Na Floresta
Capítulo 16
VOLTARAM PELO CAMINHO por onde tinham vindo. A lua desaparecera por trás de uma barreira de nuvens. Estava escuro, mas ao menos o Caminho do Trovão se aquietara. O único monstro que ouviram parecia estar distante.
Os felinos atravessaram juntos, dirigindo-se à fronteira do outro lado.
Pata de Fogo sentia os músculos enrijecendo de cansaço à medida que apressavam o passo. Estrela Azul mantinha um ritmo veloz, com o nariz para a frente e a cauda erguida. Garra de Tigre corria a seu lado. Pata de Fogo vinha um pouco atrás, com Pata Cinzenta; mas Pata Negra não conseguia acompanhar o grupo.
– Mantenha o passo, Pata Negra! – resmungou Pata Cinzenta por sobre o ombro.
Pata Negra hesitou e então avançou, até alcançar os outros dois aprendizes.
– Você está bem? – perguntou Pata de Fogo.
– Estou, sim – resfolegou Pata Negra, sem olhar diretamente para o amigo. – Só um pouco cansado.
Desceram um fosso profundo e subiram do outro lado.
– O que Garra de Tigre disse quando saiu da caverna? – Pata de Fogo miou, tentando não parecer curioso demais.
– Ele queria ter certeza de que ainda estávamos guardando a entrada – respondeu Pata Cinzenta. – Por quê?
Pata de Fogo hesitou, mas perguntou: – Você percebeu algum cheiro esquisito nele?
– Só o cheiro úmido da velha caverna – respondeu Pata Cinzenta, parecendo surpreso.
– Achei que ele estava um pouco nervoso – arriscou Pata Negra.
– Não era o único! – Pata Cinzenta miou, olhando para o gato negro.
– O que você quer dizer com isso? – perguntou Pata Negra.
– É que ultimamente o pelo do seu pescoço se eriça sempre que você o vê – murmurou Pata Cinzenta. – Você quase desmaiou ao vê-lo sair da caverna.
– É que ele me surpreendeu, foi só isso – protestou Pata Negra. – Você tem de admitir que foi meio apavorante lá na Boca da Terra.
– É verdade – concordou o amigo.
Os gatos deslizaram sob uma cerca até uma plantação de milho, que brilhava prateada ao luar, e seguiram o fosso que a circundava.
– Como é lá dentro, Pata de Fogo? – perguntou Pata Cinzenta. – Você viu a Pedra da Lua?
– Vi, sim. Foi impressionante! – Pata de Fogo sentiu o pelo formigar com a lembrança.
Pata Cinzenta lançou-lhe um olhar admirado. – Então é verdade! A rocha realmente brilha sob a terra.
Pata de Fogo não respondeu. Fechou os olhos por um instante, saboreando a imagem da Pedra da Lua, que lhe ofuscava a mente. Foi quando imagens do sonho lhe vieram à cabeça e seus olhos se arregalaram.
Estrela Azul tinha razão: precisavam voltar o mais depressa possível.
Mais à frente, Garra de Tigre e Estrela Azul tinham pulado uma cerca, saindo da plantação de milho. Os aprendizes os seguiram, espremendo-se sob a cerca, na trilha de terra. Era o caminho que passava pelo ninho dos Duas-Pernas e pelos cães. Pata de Fogo viu Estrela Azul e Garra de Tigre andando mais à frente, incansáveis, suas silhuetas recortadas contra o horizonte tingido de vermelho. O sol logo surgiria.
– Vejam! – gritou ele para Pata Cinzenta e Pata Negra. Um gato desconhecido tinha pulado na frente dos dois guerreiros.
– É um isolado! – ciciou Pata Cinzenta. Os três aprendizes correram naquela direção.
O estranho era malhado de branco e preto retinto, mais baixo que os guerreiros, mas bem musculoso.
– Este é Cevada! – explicou Estrela Azul, quando eles chegaram. – Ele vive perto do ninho dos Duas-Pernas.
– Olá! – miou o gato. – Faz algumas luas que não vejo nenhum gato do seu clã. Como vai você, Estrela Azul?
– Vou bem, obrigada. E você, Cevada? Como está a caça desde que passamos por aqui a última vez?
– Não tão mal – respondeu o gato, com um brilho amigável no olhar. – Uma coisa boa a respeito dos Duas-Pernas é que você sempre vai achar um monte de ratos perto deles. – O gato preto e branco continuou: – Você parece estar com mais pressa que de costume. Está tudo bem?
Garra de Tigre olhou para Cevada. Um grunhido soou fundo no seu peito.
Pata de Fogo viu que o guerreiro ficou desconfiado com a curiosidade do isolado.
– Não gosto de ficar muito tempo longe do meu clã – respondeu Estrela Azul, com delicadeza.
– Como sempre, Estrela Azul, você está ligada ao clã como uma rainha a seus filhotes – observou Cevada, também amigável.
– O que quer, Cevada? – perguntou Garra de Tigre.
Cevada lançou-lhe um olhar reprovador. – Só queria avisar que agora há dois cães aqui. É melhor voltarem pela plantação de milho, em vez de atravessarem o quintal.
– Já sabemos sobre os cães. Nós os vimos mais cedo… – começou, impaciente, Garra de Tigre.
– Agradecemos pelo aviso – interrompeu Estrela Azul. – Obrigada, Cevada. Até a próxima vez.
Cevada balançou a cauda. – Tenham uma viagem segura – miou, voltando para a trilha.
– Venham – ordenou a líder, desviando-se da trilha e passando no meio da grama alta, entre o caminho e a cerca que dava na plantação de milho.
Os três aprendizes a seguiram, mas Garra de Tigre hesitou.
– Você confia na palavra de um isolado? – perguntou.
Estrela Azul virou-se e o encarou. – Você prefere enfrentar os cães?
– Estavam amarrados quando passamos por eles mais cedo – observou Garra de Tigre.
– Podem estar soltos agora. Vamos por aqui – miou Estrela Azul. E, passando por baixo da cerca, saiu no campo. Pata de Fogo se esgueirou logo atrás, seguido por Pata Cinzenta, Pata Negra e, finalmente, Garra de Tigre.
A essa altura o sol já tinha aparecido no horizonte. As árvores brilhavam com o orvalho, prometendo um outro dia quente.
Os gatos caminhavam na beira do fosso. Pata de Fogo olhava para baixo na vala profunda, íngreme e cheia de urtigas. Sentia o cheiro de caça. Havia alguma coisa familiar no odor amargo, mas era um cheiro que não sentia havia muito tempo.
Um grito ensurdecedor fez Pata de Fogo se virar. Pata Negra se debatia e arranhava a terra. Alguma coisa tinha segurado sua perna e o puxava para o fosso.
– Ratos! – disparou Garra de Tigre. – Cevada nos enviou para uma cilada!
Antes que pudessem reagir, os cinco felinos foram cercados. Enormes ratos marrons surgiram do buraco, com guinchos estridentes. Pata de Fogo via seus dentes afiados brilhando na luz do amanhecer.
De repente, um deles pulou no ombro de Pata de Fogo. Uma dor aguda o atravessou quando o rato afundou-lhe os dentes na carne. Outro agarrou-lhe a perna entre mandíbulas poderosas.
Pata de Fogo se jogou no chão, contorcendo-se loucamente, tentando se soltar. Sabia que os ratos não eram fortes como ele, mas eram muitos.
Gritos, cicios e cusparadas diziam que os outros também tinham sido atacados.
Pata de Fogo reagiu ferozmente com as garras, dilacerando um rato que segurava sua perna. Mas logo outro agarrou-lhe a cauda. Rápido como um raio, acelerado por medo e raiva, Pata de Fogo lutou, atacando os agressores. Virando a cabeça para trás, afundou os dentes no rato que se atirara nos seus ombros. Sentiu na boca os ossos do pescoço do animal se estraçalharem e o corpo amolecer, antes de cair na trilha de terra.
Pata de Fogo arfou de dor quando mais um rato pulou nas suas costas, cravando-lhe os dentes. Pelo canto do olho, percebeu um lampejo de pelo branco passar correndo. Por um momento ficou confuso; então sentiu o rato ser afastado de seu pelo. Virou-se e viu Cevada atirando o roedor no fosso.
Sem hesitar, Cevada olhou à volta e correu na direção de Estrela Azul, que se contorcia no chão, coberta de ratos. Num instante, Cevada abocanhou a espinha de um deles, conseguindo desgrudá-lo da líder com facilidade. Cuspiu o roedor no chão e logo agarrou outro com a boca, enquanto a gata escapulia por baixo dele.
Pata de Fogo correu na direção de Pata Cinzenta, atacado dos dois lados por dois ratos menores. Investiu sobre o que estava mais perto, matando-o com uma mordida. Pata Cinzenta conseguiu se virar e imobilizar o outro no chão com suas garras. Travou o rato com os dentes e o jogou no fosso com toda a força. Ele não voltou.
– Estão fugindo! – Garra de Tigre gritou.
De fato, os outros ratos se refugiaram na segurança da vala. Pata de Fogo ouviu o barulho de pequenas patas descendo pelo buraco, desaparecendo nas urtigas. As mordidas no ombro e na perna traseira doíam bastante.
Com cuidado, o aprendiz lambeu a pelagem, molhada e manchada de sangue, cujo cheiro intenso se misturava com o fedor dos ratos.
Pata de Fogo procurou Pata Negra. Pata Cinzenta estava na beira das urtigas encorajando Pata Negra que saía da vala, cheio de lama e dolorido, com um rato pequeno ainda pendurado na cauda. Pata de Fogo pulou e acabou com o roedor rapidamente, enquanto Pata Cinzenta ajudava a puxar o amigo do fundo do fosso.
Pata de Fogo começou a procurar Estrela Azul. Primeiro viu Cevada, no alto do fosso, olhando para baixo, à procura de outros ratos. A líder estava caída ali perto. Alarmado, o aprendiz correu para o lado dela e viu que a pelagem cinza e espessa atrás do seu pescoço estava empapada de sangue.
– Estrela Azul? – chamou.
A gata não respondeu.
Um grito furioso fez Pata de Fogo olhar para cima.
Garra de Tigre pulou sobre Cevada, imobilizando-o no chão. – Você nos mandou para uma cilada – rosnou.
– Não sabia que os ratos estavam aqui! – disparou Cevada, arrastando as patas na poeira, lutando para se levantar.
– Por que nos mandou por esse caminho? – cobrou Garra de Tigre.
– Os cães!
– Estavam amarrados quando passamos por eles mais cedo!
– Os Duas-Pernas os soltam à noite para proteger os ninhos. – Cevada arfava, tentando respirar sob as enormes patas do guerreiro.
– Garra de Tigre! Estrela Azul está ferida! – Pata de Fogo avisou.
Imediatamente o guerreiro soltou Cevada, que se levantou e sacudiu a poeira da pelagem. Garra de Tigre foi para o lado de Estrela Azul e cheirou suas feridas.
– Há algo que possamos fazer? – perguntou Pata de Fogo.
– Ela está nas mãos do Clã das Estrelas agora – miou, solene, o guerreiro, dando um passo para trás.
Pata de Fogo, em choque, arregalou os olhos. Garra de Tigre queria dizer que a líder estava morta? Seu pelo se eriçou ao olhar para a gata. Teria sido esse o aviso dos espíritos na Pedra da Lua?
Pata Cinzenta e Pata Negra, aterrorizados, se juntaram a eles ao lado de Estrela Azul. Cevada ficou atrás, esticando o pescoço para ver o que estava acontecendo.
Os olhos de Estrela Azul estavam abertos, mas vidrados, e seu corpo cinza jazia imóvel. Parecia que nem respirava.
– Está morta? – murmurou Pata Negra.
– Não sei. Precisamos esperar para ver – respondeu Garra de Tigre.
Os cinco felinos ficaram aguardando, enquanto o sol começava a subir no céu. Pata de Fogo, em silêncio, pediu ao Clã das Estrelas para proteger a líder, mandá-la de volta para eles.
Foi quando Estrela Azul se mexeu. A ponta da cauda estremeceu e ela ergueu a cabeça.
– Estrela Azul? – miou Pata de Fogo, com a voz tremendo.
– Está tudo bem – disse a gata, com a voz rouca. – Ainda estou aqui. Perdi uma vida, mas não foi a nona.
Pata de Fogo transbordou de alegria. Olhou para Garra de Tigre, esperando ver seu rosto cheio de alívio, mas o guerreiro permanecia inexpressivo.
– Certo – miou Garra de Tigre, em tom de comando. – Pata Negra, arrume teias de aranha para colocar nas feridas de Estrela Azul. Pata Cinzenta, apanhe cravo-da-índia ou cavalinha. – Os dois aprendizes foram correndo.
– Cevada, acho melhor você ir embora agora.
Pata de Fogo olhou para o isolado, que tinha lutado tão bravamente para ajudá-los. Queria agradecer-lhe, mas, ante o olhar feroz de Garra de Tigre, não ousou. Em vez de falar, Pata de Fogo apenas dirigiu um aceno de cabeça a Cevada, que pareceu compreender, pois acenou de volta e saiu sem dizer mais nada.
Estrela Azul continuava deitada no chão. – Estão todos bem? – perguntou, com a voz fraca.
Garra de Tigre fez que sim com a cabeça.
Pata Negra voltou, com uma espessa teia de aranha embrulhada na pata esquerda. – Aqui está – miou.
– Posso colocar as teias de aranha nas feridas de Estrela Azul? – Pata de Fogo perguntou a Garra de Tigre. – Presa Amarela me mostrou como se faz.
– Está bem – concordou o guerreiro, que se afastou e voltou a olhar a vala, esticando as orelhas para tentar descobrir se ainda havia ratos por perto.
Pata de Fogo tirou um punhado de teia de aranha da pata do amigo e começou a pressioná-la com força nos machucados de Estrela Azul.
A gata tensionou o corpo com o toque. – Se não fosse por Garra de Tigre, esses ratos teriam me comido viva – reclamou, a voz carregada de dor.
– Não foi Garra de Tigre que a salvou. Foi Cevada – murmurou o aprendiz ao retirar mais teia de aranha de Pata Negra.
– Cevada? – espantou-se Estrela Azul. – Ele está aqui?
– Garra de Tigre o mandou embora – respondeu Pata de Fogo em voz baixa. – Ele acha que Cevada nos enviou para uma cilada.
– E o que você acha? – perguntou a líder, com a voz rouca.
Pata de Fogo não levantou o rosto, concentrado em colocar na ferida o último pedaço de teia de aranha. – Cevada é um isolado. O que ele ganharia nos mandando para uma cilada apenas para depois nos salvar? – ele miou, finalmente.
Estrela Azul abaixou a cabeça e fechou os olhos novamente.
Pata Cinzenta voltou trazendo um pouco de cavalinha. Pata de Fogo mascou as folhas e cuspiu o sumo nas feridas de Estrela Azul. Sabia que aquilo ia debelar a infecção, mas ainda preferia que Folha Manchada estivesse ali, ajudando a curar com seu conhecimento e sua segurança.
– Deveríamos descansar aqui enquanto Estrela Azul se recupera – ponderou Garra de Tigre se aproximando.
– Não – disse a gata. – Devemos voltar ao acampamento. – Contraindo os olhos por causa da dor, levantou-se com esforço. – Vamos continuar.
A líder do Clã do Trovão foi mancando até a beira do campo. Garra de Tigre caminhava a seu lado, o rosto fechado em pensamentos insondáveis.
Os aprendizes trocaram olhares ansiosos e seguiram os dois.
– Já faz muito tempo que a vi perder uma vida, Estrela Azul – Pata de Fogo entreouviu Garra de Tigre murmurar. – Quantas você já perdeu?
Pata de Fogo não pôde deixar de ficar surpreso com a curiosidade explícita do guerreiro.
– Esta foi a quinta – respondeu, serena, a líder.
Pata de Fogo retesou as orelhas, mas Garra de Tigre não replicou.
Continuou a andar, perdido em pensamentos.