Na Floresta
Capítulo 19
PATA CINZENTA E PATA NEGRA ainda estavam remendando o buraco quando Pata de Fogo veio ter com eles. Tinham deixado um espaço largo suficiente para o amigo voltar.
– Não tive sorte com o alho – Pata de Fogo arquejava quando entrou de mansinho. – Risca de Carvão estava por lá, à espreita.
– Não faz mal – miou Pata Cinzenta. – Podemos apanhar amanhã.
– Vou conseguir com Folha Manchada um pouco de papoula para você – ofereceu Pata de Fogo, preocupado com o olhar apático do amigo e com seus músculos, que pareciam duros de medo.
– Não, não se preocupe. Vou ficar bem – miou Pata Cinzenta.
– Não custa nada – Pata de Fogo insistiu; antes que o amigo pudesse dizer alguma coisa, rumou para a toca da curandeira.
Folha Manchada circulava na sua pequena clareira, com os olhos nublados de tristeza.
– Tudo bem com você? – perguntou o gato.
– Os espíritos do Clã das Estrelas estão inquietos. Acho que estão tentando me dizer alguma coisa – ela replicou, agitando a cauda sem parar.
– Como posso ajudar?
– Acho que Pata Cinzenta ficaria melhor com algumas sementes de papoula para a perna. As mordidas dos ratos ainda estão doendo – explicou o aprendiz.
– A dor da perda de Coração de Leão torna piores as feridas. Mas ele ficará bom a tempo; não se preocupe. Enquanto isso, você tem razão, as sementes de papoula vão ajudar. – Folha Manchada foi até sua toca e pegou uma cabeça seca de papoula, que colocou cuidadosamente no chão. – Dê a ele uma ou duas sementes. Basta sacudir esta cabeça – ela miou.
– Obrigado – agradeceu Pata de Fogo. – Tem certeza de que está bem?
– Vá cuidar do seu amigo – disse a curandeira, evitando o olhar do aprendiz.
Pata de Fogo apanhou a cabeça de papoula entre os dentes e começou a se afastar.
– Espere – Folha Manchada ciciou de repente.
O aprendiz virou-se, esperançoso, e encontrou seu olhar cor de ouro. Ela o fitou com a mesma intensidade.
– Pata de Fogo – ela miou –, o Clã das Estrelas falou comigo, luas atrás, antes de você se juntar ao clã. Sinto que desejam que lhe diga isso agora.
Eles dizem que apenas o fogo pode salvar nosso clã.
Pata de Fogo, perplexo, olhou firme para Folha Manchada.
A estranha paixão nos olhos da curandeira esmaeceu. – Cuide-se, Pata de Fogo – ela miou com seu tom de voz habitual, dando-lhe as costas.
– Até mais – respondeu o gato, hesitante.
Pata de Fogo voltou pelo túnel de tojos, com as estranhas palavras da gata ecoando em sua mente. Mas, para ele, não faziam sentido. Por que partilhara o assunto com ele? Afinal, o fogo era inimigo de todos os que moravam na floresta. Frustrado, sacudiu a cabeça e se dirigiu à toca dos aprendizes.
– Pata Cinzenta! – cochichou Pata de Fogo na orelha do amigo, que dormia.
Tinham sido autorizados a descansar por toda a manhã, depois de ter passado a maior parte da noite remendando o muro. Garra de Tigre ordenara que estivessem prontos para começar o treinamento no sol alto. A luz forte e amarela entrando pela toca avisava a Pata de Fogo que já era quase hora.
Ele tivera uma noite agitada. Sonhos invadiam sua mente cada vez que adormecia – sonhos confusos, indistintos, mas cheios de escuridão e ameaça.
– Pata Cinzenta! – voltou a chamar Pata de Fogo. Mas o amigo não se mexia: tinha comido duas sementes de papoula antes de dormir e estava em sono profundo.
– Está acordado, Pata de Fogo? – miou Pata Negra do seu ninho.
Pata de Fogo cuspiu em silêncio. Queria ter falado com Pata Cinzenta antes de Pata Negra acordar.
– Estou, sim! – respondeu.
Pata Negra sentou na cama de musgo e urze e começou a se lavar com rápidas lambidas. – Você vai acordá-lo? – perguntou, apontando para Pata Cinzenta.
Ouviu-se uma voz gutural do lado de fora da toca: – Espero que sim! O
treinamento já vai começar!
Pata de Fogo e Pata Negra pularam.
– Pata Cinzenta, acorde! – disse Pata de Fogo, cutucando o amigo. – Garra de Tigre está esperando!
Pata Cinzenta levantou a cabeça; tinha os olhos ainda pesados e sonolentos.
– Já estão prontos? – cobrou Garra de Tigre.
Pata de Fogo e Pata Negra saíram rastejando da toca, piscando ao encontrar a luz do sol.
O representante estava ao lado do toco de árvore. – Onde está o outro?
– Já vem – disse Pata de Fogo, num tom defensivo, para proteger o amigo.
– Acabou de acordar.
– O treinamento vai fazer bem para ele – grunhiu o guerreiro. – Já lamentou suficiente.
Pata de Fogo sustentou por alguns instantes o ameaçador olhar cor de âmbar. Pelo espaço de uma batida de coração, guerreiro e aprendiz se olharam como inimigos.
Pata Cinzenta saiu sonolento da toca.
– Estrela Azul estará pronta em um instante, Pata de Fogo – disse Garra de Tigre. As palavras fizeram o aprendiz esquecer a raiva. Sua primeira sessão de treinamento com a líder! Ficou todo empolgado. Achava que sua mentora passaria algum tempo em repouso, por causa dos ferimentos.
– Pata Cinzenta – continuou Garra de Tigre –, você pode se juntar à minha sessão de treinamento. Acha que está apto, Pata Negra? – perguntou o guerreiro com um olhar zangado. – Afinal, você se arranhou nas urtigas enquanto estávamos lutando com aqueles ratos.
Pata Negra olhou para o chão. – Estou bem – miou.
Pata Cinzenta e Pata Negra seguiram o representante e saíram do acampamento.
Pata Negra manteve a cabeça baixa ao desaparecer pelo túnel de tojos.
Pata de Fogo sentou e ficou esperando Estrela Azul, que não demorou muito. A rainha cinza saiu da toca e cruzou a clareira com um andar delicado. A pelagem ainda estava fosca onde os ferimentos eram recentes, mas ela não demonstrava sentir dor no caminhar confiante. – Venha – chamou-o.
Pata de Fogo ficou surpreso de vê-la sozinha. Risca de Carvão e Rabo Longo não estavam por perto. Um pensamento lhe passou pela cabeça e sua empolgação de repente transformou-se em ansiedade – ali estava uma oportunidade para contar à líder o que ouvira na noite anterior.
Ele a alcançou quando ela se dirigia ao túnel de tojos. Colocou-se atrás da gata e, hesitante, perguntou: – Os seus guardas vão se juntar a nós?
Estrela Azul respondeu sem olhar para trás: – Dei ordens a Risca de Carvão e a Rabo Longo para ajudarem nos reparos necessários no acampamento. Nossa prioridade é a segurança da base do Clã do Trovão.
O coração do aprendiz acelerou. Assim que saíssem do acampamento, contaria sobre Pata Negra.
Os dois seguiram a trilha para o vale do treinamento. O caminho estava coberto de folhas douradas recém-caídas, que farfalhavam sob as patas. A mente de Pata de Fogo se acelerou, à procura das palavras adequadas. O
que diria à líder? Que Garra de Tigre estava tramando se livrar de seu aprendiz? E o que diria quando Estrela Azul perguntasse o motivo?
Conseguiria dizer claramente que suspeitava que Garra de Tigre matara Rabo Vermelho? Mesmo sem provas, a não ser o relato empolgado de Pata Negra na Assembleia?
Quando chegaram ao vale arenoso, Pata de Fogo ainda não tinha falado.
O vale estava vazio.
Ao chegar ao centro do vale, Estrela Azul explicou: – Pedi a Garra de Tigre para fazer a sessão de treinamento em outra parte da floresta hoje.
Quero me concentrar nas suas habilidades de luta e que você se concentre nelas também, o que significa que não deve haver distrações.
Preciso falar com ela agora, pensou o aprendiz. Ela precisa saber que Pata Negra está correndo perigo. As patas pinicavam, ansiosas. Não terei outra oportunidade como esta…
Pata de Fogo percebeu um movimento súbito com o canto do olho. Um risco cinza passou pelo seu focinho e ele caiu para a frente quando suas patas dianteiras foram derrubadas por uma leve rasteira. Ele vacilou, reequilibrou-se, girou o corpo e viu Estrela Azul sentada calmamente ao seu lado. – Posso ter sua atenção agora? – ela reclamou.
– Claro, Estrela Azul, me desculpe! – apressou-se em responder, fitando-lhe os olhos azuis.
– Assim está melhor. Pata de Fogo, já faz muitas luas que você está conosco. Tenho observado você lutar. Com os ratos, foi ágil; com os guerreiros do Clã das Sombras, foi feroz. Mostrou-se mais esperto que Pata Cinzenta desde o primeiro dia e também derrotou Presa Amarela com sua inteligência. – A líder fez uma pausa e então abaixou a voz num intenso ciciar: – Mas um dia vai encontrar um oponente tão bom quanto você; ágil, feroz e inteligente. É meu dever prepará-lo para esse dia.
Pata de Fogo concordou com a cabeça, de todo envolvido pelas palavras da líder, os sentidos inteiramente despertos. Todos os pensamentos a respeito de Pata Negra e Garra de Tigre haviam desaparecido e os odores de musgo e os pequenos barulhos da floresta o inundavam.
– Vamos ver como você luta – ordenou Estrela Azul. – Ataque-me.
Pata de Fogo a olhou, medindo-a de cima a baixo e imaginando a melhor maneira de começar. Estrela Azul estava a menos de três coelhos de distância. Ela era o dobro dele em tamanho; assim, seria um desperdício de esforço começar com as patadas usuais e os golpes de luta. Mas se conseguisse dar um pulo forte e direto em suas costas, poderia fazê-la perder o equilíbrio. Nem por um momento ela afastara dele os penetrantes olhos azuis. Pata de Fogo pegou impulso e saltou.
A intenção era cair em cheio nos ombros da gata, mas ela estava preparada para o golpe e agachou rapidamente. Ao ser atingida, Estrela Azul rolou e ficou de barriga para cima. Em vez de aterrissar nos ombros dela, ele se esborrachou na barriga da líder. Com as quatro patas, ela o atirou longe com facilidade. O aprendiz sentiu-se como um filhote impertinente despachado sem cerimônia. Seu corpo bateu com força no chão duro e ele ficou ali largado, antes de se pôr de pé de forma desajeitada.
– Estratégia interessante, mas seus olhos deixaram transparecer qual era o alvo – observou Estrela Azul ao se levantar, sacudindo a poeira da pelagem espessa. – Agora, tente de novo.
Dessa vez Pata de Fogo olhou para os ombros da gata, mas o alvo eram as patas. Quando Estrela Azul agachasse, ele a atingiria. Sentiu uma grande satisfação ao pular, mas o sentimento se transformou em confusão quando a líder inesperadamente saltou no ar, deixando-o esborrachar-se no chão onde ela estivera havia apenas uma batida de coração. A gata teve perfeita noção do tempo; quando o aprendiz aterrissou, ela voou para cima dele, deixando-o sem fôlego.
– Agora tente alguma coisa que eu não esteja esperando – ela falou baixinho ao seu ouvido, soltando-se dele e se afastando com um brilho desafiador nos olhos.
Pata de Fogo se levantou, arfando, e sacudiu-se, zangado. Nem Presa Amarela tinha sido tão astuta. Com um silvo, voltou a pular. Dessa vez, ao voar em cima de Estrela Azul, ele esticou as patas dianteiras. Ela ergueu-se nas patas traseiras e, usando as dianteiras, atirou-o longe. Quando se viu escorregando, Pata de Fogo arranhou a areia com as patas de trás, mas era tarde demais, e ele caiu pesadamente de lado.
– Pata de Fogo – miou Estrela Azul calmamente enquanto ele mais uma vez se atrapalhava com as próprias patas –, você é forte e rápido, mas precisa aprender a manter o controle da velocidade e do peso do corpo, para que não seja tão fácil fazê-lo perder o equilíbrio. Tente de novo.
Pata de Fogo se afastou, acalorado, cheio de poeira, ofegante. A frustração tomou conta dele. Estava determinado a levar a melhor dessa vez. Agachou-se devagar e começou a rastejar na direção de Estrela Azul.
Ela percebeu o movimento e deu um silvo na cara do gato quando ele chegou perto. O aprendiz levantou uma pata e desferiu um golpe na orelha esquerda da líder. Ela se abaixou para evitar a pancada e, de pé nas patas traseiras, ficou mais alta do que ele. Rapidamente Pata de Fogo ficou de barriga para cima, escorregou para baixo do corpo da gata e, num movimento rápido, chutou-lhe a barriga com as patas traseiras. Estrela Azul foi atirada longe e caiu de costas no chão arenoso, com um uivo gutural.
Pata de Fogo girou no ar e pulou de pé. Estava exultante. Então viu Estrela Azul deitada no chão e, pela primeira vez, lembrou-se de seus ferimentos. Teriam reaberto por causa dele? Correu para o lado da líder e fitou-a. Para seu alívio, ela lhe deu um olhar cheio de orgulho.
– Este foi muito melhor – ela disse, ofegante. Em seguida, levantou-se e sacudiu-se. – Agora é minha vez.
Pulou na direção dele, jogando-o no chão. Afastou-se e deixou-o se levantar antes de pular de novo. Pata de Fogo ficou firme, mas ela voltou a derrubá-lo com facilidade.
– Olhe o meu tamanho, Pata de Fogo! Não tente ficar de pé quando eu atacar. Use a inteligência. Você é rápido bastante para me evitar; então faça isso!
Pata de Fogo se levantou, meio desajeitado, e preparou-se para mais um ataque da gata. Dessa vez não cravou as patas no chão macio, mas ergueu-se ligeiramente, mantendo o peso nos dedos dos pés. Quando Estrela Azul voou na sua direção, ele se desviou, ficou de pé nas patas traseiras e, com as dianteiras, empurrou no ar o corpo dela para trás.
Estrela Azul aterrissou com graça nas quatro patas e se virou – Excelente! Você aprende rápido – ronronou. – Mas esse foi um movimento fácil. Vamos ver como se sai no próximo.
Eles treinaram até o pôr do sol. Pata de Fogo deu um suspiro de alívio quando ouviu Estrela Azul miar: – Chega por hoje. – Ela parecia um pouco cansada e enrijecida, mas ainda conseguiu pular para sair do vale arenoso com facilidade.
Pata de Fogo escalou o vale atrás dela. Tinha os músculos doendo e a cabeça rodando com tudo o que aprendera. Quando, juntos, seguiam a trilha entre as árvores, ele mal podia esperar para contar a Pata Cinzenta e a Pata Negra sobre sua sessão de treinamento. E foi apenas quando chegaram à fronteira do acampamento que Pata de Fogo percebeu que se esquecera de contar a Estrela Azul sobre Pata Negra.