Na Floresta

Erin Hunter · Capítulo 11 de 27

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Na Floresta

Capítulo 9

 

– SE EU FOSSE VOCÊ, ia conversar com Presa Amarela – disse, baixinho, Pata Cinzenta quando Rabo Longo se afastou – Ela não parece muito contente.

Pata de Fogo olhou para a velha gata, ainda deitada ao lado da Pedra Grande. Pata Cinzenta estava certo; ela o fitava.

– Está bem, lá vou eu – ele miou. – Deseje-me sorte!

– Dessa vez, você vai precisar de toda a sorte do Clã das Estrelas a seu favor – respondeu Pata Cinzenta. – Chame se precisar de ajuda. Se achar que ela vai pegá-lo, vou devagarzinho por trás e acerto a cabeça dela com um coelho morto.

Pata de Fogo ronronou, divertido, e foi em direção a Presa Amarela. Sua animação logo desapareceu, à medida que se aproximava da rainha ferida.

Ela estava claramente de péssimo humor. Sibilou uma advertência, mostrando os dentes: – Pare aí mesmo, gatinho de gente!

Pata de Fogo suspirou. Parecia que estava para entrar numa luta. Ainda tinha fome e começava a se sentir cansado. Estava louco para se enroscar no ninho e tirar um cochilo. A última coisa que queria era discutir com aquele chumaço de pelo e dentes digno de pena. – Pode me chamar do que quiser – ele miou, impaciente. – Estou apenas seguindo as ordens de Estrela Azul.

– Então você é mesmo um gatinho de gente, não é? – disse, ofegante, Presa Amarela.

Ela também está cansada, pensou Pata de Fogo. A voz da gata tinha menos força, embora a ironia estivesse mais forte do que nunca.

– Eu vivia com uns Duas-Pernas quando era filhote – Pata de Fogo respondeu calmamente.

– Sua mãe era gatinho de gente? Seu pai era gatinho de gente?

– Eram, sim. – Pata de Fogo abaixou a cabeça, o ressentimento o queimando por dentro. Já era ruim os membros do seu próprio clã ainda o considerarem um forasteiro. Com certeza não devia satisfações àquela prisioneira mal-humorada.

Presa Amarela pareceu tomar o seu silêncio como um convite para continuar. – Sangue de gatinho de gente não é a mesma coisa que sangue de guerreiro. Por que não corre para a casa dos seus Duas-Pernas agora em vez de ficar me pajeando? É humilhante ser cuidada por um gato de baixa estirpe como você!

Pata de Fogo perdeu a paciência e grunhiu: – Você se sentiria humilhada mesmo que eu tivesse nascido guerreiro. Ficaria envergonhada quer eu fosse uma preciosa gata do seu próprio clã, quer um miserável Duas-Pernas que a tivesse apanhado na rua. – Pata de Fogo fez a cauda chicotear de um lado para outro. – O que, na verdade, você acha tão humilhante é o fato de precisar se entregar aos cuidados de qualquer gato!

Presa Amarela arregalou os olhos cor de laranja.

Pata de Fogo continuou, feroz: – Vai ter de se acostumar com a ideia de alguém cuidar de você até estar bem suficiente para tomar conta de si mesma, seu saco de ossos velho e desprezível!

Ele parou quando Presa Amarela começou a fazer um ruído baixo e estranho, como se estivesse com falta de ar.

Alarmado, Pata de Fogo deu um passo na direção da gata. Ela tremia, com os olhos estreitados em pequeníssimas fendas. Estaria tendo algum tipo de ataque?

– Olhe, eu não quis… – ele começou, até de repente se dar conta de que Presa Amarela estava rindo!

– Miau, miau, miau – ela fazia, com um rom-rom vindo de dentro do peito.

Pata de Fogo não sabia o que fazer.

– Você é espirituoso, gatinho de gente – Presa Amarela provocou, parando afinal. – Agora estou cansada e minha perna dói. Preciso dormir e colocar alguma coisa nessa ferida. Vá procurar aquela curandeira bonitinha de vocês e peça para ela me arrumar algumas ervas. Se conseguir um cataplasma de virgáurea vai ajudar. E, enquanto estiver providenciando isso, eu ia adorar ficar mascando umas sementes de papoula. Essa dor está me matando!

Impressionado com a súbita mudança de humor da gata, Pata de Fogo virou-se rapidamente e disparou na direção da toca de Folha Manchada.

Nunca estivera naquela parte do acampamento. Com as orelhas retesadas, atravessou um túnel verde e fresco de samambaias, que levava a uma pequena clareira gramada. De um lado havia uma pedra alta, dividida ao meio por uma fenda grande bastante para um gato fazer ali a sua toca.

Na clareira estava Folha Manchada. Como sempre, seus olhos brilhavam, amigáveis, e sua pelagem malhada luzia com centenas de sombras cor de âmbar e marrons.

Pata de Fogo a cumprimentou timidamente com um miado e apresentou o rol de ervas e sementes pedidas por Presa Amarela.

– Tenho a maioria delas na minha toca – respondeu Folha Manchada. – Vou pegar também algumas folhas de cravo-de-defunto. Se ela colocar isso na ferida, vai afastar qualquer infecção. Espere aqui.

– Obrigado – miou Pata de Fogo enquanto a curandeira sumia para dentro da toca. Ele estreitou os olhos, tentando vislumbrá-la no interior do refúgio. Mas a toca estava escura demais; só conseguiu ouvir um farfalhar e sentir os cheiros estonteantes de ervas estranhas.

Folha Manchada surgiu da escuridão e colocou um pacote dobrado em folhas aos pés de Pata de Fogo. – Diga a Presa Amarela para não exagerar com a semente de papoula. Não quero que fique totalmente sem dor. Um pouco de dor pode ser útil, pois vai me mostrar se ela está melhorando.

Pata de Fogo indicou ter entendido e apanhou as ervas com os dentes. – Obrigado, Folha Manchada! – miou, segurando o pacote e retomando o túnel de samambaias até a clareira principal.

Garra de Tigre estava sentado do lado de fora da toca dos guerreiros, observando-o atentamente. Quando Pata de Fogo se dirigia até Presa Amarela, carregando as ervas, sentiu o olhar cor de âmbar queimando-lhe o pelo do cangote. Virou a cabeça e, curioso, fitou Garra de Tigre, que estreitou os olhos e virou o rosto.

Pata de Fogo deixou cair o maço de ervas ao lado de Presa Amarela.

– Ótimo – miou. – Agora, antes de me deixar em paz, me arrume alguma coisa para comer. Estou faminta!

O sol tinha se levantado três vezes desde que Presa Amarela chegara ao acampamento. Pata de Fogo acordou cedo e cutucou Pata Cinzenta, que ainda dormia a seu lado, com o nariz enfiado debaixo da cauda espessa. – Acorde – Pata de Fogo miou. – Vai acabar se atrasando para o treinamento.

Pata Cinzenta ergueu a cabeça, ainda sonolento, e assentiu com um grunhido relutante.

Pata de Fogo cutucou Pata Negra.

O gato abriu os olhos imediatamente e deu um pulo. – O que é? – miou, olhando à volta, alerta.

– Calma, Pata Negra. Está quase na hora do treinamento – Pata de Fogo o tranquilizou.

Pata de Poeira e Pata de Areia também começaram a se mexer em seus ninhos de musgo, do outro lado do refúgio. Pata de Fogo se levantou e abriu caminho entre as samambaias.

A manhã estava quente. Por entre as folhas e galhos que se debruçavam sobre o acampamento, Pata de Fogo avistou o céu de um azul profundo.

Mas hoje um orvalho pesado fazia brilhar as folhas de samambaias e cintilava na grama. Pata de Fogo farejou o ar. A estação das folhas verdes estava acabando, e logo o tempo ia começar a esfriar.

Ele deitou e rolou na terra ao lado do toco de árvore, esticando as pernas e virando a cabeça para trás para esfregá-la no chão fresco. Então se virou de lado e olhou através da clareira, para ver se Presa Amarela já estava acordada.

Fora destinado à gata um lugar de descanso no extremo da árvore caída onde os anciãos se reuniam para comer. O ninho tinha sido arrumado no tronco cheio de musgo, de onde não se podiam escutar os anciãos, mas com vista total para a toca dos guerreiros do outro lado da clareira. Pata de Fogo viu apenas um monte de pelo cinza desbotado se levantar e logo cair para tirar uma soneca.

Pata Cinzenta saiu da toca atrás do amigo, seguido por Pata de Areia e Pata de Poeira. Finalmente chegou Pata Negra, examinando nervosamente o lugar antes de sair totalmente do abrigo.

– Mais um dia tomando conta daquele saco sarnento cheio de pulgas, hein, Pata de Fogo? – miou Pata de Poeira. – Aposto que preferia estar conosco no treinamento.

Pata de Fogo levantou-se e sacudiu o pó do pelo. Não ia ceder à provocação de Pata de Poeira.

– Não ligue, Pata de Fogo – murmurou Pata Cinzenta. – Em breve Estrela Azul vai mandá-lo de volta para o treinamento.

– Talvez ela pense que é melhor um gatinho de gente ficar no acampamento, cuidando dos doentes – miou, grosseira, Pata de Areia, agitando a cabeça lustrosa e avermelhada, com um olhar de deboche.

Pata de Fogo resolveu ignorar os comentários ásperos da gata. – O que Nevasca vai lhe ensinar hoje, Pata de Areia? – perguntou.

– Vamos treinar combate. Ele vai me ensinar como luta um guerreiro de verdade – Pata de Areia respondeu com orgulho.

– Coração de Leão vai me levar até o Grande Plátano – miou Pata Cinzenta –, para eu praticar as habilidades de escalada. É melhor eu ir. Ele está esperando.

– Vou com você até o alto da ravina – miou Pata de Fogo. – Preciso pegar o café da manhã de Presa Amarela. Você vem, Pata Negra? Garra de Tigre deve ter alguma coisa planejada para você.

Pata Negra suspirou, concordou e seguiu Pata Cinzenta e Pata de Fogo para fora do acampamento. Embora a ferida estivesse completamente curada, ele ainda parecia ter pouco entusiasmo pelo treinamento.

– Aqui está – miou Pata de Fogo, largando um grande camundongo e um pintassilgo no chão, ao lado de Presa Amarela.

– Já estava na hora – ela grunhiu. A gata ainda estava dormindo quando Pata de Fogo chegou ao acampamento depois da missão de caça. Mas o cheiro de presa fresca deve tê-la despertado, pois agora já estava sentada.

Ela abaixou a cabeça e, com avidez, engoliu o que Pata de Fogo trouxera.

O apetite se mostrava voraz à medida que a força voltava. A ferida estava melhor, mas o temperamento continuava feroz e imprevisível como sempre.

Presa Amarela acabou a refeição e reclamou: – A base da minha cauda coça muito, mas não consigo alcançá-la. Dá para você lavar para mim?

Tremendo por dentro, Pata de Fogo agachou e iniciou a função.

Enquanto explodia as pulgas gordinhas entre os dentes, percebeu um grupo de filhotes brincando na terra ali perto. Fingiam estar lutando, às vezes com violência. Presa Amarela, que tinha fechado os olhos enquanto Pata de Fogo cuidava dela, abriu parcialmente um deles para observar os filhotes se divertindo. Para sua surpresa, Pata de Fogo percebeu a espinha da gata se retesar sob seus dentes.

Por um instante, ele prestou atenção aos gritinhos e barulhos dos filhotes.

– Sinta meus dentes, Estrela Partida – miou um filhote malhado, que pulou nas costas de um outro, cinza e branco, que fingia ser o líder do Clã das Sombras. Os dois pequenos rolaram na direção da Pedra Grande. De repente, o filhote cinza e branco deu um grande impulso e conseguiu soltar o malhado das costas. Com um guincho assustado, o malhado foi parar ao lado de Presa Amarela.

Imediatamente a velha gata se pôs de pé num pulo, com a pelagem toda arrepiada, e disparou, agressiva: – Fique longe de mim, seu pedaço de pelo!

O filhote malhado olhou para a gata furiosa, virou-lhe a cauda e correu.

Foi esconder-se atrás de uma rainha também malhada, que, zangada, encarava Presa Amarela do outro lado da clareira.

Já o pequeno gato cinza e branco congelou. Então, pata a pata, com cuidado, retrocedeu na direção da segurança do berçário.

A reação de Presa Amarela deixou Pata de Fogo chocado. Achava que já tinha visto o pior dela ao lutarem quando se conheceram, mas os olhos da gata chispavam com uma raiva diferente agora. – Acho que está sendo difícil para os filhotes ficarem confinados no acampamento – miou, cauteloso. – Estão ficando inquietos.

– Azar o deles – grunhiu Presa Amarela. – Dê um jeito de mantê-los longe de mim!

– Você não gosta de filhotes? – Pata de Fogo perguntou, quase sem querer. – Nunca teve filhos?

– Você não sabe que curandeiras não têm filhos? – miou, raivosa, Presa Amarela.

– Mas soube que antes você era uma guerreira – Pata de Fogo arriscou.

– Não tenho nenhum filho! – Presa Amarela disparou. Afastou dele a cauda e se levantou. – De qualquer forma – disse em tom repentinamente mais baixo, quase triste –, parece que acontecem acidentes com as crianças quando estou por perto.

Os olhos cor de laranja nublaram de emoção. Ela apoiou o queixo achatado nas patas dianteiras e deixou o olhar se perder. Pata de Fogo observou os ombros da gata afundarem num suspiro longo e silencioso.

Pata de Fogo a observou, intrigado. O que ela queria dizer com aquilo?

Será que a velha gata estava falando sério? Era difícil dizer; Presa Amarela parecia mudar de humor rapidamente. Ele deu de ombros e continuou a penteá-la.

– Ficaram alguns carrapatos que não consegui tirar – ele disse, ao terminar.

– Aposto que você nem tentou, seu idiota! – reclamou Presa Amarela. – Não quero cabeças de carrapato no meu traseiro, muito obrigada. Peça a Folha Manchada um pouco de bile de rato para esfregar nelas. Uma borrifada disso nos carrapatos e eles logo se soltam.

– Vou agora mesmo! – Pata de Fogo se ofereceu, feliz pela oportunidade de se afastar um pouco da gata rabugenta. E não seria nenhum sacrifício voltar a ver Folha Manchada.

Dirigiu-se ao túnel de samambaias. Viu muitos gatos cruzando a clareira, carregando nos dentes ramos e galhos de árvores. Enquanto estivera tratando de Presa Amarela, o acampamento se enchera de atividade. Era assim desde o dia em que Estrela Azul anunciara o desaparecimento do Clã do Vento. As rainhas teciam galhos e folhas para formar uma espessa parede verde ao redor do berçário, de modo a assegurar que a passagem estreita fosse a única maneira de entrar e sair da região das amoreiras.

Outros gatos trabalhavam nos limites do acampamento, cuidando para não deixar nenhum espaço livre na vegetação cerrada.

Até os anciãos estavam ocupados, cavando um buraco no chão. Os guerreiros em fila empilhavam ao lado deles pedaços de presa fresca para serem guardados dentro do buraco recém-cavado. Pairava no ar um espírito de concentração tranquila, uma determinação de tornar o clã o mais seguro e abastecido possível.

Se o Clã das Sombras tentasse invadir seu território, o Clã do Trovão teria o acampamento como refúgio. Não seriam deslocados de suas zonas de caça tão facilmente quanto fora o Clã do Vento.

Risca de Carvão, Rabo Longo, Pele de Salgueiro e Pata de Poeira esperavam em silêncio na entrada do acampamento, com os olhos fixos na abertura do túnel de tojos. Uma patrulha acabara de chegar, todos empoeirados e com as patas doídas. Assim que os guerreiros entraram no acampamento, Risca de Carvão e seus companheiros se aproximaram e trocaram palavras com eles. Mas logo se afastaram. Então saíram rápida e sorrateiramente do acampamento. As fronteiras do Clã do Trovão não ficavam nem um minuto sem proteção.

Pata de Fogo desceu na direção do túnel de samambaias que levava à toca de Folha Manchada. Ao entrar na clareira, viu que a gata estava preparando algumas ervas que recendiam um cheiro doce.

– Você pode me conseguir um pouco de bile de rato para os carrapatos de Presa Amarela? – Pata de Fogo miou.

– Num instante – respondeu Folha Manchada, juntando dois punhados de ervas e misturando a pilha aromática com uma das garras delicadamente estendida.

– Está ocupada? – perguntou Pata de Fogo, ajeitando-se em um pedaço de terra aquecido.

– Quero estar preparada para qualquer eventualidade – murmurou a curandeira, fitando-o com seus olhos claros cor de âmbar. Por um instante, Pata de Fogo sustentou o olhar, que depois desviou, sentindo no pelo um certo desconforto. Folha Manchada voltou a prestar atenção nas ervas.

Pata de Fogo esperou, feliz por estar ali calmamente sentado, observando-a trabalhar.

– Pronto – miou, afinal. – O que você queria mesmo? Bile de rato?

– É, por favor. – Pata de Fogo ficou de pé e esticou as patas traseiras, uma de cada vez. Seu pelo estava quente do sol, que o tinha deixado sonolento.

Folha Manchada entrou na toca e trouxe alguma coisa lá de dentro, que carregava cuidadosamente na boca. Era um chumaço de musgo pendurado em um estreito pedaço de casca de árvore. Ela o entregou a Pata de Fogo. O

aprendiz sentiu seu hálito morno e doce ao pegar entre os dentes a tira de casca de árvore.

– O musgo está empapado em bile – explicou Folha Manchada. – Não deixe entrar na boca; ficaria com um gosto horrível por dias a fio. Pressione o musgo nos carrapatos e depois lave bem as patas – num riacho, não com a língua!

Pata de Fogo agradeceu e voltou até onde estava Presa Amarela, sentindo-se, de repente, alegre e cheio de energia. – Fique quieta! – ele miou para a velha gata. Com cuidado, usava as patas dianteiras para pressionar o musgo em cada carrapato.

Quando Pata de Fogo acabou o serviço, Presa Amarela miou: – Você podia aproveitar e limpar minhas fezes, agora que suas patas já estão fedendo mesmo! Vou tirar um cochilo – bocejou, revelando os dentes escurecidos e quebrados. O calor do dia também a deixara sonolenta. – Depois, pode ir e fazer essas coisas que vocês, aprendizes, fazem – murmurou.

Pata de Fogo limpou as fezes de Presa Amarela, deixou-a dormindo e foi na direção do túnel de tojo. Estava ansioso para chegar ao riacho e enxaguar as patas.

– Pata de Fogo! – uma voz o chamou do lado da clareira.

O aprendiz se virou. Era Meio Rabo.

– Aonde você está indo? – miou o velho gato, curioso. – Devia estar ajudando nos preparativos.

– Acabei de colocar bile de rato nos carrapatos de Presa Amarela – respondeu.

Os bigodes de Meio Rabo se mexeram, divertidos. – Corra então até o riacho mais próximo! Trate de voltar com alguma presa fresca. Precisamos de tudo o que pudermos encontrar.

– Certo, Meio Rabo!

Pata de Fogo saiu do acampamento em direção à ravina. Desceu a margem do riacho onde ele e Pata Cinzenta tinham caçado no dia em que encontrara Presa Amarela. Sem hesitar, pulou na água limpa e fria, que o cobriu até os quadris e molhou o pelo da sua barriga, fazendo-o arfar e tiritar.

Um ruído nos arbustos chamou-lhe a atenção, embora o cheiro conhecido que lhe chegava ao nariz anunciasse que não havia motivo para alarme.

– O que está fazendo aí? – Pata Cinzenta e Pata Negra o olhavam, como se o amigo estivesse louco.

– Nem queiram saber! – Pata de Fogo respondeu com uma careta. – Bile de rato! Onde estão Coração de Leão e Garra de Tigre?

– Foram juntar-se à patrulha mais próxima – respondeu Pata Cinzenta – e nos mandaram passar o resto da tarde caçando.

– Meio Rabo me disse a mesma coisa – Pata de Fogo miou, encolhendo-se ao sentir nas patas uma corrente de água gelada. – Todos estão ocupados no acampamento. Até parece que vamos ser atacados a qualquer instante. – Pingando, subiu para a margem.

– Quem diz que não vamos ser atacados? – miou Pata Negra, olhando de um lado para o outro, como se uma patrulha inimiga fosse pular dos arbustos de repente.

Pata de Fogo olhou para o monte de presas frescas empilhadas ao lado dos dois aprendizes. – Parece que vocês se deram bem hoje – miou.

– É verdade – disse Pata Cinzenta, orgulhoso. – E ainda temos o resto da tarde para caçar. Quer ir também?

– Claro que sim! – Pata de Fogo ronronou. Deu uma última sacudida e seguiu os amigos pela vegetação.

Pata de Fogo notou que os gatos no acampamento ficaram impressionados com a quantidade de presas que os três aprendizes haviam conseguido apanhar na caçada da tarde. Foram saudados com caudas erguidas e focinhadas amigáveis. Tiveram de fazer quatro viagens para levar o resultado da caça ao depósito cavado pelos anciãos.

Coração de Leão e Garra de Tigre tinham acabado de voltar com a patrulha quando os aprendizes carregavam o último fardo para o acampamento.

– Muito bem, garotos – miou Coração de Leão. – Soube que andaram ocupados. O depósito está quase cheio. Podem colocar esse último lote na pilha de presas frescas para esta noite. E levem algumas para sua toca.

Vocês merecem um banquete!

Os três aprendizes balançaram as caudas, contentes.

– Espero que não esteja deixando Presa Amarela de lado, com toda essa caça, Pata de Fogo – Garra de Tigre advertiu.

Pata de Fogo sacudiu a cabeça, impaciente, louco para ir embora. Estava faminto. Dessa vez, obedecera ao código dos guerreiros e não comera nem sequer um naco ao caçar para o clã. Nem ele nem os companheiros.

Afastaram-se e colocaram a última presa na pilha formada no centro da clareira. Cada um deles pegou uma porção e levou para o tronco de árvore.

A toca estava vazia.

– Onde estão Pata de Poeira e Pata de Areia? – perguntou Pata Negra.

– Devem estar ainda em patrulha – Pata de Fogo sugeriu.

– Ótimo. Paz e sossego – miou Pata Cinzenta.

Comeram até se fartar e se recostaram para se lavar. O ar fresco da tarde era bem-vindo depois do calor que fizera.

De repente, Pata Cinzenta miou: – Ei! Adivinhe! Pata Negra conseguiu arrancar um elogio do velho Garra de Tigre esta manhã!

– É mesmo? – Pata de Fogo se espantou. – O que você fez para agradar Garra de Tigre? Voou?

– Bem – começou Pata Negra todo sem jeito, mirando as patas. – Peguei um corvo.

– Como conseguiu? – Pata de Fogo miou, impressionado.

– Era um corvo velho – Pata Negra admitiu modestamente.

– Mas era enorme – acrescentou Pata Cinzenta. – Até Garra de Tigre teve de se render! Ele andava de muito mau humor desde que Estrela Azul tomou você como aprendiz. – Pensativo, lambeu a pata por um momento. – Espere aí… Na verdade, ele está assim desde que Coração de Leão foi escolhido como representante.

– Ele só está preocupado com o Clã das Sombras e as patrulhas extras – Pata Negra se apressou a explicar. – Você devia evitar aborrecê-lo.

A conversa foi interrompida por um grito do outro lado da clareira.

– Ah, não! – grunhiu Pata de Fogo, pondo-se de pé. – Esqueci de levar a comida de Presa Amarela!

– Fique aqui – miou Pata Cinzenta, dando um pulo. – Eu levo alguma coisa para ela.

– Não, é melhor eu ir – Pata de Fogo protestou. – O castigo é meu, não seu.

– Ninguém vai perceber – argumentou Pata Cinzenta. – Todo o mundo está ocupado, comendo. Você me conhece: quieto como um camundongo, rápido como um peixe. Espere aqui.

Pata de Fogo voltou a sentar, incapaz de esconder o alívio. Observou o amigo se afastar do tronco de árvore até a pilha de presa fresca.

Como se cumprisse ordens, Pata Cinzenta, confiante, escolheu dois dos camundongos mais apetitosos. Rapidamente começou a atravessar a clareira na direção de Presa Amarela.

– Pare, Pata Cinzenta! – Um rosnado alto se ouviu da entrada da toca dos guerreiros. Garra de Tigre foi até o aprendiz e perguntou: – Aonde você está levando esses camundongos?

Com um frio na barriga, Pata de Fogo observava, desolado, do tronco de árvore. Ao lado dele, Pata Negra parou no meio de uma mordida e encolheu-se sobre a comida, com os olhos mais arregalados do que nunca.

– Umm… – Pata Cinzenta soltou os camundongos e trançou as patas, sem graça.

– Você não está ajudando o jovem Pata de Fogo levando comida para aquela traidora insaciável, está?

Pata de Fogo viu o amigo examinar as patas por um instante. Finalmente, o aprendiz respondeu: – Eu, é… estava apenas com fome. Ia levar os camundongos para comer sozinho. Se aqueles dois vissem – olhou para Pata de Fogo e Pata Negra –, iam me deixar só com ossos e pelo.

– É mesmo? – miou Garra de Tigre. – Se está com tanta fome, pode muito bem comer esses camundongos aqui e agora!

– Mas… – Pata Cinzenta começou a falar, olhando assustado para o guerreiro.

– Agora! – rugiu Garra de Tigre.

O aprendiz rapidamente abaixou a cabeça e começou a comer os camundongos. Devorou o primeiro com algumas mordidas e o engoliu rapidamente. Demorou um pouco mais para comer o segundo. Pata de Fogo achou que o amigo nunca ia conseguir botar o camundongo para dentro, e seu próprio estômago se apertava em solidariedade; finalmente, com dificuldade, Pata Cinzenta engoliu, e o último pedaço desapareceu.

– Está melhor agora? – perguntou Garra de Tigre, com a voz macia e um certo deboche.

– Muito – respondeu Pata Cinzenta com um arroto.

– Muito bem – disse Garra de Tigre, voltando à sua toca.

Pata Cinzenta, sem graça, foi até onde estavam os amigos.

– Obrigado, Pata Cinzenta – agradeceu Pata de Fogo, passando o focinho no pelo macio do companheiro. – Você pensou rápido.

O rugido de Presa Amarela ecoou mais uma vez. Pata de Fogo suspirou e pôs-se nas quatro patas. Ia deixar para ela comida bastante para a noite toda. Queria voltar cedo para casa. Tinha a barriga cheia e os pés cansados.

– Tudo bem, Pata Cinzenta? – perguntou ao se virar para sair.

– Miau, miau – reclamou o gato, encolhido, tremendo de dor. – Comi demais!

– Vá ver Folha Manchada – Pata de Fogo sugeriu. – Com certeza ela dará um jeito nisso.

– Espero que sim – miou Pata Cinzenta, afastando-se lentamente.

Pata de Fogo queria observar o amigo partir, mas outro grito zangado de Presa Amarela o fez sair correndo pela clareira.