo.
“Vamos, vou apresentá-lo a você.” Para encorajá-lo, ela puxou Brunetti pelo braço e atravessou o salão para ir ao encontro do homem. Este sorriu quando viu Paola se aproximando. Seu nariz era chato, como se tivesse sido quebrado, e os olhos eram tristes, como se seu coração tivesse tido o mesmo destino. Ele parecia um estivador que escrevesse poesia.
“Ah, a encantadora Paola”, disse ele quando ela se aproximou. Ele passou o copo em que estava bebendo para a mão esquerda, tomou com a direita a mão de Paola e inclinou-se para beijar o ar um pouco acima desta. “E este”, disse, voitando-se para Brunetti, “deve ser o famoso Guido, de quem todos nos cansamos de ouvir falar durante muito mais tempo do que me parece discreto lembrar.” Ele tomou a mão de Brunetti e apertou-a firmemente, sem tentar disfarçar o olhar atento com que o examinava.
“Pare com isso, Dami. E pare de olhar para Guido como se ele fosse uma pintura.”
“Força do hábito, meu tesouro, examinar e esmiuçar tudo o que olho. A próxima coisa a fazer será tirar o terno dele e tentar descobrir a etiqueta.”
Nada disso fazia sentido para Brunetti, cuja confusão devia ser evidente para os outros dois, porque o homem se apressou a explicar. “Pelo que vejo, Paola nunca vai nos apresentar, e com certeza ela preferiu guardar segredo sobre nosso passado comum.” Antes que Brunetti tivesse tempo de responder a essa insinuação, ele continuou. “Sou Demetriano Padovani, ex-colega de classe de sua bela esposa e atualmente crítico de arte.” Ele fez uma pequena mesura.
Para Brunetti, assim como para muitos italianos, aquele nome era familiar. Ele era o brilhante crítico de arte do momento, o terror dos pintores e dos diretores de museus. Paola e Brunetti liam seus artigos deliciados, entretanto este não sabia que eles tinham estudado juntos na universidade.
O outro homem pegou mais um copo da bandeja de um garçom que ia passando. “Devo pedir desculpas a você, Guido — se é que posso tomar a liberdade de chamá-lo de Guido já no primeiro encontro e tratá-lo por você, sinal de uma crescente promiscuidade linguística e social —, e confessar que passei anos a odiá-lo.” O embaraço de Brunetti diante dessa observação lhe causava evidente prazer. “Naqueles tempos negros em que éramos estudantes e todos estávamos desesperada-mente apaixonados por sua Paola, todos morríamos de ciúmes e, admito, amaldiçoava aquele Guido que parecia ter descido das estrelas para roubar o coração da nossa adorada Paola. Primeiro, ela queria saber tudo sobre ele, depois entrou na fase do ‘Será que ele vai me convidar a tomar um café?’, que logo se transformou em ‘Você acha que ele gosta de mim?’, até que todos nós, apesar de loucos de amor por aquela cabeça-de-vento, estávamos a ponto de estrangulá-la e jogá-la num canal numa noite sombria, só para nos livrar do sinistro incubo Guido e poder nos preparar tranquilamente para as provas.” Deliciando-se com o óbvio constrangimento de Paola, ele continuou. “E aí ela se casou com ele. Isto é, com você. Para grande satisfação nossa, pois nada é tão eficiente contra os loucos excessos do amor...” Aqui ele fez uma pausa para tomar um gole da bebida, acrescentando em seguida: “... como o casamento”. Contente por ter feito Paola corar e Brunetti olhar em volta procurando mais um copo de bebida, Padovani continuou. “Foi realmente muito bom que tenha casado com ela, Guido, senão nenhum de nós conseguiria ser aprovado, tal era nossa paixão pela garota.”
“Foi o único motivo que me levou a casar com ela”, respondeu Guido.
Padovani entendeu. “E por essa caridade que você nos fez, deixe-me oferecer-lhe um drinque. O que você gostaria de beber?”
“Uísque para nós dois”, respondeu Paola. “Mas volte logo. Quero falar com você”, acrescentou.
Padovani baixou a cabeça numa submissão fingida e se lançou à perseguição de um garçom, deslizando majestosa e polidamente como um iate enquanto abria caminho através da multidão. Logo ele estava de volta, com três copos nas mãos.
“Você continua escrevendo para L’Unitá?”, perguntou Paola quando ele lhe passou o drinque.
Ao ouvir o nome do jornal, Padovani enfiou a cabeça entre os ombros e lançou em torno de si olhares conspiratórios, com fingido terror. Ele fez um “psiu” teatral, sinalizando para que eles se aproximassem mais. Num murmúrio, ele lhes disse: “Não ousem pronunciar o nome desse jornal nesta sala, senão o seu pai vai mandar os criados me expulsarem da casa”. Embora o tom de voz de Padovani não deixasse dúvida de que estava brincando, Brunetti desconfiou que ele estava muito mais perto da verdade do que imaginava.
O crítico endireitou-se completamente, sorveu um pouco de sua bebida e assumiu um tom de voz quase declamatório. “Paola, minha querida, será possível que você tenha abandonado seus ideais de juventude e já não leia a voz proletária do Partido Comunista? Desculpe-me”, ele se corrigiu, “o partido da esquerda democrática?” Cabeças se voltaram quando se ouviu aquele nome, mas ele continuou. “Deus do céu, não me diga que você passou a aceitar a sua época e que começou a ler o Corriere ou, pior ainda, La Repubblica, o resmungo da classe média disfarçado de resmungo da classe baixa?”
“Não, nós lemos L’Osservatore Romano”, disse Brunetti, nomeando o órgão oficial do Vaticano, que ainda continuava a verberar o divórcio, o aborto e o mito pernicioso da igualdade da mulher.
“Quanta sabedoria da parte, de vocês”, disse Padovani, com voz melíflua. “No entanto, visto que vocês leem essas gloriosas páginas, desconhecem que eu sou, embora humildemente, a voz do julgamento artístico para as massas combatentes.” Ele baixou um pouco a voz e continuou, imitando perfeitamente as vozes pomposas dos noticiaristas da rai anunciando a queda do último governo. “Sou o representante do operário clarividente. Em mim, vocês veem o crítico de voz rude e de dedo sujo que busca os valores da verdadeira arte proletária em meio ao caos moderno.” Padovani inclinou a cabeça num mudo cumprimento a alguém que passava e continuou. “É uma pena que vocês não conheçam meu trabalho. Talvez eu possa lhes enviar cópias dos meus artigos mais recentes. Pena que eu não os traga comigo, mas imagino que mesmo os gênios devem mostrar uma certa humildade, por mais espúria que seja.” Eles começaram a divertir-se com aquilo, por isso ele continuou. “Um dos que mais gosto, entre meus trabalhos recentes, é um artigo que escrevi no mês passado sobre uma exposição de arte cubana contemporânea — sabem como é, tratores e abacaxis sorridentes.” Fez uma careta de desespero até que conseguiu lembrar as palavras exatas de seu comentário. “Eu elogiei — como posso chamá-la — a maravilhosa simetria de suas formas refinaas e sua integridade intencional .” Ele se inclinou para a frente e cochichou no ouvido de Paola, mas tão alto que Brunetti não teve nenhuma dificuldade em ouvir. “Tirei isso de outro que escrevi há dois anos sobre blocos de madeira poloneses, em que elogiei, se não me falha a memória, ‘a refinada simetria das formas intencionais’.”
“E você vai para o trabalho assim?”, perguntou Paola olhando para seu casaco de veludo.
“Você está a mesma deliciosa malvada de sempre, Paola.” Ele sorriu, inclinando-se para beijá-la levemente no rosto. “Porém, para responder a sua pergunta, meu anjo, não, não acho que seja conveniente levar esses trajes ostentatórios ao reduto da classe operária. Eu uso uma roupa mais adequada, isto é, calças horríveis que seriam recusadas até pelo marido de minha empregada e um casaco que meu sobrinho ia dar aos pobres. Também não costumo”, disse ele, levantando a mão para evitar qualquer interrupção ou pergunta, “ir para lá de Maserati. Acho que isso seria uma enorme falta de gosto; além disso, é muito difícil encontrar estacionamento em Roma. Eu resolvi o problema, por algum tempo, pedindo emprestado o Fiat de minha empregada para ir ao trabalho. Mas então o carro começou a se encher de multas, e eu perdi horas levando o comissário de polícia para almoçar para ver se eles davam um jeito nelas. Por isso, agora eu simplesmente pego um táxi de minha casa e desço bem perto do trabalho, onde entrego meu artigo semanal, falo raivosamente sobre justiça social, saio e vou a uma pequena pasticceria adorável, onde me delicio com belas massas. Depois vou para casa e fico jiboiando na banheira e lendo Proust.” “E é assim que”, continuou ele, “tanto de um lado como de outro, a verdade é escamoteada.” Era uma citação de um soneto de Shakespeare, um dos textos aos quais ele dedicou sete anos para se graduar em Literatura Inglesa em Oxford. “Mas você deve estar querendo alguma coisa, alguma informação, caríssima Paola”, disse Padovani com uma franqueza um tanto destoante, ou pelo menos destoante do personagem que ele estava interpretando. “Primeiro seu próprio pai me telefona me convidando para esta festa, depois você gruda em mim feito um carrapato, e duvido que fizesse isso a menos que quisesse me pedir alguma coisa. E como o divino Guido está aqui com você, muito provavelmente o que você está querendo é informação. E como sei exatamente o que Guido faz para ganhar a vida, só posso imaginar que tem algo a ver com o escândalo que abalou nossa bela cidade, depois de ter emudecido o mundo da música, tirando da face do planeta a nasty piece of work.” O uso da expressão em inglês teve o efeito desejado de deixar os outros dois atônitos. Ele cobriu a boca com a mão e deu um risinho de pura satisfação.
“Oh, Dami, você sabia. Por que não nos disse nada?”
Embora Padovani respondesse com voz firme, Brunetti notou que seus olhos brilhavam, talvez por efeito do álcool, talvez por algum outro motivo. Mas pouco importava aquilo, contanto que ele explicasse seu último comentário.
“Vamos”, disse Paola. “Das pessoas que conheço, você é a única que pode saber alguma coisa sobre ele.”
Padovani lhe lançou um olhar neutro. “E você espera que eu conspurque a memória de um homem que ainda não esfriou em seu túmulo?”
Pelo visto, pensou Brunetti, aquilo só poderia divertir ainda mais Padovani.
“Estou surpresa de que você tenha esperado tanto tempo para isso”, disse Paola.
Padovani deu a esse comentário a atenção que ele merecia. “Você tem razão, Paola. Vou lhe contar tudo — isto é, se o encantador Guido trouxer para nós três drinques enormes. Se ele não fizer isso agora mesmo, vou começar a praguejar contra o tédio previsível ao qual seus pais mais uma vez me submeteram; e não só a mim, noto com espanto, mas a metade das pessoas mais famosas da cidade.” Então, voltando-se para Brunetti: “Ou, melhor ainda, Guido, se você conseguir uma garrafa inteira, nós três poderemos nos refugiar numa das muitas salas mal decoradas que, infelizmente, existem na casa de seus sogros.” Entretanto, ele não tinha terminado e voltou-se para Paola. “E lá, você, usando o charme de sua beleza, e seu marido, seus horríveis métodos policiais, poderão extrair de mim a feia, suja e desagradável verdade. Depois do quê, se você desejar, ou talvez — ele fez uma pausa e fitou longamente Brunetti — vocês dois, poderão conseguir o que quiserem de mim.”
Ah, então é isso, compreendeu de repente o policial, surpreso de ter ignorado todas as pistas.
Paola lançou a Brunetti um olhar de advertência totalmente desnecessário. Ele gostava dos exageros daquele sujeito. E não tinha dúvidas de que o convite, ainda que feito daquela forma brutal, era absolutamente sincero; não havia nenhum motivo para se irritar. Brunetti saiu, como lhe fora sugerido, para tentar conseguir uma garrafa de uísque.
Algo que podia dar uma idéia da hospitalidade do conde ou da negligência dos empregados foi o fato de que bastou pedir para que lhe dessem uma garrafa de Glenfiddich. Quando ele voltou, encontrou-os de braços dados, cochichando feito conspiradores. Padovani pediu que Paola se calasse e explicou a Brunetti: “Eu estava perguntando a ela se, caso eu tivesse cometido um crime hediondo, como dizer à mãe dela o que penso das cortinas, você iria me levar à polícia e me bater até eu confessar.”
“Como você acha que consegui isto?”, perguntou Brunetti, exibindo a garrafa.
Padovani e Paola sorriram. “Leve-nos, Paola”, ordenou o escritor, “a um lugar onde possamos nos deliciar com isto, ou então” — olhando Brunetti pelo canto dos olhos — “um com o outro.”
Sempre prática, Paola disse: “Podemos usar a sala de costura”, e saiu com eles do salão principal, passando por uma série de pesadas portas duplas. Então, como Ariadne, ela os levou sem hesitações por um corredor, dobrou à esquerda, entrou em outro, passou pela biblioteca, chegando finalmente a uma sala menor, na qual havia um grande número de poltronas cobertas de delicados brocados e dispostas em semicírculo diante de um enorme aparelho de televisão.
“Sala de costura?”, perguntou Padovani.
“Antes de Dinastia”, explicou Paola.
Padovani deixou-se cair na poltrona mais ampla da sala e pôs os pés calçados com couro de qualidade sobre a mesa entalhada. “Right, darling, shoot”, disse ele em inglês, sem dúvida por causa da mera presença da televisão. Como nenhum dos dois lhe perguntou nada, ele os encorajou. “O que vocês querem saber sobre o falecido Wellauer, homem cuja morte, pelo que sei, ninguém lamenta?”
“Quem poderia querer vê-lo morto?”, perguntou Brunetti.
“Você é muito direto, não é? Não é de estranhar que Paola tenha capitulado com uma rapidez assustadora. Mas para responder a sua pergunta eu precisaria ter um verdadeiro catálogo telefônico.” Ele parou de falar por um instante e levantou o copo para que pusessem uísque. Brunetti encheu-lhe o copo, pôs também no seu e um pouco menos no de Paola. “Você quer que eu vá contando na ordem cronológica, ou talvez por nacionalidade, ou em função do tipo de voz ou preferências sexuais?” Ele pôs o copo no braço da poltrona e continuou, devagar. “O nosso Wellauer não nasceu ontem, e as razões pelas quais as pessoas o odiavam são tão antigas quanto ele. Você deve ter ouvido a história de que ele foi nazista na época da guerra. Era impossível para ele fazê-los parar; por isso, como bom alemão que era, simplesmente os ignorou. E ninguém pareceu importar-se com isso. De modo algum. De resto, ninguém se preocupa muito mesmo, não é? Vejam o caso de Waldheim.”
“Ouvi boatos a respeito disso”, disse Brunetti.
Padovani sorveu um pouco do uísque, pensando em como articular o que tinha a dizer. “Muito bem, que tal dividirmos por nacionalidade? Há pelo menos três americanos cujos nomes posso declinar, dois alemães e uma meia dúzia de italianos que ficariam felizes em vê-lo morto.”
“Mas isso não quer dizer que eles o mataram”, disse Paola.
Padovani aquiesceu, plenamente de acordo. Livrou-se dos sapatos e sentou-se sobre as plantas dos pés com as pernas dobradas e os joelhos separados. Ele podia querer criticar o gosto da duquesa, mas por nada neste mundo sujaria seu brocado. “Wellauer foi nazista. Não há dúvida sobre isso. Sua segunda mulher suicidou-se, o que deve merecer sua atenção. A primeira o deixou depois de sete anos e, ainda que fosse filha de um dos homens mais ricos da Alemanha, Wellauer concedeu-lhe uma generosa pensão. Na época falou-se que ele se entregava a práticas sexuais repugnantes, mas isso”, con tinuou ele, tomando mais uma golada de uísque, “foi numa época em que se pensava haver práticas sexuais que pudessem ser repugnantes. Antes que vocês perguntem: não, não sei que práticas sexuais eram.”
“Você nos diria se soubesse?”, perguntou Brunetti.
Padovani deu de ombros.
“Agora falemos do lado profissional. Ele praticou a chantagem sexual de forma notória. A lista de sopranos e meios-sopranos que cantaram para ele pode lhes dar uma ideia: brilhantes jovens desconhecidas que de repente conseguiam o papel de Tosca ou de Dorabella, e desapareciam com a mesma rapidez. Ele era tão competente que lhe permitiam essas fraquezas. Além disso, muitas pessoas não sabem distinguir uma grande cantora de uma cantora competente, de forma que poucos perceberam e não houve uma perda lastimável com isso. E temos que lhe creditar o fato de que, pelo menos, todas eram cantoras competentes. Umas poucas chegaram a se tornar grandes cantoras, mas provavelmente teriam conseguido isso sem ele.”
Para Brunetti, aquilo não parecia suficiente para levar a um homicídio.
“Aqui temos as carreiras que ele estimulou, mas há outras tantas que ele contribuiu para arruinar, especialmente entre os que partilham minhas preferências sexuais e...”, acrescentou, tomando mais um pouco de uísque, “... de mulheres que não gostam de homens. O finado maestro era incapaz de acreditar não ser capaz de exercer atração sobre alguma mulher. Se eu fosse você, ia investigar o aspecto sexual. A resposta pode não estar nisso, mas pode ser um bom ponto de partida. Contudo”, disse ele, apontando com o copo o enorme aparelho de televisão, “isso pode ser apenas o resultado da superexposição a essa coisa aí.”
Padovani pareceu ter-se dado conta de quão insatisfatórias foram aquelas informações, por isso acrescentou: “Na Itália, há pelo menos três pessoas que tinham boas razões para odiá-lo. Um está cantando no coro da Bari Opera Company. Ele poderia ter se tornado um importante barítono verdiano se não tivesse, nos horríveis anos sessenta, cometido o erro de não se preocupar em esconder do maestro suas preferências sexuais. Ouvi falar que ele chegou a se insinuar para o próprio maestro, mas não acredito que alguém pudesse ser estúpido a esse ponto. Deve ser pura invenção. Seja lá por que tenha sido, o fato é que Wellauer, pelo que dizem, soprou seu nome a um colunista amigo seu e este logo começou a escrever uns artigos. É por isso que agora ele está cantando em Bari, no coro.
“O segundo dá aulas de teoria musical no conservatório de Palermo. Não sei bem o que aconteceu entre eles, mas ele era um maestro que recebia excelente cobertura da mídia. Isso foi há uns dez anos, porém sua carreira murchou após uma série de artigos devastadores. Neste caso, reconheço, não tenho informações de primeira mão, mas fala-se que Wellauer tem algo a ver com os artigos desfavoráveis.
“Quanto à terceira pessoa, sua lembrança só desperta um eco distante em minha mente de comadre, mas está ligada a alguém que mora aqui.” Ao ver a surpresa de seus interlocutores, apressou-se em corrigir-se. “Não, não aqui no palazzo. Em Veneza. Mas dificilmente ela estaria em condições de fazer alguma coisa, pois deve estar na casa dos oitenta anos e dizem viver reclusa. E não tenho certeza de saber a versão correta da história, nem mesmo de me lembrar dela.”
Quando percebeu o olhar de Paola, levantou o copo à guisa de desculpa e explicou: “É esta droga aqui. Destrói os neurônios. Ou os come”. Ele fez girar o líquido dentro do copo, observando as pequenas ondas que criava, esperando que elas gerassem a maré da memória.
“Vou lhes contar o que lembro ou o que penso que lembro. Seu nome é Clemenza Santina.” Como nenhum dos dois deu mostras de conhecer esse nome, Padovani explicou: “Ela era uma das sopranos mais famosas pouco antes da guerra. Aconteceu com ela o mesmo que aconteceu com Rosa Ponselle na América — descobriram-na quando cantava num music-hall com suas duas irmãs e poucos meses depois estava cantando no La Scala. Era uma dessas vozes naturais e perfeitas que surgem muito poucas vezes a cada século. No entanto, ela nunca gravou nada, por isso a única lembrança que temos dela é o que as pessoas ouviram, o que elas recordam”. Ele percebeu a crescente impaciência do casal e voltou ao assunto. “Houve alguma coisa entre ela e Wellauer, ou entre ele e uma das irmãs dela. Não consigo lembrar o que foi nem quem me contou, mas ela teria tentado matá-lo, ou o teria ameaçado disso.” Ele agitou o copo no ar e Brunetti percebeu o quanto o homem estava bêbado. “De qualquer modo, acho que alguém foi morto ou morreu, ou talvez tenha havido só uma ameaça. Talvez amanhã de manhã eu me lembre. Ou talvez não seja importante.”
“Por que você se lembrou dela?”, perguntou Brunetti.
“Porque ela fez o papel de Violleta com ele. Antes da guerra. Alguém com quem conversei, não me lembro quem, me disse que tentaram entrevistá-la há pouco tempo... Deixem-me pensar um minuto.” Mais uma vez ele consultou o copo, e mais uma vez a lembrança voltou numa grande golada de uísque. “Narciso. Foi ele. Ele estava fazendo uma matéria sobre as grandes cantoras do passado e foi procurá-la, mas ela se recusou a falar com ele, e não foi nada gentil. Nem ao menos abriu a porta — acho que ele falou isso. E aí ele me contou a história que ouviu do caso entre ela e Wellauer, antes da guerra. Em Roma, acho.”
“Ele disse onde ela mora?”
“Não, não disse. Mas posso ligar para ele amanhã de manhã e perguntar.”
Efeito do álcool ou da conversa, que já se arrastava por muito tempo, o fato é que Padovani ia perdendo rapidamente a sua verve. Sob os olhos de Brunetti, o estilo afetado e enfatuado foi murchando, e finalmente ele se tornou um homem de meia-idade com uma barba espessa e um começo de barriga, sentado sobre os próprios pés, mostrando um pouco da panturrilha acima das meias de seda pretas. Paola parecia cansada ou simplesmente já não aguentava mais ter que sustentar aquele nível de sarcasmo universitário de seu ex-colega de turma? O próprio Brunetti parecia ter chegado àquele ponto de equilíbrio em que, se continuasse a beber, não tardaria a ficar um pouco alto e alegre, e, se parasse, logo voltaria a ficar sóbrio e com uma disposição de espírito mais sombria. Decidindo-se pela segunda opção, pôs o copo no chão embaixo da cadeira, certo de que seria encontrado, antes do amanhecer, por algum criado que estivesse fazendo uma ronda.
Paola também largou o copo e deslizou para o canto do sofá. Ela olhou para Padovani, esperando que se mexesse, mas ele fez um sinal para que se fossem. Ele pegou a garrafa da mesa e pôs uma boa dose no copo. “Vou terminar de beber isto antes de voltar para a festa.” Brunetti se perguntava se se aborrecera com a conversa tanto quanto Paola parecia ter se aborrecido. Os três trocaram mais alguns ditos espirituosos, e Padovani prometeu ligar na manhã seguinte, se conseguisse o endereço da soprano.
Paola conduziu Brunetti de volta às luzes e à música, através do labirinto do palazzo. Quando eles entraram no salão principal, notaram que chegara mais gente e que a música aumentara de volume, acompanhando o ritmo das conversas.
Brunetti olhou em volta, morto de tédio só de olhar aquelas pessoas bem vestidas, bem nutridas, bem-educadas. Notou que Paola adivinhava seus sentimentos e estava prestes a sugerir que fossem embora, quando reconheceu uma pessoa. Perto do bar, com um copo numa mão e um cigarro na outra, estava a médica que examinara o corpo de Wellauer, declarando-o morto. Na ocasião, Brunetti se perguntara como alguém vesti do de jeans conseguira chegar à platéia. Esta noite ela estava vestida da mesma forma, calças cinza e um casaco preto, com uma evidente despreocupação com a própria aparência que Brunetti consideraria impossível numa mulher italiana.
Ele disse a Paola que vira uma pessoa com quem queria falar e ela respondeu que iria procurar os pais para agradecê-los pela festa. Eles se separaram, e Brunetti atravessou o salão para falar com a médica cujo nome esquecera. Ela não procurou esconder que o reconhecera e que se lembrava dele.
“Boa noite, comissário”, disse ela quando Brunetti se aproximou.
“Boa noite, doutora”, respondeu ele, acrescentando, como se os dois já tivessem cumprido suficientemente as regras da etiqueta: “Meu nome é Guido”.
“E o meu é Bárbara.”
“Como esta cidade é pequena”, comentou ele. Assim formulado, esse comentário banal permitia que ele, um homem formal, evitasse ter que escolher entre tratá-la intimamente por você ou formalmente por senhora.
“Mais cedo ou mais tarde, todo mundo encontra todo mundo”, ela concordou, evitando com a mesma habilidade dirigir-se diretamente a ele.
Resolvendo-se por um formal a senhora, ele disse: “Desculpe-me por não ter agradecido à senhora pela ajuda naquela noite”.
Ela deu de ombros. “Meu diagnóstico estava certo?”
“Sim”, respondeu ele, perguntando-se como a médica poderia ter deixado de ler sobre aquilo todos os dias nos jornais da cidade. “Estava no café, como a senhora disse.”
“Foi a impressão que tive. Mas devo confessar que reconheci o cheiro só por causa dos livros de Agatha Christie.”
“Eu também. Foi a única vez que senti o cheiro na vida real.” Os dois fingiram não notar o quão inadequado era este último termo.
Ela apagou o cigarro no vaso de uma palmeira do tamanho de uma laranjeira. “Como se pode conseguir a droga?”, perguntou ela.
“É o que eu queria lhe perguntar, doutora.”
Ela pensou um pouco. “Numa farmácia, num laboratório, mas tenho certeza de que a substância é controlada.”
“É e não é.”
Sendo italiana, ela entendeu imediatamente. “Quer dizer que pode desaparecer e ninguém informar o desaparecimento ou nem se dar conta disso?”
“Sim, acho que sim. Um dos meus homens está veri ficando nas farmácias da cidade, mas nunca poderíamos checar todas as fábricas de Marghera ou de Mestre.”
“Ele serve para revelar filmes, não é?”
“Sim, e entra também na composição de alguns produtos petroquímicos.”
“Em Marghera há droga bastante para manter seu homem ocupado.”
“Receio que por muitos dias”, admitiu ele.
Notando que a bebida dela acabara, ele perguntou se queria que lhe servisse outra.
“Não, obrigada. Acho que já bebi bastante do champanhe do conde por esta noite.”
“A senhora já veio a outras recepções aqui?”, perguntou ele francamente curioso.
“Sim, algumas vezes. Ele sempre me convida e quando estou livre procuro vir.”
“Por quê?” A pergunta escapou antes que ele tivesse tempo de pensar.
“Ele é meu paciente.”
“A senhora é médica dele?” Brunetti estava surpreso demais para disfarçar sua reação.
Ela sorriu. E — o que era mais significativo — seu riso era absolutamente natural, sem sombra de ressentimento. “Se ele é meu paciente, pode-se concluir que sou a médica dele.” Ela abrandou o tom de voz. “Meu consultório é logo do outro lado do campo. A princípio, eu era médica dos criados do conde. Um ano e meio atrás, porém, encontrei-o quando vim visitar um deles, e começamos a conversar.”
“Sobre o quê?” Brunetti estava espantado só em pensar na possibilidade de o conde fazer coisas banais como conversar, principalmente com uma pessoa tão despretensiosa como aquela jovem.
“Da primeira vez, falamos sobre a criada, que estava com gripe, mas quando voltei, não sei por que começamos a falar sobre poesia grega. E isso levou a uma discussão, se não me falha a memória, sobre os historiadores gregos e romanos. O conde tem uma predileção especial por Tucídides. Como frequentei o curso clássico, pude falar sobre o assunto sem me expor ao ridículo, e o conde chegou à conclusão de que eu devia ser uma boa médica. Agora ele aparece de vez em quando em meu consultório e conversamos sobre Tucídides e Estrabão.” Ela se encostou na parede e cruzou os pés. “Ele se parece muito com outros pacientes meus. Eles vêm me falar de doenças que não têm e de dores que não sentem. A conversa do conde é mais interessante, mas acho que não há nenhuma diferença importante entre eles. Ele é solitário e idoso como eles, e como eles precisa de alguém com quem conversar.”
Brunetti ficou mudo diante daquele comentário sobre o conde. Solitário? Um homem que podia pegar o telefone e ter acesso às informações confidenciais de um banco suíço? Um homem capaz de conhecer os termos de um testamento mesmo antes de o morto ser enterrado? Solitário a ponto de sentir necessidade de ir conversar sobre historiadores gregos com sua médica?
“Às vezes ele também fala do senhor”, ela revelou. “Sobre todos de sua casa.”
“E mesmo?”
“Sim. Ele tem fotografias de todos na carteira. Ele já me mostrou muitas vezes. Sua, de sua esposa, das crianças.”
“Por que está me dizendo isso, doutora?”
“Como lhe disse, ele é um velho solitário. E é meu paciente, portanto procuro fazer o que posso para ajudá-lo.”
“Doutora, a senhora costuma aceitar pacientes par ticulares?”
Se ela percebeu aonde aquela conversa iria parar, não deu mostras disso. “A maioria dos meus pacientes é do sistema público de saúde.”
“Quantos pacientes particulares a senhora tem, doutora?”
“Acho que isso não lhe diz respeito, comissário.”
“Não, acho que não”, reconheceu Brunetti. “A senhora responderia a uma pergunta sobre suas opiniões políticas?” Essa era uma questão que, na Itália, ainda tinha algum significado, pois os partidos então não eram todos cópias uns dos outros.
“Sou comunista, naturalmente, ainda que o rótulo tenha mudado.”
“E a senhora aceita como paciente um dos homens mais ricos de Veneza?”
“Claro, por que não deveria fazer isso?”
“Acabei de lhe dizer. Porque ele é um homem riquíssimo.”
“E o que isso tem a ver com o fato de eu aceitá-lo ou não como cliente?”
“Eu pensei que...”
“Que eu tinha que recusá-lo como cliente porque ele é rico e pode ter médicos melhores? É isso o que o senhor quer dizer, comissário?”, disse a médica, sem fazer nenhum esforço para disfarçar a raiva. “Isso não é apenas uma ofensa pessoal, trai uma visão simplista do mundo. Acho que nada disso me surpreende.” A última afirmação fez Brunetti se perguntar sobre o que o conde falara sobre ele em suas conversas com a médica.
Ele sentiu que havia perdido todo o controle da conversa. Não queria ofender, não queria insinuar que o conde poderia ter médicos melhores. Surpreendia-lhe o fato de o conde tê-la aceito. “Doutora, por favor”, disse ele, levantando a mão. “Desculpe-me, mas o mundo onde trabalho é um mundo simplista. Há gente boa...” Ela estava ouvindo, por isso ele ousou acrescentar, com um sorriso: “... como nós”. Ela teve a cortesia de corresponder ao sorriso. “E há pessoas que violam a lei.”
“Estou entendendo”, disse ela, mas ainda com a mesma raiva. “E isso nos dá o direito de dividir o mundo em dois grupos, aquele a que pertencemos e aquele em que estão todos os demais? E eu tenho que cuidar das pessoas que têm a mesma posição política que eu e deixar os outros morrerem? O senhor dá a impressão de ver as coisas como num filme de caubói — os mocinhos e os bandidos, não havendo a menor dificuldade em distinguir uns e outros.”
Procurando defender-se, Brunetti disse: “Eu não disse que lei, disse apenas a lei”.
“Em sua visão de mundo não existe apenas uma lei, a lei do Estado?’ Seu desprezo era franco, e ele esperava que fosse pela lei do Estado, e não por ele.
“Não, não acho”, respondeu ele.
Ela ergueu as mãos. “Se agora vamos tirar Deus de seu sossego no céu para enfiá-lo na conversa, vou pegar um pouco mais de champanhe.”
“Não, permita-me...”, disse ele, tirando-lhe o copo da mão. Logo Brunetti voltou com um novo copo de champanhe e um pouco de água mineral para ele próprio. A médica aceitou o champanhe e agradeceu-lhe com um sorriso absolutamente amistoso e normal.
Ela bebericou um pouco. “E essa sua lei?” Ela disse isso com um interesse tão sincero e com tal falta de rancor que o incidente de há pouco parecia esquecido. De ambas as partes, pensou ele.
“Não há dúvida de que a nossa lei é insuficiente”, principiou ele, surpreendendo-se em se ver falando aquilo, pois dedicara toda a sua carreira a defendê-la. “Precisamos de uma mais humana, ou talvez mais compassiva.” Ele parou, pensando em como se sentia idiota em dizer aquilo. E, o que era pior, em acreditar no que dizia.
“Seria realmente maravilhoso”, disse ela com uma candura que o fez imediatamente desconfiar. “Mas isso não iria interferir na sua profissão? Afinal de contas, o seu trabalho é fazer cumprir a outra lei, a lei do Estado.”
“Na verdade, elas são uma só.” Percebendo como aquilo soava ainda mais estúpido e sem sentido, ele acrescentou: “Normalmente”.
“Mas não sempre?”
“Não, nem sempre.”
“E quando não são?”
“Tento descobrir o ponto de intercessão em que elas coincidem.”
“E se não coincidirem?”
“Então eu faço o que tenho que fazer.”
Ela deu uma gargalhada tão espontânea que ele riu também, dando-se conta de como sua atitude parecia com a de John Wayne antes de partir para o tiroteio final.
“Peço desculpas por ter lhe armado uma cilada, Guido. De verdade. Se isso lhe servir de consolo, afirmo-lhe que é o mesmo tipo de decisão que nós, médicos, temos que tomar, embora nem sempre seja assim, quando aquilo que pensamos ser o certo não coincide com o que a lei diz que é.”
Ele foi salvo — ambos foram — por Paola, que se aproximou deles e lhe perguntou se estava pronto para ir embora.
“Paola”, disse ele, voltando-se para apresentá-la à outra mulher. “Esta é a médica de seu pai”, disse ele, esperando surpreendê-la.
“Oh, Barbara”, exclamou Paola. “Fico muito contente em conhecê-la. Meu pai fala de você o tempo todo. Lamento só tê-la conhecido agora.”
Brunetti ficou observando e ouvindo-as falar, admirado da facilidade com que as mulheres conseguem demonstrar que se gostam, de sua extraordinária confiança recíproca, já no primeiro encontro. Unidas pela mesma preocupação pelo homem que ele sempre achou frio e distante, essas duas mulheres estavam conversando como seja se conhecessem há anos. Não havia nada daquela agressiva cobrança moral que marcara sua conversa com a médica. Ela e Paola tinham feito uma espécie de avaliação instantânea e ficaram contentes com o que encontraram. Ele sempre observara esse fenômeno, mas receava nunca poder entendê-lo. Brunetti tinha a mesma capacidade de tornar-se rapidamente amigo de outro homem, contudo, não sabia bem por quê, a intimidade logo se detinha num nível bem superficial. A intimidade imediata que ele tinha sob os olhos ia bastante fundo, chegando a um ponto central onde se detinha — só temporariamente, enquanto não vinha o próximo encontro, onde avançaria ainda mais.
Elas tinham chegado à etapa em que discutiam Raffaele, o único neto do conde, quando de repente se lembraram de que Brunetti estava presente. Pela forma como este se apoiava ora num pé, ora no outro, Paola percebeu que ele estava cansado e querendo ir embora. “Desculpe-me, Barbara, por ter contado tudo isso sobre Raffaele. Agora você tem duas gerações com que se preocupar, e não uma.”
“Não, é bom ter outra visão sobre as crianças. Ele se preocupa tanto com elas. E tem tanto orgulho de vocês dois.” Brunetti levou algum tempo para entender que ela se referia a ele próprio e a Paola. Aquela estava se revelando uma noite de estranhas surpresas.
Ele não percebeu como aconteceu aquilo, mas as duas mulheres entenderam que já era tempo de se despedirem. A médica colocou o copo na mesa ao seu lado, e Paola voltou-se para tomar o braço dele no mesmo instante. Elas se despediram, e ele ficou novamente surpreso com a forma como a médica foi muito mais calorosa com sua mulher que com ele próprio.
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