Morte no Teatro La Fenice

Donna Leon · Capítulo 6 de 25

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Morte no Teatro La Fenice

Capítulo 6

 

Na manhã seguinte, Brunetti chegou ao seu escritório pouco antes das nove horas, e teve notícia de um acontecimento quase tão extraordinário quanto o do dia anterior: o vice-questore Giuseppe Pattajá se encontrava em seu gabinete e já estava ligando para Brunetti havia meia hora. O fato lhe foi comunicado primeiro pelo porteiro, que ficava bem na entrada do edifício, depois pela secretária que trabalhava com ele e pelos dois outros colegas comissários. Sem procurar se apressar, Brunetti examinou sua correspondência, ligou para a telefonista para saber se tinham ligado para ele e por Fim desceu o lance de escada que o levou ao gabinete do seu superior.

O cavaliere Giuseppe Patta fora mandado para Veneza três anos antes, com o objetivo de infundir sangue novo no sistema judiciário criminal local. Neste caso, o sangue fora siciliano e se revelara incompatível com o de Veneza. Patta usava uma cigarreira de ônix e costumava passear com uma bengala cujo castão era de prata. Se a primeira fez Brunetti esbugalhar os olhos, a segunda o fez rir, e ele tentou abster-se de fazer um julgamento até trabalhar tempo bastante com o homem para saber se ele tinha envergadura para tais afetações. Em menos de um mês Brunetti foi capaz de concluir que, embora as afetações combinassem com o homem, ele não estava à altura delas. A jornada de trabalho do vice-questore começava com um longo café, que no verão ele tomava no terraço do Gritti e no inverno no Florian. Almoçava normalmente na piscina do Cipriani ou no Harry’s Bar, e por volta das quatro da tarde dava seu expediente por encerrado. Se é que se podia chamar aquilo de expediente. Brunetti logo aprendeu também que Patta devia ser chamado sempre de “senhor vice-questore”, ou ainda de “Cavaliere”, nome cuja origem era obscura. Ele não apenas insistia em que se usasse esse título, como ainda queria ser chamado de “o senhor”, deixando que a turba se tratasse pelo familiar você.

Patta preferia não ser incomodado com detalhes sórdidos de crimes e de outros casos repulsivos. Uma das poucas coisas capazes de fazê-lo sair dessa impassibilidade e passar os dedos delicados pelos graciosos cachos que lhe caíam pelas têmporas era qualquer insinuação da imprensa de negligência por parte da polícia. E isso independentemente do assunto que a imprensa resolvesse comentar: o fato de uma criança ter conseguido romper o cordão de isolamento para entregar uma flor a um dignitário em visita à cidade ou a constatação de que africanos vendiam drogas abertamente nas ruas. Qualquer insinuação, por mínima e oblíqua que fosse, de que a polícia não tinha controle total dos habitantes da cidade tinha o poder de lançá-lo num paroxismo acusatório, boa parte do qual recaía sobre seus três comissários. Sua ira em geral se traduzia em longos memorandos dirigidos a eles, nos quais os crimes de omissão da polícia eram considerados muito mais hediondos que os cometidos pelos criminosos.

Era conhecido de todos que Patta, em resposta a insi nuações feitas pela imprensa, desfechara diversas “operações” nas quais destacava um tipo especial de crime, da mesma forma que faria a sua escolha na bancada de belas sobremesas em um restaurante, e anunciava à imprensa que, naquela semana, o crime em questão seria erradicado ou, pelo menos, minimizado. Ao ler o mais recente anúncio dessas “operações”, Brunetti não podia deixar de pensar — pois esse tipo de informação só chegava até ele pela imprensa — na cena do filme Casablanca em que se dava a ordem “Prendam os suspeitos de sempre”. Isso era feito, uns poucos adolescen tes ficavam na cadeia por cerca de um mês, e as coisas voltavam ao normal até que o zelo da imprensa provocasse outra “operação”.

Brunetti sempre desconfiou que o baixo índice de criminalidade em Veneza — um dos mais baixos da Europa e com certeza o mais baixo da Itália — devia-se ao fato de que os criminosos, quase sempre ladrões, simplesmente não sabiam sair da cidade. Só os habitantes da cidade sabiam se orientar na teia de aranha de ruas estreitas, as calle, sabiam que esta não tinha saída ou que aquela ia dar num canal. E os venezianos, a população nativa, tendiam a ser respeitadores da lei, quando menos porque sua tradição e sua história os levaram a um excessivo respeito pela propriedade privada e à necessidade imperativa de vê-la salvaguardada. Por isso havia tão poucos crimes, e quando ocorria um ato de violência ou, ainda mais raro, um homicídio, o criminoso era encontrado imediatamente e sem dificuldade: o marido, o vizinho, o sócio. Normalmente o que se tinha que fazer era prender os suspeitos de sempre.

Mas a morte de Wellauer, Brunetti sabia, era diferente. Ele era um homem famoso, certamente o maestro mais famoso da época, e fora assassinado no teatro La Fenice, que era a pequena joia de Veneza. Como o caso era de Brunetti, o vice-questore iria responsabilizá-lo por qualquer noticiário negativo sobre a atuação da polícia.

Ele bateu à porta e esperou que o mandassem entrar. Quando ouviu o chamado, Brunetti abriu a porta e viu Patta no lugar onde o esperava encontrar, na exata posição que ele imaginara, sentado à sua enorme escrivaninha, curvado sobre um documento que ganhava gran de importância pela forma atenta com que Patta o examinava. Mesmo numa terra de homens bonitos, Patta era impressionantemente belo, com seu perfil romano finamente cinzelado, amplo espaço entre os olhos penetrantes, e um corpo de atleta, embora já estivesse na casa dos cinquenta. Ele preferia oferecer o perfil esquerdo, quando era fotografado pela imprensa.

“Quer dizer que finalmente o senhor chegou”, disse Patta, insinuando que Brunetti estava muitíssimo atrasado. “Eu achei que teria que esperar a manhã inteira pelo senhor”, acrescentou; Brunetti achou que ele estava exagerando em sua interpretação. Como Brunetti não respondeu a nenhum dos dois comentários, Patta perguntou: “O que é que o senhor tem?”.

Brunetti tirou o Gazzettino do dia do bolso. “O jornal, senhor. Está na primeira página.” Então, antes que Patta pudesse interrompê-lo, começou a ler. “Famoso maestro encontrado morto. Há suspeita de homicídio.” O policial estendeu o jornal para o seu superior.

Patta manteve o tom normal de voz mas afastou o jornal com um gesto. “Já li isso. O que quero saber é o que o senhor descobriu.”

Brunetti tirou do bolso do casaco o bloco de anotações. Nele estava escrito apenas o nome, endereço e telefone da americana, mas enquanto ele continuasse em pé e Patta sentado, o homem não poderia notar que as páginas estavam praticamente em branco. Umedeceu o dedo de forma ostensiva e começou a passar as páginas. “A sala não estava fechada a chave, e não havia chave na porta. Isso significa que qualquer pessoa poderia ter entrado ou saído por ela, enquanto durou o espetáculo.”

“Onde estava o veneno?”

“No café, suponho. Mas só teremos certeza depois da autópsia e do relatório do laboratório.”

“Quando será feita a autópsia?”

“Esta manhã, acho. As onze.”

“Ótimo. O que mais?”

Brunetti virou uma página, tão virgem quanto a anterior. “Falei com os cantores no teatro. O barítono o viu, porém apenas lhe disse olá. O tenor diz que não o viu, e a soprano diz que só o viu ao chegar ao teatro.’ Ele olhou para Patta, que estava esperando. “O tenor disse a verdade. A soprano mentiu.”

“Por que o senhor diz isso?”

“Porque acho que é verdade, senhor.”

Com uma paciência exagerada, como se estivesse falando com uma criança especialmente obtusa, Patta perguntou: “E por que, comissário, o senhor acha que é verdade?”.

“Porque ela foi vista entrando no camarim dele depois do primeiro ato.” Brunetti não se preocupou em esclarecer que aquilo era apenas uma informação de uma testemunha, ainda não confirmada. A entrevista com a soprano fê-lo suspeitar que ela mentia, talvez quanto a esse detalhe, talvez quanto a outra coisa.

“Falei também com o diretor”, continuou Brunetti. “Ele teve uma discussão com o regente pouco antes do espetáculo. Acho que está dizendo a verdade.” Patta não se deu ao trabalho de perguntar por que pensava assim.

“Mais alguma coisa?”

“Mandei uma mensagem para a polícia de Berlim na noite passada.” Brunetti fingiu procurar no bloco de notas. “Eu lhes pedi que...”

“Pouco importa”, interrompeu Patta. “O que eles disseram?”

“Eles vão nos enviar por fax um relatório completo hoje, com todas as informações sobre Wellauer e sobre sua esposa.”

“E o que o senhor me diz da esposa? O senhor falou com ela?”

“Só umas poucas palavras. Ela estava muito abalada. Acho que ninguém poderia falar com ela.”

“Onde ela estava?”

“Quando falei com ela?”

“Não, durante o espetáculo.”

“Ela estava na plateia. Disse ter ido aos bastidores para falar com o marido depois do segundo ato, mas acrescentou que chegou tarde demais e não conseguiu falar.”

“O senhor quer dizer que a esposa estava nos bastidores quando ele morreu?”, perguntou Patta com tal sofreguidão que Brunetti quase acreditou que bastava um pouco mais para que o homem a mandasse prender pelo crime.

“Sim, mas não sei se ela o viu, se entrou em seu camarim.”

“Bem, dê um jeito de descobrir isso.” O próprio Patta notou que fora muito brusco. Ele acrescentou: “Sente-se, Brunetti”.

“Obrigado, senhor”, disse ele, fechando o bloco de notas e colocando-o no bolso antes de sentar-se numa cadeira em frente ao seu superior. A poltrona de Patta, ele o sabia, era alguns centímetros mais alta que a cadeira, o que certamente o vice-questore considerava uma sutil vantagem psicológica.

“Por quanto tempo ela ficou nos bastidores?”

“Não sei, senhor. Estava transtornada quando falei com ela, por isso o que disse era um pouco confuso.”

“Acha que ela pode ter ido ao camarim?”, perguntou Patta.

“Pode ser que sim. Não sei.”

“Tem-se a impressão de que o senhor está querendo desculpá-la”, disse Patta. “Ela é bonita?”, acrescentou.

Brunetti compreendeu que Patta deve ter sido informado da diferença de idade entre o morto e a viúva.

“Se o senhor gosta de loiras altas”, disse Brunetti.

“O senhor não gosta?”

“Minha mulher não o permite, senhor.”

Patta tentou achar um meio de recolocar a conversa nos trilhos. “Alguém mais entrou no camarim durante o espetáculo? De onde veio o café?”

“Há um bar no pavimento térreo do teatro. Provavelmente veio de lá.”

“Descubra isso.”

“Sim, senhor.”

“Agora preste atenção, Brunetti.” Brunetti balançou a cabeça. “Quero o nome de todas as pessoas que estavam no camarim, ou perto dele, na noite passada. E quero mais informações sobre a esposa do maestro. Por quanto tempo ficaram casados, de onde ela é, esse tipo de coisa.” Brunetti aquiesceu.

“Brunetti?”, disse Patta de repente.

“Sim, senhor?”

“Por que o senhor não está tomando notas?”

Brunetti se permitiu um pequeno sorriso. “Oh, eu nunca esqueço nada do que o senhor diz, senhor.”

Patta resolveu, sabe-se lá por quê, interpretar essas palavras literalmente. “Não acredito no que ela lhe disse quanto a não tê-lo visto. As pessoas não começam a fazer coisas e depois mudam de idéia. Tenho certeza de que tem alguma coisa por trás disso. Deve ter algo a ver com a diferença de idade entre eles.” Falava-se à boca pequena que Patta estudara dois anos de Psicologia na Universidade de Palermo, mudando depois para o curso de Direito. Mas era absolutamente certo que, depois de ter feito estudos que nada levava a qualificar de brilhantes, ele conseguiu o seu diploma e, logo depois, como resultado da notável carreira do pai na democracia cristã, foi nomeado vice-comissário de polícia. E agora, mais de vinte anos depois, era vice-questore da polícia de Veneza.

Dado que aparentemente Patta terminara de dar as suas ordens, Brunetti preparou-se para o que estava por vir, o discurso sobre a honra da cidade. E tão certo como o dia se segue à noite, aquele pensamento fez brotarem as palavras de Patta. “Talvez o senhor não entenda isso, comissário, mas se trata de um dos maiores artistas de nossa época. E ele foi morto aqui em nossa cidade, Veneza” — cujo nome nunca deixava de soar um tanto ridículo sendo pronunciado por Patta, com seu sotaque siciliano. “Temos que fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para garantir que esse crime seja solucionado; não podemos permitir que esse crime manche a reputação, a própria honra, de nossa cidade.” Havia momentos em que Brunetti se sentia tentado a tomar notas do que o homem dizia.

Como Patta continuasse a falar nesse mesmo espírito, Brunetti decidiu que se alguma coisa fosse dita sobre o glorioso passado musical da cidade ele levaria flores para Paola naquela tarde. “Esta é a cidade de Vivaldi. Mozart esteve aqui. Temos uma dívida a pagar ao mundo da música.” Íris, pensou ele; eram as flores de que ela mais gostava. E ela haveria de colocá-las no grande vaso azul de Murano.

“Quero que você interrompa tudo o que estiver fazendo para se dedicar inteiramente a este caso. Dei uma olhada no quadro de serviço (Quer dizer então que ele sabe da existência desse quadro? Que surpresa!) e destaquei dois homens para auxiliá-lo no caso.” Por favor, que não sejam Alvise e Riverre, e eu levarei duas dúzias de flores. “Alvise e Riverre. São policiais muito sólidos, muito sérios.” (Tradução livre: são leais a Patta.)

“E quero ver resultados, está entendendo?”

“Sim, senhor”, respondeu Brunetti num tom neutro.

“Muito bem, então. É só isso. Tenho trabalho a fazer, e sei que o senhor tem muito com que se ocupar.”

“Sim, senhor”, repetiu Brunetti, levantando-se e diri gindo-se à porta. Ele se perguntava o que Patta lhe reservava como despedida. As últimas férias de Patta não tinham sido em Londres?

“E boa caça, Brunetti.”

Sim. Londres. “Obrigado, senhor”, disse ele tranquilamente, e saiu do gabinete.

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