Morte no Teatro La Fenice

Donna Leon · Capítulo 25 de 25

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Morte no Teatro La Fenice

Capítulo 25

 

Às oito da manhã do dia seguinte, como lhe tinha sido ordenado, Brunetti colocou seu relatório na escrivaninha do vice-questore, onde o papel permaneceu até a chegada deste, logo depois das onze. Após atender a três telefonemas pessoais e ler o jornal de economia, o vice-questore dignou-se a ler o relatório e achou-o interessante e esclarecedor:

Minhas investigações me levaram a concluir que o maestro Helmut Wellauer tirou a própria vida porque estava ficando progressivamente surdo.

1. Nos últimos meses, sua audição se deteriorara a ponto de lhe restar apenas quarenta por cento da capacidade normal. (Ver entrevistas anexas com os doutores Steinbrunner e Treponti, bem como relatórios médicos igualmente anexos.)

2. Essa perda de audição dificultava, cada vez mais, o seu trabalho de maestro. (Ver entrevistas anexas com o professor Rezzonico e com o senhor Traverso.)

3. O maestro encontrava-se profundamente deprimido. (Ver entrevistas anexas com a senhora Wellauer e com a senhora Breddes.)

4. Ele tinha acesso ao veneno que foi usado. (Ver entrevistas com a senhora Wellauer e com o doutor Steinbrunner.)

5. O maestro declarou ser favorável à ideia do suicídio, caso não pudesse mais exercer o seu trabalho de músico. (Ver entrevista telefônica anexa com o doutor Steinbrunner e correspondência pessoal a ser encaminhada em breve.)

Considerando-se a importância dessas informações, além da exclusão de suspeitos que tivessem ao mesmo tempo motivos e oportunidade para cometer o crime, só posso concluir que o maestro resolveu suicidar-se motivado pela própria surdez.

Respeitosamente,

Guido Brunetti

Comissário de Polícia

“Suspeitei disso desde o início, naturalmente”, disse Patta a Brunetti, que atendera ao pedido de seu chefe para ir ao seu escritório discutir o caso. “Mas não quis dizer nada para não interferir nas suas investigações.”

“Foi muita bondade de sua parte”, disse Brunetti. “E muito inteligente.” Ele fitou a fachada da igreja de San Lorenzo, parte da qual podia ser vista por sobre os ombros de seu superior.

“Era inimaginável que alguém amante da música pudesse fazer uma coisa dessas.” Era evidente que Patta se incluía entre esses admiradores. “A esposa dele diz aqui...”, começou ele consultando o relatório — dessa vez Brunetti se concentrou no alfinete ornado de um pequeno diamante em forma de rosa que Patta usava em sua gravata vermelha —, “... que ele estava ‘visivelmente perturbado’.” Essa referência convenceu Brunetti de que Patta realmente lera o relatório, acontecimento absolutamente raro. “Por mais revoltante que seja o comportamento dessas duas mulheres”, continuou Patta, fazendo com a boca um pequeno gesto de censura a algo que não constava do relatório, “nenhuma das duas tinha o perfil psicológico de um assassino.” Seja lá o que isso fosse.

“E a viúva... impossível, ainda que seja estrangeira.” Aqui, Patta deu-se ao trabalho de explicar, embora Brunetti não tivesse pedido nenhum esclarecimento. “Nenhuma mãe poderia ter agido com tal sangue-frio. Há nelas um instinto que as impede de fazer esse tipo de coisa.” Ele sorriu, satisfeito com a agudeza de sua observação, e Brunetti também sorriu, contente de ouvi-la.

“Hoje almoço com o prefeito”, disse Patta em tom indiferente, como se aquilo fizesse parte de sua rotina, “e vou expor-lhe os resultados de nossa investigação.” Ouvindo aquele plural, Brunetti teve certeza de que no almoço com o prefeito ele voltaria para o singular, mas não na terceira pessoa.

“E só isso, senhor?”, perguntou polidamente Brunetti.

Patta levantou os olhos do relatório, que parecia estar decorando. “Sim, é só isso.”

“E o procuratore? O senhor o informará também?”, perguntou Brunetti, esperando que Patta se encarregasse também dessa tarefa, conferindo, assim, o peso de sua autoridade a todas as recomendações, feitas ao corregedor, para que se encerrasse o caso.

“Sim, eu me encarrego disso.” Pela expressão do rosto de Patta, Brunetti percebeu que seu chefe estava considerando a possibilidade de convidar o corregedor para almoçar com o prefeito, mas depois decidiu não fazer isso. “Vou providenciar isso quando voltar do almoço com Sua Excelência.” Isso, pensou Brunetti, lhe permitiria brilhar em duas cenas, em vez de uma.

Brunetti levantou-se. “Então vou voltar ao meu escritório, senhor.”

“Sim, sim”, murmurou Patta um tanto alheio, ainda absorvido na leitura.

“E, comissário”, disse Patta às suas costas.

“Sim, senhor”, respondeu Brunetti, voltando-se e rindo enquanto pensava nas condições da aposta daquele dia.

“Obrigado por sua ajuda.”

“Não há de quê, senhor”, disse, decidindo que uma dúzia de rosas vermelhas seria bastante.

Sete meses depois, chegou uma carta para Brunetti endereçada à Questura. Chamaram-lhe a atenção os selos, dois retângulos lilases enquadrados por uma caligrafia delicada e sob as quais se lia: People’s Republic of China . Ele não conhecia ninguém na China.

Não havia o endereço do remetente no envelope. Brunetti o abriu e nele encontrou uma foto polaroide de uma coroa ornada de joias. Não se podia calcular o tamanho, mas, se fosse destinada a uma cabeça humana, as pedras que circundavam a joia central deviam ser do tamanho de ovos de pomba. Rubis? Nenhuma outra pedra de que conseguia se lembrar se parecia tanto com sangue. A pedra central, maciça e quadrada, só podia ser um diamante.

Ele virou a foto e leu no verso: “Aqui está uma parte da beleza para a qual eu voltei”. Estava assinado: “B. Lynch”. Não havia nenhuma outra mensagem. Nada mais no envelope.

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REGINE MOSIMANN / DIOGENES VERLAG AG ZÜRICH

 

DONNA LEON nasceu em New Jersey, em 1942, e desde 1981 vive na Itália. Foi professora de literatura inglesa e norte-americana na extensão italiana da Universidade de Maryland. A série Guido Brunetti é best-seller internacional, e já lhe valeu diversos prêmios, como o Suntory de melhor romance policial, por Morte no teatro La Fenice, também publicado no Brasil pela Companhia das Letras (2000).

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