Morte no Teatro La Fenice

Donna Leon · Capítulo 18 de 25

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Morte no Teatro La Fenice

Capítulo 18

 

O telefonema de Michele foi à uma da manhã e tirou Brunetti de um sono agitado. Ele atendeu ao quarto toque e falou seu nome.

“Guido, aqui é Michele.”

“Michele”, repetiu ele bobamente, tentando lembrar se conhecia alguém chamado Michele. Obrigou-se a abrir os olhos e se lembrou. “Michele, Michele... Ótimo. Que bom que você ligou.” Brunetti acendeu o abajur do criado-mudo, sentou-se e encostou-se na cabeceira da cama. Paola continuou a dormir como uma pedra, ao seu lado.

“Eu conversei com meu pai e ele se lembrou de toda a história.”

“E então?”

“Foi exatamente como você disse: se há alguma coisa a saber, ele sabe.”

“Pare de se vangloriar e fale.”

“Correu a história de que havia um caso entre Wellauer e a irmã que cantava ópera, Clemenza. Papai não conseguiu lembrar onde foi, mas sabe que começou na Alemanha, onde ela estava cantando com o maestro. Houve uma cena desagradável entre a mulher do maestro e La Santina, numa festa, depois de uma apresentação. Elas trocaram insultos e Wellauer foi embora...” — Michele parou para causar impressão — “... com Santina. A série de apresentações terminou — em 1937 ou 1938, segundo meu pai —; Santina foi cantar em Roma, e Wellauer foi para casa ouvir música de pancadaria.” Michele morreu de rir de seu infame jogo de palavras, mas Brunetti não.

“Parece que ele conseguiu consertar as coisas com a esposa. Papai disse que havia muita coisa mesmo a consertar, naquela ocasião e depois.”

“Quer dizer que a situação era essa?”, perguntou Brunetti.

“Sim. Ele era o pior dos mulherengos. Ou o melhor, dependendo do ponto de vista. Eles se divorciaram depois da guerra.”

“Por causa desse tipo de coisa?”

“Papai não tem muita certeza sobre isso. Mas é muito provável que sim. Pode ser também pelo fato de ele ter escolhido o lado errado.”

“E o que aconteceu quando Santina voltou para a Itália?”

“Ele veio para reger Norma, a ópera que Santina se recusou a cantar. Sabe alguma coisa sobre isso?”

“Sim.”

O caso era descrito no dossiê que Miotti lhe entregara, contendo recortes fotocopiados de jornais de Roma e de Veneza, de décadas atrás.

“Eles encontraram outra soprano, e Wellauer teve grande sucesso.”

“E o que aconteceu depois? Ela continuou a se encontrar com ele?”

“É aí que as coisas começam a ficar nebulosas, é o que diz meu pai. Alguns dizem que eles ficaram juntos por algum tempo. Outros dizem que ele cortou relações com ela desde que ela parou de cantar.”

“E quanto às irmãs?”

“Ao que parece, quando Clemenza parou de cantar, Wellauer começou a comer uma das outras duas.” Michele sempre foi desbocado, principalmente quando falava de mulheres.

“E então?”

“A relação durou algum tempo. E então ela teve que fazer o que na época era chamado de operação ilegal. Mesmo naquela época não era difícil conseguir fazer um aborto, pelo que diz meu pai, caso você conhecesse as pessoas certas. E Wellauer conhecia. Para a maioria das pessoas não ficou muito claro em que circunstâncias aconteceu, mas o fato é que ela morreu. Não se tinha nem certeza de que o filho era dele, mas parece que as pessoas achavam que sim.”

“E depois?”

“Bem, como já disse, ela morreu. Nada chegou a ser publicado nos jornais, naturalmente. Naquela época esse tipo de coisa não podia ser publicado. E os jornais disseram apenas que ela morreu ‘de um mal súbito’. Bem, em certo sentido foi isso mesmo.”

“E quanto à outra irmã?”

“Papai acha que ela foi morar na Argentina, imediatamente após a guerra ou um pouco depois. Ele acha que ela deve ter morrido lá, mas muitos anos depois. Quer que papai tente descobrir?”

“Não, Michele. Ela não é importante no caso. Seu pai se lembra de mais alguma coisa?”

“Só que conheceu Wellauer, há cerca de quinze anos. Não gostou dele, porém não soube dizer exatamente por que razão. Simplesmente não gostou.”

Brunetti sentiu pelo tom de voz de Michele que este deixava de falar como amigo, passando a falar como jornalista. “Será que isso vai ajudar em alguma coisa, Guido?”

“Não sei, Michele. Eu só queria ter uma ideia de como o homem era, e queria saber alguma coisa sobre Santina.”

“Bem, agora você sabe”, disse Michele de forma lacônica, sentindo o policial na última fala de Brunetti.

“Ouça, Michele, pode ser que isso leve a alguma coisa, mas ainda não sei.”

“Ótimo, ótimo. Se é assim...” Ele não se resolvia a lhe pedir um favor.

“Se isso resultar em algo importante, ligo para você, Michele.”

“Sim, sim. Faça isso, Guido. Está tarde e com certeza você quer voltar a dormir. Se precisar de mais alguma coisa, ligue para mim, está bem?”

“Ligo, sim. E obrigado, Michele. Por favor, agradeça a seu pai por mim.”

“É ele que agradece a você. Isso o fez sentir-se de novo importante. Boa noite, Guido.”

Antes que Brunetti pudesse dizer alguma coisa, o outro desligou. Ele apagou a luz e se meteu sob os cobertores, sentindo apenas o quanto o quarto estava frio. No escuro, a única coisa que conseguia evocar era a fotografia da sala de Santina, com as três irmãs cuidadosamente dispostas em V. Uma morrera por causa de Wellauer, outra talvez tenha perdido a carreira por tê-lo conhecido. Apenas a mais nova escapou dele, e para isso teve que ir para a Argentina.

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