Morte no Teatro La Fenice
Capítulo 13
Para sua infelicidade, era na manhã seguinte que seu relatório devia estar na mesa de Patta “antes das oito”. Visto que o relógio, logo que ele acordou, estava marcando oito e quinze, era evidente que isso não seria possível.
Meia hora depois, tendo recuperado um pouco a aparência humana, Brunetti foi até a cozinha e encontrou Paola lendo L’Unità, o que o lembrou de que era terça-feira. Por motivos que ele nunca conseguiu entender, ela lia um jornal diferente a cada manhã, cobrindo todo o espectro político da direita para a esquerda, e as línguas do francês ao inglês. Anos atrás, quando a conhecera e a entendia ainda menos, ele lhe perguntou sobre aquilo. Sua resposta — só mais tarde ele veio a entender — fazia muito sentido: “Quero ver de quantas formas diferentes se podem dizer as mesmas mentiras”. Nada do que ele lera nos anos seguintes nem sequer chegara perto de sugerir que a visão de Paola estava errada. Hoje era a mentira dos comunistas; amanhã seria a vez dos democratas cristãos.
Ele se inclinou e beijou-a na nuca. Ela soltou um resmungo mas não tirou os olhos do jornal. Sem dizer nada, apontou para o balcão à sua esquerda, onde havia um prato de brioches frescos. Ele se serviu de café, pôs três colheres de açúcar e sentou-se do lado oposto ao dela. Paola virou uma página.
“Novidades?”, perguntou ele, mordendo um brioche.
“Mais ou menos. Estamos sem governo desde ontem à tarde. O presidente está tentando formar um, mas parece que não está conseguindo. E na padaria, hoje de manhã, todo mundo só falava da nova onda de frio. Não é de estranhar que a gente tenha o governo que tem. Bem...”, disse ela, demorando-se um pouco em observar a foto do mais recente candidato à investidura, “... talvez não. Ninguém merece uma coisa dessas.”
“O que mais?”, perguntou ele, entrando na rotina de duas décadas. Isso lhe permitia saber o que estava acontecendo sem precisar ler os jornais, e em geral ter uma idéia precisa do estado de humor de sua mulher.
“Greve de trens na próxima semana, em protesto contra a demissão de um maquinista que se embebedou e provocou a colisão de dois trens. Os homens que trabalhavam com o tal maquinista vinham reclamando dele há meses, mas ninguém lhes dava atenção. Então três pessoas morreram. E agora que foi demitido os mesmos que reclamavam dele estão ameaçando fazer greve de protesto contra sua demissão.” Ela virou uma página. Ele pegou mais um brioche. “Ameaça de novos ataques terroristas. Talvez isso mantenha os turistas afastados.” (Mais uma página.) “Comentário sobre a abertura da temporada lírica em Roma. Maestro lamentável. Dami me disse ontem à noite que a orquestra tem reclamado dele há semanas, desde o começo dos ensaios, mas que ninguém deu a mínima. Faz sentido. Se ninguém deu ouvidos aos maquinistas, por que dariam ouvidos a músicos que têm que suportar o maestro durante os ensaios?”
Ele pôs a xícara na mesa de forma tão brusca que respingou um pouco de café. A única reação de Paola foi puxar o jornal para mais perto.
“O que você disse?”
“Humm?”, fez ela, sem ouvir o que ele dizia.
“O que você disse sobre o maestro?”
Ela olhou para ele por causa de seu tom, não pelo que dissera. “O quê?”
“O que você disse sobre o maestro?”
Como acontecia com muitas de suas observações feitas no café da manhã, aquela parecia ter sido esquecida imediatamente depois de ter sido dita. Ela voltou para a página onde aparecia a notícia e examinou-a novamente. “Ah, sim, a orquestra. Se tivessem se dado ao trabalho de prestar atenção ao que os músicos diziam, iam descobrir que era um mau maestro. Afinal de contas, ninguém melhor que eles para avaliar a competência de um músico, não é mesmo?”
“Paola”, disse Brunetti afastando o jornal da frente dela, “se nós não fôssemos casados eu largaria minha mulher para ficar com você.”
Ele ficou satisfeito em ver que a surpreendera; era uma coisa que raramente conseguia. Saiu deixando-a na cozinha, olhando-o por cima dos óculos para leitura e sem ter entendido direito o que acabara de fazer.
Brunetti desceu os noventa e nove degraus, ansioso para chegar ao trabalho e começar a dar alguns telefonemas.
Quando chegou, quinze minutos depois, ainda não havia nem sinal de Patta, por isso ele ditou um curto parágrafo e mandou que fosse colocado na mesa de seu superior. Feito isso, ligou para a redação do Gazzetino e pediu para falar com Salvatore Rezzonico, o crítico de música. Disseram-lhe que ele não estava na redação e que poderia estar em sua casa ou no conservatório. Quando finalmente conseguiu localizar o homem, em sua casa, e lhe explicou o que queria, Rezzonico concordou em falar com ele ainda naquela manhã, no con servatório, onde daria uma aula às onze. Em seguida, Brunetti ligou para o dentista; certa vez este dissera ter um primo que era primeiro violino na orquestra do La Fenice. Brunetti conseguiu combinar um encontro com o violinista, que se chamava Traverso, antes da apresentação daquela noite.
Ele passou a meia hora seguinte falando com Miotti, que voltou do teatro praticamente sem novidades, exceto o fato de que um outro integrante do coro afirmava com certeza ter visto Flavia Petrelli entrar no camarim do maestro depois do primeiro ato. Miotti descobrira também a razão da evidente antipatia do portiere pela soprano: ele achava que ela tinha um caso com l’americana. Além disso, Miotti não descobrira mais nada. Brunetti mandou que ele fosse pesquisar nos arquivos do Gazzetino sobre um escândalo envolvendo o maestro e uma cantora italiana “antes da guerra”. Ele evitou o olhar de Miotti em reação a essa vagueza e disse que devia haver um fichário temático que poderia facilitar as coisas.
Brunetti saiu do escritório e, atravessando a cidade, chegou ao conservatório de música, situado numa pracinha, próximo à ponte da Academia. Depois de muito perguntar, conseguiu achar, no terceiro andar, a sala de aula do professor, onde este esperava por ele ou por seus alunos.
Como sempre acontece em Veneza, Brunetti reconheceu o homem, visto ter passado por ele muitas vezes naquela parte da cidade. Embora nunca tivessem se falado, a forma calorosa como o homem o recebeu indicava que, pela mesma razão, Brunetti não lhe era estranho. Rezzonico era um homenzinho pálido e com unhas muitíssimo bem cuidadas. Barba bem aparada, cabelos curtos, trajava um terno cinza-escuro e uma gravata escura, como se procurasse vestir-se para exercer a função de professor.
“O que posso fazer pelo senhor, comissário?”, perguntou ele depois que Brunetti se apresentou e se sentou em uma das muitas carteiras que havia na sala.
“É sobre o maestro Wellauer.”
“Ah, sim”, respondeu Rezzonico, assumindo, como era de se esperar, um tom mais solene. “Uma grande perda para o mundo da música.”
Brunetti esperou que se passasse o tempo regulamentar, depois continuou. “O senhor ia fazer a crítica da performance da Traviata para os jornais, professor?”
“Sim, ia.”
“Mas a crítica não foi publicada?”
“Não, resolvemos — isto é, o editor decidiu — que, por respeito ao maestro e também porque a apresentação não foi completa, iríamos esperar o trabalho do novo maestro e fazer a crítica de uma de suas performances.”
“E o senhor escreveu essa crítica?”
“Sim. Foi publicada esta manhã.”
“Desculpe-me, professor, mas não tive tempo de lê-la. O senhor pode me dizer se ela foi favorável?”
“De modo geral, sim. Os cantores são bons, e Petrelli é soberba. Com certeza ela é a única soprano intérprete de Verdi, isto é, a única verdadeira intérprete. O tenor não é tão bom, mas ainda é muito jovem, e acho que sua voz vai amadurecer.”
“E o maestro?”
“Como disse em meu comentário, qualquer um que empunhasse a batuta nessas circunstâncias teria muitas dificuldades a enfrentar. Não é nada fácil reger uma orquestra que foi ensaiada por outro.”
“Sim, entendo.”
“Mas, levando em contas todas as dificuldades com que deparou”, continuou o professor, “ele se saiu muito bem. É um jovem realmente muito talentoso, e parece ter uma sensibilidade especial para Verdi.”
“E quanto ao maestro Wellauer?”
“Como?”
“Se o senhor tivesse escrito uma crítica da noite de estreia, da apresentação iniciada por Wellauer, o que diria?”
“Sobre a apresentação como um todo ou sobre a do maestro?”
“Sobre ambas.”
Era evidente que a pergunta embaraçava o professor. “Não sei bem como responder. Com a morte do maestro, isso perdeu o sentido.”
“Mas se o senhor tivesse escrito a crítica, o que diria da performance de Wellauer?”
O professor inclinou a cadeira para trás e cruzou as mãos na nuca, da mesmíssima forma como os professores de Brunetti, ele bem lembrava, faziam. Rezzonico ficou naquela posição por alguns instantes, pensando sobre a pergunta, depois deixou que a cadeira voltasse à posição normal. “Receio que a crítica teria sido diferente.”
“Diferente como, professor?”
“No que diz respeito aos cantores, seria a mesma. A signora Petrelli é sempre magnífica. O tenor cantou bem, como eu disse, e, à medida que for ganhando experiência no palco, a tendência é que melhore. Na noite da estréia, eles cantaram da mesma forma, mas o resultado foi diferente.” Notando a confusão de Brunetti, ele tentou explicar. “Sabe, eu teria que fazer abstração dos muitos anos de atuação do maestro. Era difícil ouvir a música naquela noite sem compará-la com a que seu gênio nos fez escutar durante todos aqueles anos.”
“Deixe-me tentar explicar”, continuou ele. “Durante a apresentação, é o maestro que mantém a unidade do conjunto, cuida para que os cantores respeitem o andamento, que a orquestra lhes dê apoio, que as entradas se façam no momento exato, ou, se preferir, que a orquestra e o palco se mantenham em sincronia. Cabe a ele também cuidar para que a orquestra não toque alto demais, que a subida dos crescendi seja sentida, sem se sobrepor, porém, à voz dos cantores. Quando um maes- tro percebe que isso está acontecendo, ele pode fazer que toquem mais docemente com um movimento da batuta ou colocando um dedo nos lábios.” Para ilustrar, o músico fez os gestos que Brunetti vira em muitos concertos e óperas.
“Ele deve também, o tempo todo, estar atento a tudo: coro, cantores, orquestra, mantendo-os em equilíbrio perfeito. Se ele não fizer isso, é um fiasco total, e tudo o que se ouve são partes separadas e não a ópera como um todo, constituindo uma unidade.”
“E naquela noite, naquela noite em que o maestro morreu?”
“Estava faltando esse trabalho de coordenação. Havia momentos em que a orquestra tocava tão alto que eu não conseguia ouvir os cantores, e tenho certeza de que eles próprios tinham dificuldade de ouvir uns aos outros. Em outros momentos, a orquestra tocava rápido demais e os cantores tinham que se esforçar para acompanhá-la. Ou o contrário.”
“Será que mais alguém no teatro percebeu isso, pro fessor?”
Rezzonico ergueu as sobrancelhas e torceu o nariz com desprezo. “Comissário, não sei o que o senhor sabe do público veneziano, mas a coisa mais lisonjeira que se pode dizer sobre dele é que é insensível. As pessoas não vão ao teatro para ouvir música ou belas vozes; elas vão para serem vistas com suas roupas novas por seus amigos, e os amigos estão lá pelas mesmas razões. Você poderia trazer uma bandinha da menor aldeia da Sicília e colocá-la para tocar no fosso da orquestra que ninguém na plateia iria notar a diferença. Se o figurino for luxuoso e a montagem espetacular, é sucesso garantido. Se a ópera for moderna ou se os cantores forem estrangeiros, pode apostar no fracasso.” O professor se deu conta de que aquilo estava virando um discurso, por isso baixou a voz. “Mas para responder à sua pergunta: duvido que muita gente no teatro tenha percebido o que estava acontecendo.”
“E os outros críticos?”
O professor torceu o nariz novamente. “Com exceção de Narciso, do La Repubblica, nenhum deles é músico. Alguns simplesmente vão aos ensaios e então escrevem suas críticas. Alguns nem ao menos são capazes de ler uma partitura. Não, não há ninguém que tenha critério entre eles.”
“A que o senhor atribui o fracasso, se é que se pode falar assim, do maestro Wellauer?”
“As possibilidades são muitas. Uma noite ruim. Ele era um homem idoso, afinal de contas. Podia estar perturbado com alguma coisa que tenha acontecido antes da performance. Ora, por mais ridículo que possa parecer, pode ter sido uma mera indigestão. Mas, seja lá o que tenha sido, ele não tinha o menor controle sobre a música naquela noite. Ela lhe escapou; a orquestra fez o que quis, e os cantores tentaram acompanhá-la. Podia-se perceber, em suma, que na verdade ele não estava regendo.”
“Mais alguma coisa, professor?”
“O senhor quer dizer... sobre a música?”
“Isso, ou qualquer outra coisa.”
Rezzonico pensou por um momento, dessa vez cruzando as mãos no colo, para finalmente dizer: “Isto talvez vá soar estranho. E soa estranho para mim porque não sei por que digo ou por que acredito nisso. Mas acho que ele sabia.”
“Como?”
“Wellauer. Acho que ele sabia.”
“Sobre a música? Ele sabia o que estava acontecendo?”
“Sim.”
“Por que o senhor diz isso, professor?”
“Foi depois da cena do segundo ato em que Germont pai vem fazer o pedido a Violetta.” Rezzonico olhou para Brunetti para ver se ele conhecia a história da ópera. Brunetti balançou a cabeça afirmativamente, e o professor continuou. “É uma cena que normalmente provoca muitos aplausos, principalmente quando se têm cantores bons como Dardi e Petrelli. Como era esse o caso, houve um longo aplauso. Durante o aplauso, olhei para o maestro. Ele pôs a batuta no pódio e tive a estranha impressão de que estava prestes a sair, simplesmente descer do pódio e ir embora. Não sei se vi ou inventei isso, mas ele parecia prestes a fazer isso quando os aplausos cessaram e os primeiros violinos levantaram seus arcos. Wellauer os viu, fez-lhes um sinal e pegou a batuta. E a ópera continuou, mas fiquei com a impressão de que, se o maestro não tivesse visto o movimento deles, simplesmente teria ido embora dali.”
“Mais alguém percebeu isso?”
“Não sei. Ninguém com quem falei quis comentar muito a performance, e o pouco que se falou foi com muita reserva. Eu estava num camarote do lado esquerdo, de forma que podia vê-lo muito bem. Acho que todos os demais estavam olhando para os cantores. Mais tarde, quando ouvi o anúncio de que ele não poderia continuar, imaginei que tinha sofrido um ataque qualquer. Mas não que fora assassinado.”
“O que essas outras pessoas disseram?”
“Como lhe disse, todos foram um tanto cautelosos, pois não queriam dizer nada contra Wellauer, agora que ele morreu. No entanto, umas poucas pessoas foram concordes em dizer que a performance foi decepcionante. Só isso.”
“Li seu artigo sobre a carreira de Wellauer, professor. O senhor fala muitíssimo bem dele.”
“Ele foi um dos grandes músicos do século. Um gênio.”
“O senhor não menciona a última performance, professor.”
“Não se pode condenar um homem por uma noite ruim, comissário, principalmente quando toda sua carreira foi tão extraordinária.”
“Sim, eu sei; nem por uma noite ruim nem por uma coisa ruim.”
“Exatamente”, concordou o outro, voltando a atenção para duas jovens que acabavam de entrar na sala, cada uma com uma pesada partitura na mão. “Se o senhor me dá licença, comissário, meus alunos estão começando a chegar, e logo vou começar a minha aula.”
“Naturalmente, professor”, disse Brunetti levantando-se e estendendo-lhe a mão. “Muito obrigado pela atenção e pela ajuda.”
O outro murmurou alguma coisa em resposta, porém Brunetti teve a impressão de que a atenção do professor se voltara completamente para seus alunos. Ele saiu da sala, desceu os grandes degraus, chegando ao campo San Stefano.
Era um campo pelo qual passava com bastante frequência, por isso ele conhecia não apenas muitas das pessoas que lá trabalhavam, nos bares e nas lojas, como até mesmo os cachorros que andavam e vagabundavam por ali. Aquecendo-se preguiçosamente ao pálido sol estava um buldogue branco e rosado cuja falta de focinho sempre causava um certo mal-estar em Brunetti. Havia também aquele animalzinho chinês esquisito, linguiça com pêlos, de uma feiúra tremenda. Por fim ele viu, refestelado na frente da loja de cerâmicas, o vira-lata preto que passava o dia inteiro tão imóvel que muita gente poderia tomá-lo por uma das cerâmicas postas à venda.
Brunetti resolveu tomar um café no Caffè Paolin. O estabelecimento ainda tinha mesas na calçada, mas as únicas pessoas que estavam nelas naquele dia eram estrangeiros, tentando desesperadamente convencer a si mesmos que estava quente o bastante para tomarem um cappuccino numa mesa ao ar livre. Os mais sensatos entravam no café.
Ele trocou um “bom-dia” com o garçom, que foi sensato o suficiente para não perguntar se tinha alguma novidade sobre o caso. Numa cidade onde não havia nenhum tipo de segredo, as pessoas tinham desenvolvido a capacidade de evitar perguntas diretas e se contentar com comentários banais. Brunetti sabia que, por mais que aquela história se arrastasse, nenhuma das pessoas com quem se encontrava naquele nível — garçons, jornaleiros, empregados de banco — iria lhe dizer uma palavra sobre o caso.
Depois de engolir seu espresso, ele se sentiu impaciente, mas não para ir almoçar, como parecia ser o caso de todos à sua volta. Ligou para o escritório e lhe disseram que o senhor Padovani ligara e deixara um nome e um endereço para ele. Nenhum recado, só o nome: Clemenza Santina, e o endereço: Corte Mosca, Giudecca.
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