Na Floresta
Capítulo 10
NA MANHÃ SEGUINTE, uma garoa fina encharcou a copa das árvores e escorreu pelo acampamento.
Pata de Fogo acordou com a sensação de estar molhado. Tinha sido uma noite desconfortável. Levantou-se e sacudiu-se com força, afofando a pelagem. Saiu da toca dos aprendizes e atravessou a clareira na direção do ninho de Presa Amarela.
A gata estava agitada. Levantou a cabeça e olhou para o visitante com os olhos semicerrados. – Meus ossos estão doendo esta manhã. Choveu a noite toda?
– Desde que passou a lua alta – Pata de Fogo respondeu. Aproximou-se e, cauteloso, tocou o ninho de musgo. – Sua cama está encharcada. Por que não fica mais perto do berçário? Ali é mais protegido.
– O quê? E ficar acordada a noite toda com aqueles filhotes miando?
Prefiro ficar molhada! – grunhiu Presa Amarela.
Pata de Fogo observou-a dar voltas, resoluta, sobre a cama de musgo. – Ao menos deixe-me arranjar uma cama seca para você – ele ofereceu, disposto a não falar a respeito de filhotes, já que o assunto incomodava tanto a velha gata.
– Obrigada, Pata de Fogo – respondeu Presa Amarela baixinho, voltando a se acomodar.
Pata de Fogo ficou espantado, a se perguntar se a gata estava se sentindo bem. Era a primeira vez que lhe agradecia por alguma coisa e que não o chamava de gatinho de gente.
– Ora, não fique aí sentado como um esquilo assustado; vá apanhar mais musgo – ela disparou.
Os bigodes de Pata de Fogo se mexeram, divertidos. Aquela era a Presa Amarela que ele conhecia. Fez que sim com a cabeça e saiu depressa.
Quase trombou com Cauda Sarapintada no meio da clareira. Era a rainha que, na véspera, tinha observado a explosão raivosa de Presa Amarela com o filhote malhado.
– Desculpe, Cauda Sarapintada! – Pata de Fogo miou. – Você está indo ver Presa Amarela?
– O que eu ia querer com aquela criatura esquisita? – replicou a gata, rudemente. – Na verdade, estava procurando você. Estrela Azul quer vê-lo.
Pata de Fogo correu na direção da Pedra Grande e da toca da líder.
Estrela Azul estava sentada do lado de fora, balançando a cabeça cadenciadamente, enquanto lambia a pelagem cinza abaixo da garganta.
Parou quando percebeu a chegada do aprendiz. – Como está Presa Amarela hoje? – miou.
– Sua cama está encharcada; então estava indo buscar mais musgo – respondeu Pata de Fogo.
– Vou pedir a alguma das rainhas para providenciar – Estrela Azul lambeu o peito mais uma vez e então olhou atentamente para Pata de Fogo.
– Ela já está bem para conseguir caçar a própria comida? – perguntou.
– Acho que não – miou Pata de Fogo –, mas já está caminhando bem.
– Compreendo – miou Estrela Azul, que pareceu pensativa por um instante. – Já é tempo de voltar ao treinamento, Pata de Fogo. Mas você vai precisar trabalhar duro para recuperar o tempo que perdeu.
– Ótimo! Quero dizer, muito obrigado, Estrela Azul! – o aprendiz gaguejou.
– Você vai sair com Garra de Tigre, Pata Cinzenta e Pata Negra esta manhã – continuou a líder. – Pedi a Garra de Tigre para avaliar as habilidades de guerreiro de todos os nossos aprendizes. Não se preocupe com Presa Amarela; vou assegurar que alguém cuide dela enquanto estiver fora.
Pata de Fogo fez que sim com a cabeça.
– Agora, junte-se a seus companheiros – ordenou Estrela Azul. – Imagino que o estejam esperando.
– Obrigado, Estrela Azul – miou o aprendiz. E, com um movimento de cauda, disparou na direção de sua toca.
Estrela Azul estava certa; Pata Cinzenta e Pata Negra o esperavam no toco de árvore favorito. Pata Cinzenta, tenso e desconfortável, tinha a pelagem longa pesada por causa da umidade do ar. Pata Negra andava de um lado para o outro perto do toco de árvore, perdido em seus pensamentos, mexendo a ponta branca da cauda.
– Então hoje você vai conosco! – disse Pata Cinzenta ao ver o amigo chegar. – Que dia, hein? – Sacudiu-se com força para se livrar da água da chuva.
– É verdade. Estrela Azul me disse que Garra de Tigre vai nos avaliar hoje. Pata de Areia e Pata de Poeira também vão conosco?
– Nevasca e Risca de Carvão levaram os dois na patrulha dos guerreiros.
Acho que Garra de Tigre vai cuidar deles depois – respondeu Pata Cinzenta.
– Vamos, está na hora! – apressou Pata Negra, que parara de marchar e agora esperava ao lado dos amigos, ansioso.
– Por mim, tudo bem – miou Pata Cinzenta. – Espero que o exercício me aqueça um pouco.
Os três gatos saíram do acampamento pela trilha de tojo e correram até o vale de areia. Como Garra de Tigre não havia chegado ainda, ficaram ao abrigo de um pinheiro, com o pelo arrepiado de frio.
– Está preocupado com a avaliação? – Pata de Fogo perguntou a Pata Negra ao ver o amigo caminhando para a frente e para trás, com passos rápidos e nervosos. – Não precisa. Afinal, você é aprendiz de Garra de Tigre.
Quando ele fizer o relatório para Estrela Azul, vai querer dizer como você é bom.
– Com Garra de Tigre, nunca se sabe – miou Pata Negra, sem parar de se mexer.
– Por misericórdia, sente-se – reclamou Pata Cinzenta. – Desse jeito, você estará exausto antes mesmo de começarmos.
Quando Garra de Tigre chegou, o céu tinha mudado. As nuvens pareciam menos com uma pelagem espessa e cinza e mais com as bolas de pelo fofo e branco que as rainhas costumavam colocar nos ninhos dos recém-nascidos.
Os céus azuis não estavam longe, mas a brisa que trouxera nuvens mais leves transportava um friozinho novo.
Pata de Tigre cumprimentou rapidamente os aprendizes e foi direto para os detalhes do exercício: – Coração de Leão e eu passamos as últimas semanas tentando ensinar vocês a caçar de modo apropriado. Hoje vão ter a oportunidade de mostrar quanto aprenderam. Cada um vai pegar uma rota diferente e caçar o máximo de presas possível. Tudo o que pegarem será levado para o estoque no acampamento.
Os três aprendizes se entreolharam, nervosos e empolgados. Pata de Fogo sentiu o coração bater mais rápido com a perspectiva do desafio.
– Pata Negra, você vai seguir a trilha além do Grande Plátano, chegando até as Rochas das Cobras. Isso será fácil até mesmo para suas poucas habilidades. Você, Pata Cinzenta – continuou Garra de Tigre –, vai pegar a rota ao longo do riacho, indo até o Caminho do Trovão.
– Ótimo – miou Pata Cinzenta. – Patas molhadas para mim! – O olhar de Garra de Tigre o calou.
– E, finalmente, você, Pata de Fogo. Uma pena sua grande mentora não estar aqui hoje para testemunhar sua atuação. Você vai pegar a rota que atravessa os Pinheiros Altos, passando pelas Árvores Cortadas, até a floresta.
Pata de Fogo concordou, traçando freneticamente a rota na cabeça.
– E lembrem: – terminou Garra de Tigre, encarando-os firmemente com seu olhar sem brilho – Estarei de olho em todos vocês.
Pata Negra foi o primeiro a sair correndo na direção das Rochas das Cobras. Garra de Tigre tomou um caminho diferente rumo à floresta, deixando sozinhos no vale Pata Cinzenta e Pata de Fogo, que tentavam adivinhar a quem o guerreiro seguiria em primeiro lugar.
– Não sei por que ele acha que a rota das Rochas das Cobras é fácil! – miou Pata Cinzenta. – O lugar parece rastejar de tantas serpentes. Pássaros e camundongos ficam longe dali por causa da quantidade de cobras!
– Pata Negra terá de passar o tempo todo evitando ser picado – concordou Pata de Fogo.
– Ele vai ficar bem – miou Pata Cinzenta. – Nem mesmo uma serpente seria rápida bastante para agarrar Pata Negra agora, de tanto que ele pula.
É melhor eu ir. Encontro vocês aqui mais tarde. Boa sorte!
Pata Cinzenta correu na direção do riacho. Pata de Fogo parou para farejar o ar e depois, dirigindo-se à encosta do vale, começou a rumar para os Pinheiros Altos.
Parecia estranho seguir naquela direção, para as bandas do lugar dos Duas-Pernas, onde tinha crescido. Com cuidado, Pata de Fogo atravessou o caminho estreito que dava para a floresta de pinheiros. Olhou através das fileiras retas de árvores, de um lado a outro do chão batido da floresta, alerta para ver alguma presa ou sentir seu cheiro.
Um movimento lhe chamou a atenção. Era um camundongo se esgueirando entre as agulhas dos pinheiros. Lembrando a primeira lição, Pata de Fogo agachou na posição de tocaia, mantendo o peso nos quadris e as patas encostadas de leve no chão. A técnica funcionou perfeitamente. O
camundongo não conseguiu perceber Pata de Fogo até o pulo final. O gato o pegou com uma pata e rapidamente o matou. Então enterrou a presa, para apanhá-la na volta.
Pata de Fogo foi um pouco mais além pelos Pinheiros Altos. O chão estava bastante marcado pela trilha feita pelo enorme monstro dos Duas-Pernas que derrubava as árvores. Ele respirou fundo, com a boca aberta. O
hálito ácido do monstro, por enquanto, não impregnara o ar por ali.
Pata de Fogo seguiu as trilhas fundas, pulando pelos buracos no chão.
Estavam meio cheios de chuva, o que o deixava com sede. Ficou tentado a parar e beber um pouco das poças, mas hesitou. Uma lambida daquela água lamacenta e fedida e ele sentiria o gosto horrível do monstro por dias.
Decidiu esperar. Talvez houvesse uma poça de chuva além dos Pinheiros Altos. Embrenhou-se entre as árvores e atravessou o caminho dos Duas-Pernas na fronteira extrema.
Estava de volta à vegetação espessa da floresta de carvalho. Entrou ainda mais até encontrar uma poça, onde se fartou de água fresca. De repente, seu pelo começou a se eriçar em alerta. Ele reconheceu sons e cheiros familiares do seu antigo ponto de observação na cerca e logo soube onde estava. Era a floresta que fazia fronteira com o lugar dos Duas-Pernas.
Agora devia estar bem perto da sua antiga casa.
Mais adiante, Pata de Fogo sentiu o cheiro dos Duas-Pernas e ouviu suas vozes, altas e estridentes, como de corvos. Era um grupo de jovens Duas-Pernas brincando pela floresta. O aprendiz agachou, observando através das samambaias. Os sons estavam a uma distância segura. Ele mudou de direção, evitando os barulhos, cuidando para não ser visto.
Pata de Fogo permaneceu alerta, observando, mas não apenas por causa dos Duas-Pernas – Garra de Tigre podia estar por perto. Pensou ter ouvido um estalar de galho nos arbustos atrás dele. Farejou o ar, mas nada percebeu de novo. Estaria sendo observado?, perguntou-se.
Pelo canto do olho, percebeu um movimento. Primeiro pensou que fosse a pelagem marrom-escuro de Garra de Tigre, mas então viu um lampejo branco. Parou, agachou e respirou fundo. O cheiro era estranho; era um gato, mas não do Clã do Trovão. Pata de Fogo sentiu o pelo eriçar com os instintos de um guerreiro de clã. Teria de expulsar o intruso do território do Clã do Trovão!
Pata de Fogo observou a criatura se movimentando entre a vegetação.
Viu claramente seu perfil enquanto ela passava correndo entre as samambaias. Esperou que se aproximasse. Agachou ainda mais, com a cauda em lenta cadência para a frente e para trás. Quando o gato preto e branco se aproximou, Pata de Fogo balançou os quadris de um lado para outro, preparando-se para atacar. Mais uma batida de coração e ele saltou.
O gato preto e branco pulou no ar, apavorado, e correu pelo meio das árvores. Pata de Fogo correu atrás.
É um gato de gente! , pensou, disparando pela vegetação, sentindo cheiro de medo. No meu território! Pata de Fogo se aproximava rapidamente do animal em fuga. De repente, o gato diminuiu o ritmo, preparando-se para escalar o tronco de uma árvore caída, largo e cheio de musgo. Com o sangue latejando nas orelhas, Pata de Fogo pulou nas costas dele com um único movimento e, ao cravar-lhe as garras, sentiu-o se debater. O gato soltou um grito desesperado de terror.
Pata de Fogo soltou as garras e afastou-se. O gato preto e branco, tremendo de medo, agachou-se ao pé de uma árvore caída e olhou para ele.
Pata de Fogo levantou o nariz, sentindo um tremor de desgosto com a rendição tão fácil do intruso. Aquele gato doméstico, macio e roliço, de olhos redondos e rosto estreito, parecia muito diferente dos gatos magros e de cabeça larga com quem Pata de Fogo vivia agora. Mesmo assim, havia algo familiar naquele felino.
Pata de Fogo encarou-o firme e farejou o ar, tentando identificar o odor do gato. Não reconheço o cheiro, pensou, procurando na memória.
Então ele se deu conta.
– Borrão! – miou alto.
– Co-como você-cê sabe me-meu n-nome? – gaguejou Borrão, ainda agachado.
– Sou eu! – miou Pata de Fogo.
O gato doméstico parecia confuso.
– Nós crescemos juntos! Eu morava no jardim perto de você – insistiu Pata de Fogo.
– Ferrugem? – miou Borrão, sem acreditar. – É você? Voltou a encontrar os gatos selvagens? Ou está numa casa nova? Deve ser isso, se você ainda está vivo!
– Meu nome agora é Pata de Fogo – miou o aprendiz, que relaxou os ombros e deixou a pelagem abaixar, revelando um pelo lustroso e laranja.
Borrão também relaxou. Suas orelhas se retesaram. – Pata de Fogo! – repetiu, divertido. – Bem, Pata de Fogo, parece que os seus novos donos não lhe dão comida suficiente! Com certeza você não estava magricela assim da última vez que nos encontramos!
– Não preciso que os Duas-Pernas me alimentem – replicou Pata de Fogo.
– Tenho uma floresta inteira de comida para me alimentar.
– Duas-Pernas?
– Os que moram nas casas. É assim que os clãs os chamam.
Borrão pareceu perplexo por um segundo; então, sua expressão converteu-se em total assombro. – Quer dizer que você está mesmo vivendo com os gatos selvagens?
– Estou! – Pata de Fogo fez uma pausa. – Você sabe, você tem um cheiro…
diferente. Estranho.
– Estranho? – Borrão repetiu. O gato cheirou o ar. – Acho que agora você está acostumado com o cheiro dos gatos selvagens.
Pata de Fogo balançou a cabeça, como se quisesse clarear o pensamento.
– Mas crescemos juntos. Eu devia reconhecer o seu cheiro como reconheceria o da minha própria mãe. – Então Pata de Fogo lembrou.
Borrão tinha mais de seis luas. Não era estranho parecer tão macio e gorducho, com um cheiro tão diferente. – Você esteve no Corta-Gato! – arfou. – Quero dizer, no veterinário!
Borrão encolheu os ombros negros e roliços. – E daí?
Pata de Fogo estava mudo. Estrela Azul tinha razão.
– E então? Como é viver na floresta? – Borrão perguntou. – É tão bom quanto pensou que fosse?
Pata de Fogo pensou por um instante: na noite anterior, dormindo numa toca úmida. Pensou na bile de rato e na tarefa de limpar as fezes de Presa Amarela; em suas tentativas de agradar Coração de Leão e Garra de Tigre ao mesmo tempo, durante o treinamento. Lembrou-se de como implicaram com ele por causa de seu sangue de gatinho de gente. Então se lembrou da emoção da primeira presa, de correr pela floresta perseguindo um esquilo e das noites mornas sob as estrelas, trocando lambidas com os amigos.
– Agora eu sei quem sou – miou simplesmente.
Borrão virou a cabeça para o lado e olhou para Pata de Fogo, claramente confuso. – É melhor eu ir para casa – miou. – Daqui a pouco está na hora da minha comida.
– Tenha cuidado, Borrão – Pata de Fogo inclinou-se e deu no velho amigo uma lambida carinhosa entre as orelhas. Borrão, retribuindo, esfregou nele o focinho. – Mantenha-se alerta. Pode andar pela área outro gato que não seja, como eu, tão amigo de gatinhos de gente… quero dizer, gatos domésticos.
As orelhas de Borrão se agitaram nervosamente ao ouvir essas palavras.
Ele olhou à volta com cuidado e pulou sobre o tronco da árvore caída. – Adeus, Ferrugem – despediu-se. – Vou contar a todo o mundo em casa que você está bem!
– Adeus, Borrão – miou Pata de Fogo. – Aproveite sua refeição!
Ele observou a ponta branca da cauda de Borrão desaparecer no extremo do tronco de árvore. A distância, ouviu o barulho de ração seca sendo despejada na tigela e a voz de um Duas-Pernas chamando.
Pata de Fogo virou-se e, com a cauda levantada, começou a voltar para casa, farejando o ar ao longo do caminho. Vou encontrar um pintassilgo ou dois por aqui. Depois vou arrumar mais alguma coisa no caminho de volta entre os pinheiros – pensou, decidido. Sentia-se cheio de energia depois do encontro com Borrão; dava-se conta agora de como tinha sorte em viver no meio do clã.
Olhou os galhos acima dele e começou a andar silenciosamente pela floresta, com todos os sentidos alertas. Agora só faltava impressionar Estrela Azul e Garra de Tigre para o dia ser perfeito.