Na Floresta
Capítulo 2
– E ENTÃO? – SIBILOU Estrela Azul, com o rosto a um camundongo de distância do dele. Coração de Leão manteve silêncio, enquanto se agigantava diante de Ferrugem.
Ele abaixou as orelhas e encolheu-se sob o olhar frio do guerreiro dourado. Seus pelos se eriçavam de maneira incômoda. – Não sou ameaça para o seu clã – miou, com os olhos postos nas patas, que tremiam.
– Você ameaça nosso clã quando toma a nossa comida – uivou Estrela Azul. – Você tem muita comida no ninho dos Duas-Pernas. Vem aqui só para caçar por esporte. Mas nós caçamos para sobreviver.
A verdade contida nas palavras da rainha guerreira atingiu Ferrugem como um espinho e, de repente, ele compreendeu a raiva que Estrela Azul sentia. Parou de tremer, sentou, empinou as orelhas e, buscando os olhos da gata com os seus, disse: – Ainda não tinha pensado no assunto dessa maneira. Sinto muito – miou, respeitoso. – Não vou mais caçar aqui.
Estrela Azul desarmou os pelos e fez um sinal para Coração de Leão se afastar. – Você não é como os outros gatinhos de gente, Ferrugem – miou.
O suspiro de alívio de Pata Cinzenta fez as orelhas de Ferrugem se contraírem. Ele sentiu a aprovação na voz de Estrela Azul e percebeu que a gata trocara um olhar significativo com Coração de Leão. Aquele olhar o deixou curioso. O que passava pela mente dos dois guerreiros? Calmo, perguntou: – A sobrevivência aqui é mesmo tão difícil?
– Nosso território cobre apenas parte da floresta – respondeu Estrela Azul. – Competimos com outros clãs pelo que temos. E, este ano, com o atraso da estação do renovo, haverá escassez de presas.
– É grande o seu clã? – Ferrugem miou, olhos arregalados.
– Grande o suficiente – respondeu Estrela Azul. – Nosso território pode nos sustentar, mas não há sobra de presas.
– Então vocês todos são guerreiros? – miou Ferrugem. As respostas cautelosas de Estrela Azul o deixavam cada vez mais curioso.
Foi Coração de Leão que respondeu: – Alguns são guerreiros. Alguns são jovens demais para isso, outros velhos demais, e outras ainda são ocupadas demais para caçar, pois cuidam dos filhotes.
– E vocês todos vivem juntos e dividem as presas? – Ferrugem murmurou, assombrado, sentindo-se um pouco culpado pela vida fácil e egoísta que levava.
Estrela Azul voltou a fitar Coração de Leão. O gato dourado devolveu o olhar com firmeza. Por fim, ela mirou Ferrugem novamente e miou: – Talvez você possa descobrir essas coisas por si mesmo. O que acha de se juntar ao Clã do Trovão?
Ferrugem ficou tão surpreso que não conseguia falar.
Estrela Azul continuou: – Se você vier, vai treinar com Pata Cinzenta para se tornar um guerreiro do clã.
– Mas gatinhos de gente não podem ser guerreiros! – Pata Cinzenta deixou escapar. – Eles não têm sangue de guerreiro!
A tristeza nublou os olhos de Estrela Azul. – Sangue de guerreiro – ela repetiu com um suspiro. – Muito sangue já foi derramado ultimamente.
A gata fez silêncio e Coração de Leão miou: – Estrela Azul está apenas oferecendo treinamento a você, jovem gato. Não há garantia de se tornar realmente um guerreiro. Pode acabar sendo difícil demais para você. Afinal, está acostumado a uma vida confortável.
Ferrugem sentiu-se atingido pelas palavras de Coração de Leão. Girou a cabeça para olhar de frente o gato dourado. – Então, por que me oferecer a oportunidade?
Mas foi Estrela Azul que respondeu. – Você está certo em questionar nossos motivos, meu jovem. A verdade é que o Clã do Trovão precisa de mais guerreiros.
– Entenda que Estrela Azul não faz essa oferta de maneira leviana – advertiu Coração de Leão. – Se quiser fazer o treinamento conosco, teremos de levá-lo para o nosso clã. Ou você vive conosco e respeita nossos costumes ou terá de voltar para o lugar dos Duas-Pernas e jamais retornar.
Não dá para viver com uma pata em cada mundo.
Uma brisa fresca movimentou a vegetação, encrespando os pelos de Ferrugem. Ele tremeu, não por causa do frio, mas pela empolgação ante as incríveis possibilidades que se abriam diante dele.
– Você está pensando se vale a pena abrir mão de sua vida confortável de gatinho de gente? – perguntou, delicada, Estrela Azul. – Mas percebe o preço que vai pagar pelo calor e pela comida?
Ferrugem olhou para ela, intrigado. Certamente o encontro com esses felinos lhe provara como sua vida era fácil e cheia de luxo.
– Posso garantir que você ainda é um macho – acrescentou Estrela Azul –, apesar do fedor dos Duas-Pernas que vem do seu pelo.
– O que você quer dizer com ainda é um macho?
– Você ainda não foi levado pelos Duas-Pernas para o Corta-Gato – miou, séria, Estrela Azul. – Se isso tivesse acontecido, você seria bem diferente.
Não teria ficado tão ansioso para lutar com um gato de clã!
Ferrugem ficou confuso. De repente, pensou em Henry, que se tornara gordo e preguiçoso desde a visita ao veterinário. Seria ao médico que Estrela Azul tinha se referido como o Corta-Gato?
– O clã pode não ser capaz de lhe oferecer calor e comida fácil – continuou Estrela Azul. – Na estação sem folhas, as noites na floresta podem ser cruéis. O clã vai exigir grande lealdade e trabalho duro. Você deverá protegê-lo com a própria vida, se necessário, e há muitas bocas para alimentar. Mas as recompensas são grandes. Você vai continuar sendo macho. Será treinado à maneira da floresta. Vai aprender o que é ser um gato de verdade. A força e a camaradagem do clã vão sempre acompanhá-
lo, mesmo que você cace sozinho.
A cabeça de Ferrugem girava. Estrela Azul parecia estar lhe oferecendo a vida tentadora que ele tantas vezes vivera em seus sonhos; mas será que poderia viver aquilo de verdade?
Coração de Leão interrompeu-lhe os pensamentos. – Venha, Estrela Azul, não vamos perder mais tempo aqui. Precisamos nos aprontar para acompanhar a outra patrulha na lua alta. Garra de Tigre deve estar se perguntando o que aconteceu conosco. – Levantou-se e balançou a cauda, aguardando.
– Espere – miou Ferrugem. – Posso pensar sobre a oferta?
Estrela Azul olhou-o longamente e concordou. – Coração de Leão vai estar aqui amanhã no sol alto – disse. – Dê, então, a resposta.
A gata fez um pequeno gesto e, em um único movimento, os três gatos se viraram e desapareceram na vegetação.
Ferrugem piscou. Voltou o olhar – empolgado, cheio de dúvidas – para além das samambaias que o circundavam, através da cobertura de folhas, até as estrelas que brilhavam no céu claro. O cheiro dos gatos do clã ainda pesava no ar da noitinha. Quando virou-se e rumou para casa, Ferrugem teve a estranha sensação de que algo o puxava de volta para as profundezas da floresta. Seu pelo se eriçou deliciosamente na brisa; as folhas farfalhando pareciam murmurar seu nome nas sombras.