Na Floresta

Erin Hunter · Capítulo 17 de 27

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Na Floresta

Capítulo 15

 

ESTRELA AZUL SE levantou e começou a caminhar na direção da Boca da Terra. Garra de Tigre, a seu lado, acompanhava cada passada.

– Venha, Pata Negra – Pata Cinzenta convocou o amigo, ainda sentado na rocha, com olhos fixos nas pedras. Atendendo ao chamado, Pata Negra levantou-se e começou a caminhar devagar. Pata de Fogo percebeu que ele quase não falara durante toda a jornada. Será que estava apenas preocupado com o Clã das Sombras ou seria algum outro problema?

Os felinos levaram apenas alguns minutos para alcançar a Boca da Terra.

Pata de Fogo, da soleira, olhou para dentro. A escuridão além do arco de pedras era maior do que a da noite mais cheia de nuvens. Estreitou os olhos, tentando adivinhar aonde o túnel ia levar, mas nada conseguiu ver.

Ao lado dele, Pata Cinzenta e Pata Negra, nervosos, esticavam a cabeça para dentro e para fora da entrada. Até Garra de Tigre parecia desconfortável ante o buraco negro. – Como vamos nos guiar nessa escuridão? – perguntou.

– Vou achar o caminho – respondeu Estrela Azul. – Sigam meu cheiro.

Pata Negra e Pata Cinzenta, fiquem aqui fora, de guarda. Pata de Fogo, venha comigo e com Garra de Tigre até a Pedra da Lua.

Pata de Fogo tremeu de emoção. Quanta honra! O gato olhou de viés para Garra de Tigre. O guerreiro, orgulhoso, estava com o queixo levantado, mas o aprendiz farejava nele um certo cheiro de medo, que aumentou quando Estrela Azul deu um passo na direção da escuridão.

Garra de Tigre balançou a cabeça poderosa e seguiu a líder. Depois de um ligeiro aceno aos outros aprendizes, Pata de Fogo seguiu atrás.

Dentro da caverna, seus olhos ainda nada podiam perceber. A escuridão total e absoluta parecia estranha, mas ele ficou surpreso ao ver que não tinha medo. A vontade de descobrir o que havia ali adiante era mais forte.

O ar frio e úmido entrava através do pelo espesso e chegava até os ossos, enrijecendo os músculos. Nem as noites mais frias eram geladas como o ar da caverna. Este chão jamais conheceu o calor do sol, pensou Pata de Fogo, tendo sob os pés a rocha lisa como gelo. A cada respiração, um ar congelante enchia seus pulmões, deixando-o zonzo.

O aprendiz seguiu Estrela Azul e Garra de Tigre pela escuridão, guiando-se apenas pelo olfato e pelo tato. Passaram por um túnel que descia cada vez mais, fazendo curvas para um lado, depois para o outro. Os bigodes de Pata de Fogo tocavam a lateral da caverna, indicando-lhe onde andar e onde virar. Seu nariz lhe dizia que Estrela Azul e Garra de Tigre estavam à frente, a apenas uma cauda de distância.

Continuavam andando. Quanto já percorremos? , perguntava-se Pata de Fogo, que sentiu uma comichão nos bigodes. O ar nas narinas parecia mais fresco que antes. Voltou a farejar, aliviado por sentir o cheiro do mundo familiar na superfície: turfa, caça e urza. Devia haver um buraco no teto do túnel. – Onde estamos? – miou na escuridão.

– Entramos na caverna da Pedra da Lua – respondeu Estrela Azul docemente. – Espere aqui. Logo vai ser lua alta.

Pata de Fogo sentou na pedra fria e esperou. Ouvia a respiração regular de Estrela Azul e o arfar mais rápido de Garra de Tigre, recendendo a medo.

De súbito, com um clarão mais ofuscante do que o sol poente, a caverna se iluminou. Os olhos de Pata de Fogo estavam bem arregalados depois da escuridão do túnel. Ele logo os fechou ao sentir a luz, branca e fria. Então abriu-os devagar, em fendas estreitas, e perscrutou à frente.

Viu uma rocha brilhante, que cintilava como se fosse feita de incontáveis gotas de orvalho. A Pedra da Lua! Pata de Fogo olhou à volta. Na luz fria refletida da pedra, identificou os limites sombrios de uma caverna de teto alto. A Pedra da Lua erguia-se do meio do chão; tinha três caudas de altura.

Estrela Azul olhava para cima, com o pelo completamente branco sob o brilho da Pedra da Lua. Até a pelagem escura de Garra de Tigre brilhava como prata. Pata de Fogo seguiu o olhar da líder. No alto do teto, uma abertura revelava em um estreito triângulo o céu da noite. O luar lançava pelo vão um raio de luz que chegava à Pedra da Lua, fazendo-a cintilar como uma estrela.

Ao seu lado, Pata de Fogo farejou em Garra de Tigre um cheiro de medo crescente, que se tornou dominante. Será que o guerreiro percebia ali alguma coisa a mais, algo realmente perigoso? Captou um movimento rápido, sentiu uma pelagem passar e ouviu os passos de fuga de Garra de Tigre voltando correndo para a entrada.

– Pata de Fogo? – chamou Estrela Azul, calma e tranquila.

– Estou aqui – ele respondeu, nervoso. O que teria amedrontado o guerreiro?

– Estrela Azul? – voltou a chamar o aprendiz, ao não ouvir resposta. Seu coração disparou, fazendo o sangue estrondear nas orelhas.

– Está tudo bem, jovem guerreiro; não tenha medo – murmurou a líder. A voz calma o tranquilizou um pouco. – Acho que Garra de Tigre ficou surpreso com a força da Pedra da Lua. No mundo de cima, Garra de Tigre é um guerreiro destemido e possante, mas, aqui embaixo, onde os espíritos do Clã das Estrelas falam, um gato precisa de outro tipo de força. O que você sente, Pata de Fogo?

O aprendiz farejou o ar com vontade e obrigou-se a relaxar o corpo. – Apenas minha própria curiosidade – admitiu.

– Ótimo – comentou Estrela Azul.

Pata de Fogo voltou a olhar a Pedra da Lua. Os olhos tinham se acostumado ao brilho e ele não estava mais ofuscado. Na verdade, a pedra o deixava calmo. Com um movimento da cauda, lembrou-se do sonho. Era aquela a brilhante bola de luz que tinha visto!

Encantado, Pata de Fogo observou Estrela Azul ir até a pedra e deitar-se ao lado dela. A líder esticou a cabeça e tocou a Pedra da Lua com o focinho.

Por um instante, seus olhos azuis cintilaram com o reflexo da pedra, antes que ela os fechasse. Descansou a cabeça sobre as patas; as pálpebras se mexiam, as patas tremiam de vez em quando. Estaria dormindo? Então Pata de Fogo se lembrou das palavras de Pata Cinzenta: “os novos líderes precisam dormir perto da pedra e, enquanto dormem, têm sonhos especiais”.

Esperou. Ali não fazia tanto frio, mas, mesmo assim, ele tremia. Não tinha a menor ideia de quanto tempo havia passado, mas, de repente, a rocha parou de brilhar. A caverna, mais uma vez, mergulhou na escuridão. Pata de Fogo olhou para a abertura no teto. A lua tinha caminhado, estava fora de vista. Só restavam pequeníssimas estrelas brilhando no breu.

Pata de Fogo só conseguia discernir o leve contorno da líder, deitada ao lado da Pedra da Lua. Queria chamá-la, mas não ousava quebrar o silêncio.

Depois de momentos intermináveis, ela o chamou. – Pata de Fogo? Você ainda está aí? – A voz parecia distante e agitada.

– Estou, Estrela Azul. – Ele percebeu que ela se aproximava.

– Depressa – ela ciciou. Pata de Fogo sentiu a pelagem da líder roçá-lo ao passar. – Precisamos voltar ao acampamento.

Pata de Fogo correu atrás de Estrela Azul, impressionado com a velocidade com que ela se precipitava no meio da escuridão. Seguia seu cheiro às cegas, subindo cada vez mais através do túnel, até que ela o conduziu a salvo para o mundo externo.

Garra de Tigre os esperava na entrada, ao lado de Pata Cinzenta e Pata Negra. O guerreiro tinha a expressão fria e o pelo ligeiramente eriçado; mas estava sentado, imóvel e solene.

– Garra de Tigre – cumprimentou Estrela Azul, sem mencionar a fuga do guerreiro das profundezas.

Ele relaxou um pouco e perguntou: – O que você ficou sabendo?

– Devemos retornar imediatamente ao acampamento – miou brevemente Estrela Azul.

Pata de Fogo percebeu um olhar de desespero nos olhos da líder. Agora voltava-lhe a terrível lembrança do sonho: gatos que fugiam, guerreiros grandes e escuros, o pranto terrível do infortúnio. O aprendiz tentou ignorar o medo gélido que tomava conta de seus músculos e seguiu Estrela Azul quando ela e os outros felinos desceram a encosta sombria, afastando-se da Boca da Terra. Será que a visão do pesadelo estava prestes a se tornar realidade?