Na Floresta

Erin Hunter · Capítulo 9 de 27

Páginas do PDF

Na Floresta

Capítulo 7

 

PATA DE FOGO RETOMOU o caminho de volta ao riacho. Pensava naqueles olhos queimando na escuridão do território do Clã das Sombras.

De repente sentiu um cheiro tênue na brisa.

Um estranho! Talvez o guerreiro do Clã das Sombras…

Imediatamente um grunhido desprendeu-se da garganta de Pata de Fogo.

A mensagem olfativa lhe dizia muitas coisas. O estranho era uma gata, não muito jovem e que, com certeza, não fazia parte do Clã do Trovão. Não exalava o cheiro peculiar de nenhum dos clãs, mas Pata de Fogo podia perceber que estava cansada, faminta e doente – e de mau humor.

Pata de Fogo agachou-se e avançou na direção do odor. Então parou, atrapalhado. O cheiro de guerreiro estava agora mais fraco. Ele voltou a farejar.

De repente, como faísca, uma bola de pelo emaranhado surgiu dos arbustos, caindo atrás dele.

Apanhado de surpresa, Pata de Fogo berrou quando a gata arremeteu-se contra ele, derrubando-o de lado. Duas patas pesadas cravaram-se em seus ombros, e mandíbulas de ferro fecharam-se em seu pescoço. – Miauuuuuuuuu! – grunhiu, já pensando rápido. Se o agressor enfiasse as garras fundo demais, tudo estaria acabado.

Ele se fez de vencido, relaxando os músculos como se estivesse dominado, e emitiu um grito fingido de alarme.

A gata abriu a boca para um grito triunfante. – Ah, um pequeno aprendiz.

Vítima fácil para Presa Amarela – sibilou.

Ao ouvir o insulto, Pata de Fogo se encheu de fúria. Espere só. Ia mostrar para aquela bola de pelo cuspida que tipo de guerreiro ele era. Mas ainda não, pensou. Espere até sentir os dentes dela de novo.

Presa Amarela mordeu. Pata de Fogo se jogou para cima com toda a força de seu vigoroso corpo jovem. A gata miou, surpresa, ao ser atirada longe e bateu em retirada, na direção de um arbusto de tojo.

Pata de Fogo sacudiu-se: – Não sou uma presa assim tão fácil, não é?

Presa Amarela exalava desconfiança quando conseguiu se soltar dos galhos fechados e disparou: – Nada mau, jovem aprendiz. Mas você vai precisar fazer muito melhor!

Pata de Fogo piscou quando viu a adversária claramente pela primeira vez. Presa Amarela tinha uma cara larga, quase achatada, e olhos redondos e cor de laranja. O pelo escuro e cinza era longo e estava emaranhado em tufos fedorentos. Tinha as orelhas machucadas e rasgadas, e o focinho trazia cicatrizes de muitas antigas batalhas.

Pata de Fogo não se mexeu. Estufou o peito e lançou o desafio na cara da intrusa: – Você está na zona de caça do Clã do Trovão. Caia fora!

– Quem é que vai me obrigar? – Presa Amarela retraiu o lábio, desafiadora, expondo dentes manchados e quebrados. – Vou caçar. Depois vou embora. Ou talvez eu fique um pouco…

– Chega de conversa – Pata de Fogo disparou, sentindo por dentro a agitação dos antigos espíritos dos felinos. Não havia nele nenhum vestígio de gato doméstico naquele momento. Seu sangue de guerreiro fervia. Ele estava louco para lutar, para defender seu território e proteger seu clã.

Presa Amarela percebeu a mudança nele. Os ferozes olhos cor de laranja brilhavam agora com respeito. Abaixando a cabeça e desviando o olhar, ela começou a recuar. – Não precisa se precipitar – ronronou em tom sedoso.

Pata de Fogo não caiu no truque. Com as garras esticadas e a pele eriçada, pulou para a frente, dando seu grito de guerra: – Grr-aaar!

Com um uivo de raiva, a gata respondeu. Rosnando e cuspindo, o gato jovem e a gata velha se engalfinharam. Rolaram para lá e para cá, dentes e garras em ação. Com as orelhas coladas contra a cabeça, Pata de Fogo tentava a todo custo agarrar Presa Amarela. Mas o pelo emaranhado da gata se enrolava em suas garras e ele não conseguia atingir-lhe a pele.

Presa Amarela ergueu-se então nas patas traseiras. Com a cauda imunda e arrepiada, parecia ainda maior.

Pata de Fogo viu a boca enorme de Presa Amarela vindo na sua direção e conseguiu se inclinar para trás bem na hora. Uma dentada! Dentes maltratados se fecharam no ar perto de sua orelha.

Instintivamente, Pata de Fogo revidou com um golpe. Sua pata pegou a lateral da cabeça de Presa Amarela. Foi uma pancada tão forte que ele sentiu ondas de choque na pata dianteira.

– Uauu! – Zonza, Presa Amarela caiu nas quatro patas. Sacudiu a cabeça para colocar as ideias em ordem.

Era apenas uma batida de coração antes que a gata se recuperasse, e Pata de Fogo aproveitou a oportunidade. Jogou-se para a frente, agachou e enfiou as mandíbulas direto na perna traseira de Presa Amarela. – Murrrrr!

– O gosto do pelo emaranhado era horrível, mas ele mordeu fundo.

– Ruuur, uuuuuuuuuuuuuui – Presa Amarela berrou de dor, enquanto se debatia para tentar morder a cauda de Pata de Fogo.

Os dentes da gata se fecharam e Pata de Fogo sentiu a dor atravessar-lhe a espinha. Mas isso só o deixou mais zangado. Arrancou a cauda da boca da oponente e sacudiu-a com força para a frente e para trás, com raiva.

Presa Amarela agachou, preparando-se para um novo ataque. Seu hálito parecia vir direto dos pulmões fedorentos. O cheiro fulminou o nariz de Pata de Fogo. Assim de perto, a mensagem de desespero e fraqueza, o vazio dolorido do estômago faminto da gata chegava a machucar.

Alguma coisa se agitou dentro dele, um sentimento que não condizia com um guerreiro: piedade. Tentou não se deixar dominar por esse instinto – sabia que era ao clã que devia lealdade – mas não conseguiu evitar. – Você fala com o coração, jovem Pata de Fogo. – As palavras de Coração de Leão mais uma vez ecoaram em sua cabeça. – Um dia, isso fará de você um guerreiro mais forte. – Então, a advertência de Garra de Tigre buzinou na sua orelha: – Ou poderá fazê-lo render-se à fraqueza de gatinho de gente bem no momento do ataque.

Presa Amarela investiu e Pata de Fogo devolveu a agressão. A gata tentou subir nos ombros dele para um golpe mortal, mas, dessa vez, foi impedida pela perna ferida.

– Grr, grr! – Pata de Fogo arqueou a espinha, mas Presa Amarela conseguiu enfiar-lhe as garras e cravou-as com força. Maior do que ele, a gata o manteve no chão com seu peso.

Pata de Fogo sentiu o gosto de terra na língua e cuspiu a areia que lhe enchia a boca. – Pah!

Virou-se agilmente para evitar as pernas traseiras de Presa Amarela, que não paravam de golpeá-lo, e as garras afiadas que tentavam arranhar-lhe a barriga macia. E assim rolaram e rolaram, mordendo-se e arranhando-se.

Momentos depois, se separaram. Pata de Fogo respirava com dificuldade, mas percebeu que Presa Amarela fraquejava. Estava muito ferida e as patas traseiras mal conseguiam suportar o corpo magro.

– E então? Já chega? – Pata de Fogo grunhiu. Se a intrusa se rendesse, ele a deixaria ir apenas com uma mordida de advertência para ser lembrado.

– Nunca! – Presa Amarela sibilou de volta, bravamente. Mas a perna ferida falseou e ela caiu no chão. Tentou levantar-se, mas não conseguiu.

Seus olhos estavam embaçados quando se dirigiu a Pata de Fogo com voz fraca: – Se não estivesse tão faminta e cansada, teria transformado você em poeira de camundongo. – A boca da gata se contorcia em dor e desafio. – Acabe comigo. Não vou impedi-lo.

Pata de Fogo hesitou. Jamais tinha matado outro gato. No calor da batalha, talvez o fizesse. Mas a sangue-frio? Isso era muito diferente.

– O que está esperando? – Presa Amarela provocou. – Você está vacilando como um gatinho de gente!

Pata de Fogo despertou ao ouvir as palavras da gata. Será que podia sentir nele o cheiro dos Duas-Pernas, mesmo depois de tanto tempo?

– Sou um aprendiz de guerreiro do Clã do Trovão – disparou.

Presa Amarela estreitou os olhos. Viu que Pata de Fogo se incomodara com suas palavras e percebeu que atingira um ponto fraco. A gata miou: – Ah, não me diga que o Clã do Trovão está tão desesperado que precisa recrutar gatinhos de gente agora?

– O Clã do Trovão não está nada desesperado! – devolveu Pata de Fogo.

– Então prove! Aja como um guerreiro e acabe comigo. Estará me fazendo um favor.

Pata de Fogo a encarou. Não ia ser impelido a matar aquela criatura infeliz. Sentiu os músculos relaxarem à medida que a curiosidade o cutucava. Como um gato de clã tinha chegado àquele estado? Os anciãos do Clã do Trovão eram mais bem cuidados que os filhotes! – Você parece estar com uma pressa terrível de morrer! – miou.

– É mesmo? Bem, isso não é da sua conta, sua ração de camundongo – provocou Presa Amarela. – Qual é o seu problema, gatinho? Está tentando me matar de tanto falar comigo?

As palavras eram corajosas, mas Pata de Fogo sentia a fome e a doença que emanavam da gata em ondas. Ela ia mesmo acabar morrendo se não comesse logo. E como não conseguiria caçar sozinha, talvez fosse melhor matá-la agora. Os gatos se fitaram; a incerteza pairava nos dois olhares.

– Espere aqui – Pata de Fogo finalmente ordenou.

Presa Amarela pareceu afrouxar. Os pelos abaixaram e a cauda perdeu a rigidez que lembrava um tojo. – Está brincando, gatinho? Não vou a parte alguma – ela grunhiu, enquanto se dirigia para um tapete de urzes macias logo ali, mancando de dor. Despencou ali mesmo e começou a lamber a perna machucada.

Pata de Fogo olhou-a por cima do ombro e bufou, exasperado, antes de rumar para as árvores.

Caminhando em silêncio entre as samambaias, sentiu os odores aquecidos pelo sol penetrarem seu nariz e distinguiu entre eles o fedor acre de um rato morto havia tempo. Ouviu o ruído dos insetos sob a casca das árvores, barulhinhos de coisas peludas correndo sobre as folhas. Seu primeiro pensamento foi desenterrar o sabiá que tinha matado mais cedo, mas isso ia tomar tempo demais. Talvez devesse escavar a carcaça do rato.

Era uma forma de conseguir carne fácil, mas um gato faminto precisa de presa fresca. Só em tempos muito difíceis um guerreiro comeria comida de corvo.

Foi quando parou, farejando mais adiante um jovem coelho. Deu mais uns passos e conseguiu vê-lo. Agachou e ficou à espreita. Estava a menos de um camundongo de distância quando foi detectado. Mas era tarde demais.

O rabo pequeno e branco a fugir em disparada atiçou nas veias de Pata de Fogo a vibração da caça. Com um movimento ágil e garras certeiras, ele o pegou.

Imobilizando rapidamente o corpo agitado, logo acabou com ele.

Presa Amarela lançou a Pata de Fogo um olhar cansado quando ele soltou o coelho no chão, ao lado dela. Estava surpresa. – Bom, oi de novo, gatinho! Pensei que tivesse ido buscar seus amiguinhos guerreiros.

– É? Bem, talvez ainda faça isso. E não me chame de gatinho – reclamou Pata de Fogo, empurrando o coelho mais para perto dela com o focinho.

Estava sem graça com a própria gentileza. – Olhe, se não quiser…

Presa Amarela logo retrucou: – Ah, não. Quero sim.

Pata de Fogo ficou observando enquanto a gata rasgava a presa e começava a engoli-la. A fome do aprendiz aflorou, a boca se encheu de água.

Sabia que não devia sequer pensar em comida. Ainda precisava levar presas suficientes para o clã, mas aquela presa fresca tinha um cheiro delicioso.

– Hummm-mm – Alguns minutos depois, Presa Amarela soltou um grande suspiro e caiu de lado. – A primeira presa fresca que comi em dias. – Limpou o nariz com a língua e se preparou para um banho completo.

Como se um banho fosse fazer muita diferença, Pata de Fogo pensou, mexendo o nariz. Ela era o próprio fedor.

Olhou para os restos estraçalhados da presa. Não sobrara muito para satisfazer a barriga de um gato faminto, mas a luta com Presa Amarela tinha aguçado ainda mais seu apetite; rendeu-se à fome e engoliu os restos.

Estavam deliciosos. Lambeu os beiços, saboreando até o último pedaço, e sacudiu-se da cabeça às patas.

Presa Amarela o observava de perto, expondo os dentes manchados. – Melhor que a porcaria da ração com que os Duas-Pernas alimentam alguns dos nossos irmãos, não é? – miou, matreira. Sabendo de seu ponto fraco, tentava hostilizá-lo.

Pata de Fogo a ignorou e começou a se lavar.

– É veneno – Presa Amarela continuou. – Fezes de rato! Só um saco de pelo invertebrado aceitaria aquelas ovas de sapo repulsivas… – Parou de falar e ficou alerta. – Psssssiu… guerreiros chegando.

Pata de Fogo também percebeu a aproximação de gatos. Ouviu pisadas suaves sobre a camada de folhas e o som de pelo se arrastando pelos galhos. Farejou o vento que acariciava a pelagem dos felinos. Cheiros conhecidos. Eram guerreiros do Clã do Trovão, que, sentindo-se seguros em seu próprio território, não precisavam se importar com o barulho que fizessem.

Cheio de culpa, Pata de Fogo lambeu os lábios, esperando conseguir eliminar qualquer vestígio dos restos que acabara de engolir. Olhou então para Presa Amarela e para a pilha de ossos de coelho ao lado dela. “O clã precisa ser alimentado em primeiro lugar!” A voz de Coração de Leão buzinava na sua cabeça, mais uma vez. Mas, com certeza, ele compreenderia por que Pata de Fogo alimentara aquela famigerada criatura. Sua mente girava, subitamente amedrontada com o que poderia lhe acontecer. Na primeira tarefa de aprendiz havia quebrado o código dos guerreiros!