Na Floresta

Erin Hunter · Capítulo 3 de 27

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Na Floresta

Capítulo 1

 

ESTAVA MUITO escuro. Ferrugem sentia que havia algo por perto. O jovem gato arregalou os olhos ao observar atentamente a vegetação. Não conhecia o lugar, mas os odores estranhos o atraíam em direção às sombras. A barriga roncava, lembrando-lhe a fome. Abriu ligeiramente a boca para deixar os cheiros fortes da floresta alcançarem as glândulas olfativas do céu da boca. Odores bolorentos de humo de folha se misturavam com o aroma tentador de uma criatura pequena e peluda.

De súbito, um risco cinza passou correndo por ele. Ferrugem ficou parado, prestando atenção. Alguma coisa se escondia entre as folhas, a menos de duas caudas de distância. Sabia que era um camundongo – sentia, no fundo do pelo das orelhas, o rápido pulsar de um pequeno coração.

Ferrugem salivou, tranquilizando o estômago barulhento. Em breve sua fome seria satisfeita.

Agachou-se lentamente, preparando-se para o ataque. Estava na direção contrária à do vento; sabia que o camundongo não tinha conhecimento da sua presença. Ferrugem examinou mais uma vez a posição da presa, jogou bem os quadris para trás e pulou, levantando as folhas caídas no chão da floresta.

O camundongo procurou um buraco no chão onde se esconder. Mas Ferrugem foi mais rápido. Conseguiu apanhá-lo no ar, prendendo a criatura indefesa com as garras afiadas, atirando-a para o alto e vendo-a cair no chão coberto de folhas. O camundongo aterrissou aturdido, mas vivo.

Tentou correr, mas o gato voltou a agarrá-lo. Jogou-o longe mais uma vez, agora um pouco mais adiante. O camundongo ainda conseguiu dar alguns passos trôpegos antes de Ferrugem alcançá-lo.

Foi quando se ouviu um forte barulho, que fez Ferrugem olhar à volta.

Com isso, o camundongo conseguiu se soltar. Quando Ferrugem se virou, viu a presa disparar na escuridão entre as raízes entrelaçadas de uma árvore.

Zangado, Ferrugem desistiu da caça. Girou o corpo, com os olhos verdes atentos, procurando descobrir o que era o barulho que lhe custara o almoço. O ruído, como o de pedrinhas caindo numa superfície dura, tornou-se mais familiar. Ferrugem arregalou os olhos.

A floresta tinha desaparecido. Ele se viu numa cozinha quente e abafada, enroscado na cama. A luz da lua passava pelas janelas, lançando sombras no chão liso e regular. O barulho fora causado pelas bolinhas de ração dura, seca, colocadas na sua tigela. Ferrugem tinha sonhado.

O gato levantou a cabeça e apoiou o queixo na lateral da cama. Sentia uma coceira incômoda sob a coleira. No sonho, tinha sentido uma corrente de ar fresco despentear o pelo macio onde a coleira normalmente pinicava.

Ferrugem rolou o corpo no chão e saboreou o sonho por mais alguns momentos. Ainda percebia cheiro de camundongo. Era a terceira vez desde a lua cheia que tinha o mesmo sonho; e todas as vezes o camundongo escapara de suas garras.

Ferrugem passou a língua nos lábios. Da cama sentia o cheiro pouco apetitoso da ração. Os donos sempre enchiam sua tigela antes de ir dormir.

O odor poeirento afugentou os cheiros prazerosos do sonho. Mas o estômago continuava roncando e o gato espichou as patas para acordar, atravessando a cozinha para jantar. A comida lhe pareceu seca e sem gosto.

Relutante, Ferrugem engoliu mais uma porção. Afastou-se da tigela e saiu pela pequena passagem recortada na porta da cozinha, esperando que o cheiro do jardim trouxesse de volta a sensação do sonho.

Do lado de fora, a lua brilhava. Chovia fino. Alerta, Ferrugem percorreu o jardim bem cuidado, seguindo o caminho de cascalho iluminado pelas estrelas, sentindo as pedrinhas frias e cortantes sob as patas. Defecou debaixo de um arbusto de folhas verdes brilhantes e flores muito roxas, cujo perfume excessivamente doce impregnava o ar úmido. O gato retorceu o lábio para espantar aquele cheiro das narinas.

Em seguida, instalou-se no alto da cerca que marcava os limites do jardim. Era um dos seus lugares favoritos, pois dali podia ver os jardins vizinhos e também a densa floresta verde do outro lado.

A chuva tinha parado. Atrás dele, a grama cortada rente estava banhada pelo luar; mas, além da cerca, a floresta estava cheia de sombras. Ferrugem esticou o pescoço para inspirar o ar úmido. A pele estava morna e seca sob a grossa pelagem, mas ele sentia o peso das gotas de chuva que pingavam no pelo avermelhado.

Ouviu os donos chamando-o da porta dos fundos. Se fosse para casa, seria recebido com carinhos e palavras gentis; seria acolhido na cama deles, onde se enroscaria, ronronando, quentinho na dobra de um joelho.

Mas, dessa vez, Ferrugem ignorou as vozes dos donos e voltou a olhar para a floresta. O cheiro fresco da vegetação tinha se acentuado depois da chuva.

De repente, sentiu o pelo da espinha se arrepiar. Seria alguma coisa se mexendo lá fora? Alguma coisa que o observava? Ferrugem arregalou os olhos, mas era impossível ver ou farejar qualquer coisa no ar escuro e impregnado do cheiro das árvores. Levantou o queixo, destemido; ficou de pé e espichou o corpo, cravando as garras na cerca enquanto esticava as pernas e arqueava as costas. Fechou os olhos e inalou o cheiro da floresta mais uma vez. O odor parecia lhe prometer alguma coisa, atraindo-o na direção das sombras sussurrantes. Tensionando os músculos, agachou-se por um momento. Pulou com leveza na direção da grama irregular do outro lado da cerca. Ao pousar, o guizo do pescoço soou no silêncio da noite.

– Aonde você está indo, Ferrugem? – uma voz familiar miou atrás dele.

Ferrugem olhou para cima. Um jovem gato preto e branco se equilibrava sem jeito na cerca.

– Olá, Borrão – Ferrugem respondeu.

– Você não vai entrar na floresta, vai? – perguntou Borrão, arregalando os olhos cor de âmbar.

– Vou só dar uma olhadinha – Ferrugem prometeu, remexendo-se com certo incômodo.

– Eu é que não vou com você. É perigoso! – disse Borrão, franzindo o nariz negro para expressar seu desagrado. – Henry disse que uma vez entrou na floresta. – O gato ergueu a cabeça e apontou com o nariz na direção além da cerca, para o jardim onde Henry morava.

– Aquele gato gordo e velho nunca entrou na floresta! – Ferrugem debochou. – Ele mal saiu do próprio jardim desde a ida ao veterinário. Só pensa em comer e dormir.

– Não é bem assim. Ele apanhou um papo-roxo lá! – Borrão insistiu.

– Se isso aconteceu, foi antes de ir ao veterinário. Ele agora reclama dos passarinhos que perturbam o seu cochilo.

– De qualquer maneira – Borrão continuou, ignorando o sarcasmo contido no miado do amigo –, Henry me disse que, na floresta, existe todo tipo de animais perigosos. Enormes felinos, selvagens, que comem coelhos vivos no café da manhã e afiam as patas em ossos velhos!

– Vou só dar uma espiada – Ferrugem miou. – Não vou demorar.

– Depois não diga que não avisei! – ronronou Borrão, que então virou-se, pulando da cerca para seu jardim.

Ferrugem sentou na grama maltratada além da cerca. Deu uma lambida nervosa no ombro, perguntando-se quanto havia de verdade nas palavras de Borrão.

De repente, seu olho percebeu o movimento de uma pequena criatura, que corria para baixo de uns arbustos.

O instinto o fez se agachar. Devagar, uma pata depois da outra, rastejou para a frente, no meio da vegetação. As orelhas se retesaram, as narinas se aguçaram; sem piscar, foi na direção do animal. Ele o via claramente agora, sentado entre os galhos farpados, mordiscando uma grande semente que tinha entre as patas. Era um camundongo.

Ferrugem balançou os quadris de um lado para o outro, preparando-se para pular. Prendeu a respiração para evitar que o guizo voltasse a tocar.

Estava tão empolgado que o coração acelerou. Era ainda melhor que o sonho! Foi quando o estalo repentino de galhos e folhas secas o fez saltar. O

guizo ressoou, traiçoeiro, e o camundongo escapou velozmente pela parte mais espessa do emaranhado dos arbustos.

Impassível, Ferrugem olhou à volta. Viu mais adiante a ponta branca de um rabo vermelho e peludo passando por uma moita de samambaias altas.

O cheiro era forte e estranho; tratava-se, sem dúvida, de um carnívoro; mas não era gato nem cachorro. Distraído, Ferrugem se esqueceu do camundongo e ficou observando curiosamente o rabo vermelho. Queria vê-

lo melhor.

Todos os sentidos de Ferrugem se aguçaram quando ele se pôs a avançar. Então, percebeu outro barulho, que vinha de trás, mas parecia surdo e distante. Girou as orelhas para trás para ouvir melhor. Seriam patas? , perguntou-se, sem desviar o olhar do pelo estranho e vermelho; e seguiu em frente, sorrateiro. Foi só quando o som ficou mais claro às suas costas e as folhas estalaram mais perto que Ferrugem se deu conta de que estava em perigo.

A criatura o atingiu como uma explosão e Ferrugem foi jogado para o lado em uma moita de urtigas. Ele se contorceu e gritou, tentando escapar do agressor que se colocara às suas costas e o prendera com garras incrivelmente afiadas. Sentiu no pescoço os dentes pontudos. Encolheu o corpo, retorcendo-se dos bigodes à cauda, sem conseguir se soltar. Por um instante se viu indefeso; ficou imóvel. Pensando rápido, jogou-se de costas no chão. Por instinto, sabia como era perigoso expor a barriga macia, mas era sua única chance.

Teve sorte – a manobra pareceu funcionar. Ouviu um “uuufff” sob o corpo, como se o agressor tivesse perdido o fôlego. Debatendo-se com violência, Ferrugem conseguiu se libertar. Sem olhar para trás, disparou de volta para casa.

Atrás dele, um barulho de patas avisava que o atacante não desistira.

Mesmo com as feridas doendo sob o pelo, Ferrugem decidiu que era melhor virar-se e enfrentá-lo do que ser novamente atacado.

Parou com uma derrapada e, girando, encarou a criatura que o perseguia.

Era outro jovem gato, de pelo cinza, grosso e felpudo, com pernas fortes e rosto largo. Num tique-taque de coração, Ferrugem percebeu pelo cheiro que se tratava de um macho e pressentiu a força de seus ombros firmes sob a pelagem macia. Foi quando o agressor pulou sobre ele a toda velocidade.

Pego de surpresa pela guinada de Ferrugem, o gato, atordoado, se esborrachou.

O impacto deixou Ferrugem sem fôlego, e ele cambaleou. Mas logo se colocou de pé e arqueou as costas, eriçando o pelo alaranjado, pronto para pular em cima do outro gato. Mas o agressor simplesmente sentou e começou a lamber a pata dianteira, sem nenhum sinal de agressividade.

Ferrugem sentiu-se estranhamente desapontado. Cada membro do seu corpo estava tenso, pronto para lutar.

– Ei, você aí, seu gatinho de gente! – miou, animado, o felino cinza. – Para um gato doméstico, você até que luta muito bem!

Ferrugem manteve-se na ponta dos pés por um instante, a se perguntar se voltava a atacar ou não. Mas lembrou-se da força das patas do agressor quando fora imobilizado no chão. Então abaixou-se, soltou os músculos e esticou as costas. – E vou lutar com você de novo se for necessário – rosnou.

– A propósito, meu nome é Pata Cinzenta – continuou o gato cinza, ignorando a ameaça de Ferrugem. – Estou em treinamento para ser um guerreiro do Clã do Trovão.

Ferrugem permaneceu em silêncio. Não entendia o que aquele Cinza alguma coisa estava miando, mas sentiu que a ameaça tinha passado.

Disfarçou sua confusão inclinando-se para lamber o peito eriçado.

– O que um gatinho de gente como você está fazendo na floresta? Não sabe que é perigoso? – perguntou Pata Cinzenta.

– Se você é a coisa mais perigosa que a floresta tem para oferecer, acho que posso encarar – Ferrugem desdenhou.

Pata Cinzenta olhou-o por um momento, estreitando os grandes olhos amarelos. – Ah, estou longe de ser o mais perigoso. Se eu fosse ao menos meio-guerreiro, teria ferido de verdade um intruso como você.

Ferrugem sentiu um arrepio de medo ao ouvir as terríveis palavras. O

que é que aquele gato queria dizer com “intruso”?

– De qualquer maneira – miou Pata Cinzenta, usando os dentes afiados para tirar um pedaço de grama entre as garras –, não achei que valia a pena machucá-lo. Está na cara que você não pertence a um dos outros clãs.

– Outros clãs? – Ferrugem, confuso, repetiu.

Pata Cinzenta deu um assovio impaciente. – Você deve ter ouvido falar dos quatro clãs de guerreiros que caçam nesta área! Eu pertenço ao Clã do Trovão. Os outros clãs estão sempre tentando roubar as presas do nosso território, principalmente o Clã das Sombras. Eles são tão ferozes que teriam cortado você em tiras, sem nenhuma pergunta.

Pata Cinzenta parou de falar para cuspir com raiva e continuou. – Eles vêm para tomar as presas que são nossas por direito. É tarefa dos guerreiros do Clã do Trovão mantê-los fora do nosso território. Quando terminar meu treinamento, também serei tão perigoso que farei os outros clãs tremerem nas peles pulguentas. Eles não vão ousar se aproximar de nós!

Ferrugem estreitou os olhos. Aquele devia ser um dos gatos selvagens sobre os quais Borrão o tinha alertado! Vivendo sem luxo na floresta, caçando e lutando uns contra os outros pelo último pedaço de comida.

Mesmo assim, Ferrugem não sentiu medo. Na verdade, era difícil não admirar aquele gato confiante. – Você ainda não é um guerreiro? – perguntou.

– Por quê? Pensou que eu fosse? – Pata Cinzenta miou, orgulhoso, balançando a cabeça larga e peluda. – Falta ainda muito tempo para eu ser um guerreiro de verdade. Primeiro preciso passar pelo treinamento. Os jovens precisam ter seis luas de idade antes de sequer começar o treinamento. Hoje é a minha primeira noite como aprendiz.

– Por que você não arruma um dono com uma casa bonita e aconchegante? Sua vida ia ser muito mais fácil – Ferrugem argumentou. – Existem muitas pessoas que ficariam com um gato como você. Basta ficar uns dias num lugar onde possam vê-lo, fazendo cara de fome…

– E elas vão me dar para comer bolinhas que parecem cocô de coelho e mingau mole! – Pata Cinzenta interrompeu. – Nem morto! Não consigo pensar em nada pior do que ser um gatinho de gente! Eles não passam de brinquedos dos Duas-Pernas! Comendo umas coisas que não parecem comida, defecando em uma caixa de areia, colocando o nariz na rua só quando os Duas-Pernas permitem? Isso não é vida! Aqui é selvagem, é a liberdade. Entramos e saímos na hora que dá na telha. – Terminou a fala com uma cusparada orgulhosa e miou com malícia. – Se nunca experimentou um camundongo fresquinho, você ainda não viveu. Já provou um camundongo?

– Não – Ferrugem admitiu, meio na defensiva. – Ainda não.

– Acho que nunca vai entender – Pata Cinzenta suspirou. “Você não nasceu selvagem, o que faz uma enorme diferença. É preciso nascer com sangue de guerreiro nas veias ou sentir o vento nos bigodes. Gatos que nascem nos ninhos dos Duas-Pernas não podem sentir a mesma coisa.

Ferrugem lembrou como se sentira no sonho. – Isso não é verdade! – miou, indignado.

Pata Cinzenta não contestou. De repente interrompeu uma lambida pelo meio e, com a pata ainda levantada, cheirou o ar. – Farejo gatos do meu clã – murmurou. – É melhor você ir. Eles não vão gostar de encontrá-lo caçando no nosso território!

Ferrugem olhou à volta, perguntando-se como Pata Cinzenta podia saber que um gato se aproximava. Ele não conseguia perceber nenhum cheiro diferente na brisa que recendia a folha. Mas seu pelo se arrepiou com o tom de urgência da voz de Pata Cinzenta.

– Depressa! – Pata Cinzenta voltou a sussurrar. – Corra!

Ferrugem se preparou para pular nos arbustos, sem saber para que lado era seguro se atirar.

Mas já era tarde demais. Ouviu às suas costas um miado firme e ameaçador. – O que está acontecendo aqui?

Ferrugem se voltou e viu uma grande gata cinzenta surgindo majestosamente da vegetação. Era magnífica. Fios brancos lhe saíam do focinho e uma feia cicatriz dividia o pelo dos ombros; mas a pelagem cinza e lisa brilhava como prata à luz da lua.

– Estrela Azul! – Ao lado de Ferrugem, Pata Cinzenta agachou e estreitou os olhos. Inclinou-se ainda mais quando um outro gato, dourado e malhado, entrou na clareira, logo atrás da gata.

– Você não deve ficar tão perto do Lugar dos Duas-Pernas, Pata Cinzenta!

– grunhiu, zangado, o gato dourado, apertando os olhos verdes.

– Eu sei, Coração de Leão, me desculpe – disse Pata Cinzenta, abaixando os olhos na direção das patas.

Ferrugem fez como Pata Cinzenta e agachou no chão da floresta, crispando as orelhas nervosamente. Aqueles gatos tinham um quê de força que ele nunca tinha visto em nenhum de seus amigos do jardim. Talvez Borrão tivesse razão em adverti-lo.

– Quem é ele? – a gata perguntou.

Ferrugem se encolheu sob o olhar de Estrela Azul. Os olhos azuis penetrantes o fizeram sentir-se ainda mais vulnerável.

– Ele não é uma ameaça – Pata Cinzenta miou rapidamente. – Não é um guerreiro de outro clã, apenas um gato de estimação dos Duas-Pernas e vive fora dos nossos territórios.

Apenas um gato de estimação dos Duas-Pernas! As palavras encheram Ferrugem de raiva, mas ele segurou a língua. O olhar de advertência de Estrela Azul lhe disse que ela percebera a raiva nos olhos dele; Ferrugem disfarçou.

– Esta é Estrela Azul, a líder do meu clã. – Pata Cinzenta cochichou para Ferrugem. – Ele é Coração de Leão, meu mentor; é ele que está me treinando para ser um guerreiro.

– Obrigado pela apresentação, Pata Cinzenta – miou Coração de Leão com frieza.

Estrela Azul continuava a encarar Ferrugem. – Você luta bem para um gato de estimação dos Duas-Pernas – miou.

Ferrugem e Pata Cinzenta trocaram olhares confusos. Como ela sabia?

– Estivemos observando vocês dois. Queríamos saber como você lidaria com um invasor, Pata Cinzenta. Você o atacou com bravura.

Pata Cinzenta ficou agradecido pelo elogio da líder.

– Sentem os dois! – miou Estrela Azul. Em seguida, olhando para Ferrugem, acrescentou: – Você também, gatinho de gente. – Ferrugem sentou de imediato, enfrentando tranquilamente o olhar da gata.

– Você reagiu bem à investida, gatinho de gente. Pata Cinzenta é mais forte, mas você soube usar da inteligência para se defender. E o encarou quando ele o perseguiu. Nunca tinha visto um gatinho de gente fazer isso.

Ferrugem fez um gesto de agradecimento, surpreso por aquele elogio inesperado. As próximas palavras o deixaram ainda mais impressionado.

– Tentei imaginar como você se comportaria aqui, fora do lugar dos Duas-Pernas. Patrulhamos esta fronteira o tempo todo; vi você muitas vezes sentado na cerca, olhando para a floresta. E agora, finalmente, ousou colocar as patas aqui. – Estrela Azul fitou-o, pensativa. – Parece que você tem mesmo uma habilidade natural para caçar. Olhos agudos. Teria agarrado aquele camundongo se não tivesse hesitado tanto.

– M-mesmo? – Ferrugem gaguejou.

Coração de Leão se manifestou. Seu miado profundo era respeitoso, mas insistente. – Estrela Azul, isso é um gatinho de gente. Não devia estar caçando no território do Clã do Trovão. Mande-o embora, de volta para a casa dos Duas-Pernas!

Ferrugem arrepiou-se com as palavras de dispensa de Coração de Leão. – Me mandar para casa? – miou, impaciente. Ficara orgulhoso com as palavras de Estrela Azul. Ela o notara, tinha se impressionado com ele. – Mas só vim aqui para caçar um ou dois camundongos. Tenho certeza de que há bastante para todos.

Estrela Azul, que tinha virado a cabeça para ouvir Coração de Leão, voltou-se para Ferrugem. Os olhos azuis brilhavam com raiva. – Nunca há bastante para todos – disparou. – Se você não tivesse uma vida folgada, com comida à vontade, saberia disso!

Ferrugem ficou confuso com a súbita raiva de Estrela Azul, mas um único olhar para o rosto apavorado de Pata Cinzenta bastou-lhe para saber que falara demais. Coração de Leão colocou-se ao lado da líder. Os dois guerreiros pareciam maiores agora. Ao mirar o olhar ameaçador de Estrela Azul, Ferrugem viu seu orgulho desaparecer. Não estava lidando com gatos que se aconchegam em frente a lareiras – aqueles eram felinos maus e famintos, que provavelmente iriam terminar o que Pata Cinzenta tinha começado.