Na Floresta
Capítulo 12
PATA DE FOGO OBSERVAVA do alto de uma encosta coberta de arbustos. Pata Cinzenta e Pata Negra estavam agachados a seu lado. Perto deles, na vegetação, um grupo de anciãos, rainhas e guerreiros do Clã do Trovão aguardava o sinal de Estrela Azul.
Pata de Fogo não tinha voltado àquele lugar desde sua primeira jornada com Coração de Leão e Garra de Tigre. A vereda escarpada parecia diferente. O verde abundante das florestas estava embranquecido pela luz da lua cheia, e as folhas das árvores brilhavam como prata. Embaixo estavam os grandes carvalhos que marcavam o ponto em que o território de cada clã se encontrava com os demais.
O ar estava denso com os cheiros mornos de gatos dos outros clãs. Pata de Fogo podia vê-los claramente ao luar, movimentando-se na grama da clareira que havia entre os quatro carvalhos. No centro, uma pedra grande e pontiaguda surgia do chão da floresta como um dente partido.
– Vejam todos aqueles gatos lá embaixo – Pata Negra silvou, baixinho.
– Lá está Estrela Torta – Pata Cinzenta cochichou de volta. – O líder do Clã do Rio.
– Onde? – Pata de Fogo miou, impaciente, cutucando Pata Cinzenta.
– Aquele gato meio malhado, ao lado da Pedra do Conselho.
Pata de Fogo seguiu a indicação do amigo e viu um gato enorme, maior ainda que Coração de Leão, sentado no meio da clareira. A pelagem listrada brilhava palidamente ao luar. Mesmo àquela distância o rosto mostrava os sinais de uma vida dura, e a boca parecia torta, como se tivesse sido quebrada e consertada de qualquer jeito.
– Ei! – miou Pata Cinzenta. – Vocês viram como Pata de Areia cuspiu quando lhe desejei uma ótima noite em casa?
– Garanto que vai ter! – Pata de Fogo ronronou.
Pata Negra interrompeu-os com um grunhido surdo: – Vejam! Lá está Estrela Partida, o líder do Clã das Sombras.
Pata de Fogo olhou para o gato listrado de marrom-escuro. O pelo era incrivelmente longo; a cara, larga e achatada. Seu jeito taciturno de sentar-se e olhar à volta fazia a pelagem de Pata de Fogo eriçar-se de incômodo.
– Ele parece bem antipático – murmurou Pata de Fogo.
– É verdade – concordou Pata Cinzenta. – Não há dúvida de que conseguiu uma reputação entre todos os clãs por não tolerar brincadeiras.
E nem faz tanto tempo que se tornou líder… quatro luas, desde que seu pai, Estrela Afiada, morreu.
– Como é o líder do Clã do Vento? – perguntou Pata de Fogo.
– Estrela Alta? Nunca o vi, mas sei que é preto e branco e tem uma cauda bem comprida – respondeu Pata Cinzenta.
– Você consegue vê-lo?
Pata Cinzenta olhou para baixo, procurando entre a multidão de felinos. – Neca!
– Consegue sentir o cheiro de algum gato do Clã do Vento?
Pata Cinzenta balançou a cabeça. – Não.
O miado de Coração de Leão soou calmo ao lado deles: – Os gatos do Clã do Vento podem estar apenas atrasados.
– Mas, e se não aparecerem? – miou Pata Cinzenta.
– Silêncio! Precisamos ter paciência. São tempos difíceis. Agora fiquem quietos. Estrela Azul, daqui a pouco, vai dar o sinal para nos movimentarmos – Coração de Leão miou baixinho.
Enquanto ele falava, Estrela Azul se levantou e, mantendo a cauda no alto, balançou-a de um lado para outro. O coração de Pata de Fogo quase parou quando os gatos do Clã do Trovão se levantaram todos juntos e surgiram em meio aos arbustos, descendo na direção do local de encontro.
Ele correu ao lado dos felinos, sentindo o vento nas orelhas e as patas pinicando de ansiedade.
Os gatos do Clã do Trovão pararam instintivamente no extremo da clareira, fora dos limites marcados pelos carvalhos. Estrela Azul farejou o ar. Fez um gesto e a tropa avançou para dentro da clareira.
Pata de Fogo estava excitado. Os outros felinos pareciam ainda mais impressionantes vistos de perto, movendo-se lentamente nas imediações da Pedra Grande. Um guerreiro grande e branco passou. Pata de Fogo e Pata Negra o olharam, maravilhados.
– Olhe que patas! – murmurou Pata Negra.
Pata de Fogo olhou para baixo e percebeu que as patas enormes do gato eram de um preto retinto.
– Deve ser o Pé Preto – miou Pata Cinzenta. – O novo representante do Clã das Sombras.
Pé Preto caminhou até Estrela Partida e sentou ao seu lado. O líder do Clã das Sombras o reconheceu com um movimento da orelha, mas nada disse.
– Quando o encontro vai começar? – Pata Negra perguntou a Nevasca.
– Seja paciente. O céu está claro esta noite, o que significa que temos muito tempo.
Coração de Leão inclinou-se e acrescentou: – Nós, guerreiros, gostamos de ficar um tempo nos vangloriando das vitórias, enquanto os anciãos trocam histórias sobre como eram as coisas antigamente, antes de os Duas-Pernas chegarem. – Os aprendizes o olharam e viram seus bigodes se mexer com malícia.
Cauda Mosqueada, Caolha e Orelhinha foram direto até um grupo de gatos mais velhos que se ajeitavam sob um dos carvalhos. Nevasca e Coração de Leão seguiram na direção de outros guerreiros, que Pata de Fogo não conhecia. Ele farejou o ar e reconheceu neles o cheiro do Clã do Rio.
A voz de Estrela Azul soou por trás dos três aprendizes. – Não desperdicem nem um minuto esta noite – advertiu. – Esta é uma boa oportunidade para conhecer os inimigos. Ouçam o que dizem; lembrem-se de como são e como se comportam. Nesses encontros aprende-se muita coisa.
– E falem pouco – advertiu Garra de Tigre. – Não deem nenhuma dica que possa ser usada contra nós quando a lua minguar.
– Não se preocupe; vamos nos comportar! – Pata de Fogo logo prometeu, olhando nos olhos de Garra de Tigre. Ele ainda sentia que o guerreiro não confiava na sua lealdade.
Os dois guerreiros concordaram em silêncio e se afastaram, deixando sozinhos os aprendizes, que se olharam.
– O que fazemos agora? – perguntou Pata de Fogo.
– O que eles mandaram – respondeu Pata Negra. – Prestamos atenção.
– E não falamos muito – acrescentou Pata Cinzenta.
Pata de Fogo se mostrava preocupado. – Vou ver aonde foi Garra de Tigre – miou.
– E eu vou procurar Coração de Leão – miou Pata Cinzenta. – Você vem comigo, Pata Negra?
– Não, obrigado. Vou procurar outros aprendizes.
– Tudo bem. A gente se encontra mais tarde – miou Pata de Fogo, saindo no encalço de Garra de Tigre.
Foi fácil sentir o cheiro de Garra de Tigre e encontrá-lo no centro de um grupo de enormes guerreiros, atrás da Pedra Grande.
Ele contava uma história que Pata de Fogo tinha ouvido muitas vezes no acampamento. Descrevia a recente batalha contra os caçadores do Clã do Rio. – Lutei como um gato do Clã dos Leões. Três guerreiros tentaram me segurar, mas joguei-os longe. Lutei até dar cabo de dois deles; o terceiro correu para a floresta, como um filhote chorando pela mãe.
Dessa vez Garra de Tigre não mencionou ter matado Coração de Carvalho para vingar a morte de Rabo Vermelho. Talvez para não ofender os guerreiros do Clã do Rio, Pata de Fogo deduziu.
O aprendiz ouviu educadamente até o fim da história, mas um cheiro familiar o distraiu. Logo que Garra de Tigre parou de falar, Pata de Fogo se virou na direção do cheiro doce, que vinha de um grupo de gatos ali perto.
Encontrou Pata Cinzenta entre os felinos, mas não era aquele o cheiro que ele perseguia. Do outro lado de Pata Cinzenta, entre dois gatos do Clã do Rio, estava Folha Manchada. Pata de Fogo olhou-a timidamente e se colocou ao lado do amigo.
– Ainda não sinto nenhum cheiro do Clã do Vento – miou para Pata Cinzenta.
– O encontro ainda não começou; pode ser que ainda venham. Veja, lá está Nariz Molhado. Parece que é o curandeiro do Clã das Sombras. – Apontou para um pequeno gato cinza e branco, no meio do grupo.
– Estou vendo por que o chamam Nariz Molhado – observou Pata de Fogo. O nariz do curandeiro estava úmido na ponta, cheio de craca nas bordas.
– Eca – disse Pata Cinzenta, debochando. – Não sei por que o indicaram como curandeiro se não consegue nem cuidar do próprio resfriado!
Nariz Molhado estava falando a uns gatos sobre uma erva que os curandeiros usavam antigamente para curar a tosse de filhotes. – Desde que os Duas-Pernas chegaram e encheram o lugar com terra dura e flores estranhas – ele reclamava, falando alto –, a erva desapareceu e os filhotes agora morrem à toa no tempo frio.
Os gatos à volta grunhiram, mostrando desaprovação.
– Isso nunca teria acontecido na época dos felinos dos grandes clãs – observou uma rainha negra do Clã do Rio.
– É verdade – miou um gato malhado de prateado. – Os grandes felinos teriam matado qualquer Duas-Pernas que ousasse entrar no território deles. Se o Clã dos Tigres ainda vagasse por esta floresta, os Duas-Pernas nunca teriam invadido nossas terras a esse ponto.
Então Pata de Fogo ouviu o miado calmo de Folha Manchada: – Se o Clã dos Tigres andasse por estas florestas, nós tampouco teríamos instalado aqui o nosso território.
– O que era o Clã dos Tigres? – perguntou um miado baixinho. Pata de Fogo viu que se tratava de um pequeno aprendiz malhado de um dos outros clãs, sentado ao seu lado.
– O Clã dos Tigres foi um dos maiores clãs de grandes felinos que andavam nesta floresta – explicou calmamente Pata Cinzenta. – São gatos da noite, grandes como cavalos, com listras pretas retintas. E há o Clã dos Leões. Eles… – Pata Cinzenta hesitou, franzindo a testa ao tentar lembrar.
– Ah! Ouvi falar deles – miou o filhote malhado. – Eram grandes como os tigres, com pelo amarelo e jubas douradas como raios do sol.
Pata Cinzenta concordou. – E ainda havia aquele outro, Clã dos Pintados ou coisa parecida…
– Acho que você está falando do Clã dos Leopardos, jovem Pata Cinzenta – miou uma voz atrás deles.
– Coração de Leão! – Pata Cinzenta saudou o mentor com um toque afetuoso do nariz.
Coração de Leão balançou a cabeça, com desprezo e deboche. – Vocês, jovens, não conhecem a própria história? O Clã dos Leopardos tinha os felinos mais rápidos. Eram enormes, dourados, e tinham pintas negras que se pareciam com patas. Agradeçam a eles pela velocidade e pela capacidade de caça que agora possuem.
– Agradecer? Por quê? – perguntou o gato malhado.
Coração de Leão olhou para o pequeno aprendiz e disse: – Há em cada gato de hoje um vestígio de todos os grandes felinos. Não seríamos caçadores noturnos sem nossos ancestrais do Clã dos Tigres, e nosso amor pelo calor do sol vem do Clã dos Leões. – Fez uma pausa. – Você é um aprendiz do Clã das Sombras, não é? Quantas luas você tem?
O gato, meio sem jeito, olhou para o chão. Sem fitar diretamente Coração de Leão, gaguejou: – Se-seis luas.
– Bem pequeno para seis luas – murmurou o guerreiro. O tom era delicado, mas o olhar era inquiridor e sério.
– Minha mãe também era pequena – disse o gato, nervoso. Então, inclinou a cabeça e se afastou, gingando a cauda levemente marrom, para desaparecer na multidão.
Coração de Leão virou-se para Pata de Fogo e Pata Cinzenta. – Ele pode ser pequeno, mas ao menos se mostrou curioso. Quem dera vocês dois mostrassem o mesmo interesse pelas histórias que os anciãos contam!
– Desculpe, Coração de Leão – miaram os dois aprendizes, trocando olhares cheios de dúvida.
Coração de Leão grunhiu de forma amigável. – Ah, saiam daqui vocês dois. Da próxima vez, espero que Estrela Azul arrume aprendizes que apreciem o que ouvem. – Com um miado desanimado, espantou-os dali.
– Venha – ronronou Pata Cinzenta, quando saíam. – Vamos ver onde está Pata Negra.
Ele estava no meio de um grupo de aprendizes loucos para saber da história da batalha com o Clã do Rio.
– Vamos, Pata Negra! Conte o que aconteceu! – gritou uma gata miúda, preta e branca.
Pata Negra, tímido, movimentou os pés e sacudiu a cabeça.
– Conte, Pata Negra! – insistiu um outro gato.
O aprendiz olhou à volta e viu Pata de Fogo e Pata Cinzenta no canto do grupo. Pata de Fogo fez um sinal com a cabeça, para encorajá-lo. Pata Negra balançou a cauda, agradecido, e começou a contar.
No início se atrapalhou um pouco, mas, à medida que prosseguia, o temor foi desaparecendo da voz e ele conquistou o público, que arregalava os olhos mais e mais.
– Havia pelo voando para todo lado. O sangue se espalhava pelas amoreiras, vermelho vivo contra o verde. Tinha acabado de me livrar de um gato enorme, que saiu guinchando para dentro dos arbustos, quando o chão tremeu e ouvi o grito de um guerreiro. Era Coração de Carvalho! Rabo Vermelho passou correndo por mim com a boca pingando sangue, o pelo rasgado, gritando que Coração de Carvalho estava morto. Então, saiu correndo para ajudar Garra de Tigre, que lutava com outro guerreiro.
– Quem diria que Pata Negra era tão bom contador de histórias – Pata Cinzenta, impressionado, comentou baixinho com Pata de Fogo.
Mas Pata de Fogo estava pensando em outra coisa. O que fora mesmo que Pata Negra havia dito? Rabo Vermelho matara Coração de Carvalho? Mas, de acordo com Garra de Tigre, Coração de Carvalho matara Rabo Vermelho e ele, Garra de Tigre, tinha matado Coração de Carvalho, como vingança.
– Se Rabo Vermelho matou Coração de Carvalho, quem matou Rabo Vermelho? – Pata de Fogo cochichou com Pata Cinzenta.
– Se quem fez o quê? – Pata Cinzenta repetiu, distraído. Não estava prestando muita atenção.
Pata de Fogo balançou a cabeça para colocar as ideias em ordem. Pata Negra deve ter-se enganado, pensou. Deve ter querido dizer Garra de Tigre.
Pata Negra estava chegando ao final da história. – Finalmente, Rabo Vermelho agarrou a cauda do gato choroso e conseguiu afastá-lo de Garra de Tigre e, com a força de todo o Clã dos Tigres, atirou-o nos arbustos.
Pata de Fogo percebeu uma sombra se mexendo. Olhou ao redor e viu Garra de Tigre não muito longe. O guerreiro estava observando Pata Negra com um olhar de ferro. Sem se dar conta da presença do mentor, o aprendiz continuou respondendo às inúmeras perguntas de sua entusiasmada plateia.
– Quais foram as últimas palavras de Coração de Carvalho?
– É verdade que ele nunca tinha perdido uma batalha?
Pata Negra respondia prontamente, em voz alta e clara, os olhos brilhando. Mas quando Pata de Fogo fitou Garra de Tigre, percebeu o olhar terrível do guerreiro e a cara transfigurada pela raiva. Era evidente que ele não estava gostando nada da história de Pata Negra.
Pata de Fogo ia começar a falar alguma coisa para Pata Cinzenta quando um grito anunciou que todos os felinos deviam ficar quietos. Pata de Fogo ficou aliviado quando Pata Negra finalmente calou a boca e Garra de Tigre se foi.
Pata de Fogo procurou ver de onde viera o grito. Contra a luz da lua, percebia-se a silhueta de três gatos sentados no alto da Pedra Grande. Eram Estrela Azul, Estrela Partida e Estrela Torta.
Os líderes iam começar a reunião. Mas onde estava o líder do Clã do Vento?
– Eles não vão começar a reunião sem Estrela Alta, vão? – Pata de Fogo cochichou.
– Não sei – murmurou Pata Cinzenta.
– Você viu? Não há nenhum gato do Clã do Vento aqui – observou, baixinho, outro aprendiz do Clã do Rio, do outro lado de Pata de Fogo.
Todos deviam estar comentando a mesma coisa, imaginou Pata de Fogo.
Os outros gatos foram se reunindo abaixo da Pedra Grande, com um murmúrio inquieto preso na garganta.
– Ainda não podemos começar – uma voz sobrepôs-se ao barulho. – Onde estão os representantes do Clã do Vento? Precisamos esperar até que todos os clãs estejam presentes.
No alto da rocha, Estrela Azul deu um passo à frente. A pelagem cinza era quase branca sob o brilho da lua. – Sejam bem-vindos, gatos de todos os clãs – miou com a voz clara. – É verdade que o Clã do Vento não está presente, mas Estrela Partida deseja falar, ainda assim.
Estrela Partida, sem fazer barulho, colocou-se ao lado de Estrela Azul.
Observou a multidão por alguns instantes, com os olhos cor de laranja em brasa. Respirou fundo e começou: – Amigos, estou aqui hoje para falar com vocês a respeito das necessidades do Clã das Sombras…
Foi interrompido por vozes impacientes que se levantaram.
– Onde está Estrela Alta? – um gato perguntou.
– Onde estão os guerreiros do Clã do Vento? – outro gritou.
Estrela Partida estirou totalmente o corpo e a cauda chicoteou de um lado para o outro. Com a voz cheia de ameaça, grunhiu: – Como líder do Clã das Sombras, tenho o direito de falar aqui!
A multidão fez um silêncio desconfortável. Pata de Fogo sentiu no ar o cheiro forte e acre do medo.
Estrela Partida voltou a uivar. – Todos sabemos que os tempos difíceis da estação sem folhas e o renovo tardio deixaram poucas presas em nossas zonas de caça. Mas também sabemos que o Clã do Vento, o Clã do Rio e o Clã do Trovão perderam muitos filhotes durante o tempo frio, que chegou tão tarde nesta estação. O Clã das Sombras não perdeu filhotes. Resistimos bem ao vento frio do norte. Nossos filhotes são, desde que nascem, mais fortes que os de vocês. Com isso, temos muitas bocas para alimentar e pouquíssimas presas para satisfazê-las.
A multidão, ainda em silêncio, ouvia com ansiedade.
– As necessidades do Clã das Sombras são simples. Para sobreviver, precisamos expandir nossas zonas de caça. É por isso que insisto que permitam aos guerreiros do Clã das Sombras caçar no território de vocês.
Um grito surdo de espanto percorreu a audiência.
– Partilhar as zonas de caça? – perguntou, irado, Garra de Tigre.
– Isso nunca aconteceu! – indignou-se uma rainha atartarugada do Clã do Rio. – Os clãs nunca partilhariam direitos sobre a caça!
– O Clã das Sombras deve ser punido porque nossos bebês são mais fortes? – disse Estrela Partida do alto da Pedra Grande. – Vocês querem que fiquemos olhando enquanto nossos jovens morrem de fome? Vocês têm de dividir conosco o que possuem.
– Como assim, temos? – disparou Orelhinha, furioso, lá de trás da multidão.
– É. Têm de partilhar – repetiu Estrela Partida. – O Clã do Vento não conseguiu entender a situação. No final, tivemos de despejá-lo do seu território.
Gritos indignados percorreram a multidão, mas o uivo de Estrela Partida foi mais alto. – Se necessário, vamos expulsar vocês também das suas zonas de caça para alimentar nossos filhotes famintos.
Houve um silêncio instantâneo. Do outro lado da clareira, Pata de Fogo ouviu um aprendiz do Clã do Rio começar a murmurar alguma coisa, mas logo um gato mais velho o fez calar.
Satisfeito por conseguir a atenção dos felinos, Estrela Partida continuou: – A cada ano, os Duas-Pernas danificam mais faixas do nosso território. Ao menos um clã deve permanecer forte, para que todos os outros possam sobreviver. O Clã das Sombras prospera enquanto vocês encontram dificuldades. E pode chegar a hora em que seja necessário darmos proteção a vocês.
– Você duvida da nossa força? – protestou Garra de Tigre. Os olhos pálidos fuzilaram ameaçadoramente o líder do Clã das Sombras; seus ombros poderosos, tensos, tremiam.
– Não peço respostas agora – disse Estrela Partida, ignorando o desafio do guerreiro. – Que cada um vá embora e pense nas minhas palavras. Mas tenham em mente o seguinte: vocês preferem partilhar as presas ou serem despejados, ficando sem casa e famintos?
Guerreiros, anciãos e aprendizes se entreolharam sem conseguir acreditar. Na pausa ansiosa que se seguiu, Estrela Torta se adiantou. – Já concordei em conceder ao Clã das Sombras alguns direitos de caça no rio que corta o nosso território – miou calmamente, olhando para seu clã.
Sentimentos de horror e humilhação percorreram os gatos do Clã do Rio, ao ouvirem as palavras do líder.
– Não fomos consultados! – gritou um gato malhado de cinza-prata.
– Acho que é o melhor para o nosso clã. Para todos os clãs – explicou Estrela Torta, com a voz cheia de resignação. – Há muitos peixes no rio. É
melhor partilhar nossas presas do que derramar sangue lutando por elas.
– E o Clã do Trovão? – reclamou Orelhinha. – Estrela Azul, você também concordou com essa exigência ultrajante?
Estrela Azul, segura, enfrentou o olhar do velho felino. – Não fiz nenhum acordo com Estrela Partida; só disse que ia discutir a proposta com meu clã depois da Assembleia.
– Bom, ao menos já é alguma coisa – disse Pata Cinzenta no ouvido de Pata de Fogo. – Vamos mostrar a eles que não somos tão bonzinhos quanto os covardes do Clã do Rio.
Estrela Partida voltou a falar, com a voz áspera em tom arrogante e forte depois da rendição de Estrela Torta. – Também trago notícias importantes para a segurança de seus filhotes. Uma gata do Clã das Sombras foi desonesta e quebrou o código dos guerreiros. Nós a expulsamos do acampamento, mas não sabemos onde está agora. É uma velha criatura esquálida, mas com uma mordida digna do Clã dos Tigres.
O pelo de Pata de Fogo se eriçou. Será que ele se referia a Presa Amarela?
Esticou as orelhas, curioso para ouvir mais.
– Estou avisando que é perigosa. Não lhe deem abrigo – Estrela Partida fez uma pausa teatral. – Enquanto não for apanhada e morta, aconselho-os a vigiarem seus filhotes bem de perto.
Pelos grunhidos nervosos que brotaram da garganta dos gatos do Clã do Trovão, Pata de Fogo percebeu que também tinham pensado em Presa Amarela. A gata corajosa nada fizera para agradar a seus anfitriões relutantes, e o aprendiz imaginava que não ia demorar muito para se criar um sentimento de ódio contra ela – as palavras de um inimigo detestável como Estrela Partida já seriam suficientes.
Os guerreiros do Clã das Sombras começaram a se retirar. Estrela Partida desceu da Pedra Grande e foi logo rodeado por seus guerreiros, que o escoltaram na saída das Quatro Árvores, de volta ao seu território. Os demais guerreiros do Clã das Sombras logo os seguiram, entre eles o pequenino gato malhado inquirido antes por Coração de Leão. Mas, entre os outros aprendizes do Clã das Sombras, o felino não parecia mais tão pequeno; todos tinham uma aparência diminuta e desnutrida, mais parecendo filhotes de três ou quatro luas do que aprendizes já criados.
– O que você acha disso tudo? – miou, baixinho, Pata Cinzenta.
Pata Negra pulou antes que Pata de Fogo pudesse responder. – O que vai acontecer agora? – miou, com o pelo eriçado em sinal de alarme e os olhos mais esbugalhados do que nunca.
Pata de Fogo não respondeu. Tentava ouvir o que diziam os anciãos do Clã do Trovão reunidos ali perto.
– Ele devia estar falando de Presa Amarela – observou Orelhinha.
– Ela realmente atacou o filhote mais novo de Flor Dourada no outro dia – murmurou, lúgubre, Cauda Sarapintada. Era a mais velha rainha do berçário e protegia bravamente todos os filhotes.
– E nós a deixamos lá, com o acampamento praticamente sem proteção – grunhiu Caolha que, pela primeira vez, pareceu não ter nenhum problema para ouvir tudo o que se dizia.
– Tentei avisar que ela era um perigo para nós – disse Risca de Carvão. – Estrela Azul precisa dar ouvidos à razão agora e se livrar de Presa Amarela antes que ela machuque alguma de nossas crianças.
Garra de Tigre foi até o grupo. – Precisamos voltar imediatamente ao acampamento e resolver a situação com essa vilã! – exclamou.
Pata de Fogo não parou para ouvir mais. Sua cabeça girava. Leal como era ao clã, simplesmente não podia acreditar que Presa Amarela fosse um perigo para as crianças. Temendo pelo destino da gata, queimando com perguntas que somente ela poderia responder, o aprendiz se afastou de Pata Cinzenta e de Pata Negra sem nada falar.
Subiu pela encosta e se embrenhou na floresta. Teria se enganado com Presa Amarela? Se a alertasse quanto ao perigo que estava correndo, poria em risco sua própria situação no Clã do Trovão? Mesmo que se metesse em algum tipo de problema, precisava saber dela a verdade antes que os outros gatos voltassem ao acampamento.