Morte no Teatro La Fenice

Donna Leon · Capítulo 15 de 25

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Morte no Teatro La Fenice

Capítulo 15

 

No barco que o levava de volta à ilha principal, Brunetti tentou pensar em quem poderia lhe explicar o que acontecera entre a cantora e Wellauer. E entre ele e a irmã dela. O nome que lhe ocorreu foi o de Michele Narasconi, um amigo seu que morava em Roma e que conseguia viver de seus escritos sobre música e sobre viagens. O pai de Michele, agora aposentado, desenvolvera o mesmo tipo de atividade, porém com muito mais sucesso. Durante duas décadas ele fora o principal cronista de frivolidades da Itália, uma nação com uma extraordinária demanda desse tipo de informação. O velho escrevera, durante anos, colunas semanais em Gente e Oggi, e milhões de leitores esperavam ansiosos seus informes (veracidade era o que menos importava) sobre os vários escândalos da família Savoia, estrelas do palco e da tela, e o cortejo interminável de príncipes de segunda ordem que insistiam em migrar para a Itália antes e depois de abdicarem. Embora não soubesse ao certo o que estava procurando, Brunetti sabia que o pai de Michele era a pessoa que devia ser consultada.

Brunetti esperou chegar ao seu escritório para fazer a ligação. Fazia tanto tempo que não falava com Michele que teve que pedir o número à telefonista. Enquanto o telefone chamava, ele pensava em como perguntar o que queria sem ofender o amigo.

“Pronto. Narasconi”, atendeu uma voz feminina.

“Ciao, Roberta”, disse ele. “Aqui é Guido.”

“Oh, Guido, é tão bom falar com você novamente. Como vai você? E Paola? E as crianças?”

“Estamos todos bem, Roberta. Ouça, Michele está aí?”

“Sim, espere um pouco que vou chamá-lo.” Ele ouviu o ruído surdo do fone sendo colocado de lado e a voz dela chamando o marido. Seguiram-se vários ruídos e depois a voz de Michele. “Ciao, Guido. Como vai, o que você deseja?” O riso que se seguiu à pergunta eliminava qualquer possibilidade de malícia.

Brunetti decidiu não gastar tempo e energia com rodeios. “Michele, desta vez preciso apelar para a memória de seu pai. É uma coisa muito antiga para a sua. Como está ele?”

“Continua trabalhando. A rai quer que ele escreva um programa sobre os primeiros tempos da televisão. Se ele escrever, eu o aviso para que possa ver. O que você quer saber?” Repórter por instinto e por profissão, Michele não perdia tempo.

“Quero saber se ele se lembra de uma cantora de ópera chamada Clemenza Santina. Ela atuou antes da guerra.”

Michele deu um curto assobio. “O nome me parece familiar, embora eu não saiba por quê. Se for da época da guerra, com certeza meu pai vai lembrar.”

“Havia duas outras irmãs. As três eram cantoras”, explicou Brunetti.

“Sim. Agora estou lembrando. As Cantoras Cs, ou as Belas Cs; uma coisa assim. O que quer saber sobre elas?”

“Qualquer coisa, qualquer coisa de que ele se lembre.”

“Tem a ver com o caso Wellauer?”, perguntou Michele, com uma intuição que raramente falhava.

“Sim.”

Dessa vez, Michele deu um longo assobio. “É você que está com o caso?”

“Sim.”

Mais um assobio. “Não o invejo, Guido. A imprensa vai comer você vivo se não descobrir o autor do crime. Escândalo na República. Crime contra a Arte. Toda essa conversa.”

Brunetti, que havia três dias só ouvia aquilo, disse simplesmente: “Eu sei”.

A resposta de Michele foi imediata. “Desculpe, Guido, desculpe. O que quer que pergunte a meu pai?”

“Se na época correu algum boato sobre um incidente envolvendo Wellauer e as irmãs.”

“O tipo de coisa que costumam comentar?”

“Sim, ou qualquer outro boato. Na época ele estava casado. Não sei se isso é importante.”

“Com a tal que se suicidou?” Então Michele também lera os jornais.

“Não; essa foi a segunda. Ele ainda estava casado com a primeira. E seria bom se seu pai se lembrasse de alguma coisa sobre essa história também. Mas tudo isso aconteceu antes da guerra, em 38, 39.”

“Ela não teve uns problemas políticos? Insultou Hitler ou algo assim?”

“Mussolini. Ela ficou em prisão domiciliar durante a guerra. Se ela tivesse insultado Hitler, teria sido morta. Quero saber como eram suas relações com Wellauer. E, se possível, as das irmãs também.”

“É urgente, Guido?”

“Muito.”

“Bem. Encontrei papai hoje de manhã, mas posso ir vê-lo à noite. Ele vai ficar muito contente. Vai se sentir importante por recorrerem à sua memória. Você sabe como ele gosta de falar sobre o passado.”

“Sim, eu sei. Foi a única pessoa que me ocorreu, Michele.”

Seu amigo sorriu a esse comentário. Lisonja é sempre lisonja, e não importa se é verdadeira ou não. “Vou dizer isso a ele, Guido.” Depois, parando de sorrir, ele perguntou: “E quanto a Wellauer?”. Isso era o máximo que Michele se permitia perguntar.

“Nada ainda. Havia mais de mil pessoas no teatro na noite em que aconteceu.”

“Há alguma relação com a história de Santina?”

“Não sei, Michele. Não posso saber até ouvir o que o seu pai tem a dizer.”

“Muito bem. Ligo para você hoje à noite depois de falar com ele. Com certeza vai ser tarde da noite. Posso ligar?”

“Sim. Vou estar em casa. Ou então Paola. E obrigado, Michele.”

“Por nada, Guido. Além do mais, papai vai ficar orgulhoso por você ter se lembrado dele.”

“Ele é o único.”

“Não vou esquecer de dizer a ele.”

Nenhum dos dois se deu ao trabalho de dizer que precisavam se encontrar; nenhum dos dois tinha tempo de atravessar metade do país para ver um velho amigo. Em vez disso, eles se despediram e se desejaram boa sorte.

Quando terminou de falar com Michele, Brunetti se deu conta de que já era hora de voltar ao apartamento de Wellauer para ter a segunda conversa com a viúva. Ele deixou um recado para Miotti informando-o de que não voltaria ao escritório naquela tarde, rabiscou um pequeno relatório e pediu às secretárias que o deixassem na mesa de Patta às oito da manhã.

Ele chegou alguns minutos atrasado ao apartamento do maestro. Dessa vez ele foi recebido à porta pela criada, a mulher que estava no segundo banco da igreja na missa de corpo presente. Brunetti se apresentou, deu-lhe o casaco e perguntou-lhe se poderia trocar umas palavrinhas com ela depois de conversar com a signora. Ela balançou a cabeça e disse apenas “Si”, levando-o em seguida à sala onde conversara com a viúva dois dias antes.

Ela se levantou e atravessou a sala para vir apertar-lhe a mão. O tempo que se passara desde a primeira conversa em nada melhorara o seu aspecto, pensou Brunetti, observando as olheiras, a pele mais seca, mais áspera. Ela voltou ao lugar onde estava e Brunetti viu que não havia nada perto dela — nenhum livro, nenhuma revista, nenhuma costura. Ao que parecia, ela estivera sentada ali esperando a sua chegada, ou o futuro. Ela se sentou e acendeu um cigarro. Estendeu o maço para ele, oferecendo-lhe um. “Desculpe-me, esqueci que o senhor não fuma”, disse ela em inglês.

Ele se sentou na mesma cadeira em que sentara na primeira conversa, mas dessa vez não se deu ao trabalho de ficar fazendo cena com o bloco de notas. “Signora, preciso fazer-lhe algumas perguntas”, disse ele. Como a viúva não reagiu, continuou. “São perguntas delicadas e eu preferiria não ter que fazê-las, principalmente nas atuais circunstâncias.”

“Mas o senhor precisa das respostas, não é?”

“Sim.”

“Então, receio que tenha de fazê-las, dottor Brunetti.” Ele percebeu que ela estava sendo meramente literal, não severa, por isso não disse nada. “Por que o senhor precisa fazer essas perguntas?”

“Porque elas podem me ajudar a encontrar o responsável pela morte de seu marido.”

“E isso faz alguma diferença?”

“Faz diferença o quê, signora?”

“Quem matou meu marido.”

“Para a senhora não faz?”

“Não, não faz a menor diferença. Nunca fez. Ele está morto e não há como trazê-lo de volta. Que me importa quem fez isso e por que o fez?”

“A senhora não quer vingança?”, perguntou ele antes de lembrar-se de que ela não era italiana.

Ela inclinou a cabeça para trás e olhou-o através da fumaça do cigarro. “Ah, sim, comissário. Tenho um grande desejo de vingança. Sempre tive. Acho que as pessoas devem ser punidas pelo mal que fazem.”

“E isso não é o mesmo que vingança?”, perguntou ele.

“O senhor pode julgar melhor que eu, dottor Bru-netti.” Ela desviou os olhos do policial.

Antes de se dar conta, Brunetti falou impaciente. “Signora, eu gostaria de fazer algumas perguntas e gostaria de obter respostas francas.”

“Então faça suas perguntas que eu respondo.”

“Eu disse que queria respostas francas.”

“Está bem, então terá respostas francas.”

“Gostaria de saber a opinião de seu marido sobre certos tipos de comportamento sexual.”

A pergunta, não havia dúvida, surpreendeu-a. “O que quer dizer com isso?”

“Ouvi dizer que seu marido tinha aversão especial pelo homossexualismo.”

Brunetti teve a impressão de que não era esse tipo de pergunta que ela estava esperando. “Sim, ele tinha.”

“A senhora tem alguma ideia do porquê disso?”

Ela apagou o cigarro e recostou-se na cadeira, cru zando os braços. “O que é isso, psicologia? Daqui a pouco o senhor vai dizer que Wellauer era homossexual e que durante todos esses anos disfarçou a culpa do modo tradicional, odiando os homossexuais?” Brunetti já tinha visto esse fenômeno acontecer muitas vezes, porém não achava que fosse o caso de Wellauer, por isso não disse nada. Ela forçou um sorriso de desprezo àquela ideia. “Acredite-me, comissário, Wellauer não era o que o senhor pensa que ele era.”

Brunetti bem sabia que poucas pessoas são o que parecem. Ele ficou calado, esperando o que ela iria dizer em seguida. “Não nego que ele não gostava de homossexuais. Qualquer um que trabalhasse com ele iria notar. Mas não porque ele temesse isso em si mesmo. Estive casada com ele por dois anos, e não havia nada de homossexual nele, posso lhe garantir. Acho que era contra o homossexualismo porque este contraria o conceito que Wellauer tinha de ordem do universo, um ideal platônico de comportamento humano.” Brunetti já ouvira explicações mais estranhas que essa.

“Ele também odiava as lésbicas?”

“Sim, mas o homossexualismo masculino o incomodava mais, talvez porque o comportamento deles costume ser mais escandaloso. Se for preciso explicar, acho que ele tinha certa curiosidade erótica em relação às lésbicas, como muitos homens. Mas é uma coisa que nunca discutimos.”

Durante sua carreira, Brunetti falara com muitas viúvas, interrogara muitas, contudo poucas se mostraram tão objetivas em relação aos seus maridos como aquela mulher o fazia. Ele se perguntou se o motivo estava na própria viúva ou no homem cuja morte ela parecia não lamentar.

“Havia alguns homens, homossexuais, a quem ele detestasse especialmente?”

“Não”, respondeu ela imediatamente. “Ao que parece, isso dependia de com quem estava trabalhando na ocasião.”

“Ele tinha preconceito profissional contra eles?”

“Isso seria impossível nesse ambiente. Há homossexuais demais. Helmut não gostava deles, mas conseguia trabalhar com eles, quando necessário.”

“E, quando trabalhava com eles, dava-lhes um tratamento diferente do que dava às outras pessoas?”

“Comissário, espero que o senhor não esteja imaginando uma história de assassinato homossexual, alguém que matou Wellauer por causa de um comentário cruel ou de um contrato cancelado.”

“Houve gente que matou por muito menos.”

“Não vale a pena falar sobre isso”, respondeu ela secamente. “O senhor tem mais alguma pergunta a fazer?”

Brunetti hesitou, sentindo-se ele próprio constrangido com a pergunta que faria a seguir. Pensou com seus botões que era como um padre, um médico, e o que as pessoas lhe diziam não ia adiante, mas ele sabia que aquilo não era verdade. Sabia que não iria respeitar nenhuma confidencia, se esta pudesse levá-lo à pessoa que estava procurando.

“Minha próxima pergunta não é de ordem geral nem sobre as opiniões do maestro.” Ele fez uma pausa, na esperança de que ela compreendesse e tomasse a iniciativa de lhe dar algumas informações. Isso não aconteceu. “Refiro-me especificamente a suas relações com o seu marido. Elas tinham alguma peculiaridade?”

Brunetti notou que ela estava tentando controlar-se para não se levantar da cadeira. Ela passou o dedo médio pelo lábio inferior algumas vezes, o cotovelo apoiado no braço da cadeira. “Imagino que o senhor esteja se referindo às minhas relações sexuais com o meu marido.” Ele aquiesceu. “E suponho que podia ficar furiosa e perguntar o que o senhor quer dizer, sendo as coisas como são nos dias de hoje, com ‘peculiaridades’. Mas vou lhe dizer simplesmente que não, não havia nada de ‘peculiar’ em nossas relações sexuais, e é só isso que tenho a lhe dizer.”

Ela respondera a suas perguntas. Se lhe contara a verdade, era outra história, que ele preferiu deixar de lado por enquanto. “A senhora sabe se ele estava tendo problemas com algum cantor nesse espetáculo? Ou com qualquer outra pessoa que estava trabalhando nele?”

“Não mais que o de costume. Todos sabem que o diretor é homossexual e que corre o boato de que a soprano também é.”

“A senhora os conhece?”

“Nunca falei com Santore, a não ser para dizer bom dia nos ensaios. Flavia eu conheço, embora não muito bem. Encontrei-me com ela em festas e conversamos.”

“O que a senhora acha dela?”

“Acho que é uma cantora extraordinária! Helmut também achava isso”, respondeu ela, fingindo-se de desentendida.

“E pessoalmente?”

“Pessoalmente, acho que ela é encantadora. Talvez lhe falte um pouco de senso de humor, às vezes, mas é uma pessoa encantadora, com quem podemos conversar por horas. E é surpreendentemente inteligente. A maioria das cantoras não é.” Era evidente que ela continuava se fingindo de desentendida e só iria responder quando ele lhe perguntasse de forma direta.

“E os boatos?”

“Nunca achei que fossem importantes o suficiente para me dar ao trabalho de pensar sobre eles nem um minuto sequer.”

“E seu marido?”

“Acho que ele acreditava na história. Não, minto. Tenho certeza de que ele acreditava. Certa noite ele falou alguma coisa sobre isso. Não lembro o que disse exatamente, mas deixou bem claro que acreditava no que andavam dizendo.”

“Isso não bastou para convencer a senhora?”

“Comissário”, disse ela aparentando uma paciência exagerada, “acho que o senhor não entendeu o que estou dizendo. A questão não é saber se Helmut podia me convencer ou não da verdade desses boatos. A questão é que ele não conseguia me convencer de que aquilo tinha importância. Por isso esqueci a história até ainda pouco, quando o senhor me perguntou.”

Ele não deu nenhuma mostra de que concordava. Em vez disso, perguntou: “E Santore? Seu marido fez algum comentário especial sobre ele?”.

“Não que eu me lembre.” Ela acendeu mais um cigarro. “Esse é um assunto sobre o qual nunca chegamos a um acordo. Eu não tinha paciência com o preconceito dele, e ele sabia disso, por isso evitávamos, os dois, tocar no assunto. Helmut tinha tal consciência profissional que conseguia abstrair seus sentimentos pessoais. Era uma das coisas que eu amava nele.”

“A senhora lhe era fiel?”

Era uma pergunta que ela parecia esperar. “Sim, acho que sim”, respondeu, depois de um longo silêncio.

“Receio não saber como interpretar a sua resposta, senhora”, disse Brunetti.

“Isso vai depender do que o senhor entende por ‘fiel’.”

Sim, ele também achava, mas achava também que o sentido da palavra era relativamente claro, mesmo na Itália. De repente, Brunetti se sentiu muito cansado de tudo aquilo. “A senhora manteve relações sexuais com outra pessoa enquanto esteve casada com ele?”

Sua resposta foi imediata. “Não.”

Brunetti sabia o que era esperado dele, por isso perguntou: “Então por que falou que ‘acha’ que sim?”.

“Por nada. Eu simplesmente estava cansada de perguntas previsíveis.”

“E eu, de respostas imprevisíveis”, retrucou ele.

“Sim. Imagino que o senhor devia estar mesmo.” Ela sorriu, dando-lhe uma trégua.

Como ele não estava usando o truque do bloco de notas, não podia indicar que a conversa terminara colocando-o no bolso. Levantou-se então e disse: “Há mais uma coisa”.

“Sim?”

“Os documentos dele foram devolvidos ontem de manhã. Gostaria que me permitisse dar mais uma olhada neles.”

“Não foi para isso que os senhores os levaram?”, per guntou ela, sem fazer o menor esforço para esconder sua irritação.

“Houve um engano na Questura. Os tradutores os examinaram, mas os devolveram antes que eu pudesse examiná-los. Peço-lhe desculpas pelo incômodo, mas gostaria, se possível, de examiná-los agora. Gostaria também de falar com a sua criada. Falei com ela rapidamente quando cheguei, mas gostaria de lhe fazer algumas perguntas.”

“Os documentos de Helmut estão em seu escritório. É a segunda porta à esquerda.” Ela preferiu fingir não ter ouvido a pergunta dele sobre a criada e permaneceu sentada, sem se dar ao trabalho de estender-lhe a mão. Ficou observando-o enquanto ele saía da sala, depois continuou a esperar o futuro.

Brunetti entrou no corredor e chegou à porta que ela lhe indicara. A primeira coisa que viu quando entrou na sala foi o envelope pardo da Questura, colocado sobre a escrivaninha, fechado, ainda cheio de documentos. Sentou-se à escrivaninha e puxou o envelope para perto de si. Só então olhou pela janela e observou a paisagem que se descortinava dali. A distância, divisava o altivo campanário de San Marcos e, à sua esquerda, a fachada severa do La Fenice. A custo ele desviou a atenção da janela e abriu o envelope.

Brunetti deixou de lado os documentos, cuja tradução já lera. Ele sabia tratar-se de contratos, cartas de fiança, projetos de gravações, que considerou sem importância para o caso.

Tirou três fotografias de um envelope. Como era de se esperar, o relatório que ele leu não fazia nenhuma menção às fotos, provavelmente porque nada estava escrito nelas. A primeira era de Wellauer e de sua mulher, tirada num lago. Eles estavam corados e saudáveis, e Brunetti teve que fazer um esforço para se lembrar de que o maestro tinha mais de setenta anos quando a fotografia foi tirada, porque, pensava, Wellauer não parecia muito mais velho que ele próprio. A segunda fotografia era de uma menina de pé ao lado de um pônei nédio, de aspecto dócil. Ela segurava as rédeas do cavalo com uma das mãos e um dos pés estava erguido, a meio caminho entre o chão e o estribo. Sua cabeça estava virada de forma um tanto desajeitada, pois certamente fora chamada pelo fotógrafo no momento em que estava prestes a montar. Era alta, esguia e tinha os mesmos cabelos loiros da mãe, descendo-lhe em duas longas trancas sob o boné de equitação. Pega de surpresa, ela não teve tempo de sorrir e parecia estranhamente sombria.

A terceira fotografia era dos três juntos. A menina, quase tão alta quanto a mãe, mas parecendo pouco graciosa mesmo naquela pose simples, estava no centro, os adultos um pouco atrás, enlaçando-se com os braços. A menina parecia um pouco mais nova que na outra foto. Os três sorriam sem naturalidade para a câmera.

O último objeto contido no envelope era uma agenda encadernada em couro, com o ano gravado em ouro na capa. Brunetti a abriu e folheou. Os nomes dos dias estavam escritos em alemão, e sob muitos deles liam-se anotações naquela letra gótica angulosa que ele lem brava ter visto na partitura da Traviata. A maioria das anotações eram nomes de lugares e de óperas ou programas de concertos: “Salz—dg”; “Viena —Bailo”; “Bonn—Moz 40”; “Ldn—Cosi”. Outras pareciam ser notas pessoais ou, pelo menos, sem relação com música: “Von S — 5 da tarde”; “Erich & H — 8”; “D&G chá — Demel — 4”.

Partindo da data da morte do maestro, ele foi voltando as páginas que cobriam um total de três meses. Ele tinha uma agenda tão carregada que poderia exaurir um homem com metade da idade de Wellauer, uma lista de compromissos que ia ficando cada vez mais densa à medida que recuava no tempo. Interessado nesse aumento gradual, Brunetti abriu a agenda na parte referente a agosto e passou a ler daí por diante; dessa forma, viu a tendência de forma invertida, uma diminuição gradual no número de jantares, de chás, de almoços. Pegou uma folha de papel de uma das gavetas da escrivaninha e logo montou um pequeno quadro: compromissos pessoais à direita, música à esquerda. Em agosto e setembro, exceto num período de duas semanas, em que não havia quase nenhuma anotação, houve certo tipo de compromisso quase diariamente. Em outubro, o número começou a decrescer e perto do final do mês quase não havia nenhum compromisso social. Mesmo os compromissos profissionais se reduziram de pelo menos dois por semana para apenas um ou dois em algumas semanas.

Ele pulou para o ano seguinte, que Wellauer nunca iria ver, e descobriu uma anotação para o final de janeiro. “Ldn — Cosi.” O que chamou a atenção de Brunetti foi a pequena marca depois do nome da ópera. Era um ponto de interrogação ou apenas um acento mal grafado?

Brunetti pegou outra folha de papel e fez uma segunda lista, dessa vez com as notas pessoais, a partir do mês de outubro. Para o dia seis: “Erich & H — 9 da noite.” Já familiarizado com aqueles nomes, conseguia entender a anotação. Para o dia sete: “Erich — 8 da manhã”. Dia quinze: “Petra & Nicolai — 8 da noite”, e depois não havia nada até o dia 27, onde se lia a anotação “Erich — 8 da manhã”. Parecia-lhe um horário esquisito para encontrar um amigo. A última anotação desse tipo foi feita dois dias antes de eles viajarem para Veneza: “Erich — 9 da manhã”.

E era só isso, exceto pela anotação que Brunetti leu referente ao dia 13 de novembro: “Veneza — Trav”.

Brunetti fechou a agenda e recolocou-a no envelope, junto com as fotografias e documentos, dobrou os papéis onde fizera suas anotações e voltou à sala onde ficara a sra. Wellauer. Ela estava no mesmo lugar, sentada em frente à lareira, fumando.

“O senhor acabou?”, perguntou ela, quando ele entrou.

“Sim, terminei.” Ainda segurando os papéis, ele disse: “Folheando a agenda de seu marido, observei que nos últimos meses ele teve muito menos atividades que no passado. Havia um motivo especial para isso?”.

Ela pensou um pouco antes de responder. “Helmut disse que estava se sentindo cansado, que já não tinha a energia de antes. Encontrávamos alguns amigos, mas não tanto como antes, como o senhor notou. Porém nem tudo o que fazíamos estava registrado na agenda.”

“Eu não sabia disso. Mas estou interessado nessa sua mudança. A senhora não disse nada sobre isso quando lhe perguntei sobre ele.”

“Como o senhor deve lembrar, comissário, o senhor me perguntou sobre as minhas relações sexuais com meu marido. Infelizmente, elas não estão registradas na agenda.”

“Observei que o nome Erich aparece com grande frequência.”

“E por que isso pode ser importante?”

“Eu não disse que é importante, signora; eu simplesmente disse que o nome aparece regularmente nos últimos meses de vida de seu marido. Ele aparece quase sempre junto com a inicial ‘H’, mas também sozinho.”

“Eu lhe disse que nem todos os nossos compromis sos eram anotados na agenda.”

“Mas esses eram importantes o bastante para que seu marido os anotasse. Pode me dizer quem é esse Erich?”

“É Erich. Erich e Hedwig Steinbrunner. Eram os amigos mais antigos de Helmut.”

“E não da senhora?”

“Eles se tornaram meus amigos, mas Helmut os conhecia há mais de quarenta anos e eu, apenas há dois anos, por isso os considero mais amigos de Helmut que meus.”

“Entendo. A senhora poderia me dar o endereço deles?”

“Comissário, não sei em que isso pode ser importante.”

“Eu lhe expliquei por que penso que é importante. Se a senhora não deseja me dar o endereço, tenho certeza de que há outros amigos de seu marido que podem fornecê-lo.”

Ela deu um nome de rua e explicou que ficava em Berlim, depois esperou enquanto ele pegava a caneta, colocando-a sobre a folha que tinha na mão. Quando Brunetti estava pronto para anotar, ela ditou devagar, soletrando cada palavra, inclusive o Strasse. Ele achou que foi uma forma um tanto excessiva de salientar sua estupidez.

“É só isso?”, perguntou ela quando ele terminou de anotar.

“Sim, signora. Muito obrigado. Agora posso falar com sua criada?”

“Não vejo em que isso poderia ajudar.”

Ele ignorou o comentário. “Ela está aqui no apartamento?”

Sem dizer nada, a sra. Wellauer ficou de pé e foi até um canto da sala onde havia uma cordinha pendendo da parede. Ela a puxou, ainda calada, e foi se postar em frente à janela que dava para os telhados da cidade.

Logo depois, a porta se abriu e a criada entrou na sala. Brunetti esperou que a signora Wellauer dissesse alguma coisa, no entanto ela permaneceu rígida, em frente à janela, ignorando ambos. Sem outra escolha, Brunetti falou de modo que ela ouvisse o que dizia à criada. “Senhora Breddes, se possível, gostaria de lhe falar.”

A criada aquiesceu, mas não disse nada.

“Talvez pudéssemos ir ao escritório do maestro”, disse ele, mas a viúva continuou firme, recusando-se a arredar o pé da janela. Brunetti foi até a porta e fez sinal para que a criada entrasse antes dele. Ele tomou o corredor, dirigindo-se ao já então conhecido escritório. Uma vez neste, fechou a porta e indicou uma cadeira à criada. Ela se sentou, e ele retomou a cadeira que usara enquanto examinava os documentos.

Ela devia estar na casa dos cinquenta anos e usava uma roupa preta que tanto poderia ser um uniforme como um sinal de luto. O comprimento da saia, que ia até metade da perna, estava fora de moda, e o corte salientava-lhe a magreza do corpo, a estreiteza dos ombros, o peito chato. O rosto combinava perfeitamente com o corpo, os olhos demasiado pequenos e o nariz grande demais. Ela lhe lembrava, sentada tesa na beira do assento, uma daquelas aves marinhas pernaltas e de bico longo que costumavam pousar nos pilares que margeiam os canais.

“Gostaria de lhe fazer algumas perguntas, senhora Breddes.”

“Senhorita”, corrigiu ela automaticamente.

“Acho que não há problema em falarmos em italiano, não é?”

“Claro que não. Faz dez anos que moro aqui.” Ela disse isso como se a pergunta a tivesse ofendido.

“Por quanto tempo a senhorita trabalhou para o maestro?”

“Vinte anos. Dez na Alemanha e agora dez anos aqui. Quando o maestro comprou o apartamento aqui, ele me chamou para cuidar dele. Concordei. Eu seria capaz de ir a qualquer lugar pelo maestro.” Pela maneira como falou, Brunetti imaginou que ela considerava viver num apartamento de dez aposentos em Veneza uma espécie de sacrifício a que se submetia apenas por causa de sua dedicação ao patrão.

“A senhorita é a responsável por esta casa?”

“Sim. Estou aqui praticamente desde que ele o comprou. Ele veio e deu instruções sobre os móveis e os quadros. Eu fiquei encarregada de organizar tudo e de cuidar da casa na sua ausência.”

“E quando ele estava aqui?”

“Era eu quem cuidava também.”

“Com que frequência ele vinha a Veneza?”

“Duas ou três vezes por ano. Raramente mais que isso.”

“Ele vinha a trabalho? Para reger?”

“Às vezes. Mas vinha também para visitar amigos, a bienal.” Ela falava como se aquilo tudo não passasse de frivolidades.

“Quando ele estava aqui, quais eram as suas respon sabilidades?”

“Eu cozinhava, mas quando havia festas vinha um cozinheiro italiano. Escolhia as flores. Supervisionava o trabalho das criadas. Elas são italianas.” Isso, pelo que Brunetti entendeu, explicava a necessidade de supervisão.

“Quem fazia as compras da casa? A comida? Os vinhos?”

“Quando o maestro estava aqui, eu programava as refeições e mandava as empregadas todos os dias a Rialto para comprar legumes frescos.”

Brunetti considerou que ela já estava pronta para ouvir as perguntas que realmente interessavam. “Quer dizer então que quando o maestro se casou a senhora já trabalhava para ele aqui?”

“Sim.”

“Isso provocou alguma mudança? Quer dizer, quando ele vinha a Veneza.”

“Não sei o que o senhor quer dizer”, disse ela, embora fosse evidente que sabia.

“Na administração da casa. Suas responsabilidades mudaram depois que o maestro se casou?”’

“Não. Às vezes a signora cozinhava, mas não era muito frequente.”

“Mais alguma coisa?”

“Não.”

“A presença da filha da signora trouxe algum problema para a senhorita?”

“Não. Ela comia muita fruta. Mas não causava nenhum problema.”

“Entendo, entendo”, disse Brunetti, pegando um pedaço de papel do bolso e rabiscando distraidamente algumas palavras. “Diga-me, senhorita Breddes, durante as duas últimas semanas em que o maestro esteve aqui a senhorita notou alguma coisa... Bem, alguma diferença em seu comportamento, alguma coisa que lhe chamou a atenção por ser especial?”

Ela permaneceu calada, as mãos cruzadas no regaço. Por fim, falou: “Não estou entendendo”.

“Ele lhe pareceu um tanto estranho?” Silêncio. “Bem, se não um tanto estranho”, e Brunetti sorriu, como se quisesse fazê-la entender como aquilo era difícil para ele, “um pouco diferente, fora do normal.” Como ela continuasse calada, ele acrescentou: “Tenho certeza de que a senhorita deve ter notado alguma coisa, pois conhecia o maestro há muito tempo e com certeza estava mais familiarizada com ele que qualquer outra pessoa da casa”. Era uma lisonja bem pouco discreta, porém isso não queria dizer que o truque não fosse funcionar.

“O senhor quer dizer em relação ao trabalho?”

“Bem”, principiou ele, com um sorriso de cumplicidade, “podia ser em relação ao trabalho ou em relação a qualquer coisa. Talvez alguma coisa pessoal, algo que não tivesse a ver com a carreira dele ou com a música. Como lhe disse, tenho certeza de que a sua familiaridade com o maestro lhe permitiria notar alguma coisa desse tipo.”

Observando a isca balançando em frente a ela, Brunetti resolveu aproximá-la ainda mais. “Como a senhora o conhecia há tanto tempo, pode ter notado coisas que a outros passariam despercebidas.”

“Sim, é verdade”, admitiu. Ela passou nervosamente a língua pelos lábios, aproximando-se um pouco mais da isca. Ele ficou calado, imóvel, para não agitar a água. A mulher começou a mexer maquinalmente num dos botões de sua roupa, puxando-o para a frente e para trás, num movimento semicircular. Por fim resolveu falar. “Havia alguma coisa, mas não sei se é importante.”

“Bem, talvez seja. Lembre-se, senhorita, qualquer coisa que me disser pode ser útil ao maestro.” Algo lhe dizia que ela ficaria cega à estupidez daquela afirmação. Ele pôs a caneta sobre a escrivaninha, cruzou as mãos, como um padre, e esperou que ela falasse.

“Havia duas coisas. Desde que ele chegou, desta última vez, parecia cada vez mais distraído, como se seus pensamentos estivessem em outro lugar. Não, não é bem isso. Era como se ele não se importasse mais com o que se passava à sua volta.” Sua voz sumiu, podia-se perceber que não estava satisfeita.

“Talvez a senhorita possa me dar um exemplo desse comportamento”, disse ele encorajando-a.

Ela balançou a cabeça, pois não gostara nada da ideia. “Não, não estou falando direito. Não sei como explicar. Antigamente, ele me perguntava o que se passara enquanto ele esteve fora, perguntava sobre a casa, sobre as empregadas, sobre o que eu tinha que fazer.” Será que ela estava corando? “O maestro sabia que eu gosto de música, que eu ia a concertos e óperas quando ele estava fora, e sempre queria saber o que eu tinha visto e ouvido. Mas desta vez, quando ele chegou, não aconteceu nada disso. O maestro disse olá quando chegou, perguntou como eu estava, mas não pareceu se impor tar com o que eu lhe disse. Várias vezes — não, foi só uma vez — tive que ir ao seu escritório perguntar a que horas queria que o jantar fosse servido. Ele tinha ensaio naquela tarde e eu não sabia a que horas devia acabar, por isso fui ao escritório para perguntar. Eu bati e entrei, da forma como sempre fiz. No entanto ele me ignorou, fingiu que não me viu e me fez esperar alguns minutos enquanto terminava de escrever. Não sei por que fez isso, mas ele me deixou ali esperando, como um serviçal. Finalmente, fiquei tão sem jeito que queria sumir dali. Depois de vinte anos de serviço, ele não podia fazer aquilo comigo. Ficar ali esperando feito um criminoso na frente do juiz.” Enquanto ela falava, Brunetti viu seus olhos se inflamarem à lembrança da humilhação.

“Por fim, quando me voltei para deixar o escritório, ele levantou os olhos e agiu como se só então tivesse me visto. Como se tivesse aparecido de repente para lhe fazer uma pergunta. Perguntei-lhe quando estaria de volta para o jantar. Receio que tenha falado em tom de raiva. Levantei a voz para ele, pela primeira vez em vinte anos. Mas ele ignorou isso e me disse simplesmente a que horas pretendia voltar. Acho que então se arrependeu da maneira como tinha me tratado, porque me disse que as flores que eu escolhera eram muito bonitas. Ele sempre gostava de ter flores na casa quando estava aqui.” Sua voz sumiu, pela segunda vez; depois ela deu uma informação despropositada. “Quem nos fornece as flores é Biancat. Vêm do outro lado do Grand Canal.”

Brunetti não sabia se estava ouvindo uma história de humilhação ou de dor, ou de ambas. Ser criada durante vinte anos é certamente conquistar o direito de não ser tratada como uma criada.

“Houve outras coisas também, mas não prestei muita atenção a elas na ocasião.”

“Que coisas?”

“Ele parecia...”, disse ela, procurando uma maneira de contar sem dizer algo que lhe ocorrera. “Ele parecia mais velho. É verdade que já não o encontrava havia um ano, porém ele parecia muito mais velho. Ele sempre parecera tão jovem, tão cheio de vida... Mas desta vez ele parecia um velho.” Para demonstrar o que acabara de dizer, ela acrescentou: “Ele começou a usar óculos, mas não para ler”.

“Isso lhe pareceu estranho, senhorita?”

“Sim. As pessoas de minha idade geralmente começam a usar óculos para ler, para ver de perto, mas o maestro não os usava para leitura.”

“Como a senhorita sabe?”

“Porque às vezes eu levava chá para ele à tarde e o encontrava lendo, mas sem os óculos. Quando ele me via, os colocava, ou simplesmente fazia um sinal para que eu deixasse a bandeja, como se não quisesse ser incomodado ou interrompido.” Ela parou.

“A senhorita falou que havia duas coisas. Pode me dizer qual era a outra?”

“Acho que é melhor não dizer”, ela respondeu nervosamente.

“Se não for importante, será esquecida. Mas, se for, pode nos ajudar a descobrir o culpado.”

“Eu não tenho certeza; não tenho nenhuma certeza”, disse ela fraquejando. “É só uma coisa que tive a impressão de sentir. Entre eles.” A maneira como ela pronunciou a última palavra não deixava a menor dúvida sobre quem eram “eles”. Brunetti não disse nada, decidido a esperar que ela abrisse o jogo.

“Desta vez eles estavam diferentes. Antes, estavam sempre... não sei como dizer. Ficavam juntos, sempre juntos, falando, dividindo as coisas, se tocando.” O tom de voz mostrava o quanto ela desaprovava a forma como as pessoas casadas se comportam. “Mas desta vez, quando chegaram, eles estavam diferentes um com o outro. Nada que uma pessoa de fora pudesse notar. Continuavam muito gentis um com o outro, mas não se tocavam mais, como faziam antes, quando não havia ninguém vendo.” Entretanto, ao que parece, ela sim. A criada olhou para ele. “Mas acho que nada disso tem importância.”

“Eu acho que sim, senhorita. A senhorita tem alguma ideia da causa dessa frieza entre eles?”

Brunetti viu a resposta, ou pelo menos a possibilidade de uma resposta, brilhar nos olhos dela, porém imediatamente sumiu. Ele se perguntou se ela se dera conta de que seus olhos a haviam traído. “A senhorita não tem nenhuma ideia?”, insistiu, compreendendo imediatamente que tinha ido longe demais.

“Não, nenhuma.” Ela balançou a cabeça negativamente, como para se livrar daquilo de uma vez por todas.

“A senhorita sabe se alguma outra criada pode ter notado isso?”

Ela se empertigou na cadeira. “Esse não é o tipo de assunto que eu discutiria com criadas.”

“Sim, claro, claro”, murmurou ele. “Eu não quis insinuar isso.” Dava para perceber que a criada já estava começando a se arrepender do que dissera. Era melhor minimizar o que ela dissera para que não hesitasse em repeti-lo, caso fosse necessário, ou acrescentar mais alguma coisa, se é que ainda era possível. “Aprecio muito o que me contou, senhorita. Isso confirma o que já sabia de outras fontes. Creio que nem é preciso dizer que tudo o que foi dito vai ser tratado como algo estritamente confidencial. Se a senhorita se lembrar de mais alguma coisa, ligue-me na Questura, por favor.”

“Não quero que o senhor pense...”, principiou ela, mas não conseguiu achar uma palavra que definisse o que acabara de fazer.

“Pode ficar certa de que só penso que a senhorita continua sendo leal ao maestro.” Como aquilo era verdade, era o mínimo que Brunetti podia lhe oferecer. As linhas do seu rosto se suavizaram um pouco. Ele se levantou e estendeu-lhe a mão. A dela era pequena, de passarinho, surpreendentemente frágil. Ela o conduziu pelo corredor à porta do apartamento, desapareceu por um momento e voltou com o casaco dele.

“Diga-me, senhorita, quais são os seus planos agora? Vai ficar em Veneza?”

Ela olhou para o policial como se ele fosse um louco que a tivesse parado na rua. “Não. Pretendo voltar para Ghent o mais rápido possível.”

“A senhorita tem uma ideia de quando vai partir?”

“A senhora Wellauer precisa decidir o que vai fazer com o apartamento. Vou ficar até ela fazer isso, depois vou para minha terra natal.” Dizendo isso, ela lhe abriu a porta e fechou-a silenciosamente atrás dele. Enquanto descia os degraus, Brunetti parou no primeiro patamar e olhou pela janela. Ao longe, o anjo que fica no alto do campanário abria suas asas abençoando a cidade e todos os seus habitantes. Mesmo que se passe o exílio na mais bela cidade do mundo, pensou Brunetti, o exílio continua sendo exílio.

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