Na Floresta
Capítulo 5
– EI, PATA DE FOGO, acorde! – o miado de Pata Cinzenta interrompeu o sonho do amigo, que estivera caçando um esquilo até os galhos mais altos de um alto carvalho.
– O treinamento começa ao raiar do sol. Pata de Poeira e Pata de Areia já estão de pé – Pata Cinzenta acrescentou, aflito.
Pata de Fogo se espreguiçou, sonolento, e então lembrou: era o primeiro dia de treinamento. Pôs-se em pé com um pulo e o torpor evaporou à medida que a empolgação invadia suas veias.
Pata Cinzenta tomava um banho rápido. Entre lambidas, miou: – Acabei de falar com Coração de Leão. Pata Negra só vai treinar conosco quando a ferida estiver melhor. Provavelmente vai ficar na toca de Folha Manchada por mais um dia ou dois. Pata de Poeira e Pata de Areia estão em missão de caça. Por isso Coração de Leão pensou que nós dois podíamos treinar com ele e Garra de Tigre hoje de manhã. Ou seja, é melhor se apressar – acrescentou. – Eles estão esperando!
Pata Cinzenta guiou Pata de Fogo rapidamente pela entrada de tojo do acampamento e pela lateral do vale salpicado de pedras. A brisa fresca acariciava seus pelos enquanto subiam para o alto da ravina. Nuvens cheias e brancas cortavam o céu azul. Pata de Fogo sentiu uma alegria feroz brotar dentro dele ao seguir Pata Cinzenta por um declive à sombra de árvores até um vale arenoso.
Garra de Tigre e Coração de Leão estavam realmente esperando por eles, sentados com poucas caudas de distância entre si, na areia aquecida pelo sol.
– No futuro, espero que sejam mais pontuais – rosnou Garra de Tigre.
– Não seja severo demais, Garra de Tigre; a noite de ontem foi difícil.
Imagino que tenham mesmo ficado cansados – miou Coração de Leão, apaziguador. – Ainda não lhe foi designado um mentor, Pata de Fogo – continuou. – Por enquanto, Garra de Tigre e eu vamos dividir a responsabilidade pelo seu treinamento.
Pata de Fogo ficou tão entusiasmado que empinou a cauda, incapaz de disfarçar o prazer de ter dois guerreiros tão importantes como mentores.
– Vamos – miou Garra de Tigre, impaciente. – Hoje mostraremos os limites do nosso território para que saibam onde vão caçar e que fronteiras precisam proteger. Pata Cinzenta, não lhe fará mal se lembrar das demarcações do território do clã.
Sem mais nada dizer, Garra de Tigre deu um salto e saiu do vale arenoso.
Coração de Leão fez um gesto para Pata Cinzenta e os dois dispararam na mesma velocidade. Pata de Fogo galgou o terreno atrás deles, as patas escorregando na areia fofa.
As árvores eram troncudas naquela parte da floresta, onde grandes carvalhos faziam sombra para bétulas e freixos. O chão tinha um tapete de folhas mortas quebradiças, que farfalhavam sob as patas dos gatos. Garra de Tigre parou para esguichar seu cheiro num monte de samambaias. Os outros pararam a seu lado.
– Tem um caminho dos Duas-Pernas aqui – murmurou Coração de Leão.
– Use o nariz, Pata de Fogo. Consegue identificar algum cheiro?
Pata de Fogo farejou. Havia no ar um leve cheiro de um Duas-Pernas e um odor mais forte, de cachorro, que ele conhecia de sua antiga casa. – Um Duas-Pernas trouxe o cachorro para passear por aqui, mas já foram embora – miou.
– Muito bem – aprovou Coração de Leão. – Acha que é seguro atravessar?
Pata de Fogo farejou mais uma vez. Os odores eram fracos e pareciam encobertos por cheiros mais frescos da floresta. – É, sim – respondeu.
Garra de Tigre concordou e os quatro felinos se esgueiraram para fora da cobertura de samambaias e atravessaram as pedras pontiagudas do estreito caminho dos Duas-Pernas.
Mais adiante havia fileiras e mais fileiras de pinheiros altos e retos. Era fácil andar por ali sem fazer barulho. O chão era espesso, com camadas de agulhas secas de pinheiro que pinicavam as solas de Pata de Fogo, mas lhe davam a sensação de pisar em espuma. Não havia por ali nenhuma vegetação rasteira onde pudessem se esconder, e Pata de Fogo percebeu um certo nervosismo nos outros gatos por caminharem desprotegidos entre os troncos de árvores.
– Os Duas-Pernas puseram essas árvores aqui – miou Garra de Tigre. – Eles as derrubam com criaturas de cheiro ruim que vomitam tanta fumaça que deixa os gatos cegos. Então levam as árvores derrubadas para o Ponto de Corte de Árvores, que fica aqui perto.
Pata de Fogo parou e procurou ouvir o rugido do comedor de árvores, que já conhecia.
– O lugar das Árvores Cortadas vai ficar em silêncio por mais algumas luas, até a época das folhas verdes – explicou Pata Cinzenta, percebendo que ele havia parado.
Os gatos seguiram pela floresta de pinheiros.
– O lugar dos Duas-Pernas fica naquela direção – miou Garra de Tigre, jogando a cauda para o lado. – Sem dúvida, você pode sentir o cheiro, Pata de Fogo. Mas, hoje, vamos para o lado contrário.
Finalmente chegaram até outro caminho dos Duas-Pernas, que marcava o limite extremo da floresta de pinheiros. Cruzaram rapidamente para os arbustos seguros da floresta de carvalhos, mais além. Mas Pata de Fogo ainda percebia a ansiedade dos outros felinos.
– Estamos nos aproximando do território do Clã do Rio – murmurou Pata Cinzenta. – É onde ficam as Rochas Ensolaradas. – Apontou com o focinho macio para um monte de rochas sem vegetação.
Pata de Fogo sentiu o pelo eriçar. Era o lugar onde Rabo Vermelho tinha sido morto.
Coração de Leão parou perto de uma pedra cinza e achatada. – Aqui é a fronteira entre os territórios do Clã do Trovão e do Clã do Rio. O Clã do Rio dita as regras nas zonas de caça ao lado do grande rio – miou. – Respire fundo, Pata de Fogo.
O cheiro cáustico de gatos estranhos chegou ao céu da boca de Pata de Fogo. Ele se surpreendeu ao perceber como era diferente dos cheiros mornos dos gatos do acampamento do Clã do Trovão. E também ficou admirado ao se dar conta de como já lhe pareciam familiares e reconfortantes os odores do Clã do Trovão.
– Este é o cheiro do Clã do Rio – rosnou Garra de Tigre ao seu lado. – Lembre-se bem disso. O cheiro será mais forte na fronteira porque é onde os guerreiros marcam as árvores com seus odores. – Com essas palavras, o gato de pelo escuro ergueu a cauda e esguichou seu cheiro na pedra achatada.
– Vamos seguir essa linha de fronteira, pois ela leva direto a Quatro Árvores – miou Coração de Leão.
Ele se pôs em marcha rapidamente, distanciando-se das Rochas Ensolaradas; foi seguido por Garra de Tigre. Pata Cinzenta e Pata de Fogo os acompanharam.
– Quatro Árvores? O que é isso? – Pata de Fogo arfou.
– É o ponto onde os territórios dos quatro clãs se encontram – respondeu Pata Cinzenta. – Ali há quatro grandes carvalhos, tão velhos quanto os clãs…
– Calados! – ordenou Garra de Tigre. – Não esqueçam que estamos muito perto do território inimigo!
Os dois aprendizes fizeram silêncio e Pata de Fogo se concentrou na caminhada silenciosa. Atravessaram um riacho raso, pulando de uma pedra a outra pelo leito do rio para não molharem as patas.
Quando chegaram a Quatro Árvores, Pata de Fogo estava completamente sem ar e com as patas doloridas. Não estava acostumado a caminhadas tão longas, ainda mais naquela velocidade. Ficou aliviado quando Coração de Leão e Garra de Tigre os conduziram para fora da floresta fechada e pararam no alto de uma encosta coberta de arbustos.
O sol agora estava a pino. As nuvens tinham desaparecido e o vento diminuíra. Abaixo, banhados pelo sol ofuscante, havia quatro enormes carvalhos, as coroas verde-escuras quase alcançando o topo da encosta íngreme.
– Como disse Pata Cinzenta – miou Coração de Leão para Pata de Fogo –, aqui é o lugar chamado Quatro Árvores, onde se juntam os territórios dos quatro clãs. O Clã do Vento governa aquela terra alta à frente, onde o sol se põe. Hoje você não vai conseguir perceber o cheiro deles, pois o vento está soprando a favor. Mas logo vai reconhecer o odor.
– E o Clã das Sombras domina mais adiante, na parte mais escura da floresta – acrescentou Pata Cinzenta, virando a cabeça de um lado para outro. – Os anciãos dizem que os ventos frios do norte sopram sobre os gatos do Clã das Sombras e gelam seus corações.
– São tantos clãs! – exclamou Pata de Fogo. E tão bem organizados, pensou, lembrando-se das histórias horripilantes que Borrão contava sobre gatos selvagens espalhando terror pela floresta.
– Você agora pode entender por que a caça é tão valiosa – miou Coração de Leão. – Por que precisamos lutar para proteger o pouco que temos.
– Mas isso parece sem sentido! Por que os clãs não podem trabalhar juntos e partilhar as zonas de caça, em vez de lutarem uns contra os outros?
– Pata de Fogo sugeriu, com audácia.
Suas palavras foram recebidas com um silêncio impactante.
Garra de Tigre foi o primeiro a responder: – Essa é uma forma traiçoeira de pensar, gatinho de gente.
– Não seja tão feroz, Garra de Tigre – advertiu Coração de Leão. – As regras dos clãs são novas para esse aprendiz. – Dirigiu-se a Pata de Fogo: – Você fala com o coração, jovem Pata de Fogo. Um dia, isso fará de você um guerreiro mais forte.
Garra de Tigre rosnou: – Ou poderá fazê-lo render-se à fraqueza de gatinho de gente bem no momento do ataque.
Coração de Leão olhou rapidamente para Garra de Tigre antes de continuar. – Os quatro clãs, na verdade, têm um encontro pacífico numa Assembleia a cada lua. Bem aqui – inclinou a cabeça em direção a quatro grandes carvalhos que ficavam abaixo. – A trégua dura até a lua cheia atingir o ápice.
– Então, em breve haverá um encontro? – perguntou Pata de Fogo, lembrando o luar brilhante da véspera.
– É verdade! – respondeu Coração de Leão, parecendo impressionado. – Aliás, é hoje. As Reuniões são muito importantes porque permitem que os clãs se encontrem em paz por uma noite. Mas é preciso que entenda que alianças mais longas trazem mais problemas que benefícios.
– É a nossa lealdade ao clã que nos torna fortes – Garra de Tigre miou, concordando. – Se você enfraquece a lealdade, enfraquece nossas chances de sobrevivência.
– Compreendo – Pata de Fogo miou, assentindo com a cabeça.
– Vamos lá – disse Coração de Leão, pondo-se de pé. – Continuemos a caminhada.
Passaram pelo alto do vale, onde ficava Quatro Árvores. Agora estavam se afastando do sol, que começava a mergulhar no céu da tarde. Cruzaram o riacho num ponto estreito, que permitia a travessia num pulo só.
Pata de Fogo farejou o ar. Um novo cheiro de gato atingiu-lhe as glândulas da boca, forte e ácido. – Que clã é esse? – perguntou.
– O Clã das Sombras – grunhiu, feroz, Garra de Tigre. – Estamos passando por suas fronteiras. Fique alerta, Pata de Fogo. Cheiros mais frescos significam que uma patrulha do Clã das Sombras está na área.
Quando Pata de Fogo concordou com a cabeça, ouviu um barulho alto e desconhecido. Ficou paralisado, mas os outros gatos mantiveram o passo, indo direto na direção do terrível estrondo.
– O que é isso? – Pata de Fogo perguntou, acelerando o passo para alcançar os companheiros.
– Num instante você vai ver – respondeu Coração de Leão.
Pata de Fogo olhou entre as árvores adiante. Pareciam estar ficando mais finas, deixando-se penetrar por uma larga faixa de sol. – Estamos nos limites da floresta? – perguntou. O aprendiz parou e respirou fundo. Os aromas verdes da floresta misturaram-se a outros, estranhos e tenebrosos.
Dessa vez não era cheiro de gato, mas um odor que o fez lembrar-se da sua antiga casa dos Duas-Pernas. O barulho se tornava cada vez mais alto e retumbava sem parar, fazendo o chão tremer, maltratando os ouvidos de Pata de Fogo.
– Este é o Caminho do Trovão – miou Garra de Tigre.
Pata de Fogo e os outros seguiram Coração de Leão em direção aos limites da floresta. Então ele sentou, e os quatro gatos se puseram a observar.
Pata de Fogo viu um caminho acinzentado, que cortava a floresta como um rio. A pedra dura e cinza se estendia tão longe à sua frente que as árvores do outro lado pareciam borradas e pequenas. Pata de Fogo estremeceu ao sentir o cheiro acre que exalava do caminho.
De repente, saltou para trás, arrepiando-se todo quando um monstro gigantesco passou rugindo. Os galhos das árvores que ladeavam o caminho batiam loucamente por causa do vento que corria atrás do monstro veloz.
Pata de Fogo olhou para os outros felinos; tinha os olhos arregalados e não conseguia falar. Já tinha visto caminhos como aquele perto da sua antiga casa dos Duas-Pernas, mas nunca um tão extenso, nem com monstros tão velozes e bravios.
– Da primeira vez, também morri de medo – observou Pata Cinzenta. – Mas, ao menos, ele ajuda a evitar que os guerreiros do Clã das Sombras entrem no nosso território. O Caminho do Trovão corre por muitas passadas ao longo da nossa fronteira. Não se preocupe; esses monstros, pelo jeito, nunca saem do Caminho do Trovão. Você ficará bem, desde que não chegue perto demais.
– Está na hora de voltar para o acampamento – miou Coração de Leão. – Vocês agora já conhecem todas as nossas fronteiras. Mas vamos desviar das Rochas das Cobras, embora o caminho seja mais longo. Um aprendiz sem treino seria uma presa fácil para uma serpente, e imagino que você esteja ficando cansado, Pata de Fogo.
Pata de Fogo sentiu-se aliviado com a ideia de retornar ao acampamento.
Sua cabeça rodopiava com todos os novos cheiros e as novas visões, e Coração de Leão tinha razão: estava cansado e faminto. Colocou-se atrás de Pata Cinzenta quando os gatos se afastaram do Caminho do Trovão e voltaram para a floresta.
Os aromas orvalhados da tardinha enchiam o ar quando Pata de Fogo atravessou a entrada de tojos do acampamento do Clã do Trovão. Presas frescas os esperavam. Pata de Fogo e Pata Cinzenta tiraram suas porções de uma pilha na parte sombreada da clareira e as levaram para o toco de árvore que ficava fora dos alojamentos.
Pata de Poeira e Pata de Areia já estavam lá, mascando vorazmente.
– Ei, gatinho de gente – miou Pata de Poeira, contraindo os olhos desdenhosamente para Pata de Fogo. – Saboreie a comida que nós pegamos para você.
– Quem sabe, um dia, você vai aprender a caçar a própria comida! – debochou Pata de Areia.
– Vocês dois ainda estão em missão de caça? – perguntou, inocente, Pata Cinzenta. – Não faz mal. Estávamos patrulhando as fronteiras do nosso território. Vocês vão ficar felizes em saber que está tudo a salvo.
– Tenho certeza de que os outros clãs ficaram apavorados quando farejaram vocês chegando – uivou Pata de Poeira.
– Eles nem sequer ousaram mostrar a cara – replicou Pata Cinzenta, incapaz de disfarçar a raiva.
– Vamos perguntar isso a eles hoje à noite, na Assembleia – miou Pata de Areia.
– Vocês vão à Assembleia? – disparou Pata de Fogo, impressionado, apesar da hostilidade dos aprendizes.
– Claro que vamos – respondeu Pata de Poeira com arrogância – É uma grande honra, você sabe. Mas não se preocupe; pela manhã, contaremos tudo a você.
Pata Cinzenta ignorou a bravata de Pata de Poeira e começou a comer sua presa. Pata de Fogo também estava faminto e inclinou-se para comer.
Não conseguiu evitar uma pontada de inveja ao saber que Pata de Poeira e Pata de Areia iriam ao encontro dos outros clãs naquela noite.
Ao ouvir o chamado em voz alta de Estrela Azul, Pata de Fogo olhou para cima. Reparou que diversos guerreiros do clã e os anciãos se reuniam na clareira. Estava na hora de o grupo do clã partir para a Assembleia. Pata de Poeira e Pata de Areia se levantaram e foram juntar-se aos outros gatos.
– Tchau, vocês dois – disse Pata de Areia por sobre os ombros. – Tenham uma boa noite, calma e tranquila!
Os felinos reunidos se dirigiram silenciosamente para a entrada do acampamento em fila indiana, com Estrela Azul à frente. O pelo da líder brilhava como prata à luz da lua e ela estava calma e confiante ao conduzir seu clã para a breve trégua entre velhos inimigos.
– Você nunca esteve em uma Assembleia? – perguntou Pata de Fogo a Pata Cinzenta com certa melancolia.
– Ainda não – respondeu Pata Cinzenta, mascando ruidosamente um osso de camundongo. – Mas não vai demorar muito; basta esperar. Todos os aprendizes têm a sua vez.
Os dois aprendizes fizeram o resto da refeição em silêncio. Quando terminaram, Pata Cinzenta foi até Pata de Fogo e começou a pentear sua cabeça. Ao se lavarem, trocaram lambidas, como Pata de Fogo tinha visto os outros gatos fazerem quando chegou ao acampamento pela primeira vez.
Então, cansados da longa caminhada, foram para a toca. Aconchegaram-se nos ninhos e logo pegaram no sono.
Na manhã seguinte, Pata Cinzenta e Pata de Fogo chegaram cedo ao vale arenoso. Tinham saído antes de Pata de Areia e Pata de Poeira acordar.
Pata de Fogo estava ansioso para saber sobre a Assembleia, mas Pata Cinzenta o arrastara, dizendo: – Você vai ficar sabendo de tudo mais tarde, se bem conheço aqueles dois.
Mais uma vez, o dia prometia ser quente. Dessa vez, Pata Negra juntou-se a eles. Graças a Folha Manchada, a ferida estava sarando.
Pata Cinzenta brincava, jogando folhas para cima e pulando para apanhá-
las. Pata de Fogo prestava atenção, divertido, balançando a cauda. Sentado quietinho em um canto do vale, Pata Negra parecia tenso e infeliz.
– Anime-se, Pata Negra – miou Pata Cinzenta. – Sei que não gosta de treinar, mas nunca o vi tão abatido assim.
Os cheiros de Coração de Leão e Garra de Tigre alertaram os aprendizes de sua chegada, e Pata Negra miou rapidamente: – É que eu não gostaria de machucar meu ombro de novo.
Nesse momento, Garra de Tigre surgiu dos arbustos, seguido de perto por Coração de Leão.
– Guerreiros devem sofrer a dor em silêncio – rosnou Garra de Tigre, fitando Pata Negra direto no olho. – Você precisa aprender a segurar a língua.
Pata Negra recuou e olhou para o chão.
– Garra de Tigre está meio rabugento hoje – Pata Cinzenta cochichou na orelha de Pata de Fogo.
Coração de Leão lançou um olhar severo para o aprendiz e anunciou: – Hoje vamos praticar tocaia. Há uma grande diferença entre aproximar-se de um coelho e aproximar-se de um camundongo. Algum de vocês sabe me dizer por quê?
Pata de Fogo não tinha a menor ideia, e Pata Negra, pelo visto, levara a sério o comentário de Garra de Tigre e estava segurando a língua.
– Vamos! – miou, impaciente, Garra de Tigre.
Foi Pata Cinzenta que respondeu: – Porque um coelho vai sentir o seu cheiro antes de vê-lo, mas um camundongo sentirá seus passos no chão, mesmo antes de farejar você.
– Exatamente, Pata Cinzenta! Então, o que é preciso ter em mente quando caçamos camundongos?
– Pisar de leve? – Pata de Fogo sugeriu.
Coração de Leão olhou-o com aprovação e disse: – Muito bem, Pata de Fogo. É preciso concentrar todo o peso nos quadris, para que as patas não causem impacto no chão da floresta. Vamos experimentar!
Pata de Fogo observou enquanto Pata Cinzenta e Pata Negra agacharam imediatamente na posição de tocaia.
– Muito bem, Pata Cinzenta! – miou Coração de Leão quando os dois aprendizes se moveram para a frente de maneira furtiva.
– Mantenha o quadril baixo, Pata Negra; parece um pato! – disparou Garra de Tigre. – Agora, tente você, Pata de Fogo.
Pata de Fogo agachou e começou a rastejar pelo chão da floresta. Teve a sensação de que seu corpo instintivamente assumiu a posição certa e, ao avançar da maneira mais leve e silenciosa que pôde, encheu-se de orgulho por seus músculos responderem tão facilmente.
– Bem, fica claro que você nada sabe de leveza! – miou Garra de Tigre. – Rastejou como um gatinho de gente pesadão! Está pensando que o jantar vai se deitar na sua tigela e esperar ser comido?
Pata de Fogo se retesou rapidamente ao ouvir as palavras da Garra de Tigre, ficando um tanto abalado pelo tom duro. Ouviu o guerreiro com atenção, determinado a fazer tudo certo.
– O ritmo e o movimento para a frente virão mais tarde, mas o agachamento de Pata de Fogo está perfeitamente equilibrado! – Coração de Leão destacou gentilmente.
– Está melhor que o de Pata Negra, pelo que vejo – reclamou Garra de Tigre, olhando com deboche para o gato negro. – Mesmo depois de duas luas de treinamento, você ainda está colocando todo o peso do lado esquerdo do corpo.
Pata Negra ficou ainda mais desalentado; Pata de Fogo não se conteve e deixou escapar: – Mas o machucado dele está doendo, é por isso.
Garra de Tigre virou a cabeça e encarou Pata de Fogo. – As feridas fazem parte da vida. Ele devia ser capaz de se adaptar. Até você, Pata de Fogo, aprendeu alguma coisa nesta manhã. Se Pata Negra pegasse as coisas tão depressa quanto você, ele seria motivo de honra para mim, não um problema. Imagine ser ultrapassado por um gatinho de gente! – grunhiu, zangado, para o aprendiz.
Incomodado com aquilo, Pata de Fogo sentiu o pelo pinicar. Não conseguia encarar Pata Negra e olhou para baixo, para as próprias patas.
– Bem, eu estou mais torto que um texugo perneta – miou Pata Cinzenta, passando a cambalear comicamente pela clareira. – Vou ter de me conformar com caçar camundongos burros. Eles não terão nenhuma chance. Irei capengando até onde estiverem e sentarei em cima deles até que se rendam.
– Concentre-se, jovem Pata Cinzenta. Não é hora de fazer piada! – miou, sério, Coração de Leão. – Talvez consiga se concentrar melhor se tentar tocaiar uma presa de verdade.
Os três aprendizes ficaram animados.
– Quero que cada um de vocês tente apanhar uma presa de verdade – miou Coração de Leão. – Pata Negra, olhe ao lado da Árvore da Coruja. Pata Cinzenta, deve haver alguma coisa naquela grande faixa de amoreiras ali adiante. E você, Pata de Fogo, siga a pista dos coelhos naquela subida; vai encontrar o leito seco de um riacho de inverno. É capaz de achar alguma coisa por lá.
Os aprendizes saíram, até mesmo Pata Negra, que encontrou alguma energia extra para encarar o desafio.
Com o sangue pulsando nas orelhas, Pata de Fogo rastejou devagar pela subida. Realmente um leito de rio cortava as árvores à sua frente. Na época das folhas caídas, imaginou, aquele leito levaria a chuva da floresta em direção ao grande rio que atravessava o território do Clã do Rio. Agora estava seco.
Pata de Fogo se arrastou sem barulho pela margem e agachou no terreno arenoso. Seus sentidos se inflamavam de excitação. Em silêncio, examinou o rio seco, atrás de sinais de vida. Com a boca aberta, para captar até mesmo o cheiro mais discreto, e as orelhas voltadas para a frente, prestava atenção a cada pequeno movimento.
Sentiu, então, cheiro de camundongo. Reconheceu o odor imediatamente, lembrando-se da primeira prova na noite anterior. Uma energia selvagem tomou conta dele, mas ele não se mexeu, tentando desesperadamente localizar a presa.
Retesou as orelhas para a frente e então percebeu o rápido pulsar de um minúsculo coração de camundongo. Foi quando um lampejo marrom atraiu seu olhar. A criatura escalava o gramado alto que margeava o rio. Pata de Fogo avançou um pouco mais, lembrando-se de manter o peso nos quadris até que estivesse na distância certa para pular. Em seguida, apoiando-se firmemente nas patas traseiras, tomou impulso e saltou, levantando uma nuvem de areia.
O camundongo esquivou-se. Mas Pata de Fogo foi mais rápido. Atirou-o no ar com uma pata, lançou-o no leito arenoso do rio e arremessou-se sobre ele, abatendo-o com uma mordida certeira.
Pata de Fogo levantou com cuidado o corpo morno entre os dentes e, com a cauda erguida, voltou para o vale onde Garra de Tigre e Coração de Leão esperavam. Era a primeira vez que matava uma presa. Agora era um verdadeiro aprendiz do Clã do Trovão.