Morte no Teatro La Fenice

Donna Leon · Capítulo 22 de 25

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Morte no Teatro La Fenice

Capítulo 22

 

Ele chegou em casa antes das oito e ficou sabendo que Paola levara os filhos ao cinema. Ela deixara um bilhete dizendo que uma mulher telefonara duas vezes naquela tarde, mas não deixara o nome. Ele deu uma olhada na geladeira e encontrou apenas salame, queijo e um saquinho plástico com azeitonas pretas. Pôs tudo na mesa, depois foi pegar uma garrafa de vinho tinto e um copo. Jogou uma azeitona na boca, despejou vinho no copo e cuspiu o caroço na mão. Olhou em volta para tentar achar um lugar onde o colocar, enquanto comia outra azeitona. E mais uma. Finalmente, ele os colocou na lixeira que ficava debaixo da pia.

Cortou duas fatias de pão, pôs um pouco de salame entre uma e outra, e serviu-se de mais vinho. Havia um exemplar de Época em cima da mesa, que Paola com certeza estivera lendo. Brunetti se sentou, abriu a revista e mordeu o sanduíche. E o telefone tocou.

Ainda mastigando, andou devagar até a sala, esperando que o telefone parasse de tocar antes que o alcançasse. Ao sétimo sinal, ele pegou o fone e disse seu nome.

“Alô, aqui é Brett”, disse ela rapidamente. “Desculpe-me por ligar para sua casa, mas eu gostaria de falar com você. Se for possível.”

“É importante?”, perguntou ele, sabendo que era, uma vez que ela ligara, mas com a esperança de que não fosse.

“Sim. Trata-se de Flavia.” Disso ele também sabia. “Ela recebeu uma carta do advogado.” Nem era preciso perguntar do advogado de quem. “E nós conversamos sobre a discussão que ela teve com ele.” Este “ele” só podia ser Wellauer. Brunetti sabia que devia se oferecer para ir encontrá-la, porém não estava muito disposto a isso.

“Guido, está me ouvindo?” Ele sentiu a tensão em sua voz, da mesma forma como percebia o seu esforço para manter a calma.

“Sim. Onde você está?”

“Estou ligando de casa. Mas não posso falar com você aqui.” O leve tremor de sua voz fez com que de repente Brunetti quisesse encontrá-la.

“Escute, Brett. Conhece o Giro Bar, bem perto de Santa Marina?”

“Sim.”

“Encontro você lá daqui a quinze minutos.”

“Obrigada, Guido.”

“Quinze minutos”, repetiu ele e desligou. Ele rabiscou um recado para Paola, dizendo que saíra, e desceu as escadas comendo o resto do sanduíche.

O Giro era um lugar enfumaçado e sombrio, um dos poucos bares da cidade que ficavam abertos depois das dez da noite. Ele mudara de proprietário alguns meses antes e os novos donos tinham feito o possível para tornar o ambiente mais agradável, colocando cortinas brancas e música animada. Mas o resultado é que perdeu a característica de bar onde os amigos se encontram para tomar um café ou um drinque, sem conseguir se transformar num bar da moda. Não tinha nem charme nem classe, apenas vinhos caros demais e muita fumaça.

Brunetti a viu já ao entrar, sentada a uma mesa do fundo, olhando para a porta e por sua vez sendo observada por quatro rapazes que estavam de pé, no bar, bebendo vinho tinto em copos pequenos e conversando entre si em voz alta para impressioná-la. Brunetti se sentiu observado por eles quando se aproximou da mesa de Brett. O sorriso caloroso que ela lhe deu fez com que se sentisse satisfeito por ter vindo.

“Obrigada”, disse ela simplesmente.

“Fale-me da carta.”

Ela olhou para a mesa. Suas mãos, pousadas sobre esta, não se moveram dali enquanto durou seu relato. “É de um advogado de Milão, o mesmo que cuidou do divórcio. Ele diz que foi informado de que Flavia estava levando ‘uma vida imoral e contra a natureza’, os termos eram esses. Ela me mostrou a carta. ‘Uma vida imoral e contra a natureza.’” Brett olhou para ele e tentou sorrir. “Acho que se refere a mim, não é?” Ela levantou uma mão, cingindo o nada. “Não consigo acreditar nisso”, disse, balançando a cabeça de um lado para o outro. “Ele dizia que abririam um processo contra ela e pedir... e pediriam que os filhos voltassem à custódia do pai. A carta era um comunicado oficial de sua intenção.” Ela parou e cobriu os olhos com uma mão. “Eles estão nos comunicando oficialmente.” Brett cobriu a boca com a mão, como para reter as palavras. “Não, a nós, não. Comunicando a Flavia. O processo vai ser reaberto.”

Brunetti sentiu a aproximação de um garçom e fez um gesto vigoroso para que ele se afastasse. Quando o homem já estava a uma distância em que não podia ouvir o que diziam, perguntou: “O que mais?”. Ela tentou, como ele bem viu, fazer com que as palavras saíssem da boca, mas não conseguiu. Ela olhou para ele e lhe deu um sorriso nervoso, o mesmo que Chiara costumava dar quando fazia alguma coisa errada e não queria contar a ele.

Ela murmurou alguma coisa e abaixou a cabeça.

“Como, Brett? Não ouvi.”

Ela olhou para a mesa. “Eu tinha que contar a alguém. Não tinha mais ninguém.”

“Mais ninguém?” Ela passara boa parte da vida naquela cidade, e não havia ninguém a quem pudesse contar aquilo, apenas ao policial cujo trabalho era descobrir se ela amava uma assassina?

“Ninguém?”

“Eu não falei a ninguém sobre Flavia”, disse ela, mas desta vez sustentando o olhar. “Ela disse que não queria mexericos, que isso poderia prejudicar sua carreira. Nunca conversei com ninguém sobre ela. Sobre nós.” Naquele instante, Brunetti se lembrou do que Padovani dissera sobre a paixão de Paola por ele, de como contava para todos os amigos e não conseguia falar de outra coisa. A sociedade lhe permitia não apenas essa alegria, como também manifestá-la publicamente. E esta mulher estivera apaixonada, não podia haver dúvida quanto a isso, por três anos e não contara a ninguém. Exceto a ele. O policial.

“Seu nome foi citado na carta?”

Ela balançou a cabeça, negativamente.

“E quanto a Flavia. O que ela diz?”

Mordendo os lábios, ele levantou uma mão e apontou o próprio coração.

“Ela põe a culpa em você?”

Da mesma forma que Chiara, ela balançou a cabeça afirmativamente e passou as costas da mão no nariz. A mão ficou úmida e brilhante. Brunetti lhe passou o seu lenço e ela parecia não saber o que fazer com ele; ficou segurando-o na mão, as lágrimas escorrendo-lhe dos olhos, o nariz gotejando. Sentindo-se um pouco idiota, mas lembrando-se de que afinal de contas era pai de uma filha adolescente, pegou o lenço e passou delicadamente em seu rosto. Brett teve um sobressalto e tomou o lenço da mão dele. Ela enxugou as faces, assoou o nariz e pôs o lenço no próprio bolso; era o segundo que ele perdia naquela semana.

“Ela disse que a culpa era minha, que nada disso teria acontecido se não fosse por mim.” Falava com voz tensa, rouca. Fez uma careta. “O pior é que é verdade. Sei muito bem que de certa forma essa acusação é estúpida, mas do jeito como ela coloca as coisas sou obrigada a reconhecer que é verdade.”

“A carta dizia a origem da informação?”

“Não. Mas só pode ter sido Wellauer.”

“Ótimo.”

Ela o olhou surpresa. “Como ótimo? O advogado disse que vai pedir a revisão do processo. Toda a história vai vir a público.”

“Brett”, disse ele em tom calmo. “Pense um pouco. Se a testemunha dele era Wellauer, ele teria que testemunhar num tribunal. E, mesmo que estivesse vivo, ele nunca iria se envolver numa coisa desse tipo. É só uma ameaça.”

“Mas de qualquer forma, se o advogado entrar com uma ação...”

“Ele só está tentando amedrontar vocês. E veja como está conseguindo. Nenhum tribunal, mesmo um tribunal italiano, iria aceitar uma acusação na base do ouvi dizer, e essa carta não passa disso, sem que a pessoa que a escreveu possa apresentar provas.” Brunetti a observou enquanto ela considerava essa informação. “Não há nenhuma prova, há?”

“O que quer dizer com prova?”

“Cartas. Sei lá. Conversas.”

“Não, não há nada desse tipo. Nunca escrevi nada, nem mesmo da China. E Flavia está sempre ocupada demais para escrever.”

“E os amigos dela? Eles sabem?”

“Não sei. Não é um tipo de coisa que se goste de comen tar.”

“Então acho que vocês não têm com o que se preocupar.”

Brett tentou sorrir, tentou convencer-se de que de certa forma ele conseguira tirá-la do desespero, devolvendo-lhe a confiança. “É mesmo?”

“Sim”, disse ele sorrindo. “Eu convivo o tempo todo com advogados, e sei que o que este quer é apenas amedrontá-las e ameaçá-las.”

“Bem”, principiou ela dando um sorriso que se transformou num soluço, “com certeza ele conseguiu isso.” Depois, em voz mais baixa: “O filho da puta”.

Com isso, Brunetti pensou que já podia pedir dois conhaques, que o garçom se apressou em trazer. Quando a bebida chegou, Brett disse: “Ela foi horrível”.

Ele tomou um gole do conhaque e esperou que ela continuasse.

“Ela disse coisas horríveis.”

“Todo mundo faz isso às vezes.”

“Eu não”, replicou ela imediatamente, e Brunetti achou que ela falava a verdade, que usava a língua como um instrumento, e não como uma arma.

“Ela vai esquecer isso, Brett. As pessoas que falam esse tipo de coisa sempre esquecem.”

Ela deu de ombros, considerando isso irrelevante. Ela com certeza não iria esquecer.

“O que você vai fazer?”, perguntou ele, realmente interessado em saber.

“Vou para casa ver se Flavia está lá. Ver o que acontece.”

De repente Brunetti se deu conta de que nunca se preocupara em saber se Petrelli tinha sua própria casa na cidade, de que nunca investigara o seu comportamento antes ou depois da morte de Wellauer. Ele seria assim tão fácil de enganar? Seria tão diferente do resto dos homens — mostre-lhe um rosto bonito, chore um pouco, pareça ser inteligente e honesta, e ele simplesmente elimina a possibilidade de você ter matado um homem ou contratado alguém para fazê-lo?

Brunetti ficou assustado em ver como aquela mulher o desarmara. Ele pegou algumas notas do bolso e deixou-as cair sobre a mesa. “Sim, é uma boa ideia”, disse finalmente, empurrando a cadeira para trás e se pondo de pé.

Ele percebeu a insegurança de Brett ao vê-lo passar de uma atitude amistosa para a de um estranho. Nem isso ele conseguia fazer bem. “Ora, vou com você até San Giovanni e Paolo.” Lá fora, como era noite e porque era hábito seu, ele tomou o braço dela enquanto andavam. Nenhum dos dois falou nada. Ele tinha consciência de sua feminilidade, sentia o arco amplo de seus quadris e o quanto era agradável tê-la junto a si quando passavam pelas pessoas nas ruas estreitas. Tudo isso lhe passou pela cabeça enquanto a conduzia de volta para a sua casa e para a sua amante.

Eles se disseram até logo sob a estátua de Colleoni, nada mais que isso, um simples até logo.

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