Na Floresta

Erin Hunter · Capítulo 10 de 27

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Na Floresta

Capítulo 8

 

PRESA AMARELA GRUNHIU desafiadoramente à aproximação das passadas, mas Pata de Fogo percebeu que ela estava apavorada. A gata mal conseguia ficar de pé. – Até logo. Obrigada pela refeição. – Tentou se afastar, mancando em três patas, mas então estremeceu de dor. – Aiii! Esta perna ficou dormente enquanto eu estava descansando.

Agora era tarde demais para correr. Sombras silenciosas saíam das árvores e, no espaço de uma batida de coração, a patrulha do Clã do Trovão tinha cercado Pata de Fogo e Presa Amarela. Pata de Fogo os reconheceu: Garra de Tigre, Risca de Carvão, Pele de Salgueiro e Estrela Azul, todos esbeltos e musculosos. Pata de Fogo farejou o medo que Presa Amarela sentiu ao ver o grupo.

Pata Cinzenta veio logo depois. Saiu de trás dos arbustos e parou ao lado da patrulha de guerreiros.

Pata de Fogo miou, num cumprimento apressado ao clã. Mas apenas Pata Cinzenta respondeu: – Olá, Pata de Fogo!

– Silêncio! – rugiu Garra de Tigre.

Pata de Fogo olhou para Presa Amarela e grunhiu por dentro; ainda sentia o cheiro de medo que a gata exalava, mas a imunda criatura, em vez de se curvar em submissão, tinha um olhar desafiador.

– Pata de Fogo? – a voz de Estrela Azul era fria e calculada. – O que temos aqui? Uma guerreira inimiga; e, considerando o cheiro de ambos, recém-alimentada. – Seus olhos queimavam na direção dele. Pata de Fogo abaixou a cabeça e começou a falar:

– Ela estava fraca e faminta…

– E você? A fome era tanta que precisava se alimentar antes de reunir presas para o clã? – Estrela Azul continuou. – Presumo que tenha uma razão muito boa para ter quebrado o código dos guerreiros.

Pata de Fogo não se iludiu com o tom suave da líder. Estrela Azul estava furiosa – e com razão. Ele se abaixou ainda mais.

Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, Garra de Tigre sibilou ruidosamente: – Uma vez gatinho de gente, sempre gatinho de gente!

Estrela Azul ignorou Garra de Tigre e olhou para Presa Amarela. De repente, mostrou-se surpresa. – Ora, ora, Pata de Fogo! Parece que você capturou uma gata do Clã das Sombras. E uma que conheço muito bem.

Você é a curandeira do Clã das Sombras, não é? – miou, dirigindo-se a Presa Amarela. – O que estava fazendo tão longe, aqui no território do Clã do Trovão?

– Eu era a curandeira do Clã das Sombras. Agora, prefiro viajar sozinha – ciciou Presa Amarela.

Pata de Fogo ouviu, impressionado. Será que tinha escutado direito?

Presa Amarela era uma guerreira do Clã das Sombras? Suja daquele jeito, deve ter mascarado o cheiro característico do seu território. Se soubesse, teria tido mais prazer em se engalfinhar com ela.

– Presa Amarela! Parece que você está em decadência, já que foi derrotada por um aprendiz – miou, zombeteiro, Garra de Tigre.

Foi a vez de Risca de Carvão falar. – Essa gata velha não tem serventia para nós. Vamos matá-la agora. Quanto ao gatinho de gente, ele quebrou o código dos guerreiros ao alimentar um inimigo. Deve ser punido.

– Guarde as garras, Risca de Carvão – Estrela Azul ronronou, calma. – Todos os clãs comentam a bravura e a sabedoria de Presa Amarela. Pode ser bom ouvir o que ela tem a dizer. Vamos levá-la para o acampamento e então decidir o que fazer com ela… e com Pata de Fogo. Você consegue andar? – perguntou a Presa Amarela. – Ou precisa de ajuda?

– Ainda tenho três pernas em bom estado – devolveu a gata acinzentada, mancando para a frente.

Pata de Fogo viu que os olhos de Presa Amarela estavam embaçados de dor, mas ela parecia determinada a não mostrar nenhuma fraqueza. Notou também o ar de respeito estampado no rosto de Estrela Azul, antes de a líder do Clã do Trovão se virar e iniciar a caminhada entre as árvores. Os outros guerreiros ladearam Presa Amarela e a patrulha seguiu, tendo o cuidado de manter o mesmo ritmo que a prisioneira manca.

Pata de Fogo e Pata Cinzenta caminhavam juntos atrás do grupo.

– Você já tinha ouvido falar de Presa Amarela? – Pata de Fogo cochichou para Pata Cinzenta.

– Alguma coisa. Parece que era uma guerreira antes de se tornar curandeira, o que não é comum. Mas não consigo imaginá-la como uma isolada. Ela passou a vida toda no Clã das Sombras.

– O que é um isolado?

Pata Cinzenta olhou para ele: – É um gato que não faz parte de um clã nem é cuidado por um Duas-Pernas. Garra de Tigre diz que são egoístas e que não se deve confiar neles. Costumam viver perto das casas dos Duas-Pernas, mas não pertencem a ninguém e caçam a própria comida.

– Talvez seja esse o meu fim, quando Estrela Azul acabar comigo – Pata de Fogo miou.

– Estrela Azul é muito justa – Pata Cinzenta garantiu. – Não vai expulsá-

lo. Com certeza está satisfeita por ter como prisioneira uma gata tão importante do Clã das Sombras. Aposto que não vai criar caso por você ter alimentado aquele pobre saco de sarna.

– Mas ficam falando o tempo todo na escassez das presas. Ah! Por que fui comer aquele coelho? – Pata de Fogo sentiu a vergonha queimar-lhe o pelo.

– Bem, é verdade – Pata Cinzenta cutucou o amigo. – Isso foi mesmo coisa de miolo de camundongo. Nessa hora você realmente quebrou o código dos guerreiros, mas nenhum gato é perfeito!

Pata de Fogo não respondeu; fechou-se, com o coração pesado. Não imaginara que sua primeira tarefa sozinho terminaria dessa maneira.

Quando a patrulha passou pelas sentinelas que guardavam a entrada do acampamento, os demais gatos do Clã do Trovão vieram correndo saudar os guerreiros.

Rainhas, filhotes e anciãos se aboletaram nas laterais. Olhavam com curiosidade para Presa Amarela, conduzida pelo acampamento. Alguns dos anciãos reconheceram a velha gata. Logo se espalhou pelo clã que se tratava da curandeira do Clã das Sombras, e um murmúrio de escárnio se generalizou.

Presa Amarela parecia surda ao sarcasmo. Pata de Fogo não pôde deixar de admirar a dignidade com que ela mancava pelo corredor de olhares e insultos. Sabia que sentia muita dor e fome, apesar do coelho que lhe dera.

Quando a patrulha chegou à Pedra Grande, Estrela Azul apontou o chão batido em frente à rocha. Presa Amarela seguiu o comando silencioso da líder do Clã do Trovão, deitando-se, agradecida, na terra. Ainda ignorando os olhares hostis, começou a lamber a perna ferida.

Pata de Fogo percebeu que Folha Manchada saíra do seu canto. Talvez tivesse farejado a presença de um gato machucado no acampamento. Ele observou a multidão dar passagem à jovem gata atartarugada.

Presa Amarela olhou para Folha Manchada e desdenhou: – Sei como tomar conta das minhas feridas. Não preciso da sua ajuda.

Folha Manchada nada disse; apenas fez um sinal respeitoso com a cabeça e recuou.

Alguns felinos tinham estado fora, caçando, e presas frescas foram servidas aos guerreiros recém-chegados. Cada um pegou seu bocado e afastou-se para a área das urtigas para comer. Só depois os outros gatos do clã se adiantaram para pegar a sua parte.

Pata de Fogo, faminto, andava pela clareira observando os gatos agachados em seus grupos costumeiros, mastigando, devorando a comida.

Estava louco por um pedaço, mas não ousava tirar nada da pilha. Havia quebrado o código dos guerreiros e imaginava que, por isso, estava proibido de pegar a sua cota de presa fresca.

Parou ao lado da Pedra Grande, onde Estrela Azul trocava palavras com Garra de Tigre. Em dúvida, Pata de Fogo olhou para a líder, esperando um sinal de permissão para comer. Mas a gata cinza e seu guerreiro experiente estavam muito ocupados, conversando em voz baixa. Pata de Fogo se perguntava se estariam falando dele. Desesperado para saber qual seria seu destino, esticou as orelhas para ouvir o que diziam.

O uivo de Garra de Tigre soou impaciente. – É perigoso demais trazer uma guerreira inimiga para o coração do Clã do Trovão! Agora que ela conhece o acampamento, até o menor filhote do Clã das Sombras vai ficar sabendo onde estamos. Teremos de nos mudar.

– Calma, Garra de Tigre – Estrela Azul ronronou. – Por que devemos nos mudar? Presa Amarela diz que vive como isolada agora. O Clã das Sombras não tem como saber.

– Você acredita mesmo nisso? O que esse gatinho de gente estava pensando da vida? – Garra de Tigre disparou.

– Pense um momento, Garra de Tigre – miou Estrela Azul. – Por que a curandeira do Clã das Sombras escolheria deixar o lar? Você parece ter medo que Presa Amarela vá dividir nossos segredos com o Clã das Sombras; mas já imaginou quantos segredos do Clã das Sombras ela pode dividir conosco?

Ao ver o pelo de Garra de Tigre abaixar-se, Pata de Fogo percebeu que as palavras de Estrela Azul faziam sentido. O guerreiro meneou a cabeça e saiu para pegar sua porção de presa fresca.

Estrela Azul ficou onde estava. Olhou a clareira, onde alguns dos jovens filhotes brincavam de lutar e rolar na terra. A líder levantou-se e começou a andar na direção de Pata de Fogo. O coração dele disparou. O que será que ela ia lhe dizer?

Mas Estrela Azul passou direto por ele. Nem sequer o olhou; os olhos da líder estavam nublados por pensamentos distantes. – Pele de Geada! – ela chamou, ao se aproximar do berçário.

Uma gata toda branca, com olhos azuis-escuros, surgiu das amoreiras.

Dentro, o barulho dos miados aumentou.

– Silêncio, crianças – ronronou a gata branca, acalmando-as. – Não vou demorar. – Virou-se para a líder. – Sim, Estrela Azul. O que é?

– Um dos aprendizes viu uma raposa na área. Avise as outras rainhas para vigiarem o berçário com cuidado. E cuide para que todos os filhotes com menos de seis luas fiquem nos limites do acampamento até que nossos guerreiros a tenham expulsado.

Pele de Geada concordou. – Vou passar adiante o aviso, Estrela Azul.

Obrigada. – Dizendo isso, esgueirou-se para dentro do berçário, para acalmar os bebês chorões.

Finalmente, Estrela Azul se dirigiu à pilha de presa fresca e pegou sua porção. Um roliço pombo torcaz fora deixado para ela. Pata de Fogo seguiu-a com o olhar ávido enquanto ela levava o pombo até onde estavam os guerreiros experientes.

A fome de Pata de Fogo fez, enfim, com que ele se mexesse. Pata Cinzenta estava com Pata Negra devorando um pequeno pintassilgo ao lado do toco de árvore. Ao ver Pata de Fogo se aproximar da pilha, dirigiu-lhe um sinal encorajador com a cabeça. Pata de Fogo inclinou o pescoço, pronto para agarrar com os dentes um rato-do-campo.

– Você, não – rosnou Garra de Tigre, andando pomposamente atrás dele e afastando o rato com a pata. – Você não trouxe nenhuma presa. Os anciãos vão comer a sua parte. Leve para eles.

Pata de Fogo olhou para Estrela Azul.

– Faça o que ele diz – a líder ordenou com um aceno seco.

Obediente, ele pegou o camundongo e o levou até Orelhinha. O cheiro delicioso subiu pelo nariz de Pata de Fogo, que só pensava em esmigalhar a presa com seus dentes fortes. Quase sentia a energia vital do camundongo inundando seu jovem corpo.

Com grande autocontrole, colocou a presa em frente ao gato cinza e então afastou-se, educadamente. Não esperava nenhum agradecimento e nenhum lhe foi oferecido.

Agora estava feliz por ter devorado os restos do coelho que apanhara para Presa Amarela. Nada mais teria para comer até voltar a caçar no dia seguinte.

Pata de Fogo andou no escuro até encontrar Pata Cinzenta. O amigo tinha comido até se fartar e estava deitado com Pata Negra do lado de fora da toca dos aprendizes. Estava esticado de lado, lambendo a pata dianteira num ritmo constante.

Pata Cinzenta viu Pata de Fogo se aproximar e parou de se lavar. – Estrela Azul já disse qual será o seu castigo? – perguntou.

– Ainda não – Pata de Fogo respondeu, desanimado.

Sem nada a dizer, Pata Cinzenta estreitou os olhos com simpatia.

Ouviu-se o chamado de Estrela Azul pela clareira. – Estou convocando todos os gatos com idade suficiente para pegar a própria presa para uma reunião do clã.

A maioria dos guerreiros tinha acabado de comer e, como Pata Cinzenta, estavam ocupados, se penteando. Ergueram-se graciosamente sobre as patas e foram até a Pedra Grande, onde Estrela Azul esperava pelo momento de falar.

– Vamos – miou Pata Cinzenta. Ele se levantou de um pulo. Pata Negra e Pata de Fogo o seguiram quando ele correu e abriu caminho à força para conseguir um bom lugar.

– Estou certa de que todos ouviram falar da prisioneira que trouxemos hoje – começou Estrela Azul. – Mas existe outra coisa que precisam saber. – Ela abaixou os olhos para a gata avermelhada, imóvel ao lado da Pedra Alta.

– Você consegue me ouvir daí? – perguntou.

– Posso ser velha, mas ainda não estou surda – Presa Amarela disparou em resposta.

Estrela Azul ignorou o tom hostil da prisioneira e continuou. – Temo trazer algumas notícias preocupantes. Hoje percorri o território do Clã do Vento com uma patrulha. O ar estava impregnado com o odor do Clã das Sombras. Praticamente todas as árvores tinham sido marcadas com o cheiro de seus guerreiros. E não encontramos nenhum gato do Clã do Vento, embora tenhamos nos embrenhado no território deles.

As palavras foram recebidas com silêncio. Pata de Fogo percebeu que os gatos do clã estavam confusos.

– Você quer dizer que o Clã das Sombras os expulsou? – perguntou Orelhinha, em tom hesitante.

– Não podemos assegurar – miou Estrela Azul. – O fato é que o cheiro do Clã das Sombras estava em todo lugar. Encontramos sangue também, além de pelo. Deve ter havido uma batalha, embora não tenhamos encontrado corpos de nenhum dos dois clãs.

Um uivo de espanto elevou-se da multidão em uníssono. Pata de Fogo percebeu que os felinos à sua volta se retesavam, num misto de surpresa e fúria. Nunca antes um clã havia despejado o outro de suas zonas de caça.

– Como pôde o Clã do Vento ter sido expulso? – Caolha perguntou com sua voz fraca e baixa. – O Clã das Sombras é feroz, mas são muitos os guerreiros do Clã do Vento. Faz gerações que vivem nas terras altas. Por que foram expulsos agora? – Ansiosa, balançou a cabeça; os pelos do seu bigode tremiam.

– Não sei a resposta para nenhuma dessas perguntas – miou Estrela Azul.

– É sabido que o Clã das Sombras há pouco elegeu um novo líder, depois da morte de Estrela Afiada. O novo líder, Estrela Partida, não fez nenhuma menção de ameaça quando o encontrei na última Assembleia.

– Talvez Presa Amarela saiba de alguma coisa – miou Risca de Carvão. – Afinal, ela pertence ao Clã das Sombras!

– Não sou traidora! Nada vai me fazer revelar os segredos do Clã das Sombras para um selvagem como você! – grunhiu Presa Amarela, olhando com agressividade para Risca de Carvão. O guerreiro do Clã do Trovão deu um passo à frente, com as orelhas abaixadas, olhos em fendas, pronto para uma briga.

– Parem! – gritou Estrela Azul.

Risca de Carvão imediatamente parou, embora Presa Amarela o fuzilasse com os olhos e com um uivo feroz.

– Já chega! – a líder gritou. – A situação é séria demais para ficarmos brigando entre nós. O Clã do Trovão precisa se preparar. A partir deste nascer da lua, os guerreiros vão caminhar em grupos maiores. Os outros membros do clã ficarão perto do acampamento. As patrulhas vigiarão as fronteiras com mais frequência e os filhotes não sairão do berçário.

Os gatos concordaram.

Estrela Azul continuou. – A necessidade de guerreiros é nosso maior obstáculo. Precisamos solucionar o problema acelerando o treinamento dos aprendizes. Precisam estar prontos o mais rápido possível para lutar pelo clã.

Pata de Fogo viu Pata de Poeira e Pata de Areia trocarem um olhar palpitante. Pata Cinzenta estava olhando para cima, para Estrela Azul, os olhos arregalados de empolgação. Pata Negra esfregava as patas, ansioso.

Seus olhos bem abertos mostravam mais preocupação que animação.

Estrela Azul continuou. – Um jovem gato tem partilhado mentores com Pata Cinzenta e Pata Negra. Ensinando-o, vou acelerar o treinamento dos três aprendizes – Fez uma pausa e abaixou os olhos para os gatos do clã. – Vou fazer de Pata de Fogo meu aprendiz.

Pata de Fogo arregalou os olhos, impressionado. Estrela Azul ia ser sua mentora?

Ao lado dele, Pata Cinzenta engasgou, incapaz de esconder a surpresa. – Que honra! Já faz luas que Estrela Azul não tem um aprendiz. Normalmente ela treina apenas os filhotes de representantes!

Foi quando uma voz familiar elevou-se na frente da multidão. Era Garra de Tigre.

– Então Pata de Fogo vai ser premiado, não punido, por alimentar um guerreiro inimigo quando devia estar alimentando o próprio clã?

– Pata de Fogo agora é meu aprendiz. Pode deixar que lido com ele – respondeu Estrela Azul. A líder sustentou por um momento o olhar feroz de Garra de Tigre, antes de levantar a cabeça para se dirigir ao clã mais uma vez. – Presa Amarela está autorizada a ficar aqui até recuperar as forças.

Somos guerreiros, não selvagens. Ela deve ser tratada com respeito e cortesia.

– Mas o clã não pode sustentar Presa Amarela – Risca de Carvão protestou. – Já temos bocas demais para alimentar.

– É isso mesmo! – Pata Cinzenta cochichou para Pata de Fogo. – E

algumas bocas são maiores que as outras!

– Não preciso que ninguém cuide de mim! – disparou Presa Amarela. – E

vou partir em dois quem tentar!

– Simpática, não é? – Pata Cinzenta murmurou.

Pata de Fogo sacudiu a cauda, concordando. Ouviram-se miados abafados dos outros guerreiros que, de má vontade, reconheciam o espírito de luta da guerreira inimiga.

Estrela Azul ignorou o burburinho. – Vamos matar duas presas de um golpe só, como se diz. Pata de Fogo, como punição por quebrar o código dos guerreiros, será sua responsabilidade tomar conta de Presa Amarela. Vai caçar para ela e cuidar de suas feridas. Buscará palha fresquinha para fazer sua cama e limpará suas fezes.

– Está bem, Estrela Azul – miou Pata de Fogo, abaixando a cabeça, submisso. Limpar fezes! , pensou. Eca!

Pata de Poeira e Pata de Areia miaram em tom de deboche. – Boa ideia!! – sibilou Pata de Poeira. – É bom que Pata de Fogo seja craque em matar pulgas!

– E em caçar! – acrescentou Pata de Areia. – Aquele saco de ossos vai precisar de comida.

– Basta! – Estrela Azul interrompeu a dupla. – Espero que Pata de Fogo não considere uma vergonha tomar conta de Presa Amarela. Ela é uma curandeira e mais velha do que ele. Essas razões já são suficientes para que ele a respeite. – A líder lançou um olhar agudo para Pata de Areia e Pata de Poeira. – Não é nada humilhante tomar conta de quem não pode cuidar de si. A reunião acabou aqui. Agora quero falar só com meus guerreiros antigos. – Dizendo isso, ela pulou da Pedra Grande e se dirigiu à sua toca.

Coração de Leão a seguiu. Os outros felinos do clã começaram a se distanciar da Pedra Grande. Um ou dois cumprimentaram Pata de Fogo por ter sido escolhido como aprendiz de Estrela Azul; outros, debochando, desejaram-lhe sorte nos cuidados com Presa Amarela. Pata de Fogo ficou tão atarantado com o anúncio da líder, que apenas balançava a cabeça.

Rabo Longo aproximou-se. Ainda estava visível o corte em forma de “V”

que Pata de Fogo lhe fizera na ponta da orelha. O jovem guerreiro recolheu os bigodes num feio rosnado. – Espero que, da próxima vez, pense duas vezes antes de trazer gatos vadios para o acampamento – zombou. – Como eu disse, forasteiros sempre trazem problemas.