Na Floresta

Erin Hunter · Capítulo 8 de 27

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Na Floresta

Capítulo 6

 

O SOL DO INÍCIO da manhã banhava o chão da floresta quando Pata de Fogo saiu em busca de presas. Duas luas haviam se passado desde o início do seu treinamento. Ele se sentia à vontade naquele ambiente agora. Seus sentidos tinham sido despertados e educados à maneira da floresta.

Pata de Fogo parou para farejar a terra e as coisas escondidas que nela se revolviam. Percebeu o cheiro de um Duas-Pernas que andara pela floresta recentemente. Agora que a época das folhas verdes chegara de verdade, a folhagem enchia os galhos de árvores e pequenas criaturas trabalhavam ocupadas sob o tapete de humo.

A sombra esguia e forte de Pata de Fogo movia-se silenciosamente entre as árvores, e todos os seus sentidos estavam atentos à trilha de cheiros que terminaria em uma morte rápida. Era a primeira vez que saía sozinho numa missão e estava determinado a ter sucesso, mesmo que a missão fosse apenas levar presas frescas para o clã.

Dirigiu-se ao riacho que havia cruzado na sua primeira caminhada pela zona de caça do Clã do Trovão. Borbulhas de água respingavam do rio que corria sobre as pedras lisas e redondas. Pata de Fogo fez uma pequena parada para beber da água fria e clara; levantou a cabeça e voltou a farejar o ar, procurando algum cheiro de presa.

O fedor de raposa era forte. Um cheiro azedo denunciava que ela andara bebendo por ali mais cedo. Pata de Fogo reconheceu o odor que sentira na primeira visita à floresta. Desde então, Coração de Leão lhe ensinara que aquilo era cheiro de raposa, mas, além de uma cauda que ele vira de relance naquela primeira saída, Pata de Fogo nunca tinha visto uma raposa de verdade.

Teve de se esforçar para ignorar o odor de raposa e se concentrar no cheiro da presa. De repente, os bigodes se retesaram quando ele percebeu o pulsar do sangue quente de uma caça – um rato silvestre se mexendo no ninho.

Um momento depois, ele avistou a presa. O corpo gordo e marrom se lançava para a frente e para trás ao longo da margem, enquanto o rato juntava hastes de grama. Pata de Fogo ficou com água na boca só de imaginar. Já fazia muitas horas desde sua última refeição, mas não ousaria caçar para si mesmo até que o clã tivesse sido alimentado. Lembrava-se das palavras que Coração de Leão e Garra de Tigre não cansavam de repetir: “O

clã deve ser alimentado em primeiro lugar.”

Agachou-se e começou a tocaiar a pequena criatura. Sua barriga amarela roçava a grama úmida. Chegou mais perto, sem tirar os olhos da presa.

Estava quase lá. Mais um instante e estaria perto suficiente para pular…

De repente, alguma coisa se mexeu nas samambaias atrás dele, fazendo barulho. As orelhas do rato silvestre estremeceram e ele desapareceu em um buraco na margem.

Pata de Fogo sentiu o pelo eriçar-se ao longo da espinha. Algo arruinara sua primeira boa chance de pegar uma presa e, fosse o que fosse, haveria de pagar.

Farejou o ar. Sabia que era um gato, mas percebeu com um tremor que não podia identificar a que clã pertencia, pois o cheiro azedo da raposa confundia seu olfato.

Um grunhido brotou-lhe na garganta quando ele começou a recuar, fazendo um grande círculo. Retesou as orelhas e arregalou os olhos, procurando algum movimento. Ouviu o ruído na vegetação mais uma vez.

Agora era mais alto, vinha de um dos lados. Pata de Fogo se aproximou. Viu as samambaias se movendo, mas a copa das árvores ainda o impedia de ver o inimigo. Um galho quebrou, produzindo um som agudo. Pelo barulho, deve ser grande, pensou Pata de Fogo, preparando-se para uma batalha feroz.

Pulou para o tronco de um freixo e subiu rápida e silenciosamente até um galho pendurado. Debaixo dele, o guerreiro invisível se aproximava cada vez mais. Pata de Fogo prendeu a respiração e, enquanto avaliava a situação, as samambaias se abriram e delas surgiu uma grande forma acinzentada.

– Grrrrrrrr – O grito de batalha bramiu na garganta de Pata de Fogo.

Garras de fora, ele se lançou sobre o inimigo, caindo sobre ombros vigorosos e peludos. Atirou-se com força, cravando as garras afiadas, pronto para desferir uma poderosa mordida de alerta.

– Ei! Ei! O que é isso? – O corpo sob Pata de Fogo deu um pulo no ar, carregando-o junto.

– Hã? Pata Cinzenta? – Pata de Fogo reconheceu a voz espantada e sentiu o cheiro familiar do amigo; mas estava muito agitado para soltar as garras.

– Emboscada!! Miauuuuuuuuu!! – disparou Pata Cinzenta, sem perceber que era Pata de Fogo que lhe agarrava as costas. O gato se contorcia sem parar, tentando se soltar do agressor.

– Uuff-ff! – Pata de Fogo se contorcia também, imprensado e achatado sob o corpo pesado. – Sou eu, Pata Cinzenta! – gritou, lutando para se libertar e recolher as garras. Retorcendo-se, ficou de pé; sacudiu o corpo todo, num tremor que lhe eriçou o pelo até a ponta da cauda. – Pata Cinzenta! Sou eu – repetiu. – Pensei que fosse um guerreiro inimigo!

Pata Cinzenta se levantou. Estremeceu e sacudiu o corpo. – Parecia mesmo! – falou entre dentes, virando a cabeça para lamber os ombros machucados. – Você me arranhou todo!

– Desculpe! – Pata de Fogo murmurou. – Mas o que é que eu ia pensar, com você se aproximando desse jeito sorrateiro?

– Sorrateiro? – Os olhos de Pata Cinzenta ficaram redondos de indignação. – Foi minha melhor tocaia.

– Tocaia! – Você foi tão discreto quanto um texugo manco! – Pata de Fogo provocou, abaixando as orelhas, divertido.

Pata Cinzenta deu um assobio de prazer. – Vou lhe mostrar quem é manco.

Os dois gatos pularam, engalfinhando-se numa luta de brincadeira. Pata Cinzenta atingiu Pata de Fogo com força e o jovem aprendiz viu estrelas, a cabeça zunindo.

– Uufff-ff! – Pata de Fogo sacudiu a cabeça para colocar as ideias em ordem e partiu para o contra-ataque.

Conseguiu ainda dar uns dois golpes antes que Pata Cinzenta o dominasse, mantendo-o no chão. Pata de Fogo soltou o corpo.

– Você desiste fácil demais! – miou Pata Cinzenta, afrouxando a garra.

Nesse momento, Pata de Fogo ergueu-se com um giro do corpo, atirando Pata Cinzenta na vegetação.

Em seguida, pulando sobre ele, Pata de Fogo imobilizou-o no chão. – A surpresa é a maior arma de um guerreiro – grunhiu, citando uma das frases favoritas de Coração de Leão. Soltou-se agilmente de Pata Cinzenta e começou a rolar na camada de folhas, saboreando a vitória fácil e o calor da terra nas costas.

Pata Cinzenta não pareceu aborrecido pela segunda derrota da manhã. O

dia estava bonito demais para entregar-se ao mau humor. – E então? Como está se saindo nessa primeira tarefa? – perguntou.

Pata de Fogo sentou – Ia muito bem até você aparecer! Estava a ponto de pegar um rato silvestre quando o barulho dos seus passos o assustou e ele fugiu.

– Ah, desculpe – miou Pata Cinzenta.

Pata de Fogo olhou para o amigo cabisbaixo. – Tudo bem. Você não sabia – ronronou. – Mas você não devia estar indo ao encontro da patrulha na fronteira do Clã do Vento? Pensei que tinha de lhes entregar uma mensagem de Estrela Azul.

– É verdade, mas ainda tenho muito tempo. Primeiro ia caçar um pouco.

Estou morto de fome!

– Eu também. Mas preciso caçar para o clã antes de caçar para mim.

– Aposto que Pata de Poeira e Pata de Areia costumavam engolir um ou dois musaranhos quando estavam em missão de caça – bufou Pata Cinzenta.

– Não ficaria surpreso com isso, mas esta é minha primeira tarefa sozinho…

– E você quer fazer direitinho; sei como é – Pata Cinzenta suspirou.

– Afinal, qual é a mensagem de Estrela Azul? – Pata de Fogo perguntou, mudando de assunto.

– Ela quer que a patrulha espere no Grande Plátano até que se reúna a eles no sol alto. Parece que alguns felinos do Clã das Sombras estiveram por lá atrás de presas. Estrela Azul quer fazer uma inspeção.

– Então, é melhor você ir – Pata de Fogo aconselhou.

– As zonas de caça do Clã do Vento não ficam longe daqui. Há tempo de sobra – respondeu Pata Cinzenta, confiante. – Acho que é melhor ajudar você, já que, por minha causa, perdeu o rato silvestre.

– Não faz mal – miou Pata de Fogo. – Encontrarei outro. O dia está tão quente que deve haver um bocado deles por aí.

– É verdade. Mas você ainda precisa pegá-los. – Pata Cinzenta mordiscou, pensativo, uma das patas dianteiras, tirando uma lasca da garra descoberta – Você sabe que isso pode demorar até o sol ficar alto, talvez até o pôr do sol.

Pata de Fogo concordou sem entusiasmo, sentindo a barriga roncar.

Provavelmente teria de fazer três ou quatro excursões de caça antes de conseguir acumular presas suficientes. O Tule de Prata estaria no céu antes que tivesse uma chance de comer.

Pata Cinzenta balançou os bigodes. – Vamos lá; vou ajudá-lo a começar. É

o mínimo que posso fazer para compensá-lo. Acho que conseguiremos pegar alguns ratos silvestres antes que eu me vá.

Pata de Fogo seguiu Pata Cinzenta rio acima, contente pela companhia e pela ajuda. O fedor da raposa ainda estava no ar, mas, de repente, pareceu mais forte.

Pata de Fogo parou e perguntou: – Está sentindo esse cheiro?

Pata Cinzenta parou e também farejou o ar. – É raposa. Já senti esse cheiro hoje.

– Mas não parece mais fresco agora? – perguntou Pata de Fogo.

Pata Cinzenta voltou a farejar, abrindo levemente a boca. – Você tem razão – murmurou, abaixando a voz. Virou a cabeça para olhar do outro lado do rio, na direção dos arbustos que ficavam na floresta. – Olhe! – falou baixinho.

Pata de Fogo olhou e viu uma coisa vermelha e peluda se movendo entre os arbustos e entrando em uma clareira da vegetação. Era um corpo baixo e rubro, que cintilava à luz do sol. A cauda era bastante peluda, com uma ponta comprida e estreita.

– Então, isto é que uma raposa? – cochichou Pata de Fogo – Que focinho feio!

– Tem razão! – concordou Pata Cinzenta.

– Eu estava seguindo uma dessas quando nós… nos conhecemos – murmurou Pata de Fogo.

– Era ela que provavelmente seguia você, seu idiota! – sibilou Pata Cinzenta. – Jamais confie numa raposa. Parece um cachorro, mas se comporta como um gato. Precisamos avisar as rainhas sobre essa raposa desgarrada no nosso território. – As raposas são tão ruins quanto os texugos quando se trata de matar filhotes. Estou feliz que você não a tenha alcançado quando a viu da última vez. Ela teria feito gato e sapato de alguém tão pequeno. – Pata de Fogo olhou meio sem jeito e Pata Cinzenta acrescentou: – Mas agora você já tem mais chance. De qualquer forma, provavelmente Estrela Azul vai mandar uma patrulha de guerreiros para espantá-la. Isso vai acalmar as rainhas.

A raposa não tinha notado os dois aprendizes que, assim, continuaram ao longo do riacho.

– Então, como é um texugo? – perguntou Pata de Fogo, à espreita, farejando de um lado para outro.

– Preto e branco, pernas curtas. Você vai reconhecer quando encontrar.

São mal-humorados, animais pesados. É menos provável que eles ataquem o berçário do que uma raposa, mas sua mordida é terrível. Como você acha que o velho Meio Rabo ganhou aquele nome? Ele não consegue mais subir em árvore desde que um texugo lhe arrancou a cauda!

– Por que não?

– Tem medo de cair. Um gato precisa do rabo para aterrissar de pé. O

rabo ajuda a girar no meio do salto.

Pata de Fogo balançou a cabeça, sinalizando que havia entendido.

Como Pata de Fogo previra, a caça foi boa naquele dia. Não demorou muito para Pata Cinzenta agarrar um camundongo pequeno e Pata de Fogo pegar um sabiá. Ele o matou rapidamente. Não havia tempo para praticar técnicas de abate. Eram muitíssimas as bocas famintas esperando no acampamento. Pata de Fogo jogou terra sobre a presa, para que ficasse a salvo de predadores até que viesse buscá-la.

De repente, apareceu um esquilo.

Pata de Fogo se pôs em ação. – Atrás dele! – gritou, espichando-se ao se atirar no chão da floresta, seguido por Pata Cinzenta.

Parou de súbito quando o esquilo escapuliu para o alto de uma bétula.

– Nós o perdemos! – Pata Cinzenta grunhiu, desapontado.

Resfolegando, os dois gatos pararam para recuperar o ar. O fedor acre que chegava a suas bocas e narizes os surpreendeu.

– O Caminho do Trovão – miou Pata de Fogo. – Não percebi que tínhamos vindo tão longe.

Os dois gatos avançaram para olhar além da floresta, para o caminho grande e escuro. Era a primeira vez que estavam ali sozinhos. Uma trilha de criaturas barulhentas grunhia pela superfície dura, com os olhos mortos olhando direto para a frente.

– Eca! – miou Pata Cinzenta. – Esses monstros realmente fedem!

Pata de Fogo sacudiu as orelhas, concordando. Aqueles cheiros asfixiantes faziam sua garganta arder. – Você nunca esteve no Caminho do Trovão? – miou.

Pata Cinzenta negou com a cabeça.

Pata de Fogo deu um passo e saiu do refúgio da floresta. Havia uma margem de grama oleosa entre as árvores e o Caminho do Trovão. Devagar, colocou ali uma pata, mas se encolheu para trás quando, violentamente, passou um monstro com um cheiro terrível.

– Ei, aonde você vai? – miou Pata Cinzenta.

Pata de Fogo não respondeu. Esperou até não ver mais nenhum monstro.

Então, mais uma vez, ultrapassou a margem de grama, coladinho na beira do caminho. Com cuidado, colocou ali uma pata. Era quente, meio pegajoso, aquecido pelo sol. Olhou para cima, para o outro lado do Caminho do Trovão. Seria um par de olhos brilhando lá longe? Farejou o ar, mas só conseguiu sentir o fedor do grande caminho cinza. Os olhos do outro lado ainda brilhavam nas sombras. Até que pestanejaram.

Pata de Fogo tinha certeza agora. Era um guerreiro do Clã das Sombras que o fitava diretamente.

– Pata de Fogo! – A voz de Pata Cinzenta fez Pata de Fogo pular, exatamente quando um monstro enorme, mais alto que uma árvore, rugiu pertinho do seu nariz. O bafo quase o derrubou. Pata de Fogo se virou e correu o mais depressa que pôde para a segurança da floresta.

– Seu bobo com miolo de camundongo! – disparou Pata Cinzenta, os bigodes tremendo de medo e raiva. – O que está fazendo?

– Só queria saber como era o Caminho do Trovão – Pata de Fogo murmurou. Seus bigodes também estavam tremendo.

– Venha – sibilou asperamente Pata Cinzenta. – Vamos dar o fora daqui!

Pata de Fogo pulou de volta para a floresta e seguiu o amigo. Quando estavam a uma distância segura do Caminho do Trovão, Pata Cinzenta parou para recuperar o fôlego.

Pata de Fogo sentou e começou a lamber o pelo eriçado. – Acho que vi um guerreiro do Clã das Sombras – miou entre uma lambida e outra. – Na floresta, do outro lado do Caminho do Trovão.

– Um guerreiro do Clã das Sombras! – repetiu Pata Cinzenta, com os olhos arregalados. – É mesmo?

– Tenho certeza.

– Foi bom que o monstro tenha passado naquela hora – replicou Pata Cinzenta. – Onde há um guerreiro do Clã das Sombras, há outros mais, e nós ainda não somos páreo para eles. Melhor irmos embora. – Olhou para cima, encarando o sol quase a pino. – É bom eu me mexer se quiser encontrar a patrulha a tempo – miou. – Até mais tarde. – Pulou na direção da vegetação, dizendo, ao se afastar: – Nunca se sabe; Coração de Leão talvez me deixe vir ajudá-lo na caçada depois que eu entregar a mensagem.

Pata de Fogo olhou o amigo se afastar. Teve inveja de Pata Cinzenta; quem dera fosse ele a se juntar a uma patrulha de guerreiros. Mas, ao menos, teria alguma coisa para contar a Pata de Poeira e a Pata de Areia quando voltasse ao acampamento. Tinha visto seu primeiro guerreiro do Clã das Sombras.