Na Floresta
Capítulo 4
GRITOS DE ESPANTO se elevaram entre os gatos do clã e ecoaram pela floresta.
Pata Negra titubeou um pouco. A pata dianteira direita reluzia, molhada do sangue que escorria do corte profundo no ombro. – Enc-encontramos os guerreiros do Clã do Rio ao lado do riacho, não muito longe das Rochas Ensolaradas – continuou, tremendo. – Coração de Carvalho estava entre eles.
– Coração de Carvalho! – miou, arfante, Pata Cinzenta, ao lado de Pata de Fogo. – É o representante do Clã do Rio, um dos maiores guerreiros da floresta. Sorte de Pata Negra! Quem me dera fosse eu. Eu teria… – Pata Cinzenta foi silenciado por um olhar feroz do velho gato cinza, o primeiro a perceber a chegada de Pata Negra.
Pata de Fogo voltou a prestar atenção em Pata Negra.
– Rabo Vermelho advertiu Coração de Carvalho para manter seu grupo de caçadores fora do território do Clã do Trovão. Disse que o próximo guerreiro do Clã do Rio apanhado no território do Clã do Trovão seria morto, mas Coração… Coração de Carvalho não recuou. Disse que seu… seu clã precisava ser alimentado e que nossas ameaças eram inúteis. – Pata Negra fez uma pausa para respirar. A ferida ainda sangrava abundantemente e ele tentava, sem muito jeito, não fazer peso no ombro.
– Então os gatos do Clã do Rio atacaram. Foi difícil ver o que estava acontecendo. A luta foi selvagem. Vi que Coração de Carvalho imobilizou Rabo Vermelho no chão, mas aí Rabo Vermelho… – De repente, os olhos de Pata Negra reviraram e ele cambaleou. Meio se arrastando, meio caindo, escorregou da Pedra Grande e apagou no chão da clareira.
Uma rainha alaranjada se aproximou e agachou a seu lado. Passou-lhe rapidamente a língua na bochecha e gritou: – Folha Manchada!
Do canto sombreado pelas samambaias saiu a bonita gata atartarugada que Pata de Fogo tinha visto mais cedo, sentada ao lado de Pata Cinzenta.
Ela correu para Pata Negra e miou para a rainha se afastar. Com o pequeno nariz cor-de-rosa virou o corpo do aprendiz para examinar a ferida. A curandeira olhou para cima e miou: – Está tudo certo, Flor Dourada, as lesões não são fatais. Mas vou precisar pegar algumas teias de aranha para estancar o sangramento.
Assim que Folha Manchada voltou correndo para a toca, o profundo silêncio na clareira foi interrompido por um gemido melancólico. Todos os olhos se viraram na direção de onde viera.
Um enorme gato malhado marrom-escuro cambaleava pelo túnel de tojo.
Entre os dentes afiados, o guerreiro trazia não uma presa, mas o corpo sem vida de outro felino. Levou a criatura em frangalhos até o centro da clareira.
Pata de Fogo levantou o pescoço e vislumbrou uma brilhante cauda avermelhada sendo arrastada na poeira.
Uma onda de choque percorreu o clã como brisa gelada. Ao lado de Pata de Fogo, Pata Cinzenta agachou, cheio de tristeza. – Rabo Vermelho!
– Como isso aconteceu, Garra de Tigre? – perguntou Estrela Azul do alto da Pedra Grande.
Garra de Tigre soltou o corpo de Rabo Vermelho, que segurava pelo cangote. Devolveu com firmeza o olhar de Estrela Azul. – Ele morreu com honra, liquidado por Coração de Carvalho. Não pude salvá-lo, mas consegui tirar a vida de Coração de Carvalho enquanto ele ainda cantava vitória. – A voz de Garra de Tigre era forte e grave. – A morte de Rabo Vermelho não foi em vão; duvido que voltemos a ver caçadores do Clã do Rio no nosso território.
Pata de Fogo olhou para Pata Cinzenta. Os olhos do aprendiz estavam escuros de tristeza.
Depois de uma pequena pausa, diversos felinos se aproximaram para lamber o pelo enlameado de Rabo Vermelho. Eles o acariciavam e ronronavam palavras delicadas para o guerreiro morto.
Pata de Fogo cochichou na orelha de Pata Cinzenta: – O que estão fazendo?
Pata Cinzenta respondeu sem desviar o olhar do gato morto: – O espírito dele pode ter partido para se juntar ao Clã das Estrelas, mas o clã vai homenagear Rabo Vermelho com lambidas uma última vez.
– Clã das Estrelas? – Pata de Fogo repetiu.
– É a tribo de guerreiros celestes que cuida de todos os gatos do clã. Você pode vê-los no Tule de Prata.
Vendo que Pata de Fogo estava confuso, Pata Cinzenta explicou. – Tule de Prata é aquela espessa faixa de estrelas que você vê todas as noites estendida no céu. Cada estrela é um guerreiro do Clã das Estrelas. Rabo Vermelho estará entre eles esta noite.
Pata de Fogo fez um gesto com a cabeça e Pata Cinzenta se adiantou para homenagear com lambidas o representante morto.
Estrela Azul, que permanecera em silêncio enquanto os primeiros felinos se aproximavam para reverenciar Rabo Vermelho, desceu da Pedra Grande e dirigiu-se lentamente ao corpo do guerreiro morto. Os outros gatos se afastaram e observaram a líder agachar para lamber o velho camarada uma última vez.
Quando terminou, Estrela Azul ergueu a cabeça e falou. A voz era baixa, grave e comovida, e o clã ouviu em silêncio. – Rabo Vermelho foi um bravo guerreiro. Sua lealdade ao Clã do Trovão jamais poderá ser questionada.
Sempre confiei em seu bom-senso, porque compreendia as necessidades do clã; ele jamais se deixou levar por sentimentos como egoísmo ou orgulho.
Teria sido um ótimo líder.
A gata se deitou sobre a barriga, com a cabeça baixa e as patas bem esticadas à frente. Em silêncio, sofreu pelo amigo. Vários outros gatos se colocaram ao lado dela, cabeças abaixadas, corpos curvados, na mesma posição de lamento de Estrela Azul.
Pata de Fogo observava. Não conhecera Rabo Vermelho, mas mesmo assim ficou emocionado ao testemunhar o lamento do clã.
Pata Cinzenta voltou a se aproximar dele. – Pata de Poeira vai ficar desolado – observou.
– Pata de Poeira?
– O aprendiz de Rabo Vermelho. Aquele gato malhado marrom-escuro ali. Fico aqui me perguntando quem será seu novo mentor.
Pata de Fogo fitou o pequeno gato agachado perto do corpo de Rabo Vermelho, com o olhar perdido no chão, e perguntou: – E Estrela Azul?
Quanto tempo vai ficar ali sentada com o guerreiro morto? – miou.
– Provavelmente a noite toda – respondeu Pata Cinzenta. – Por muitas e muitas luas Rabo Vermelho foi o representante de Estrela Azul. Ela não vai querer se afastar dele tão cedo; foi um de seus melhores guerreiros. Não tão grande e poderoso como Garra de Tigre ou Coração de Leão, mas ele era rápido e esperto.
Pata de Fogo olhou para Garra de Tigre, admirando a força que emanava dos músculos poderosos e da cabeça larga. Seu corpo enorme mostrava sinais da vida de guerreiro. Uma das orelhas se dividia num profundo corte em forma de “V” e uma espessa cicatriz cortava o cavalete do nariz.
De repente, Garra de Tigre levantou-se e se aproximou silenciosamente de Pata Negra. Folha Manchada, agachada ao lado do aprendiz ferido, usava os dentes e as patas dianteiras para pressionar chumaços de teia de aranha na ferida do seu ombro.
Pata de Fogo inclinou-se na direção de Pata Cinzenta e perguntou: – O
que Folha Manchada está fazendo?
– Estancando o sangramento. Foi um corte feio. Pata Negra parecia estar realmente abalado. Ele sempre foi um pouco agitado, mas nunca o vi tão mal assim. Vamos ver se já acordou.
Abriram caminho entre os gatos chorosos, até o lugar onde Pata Negra estava, e colocaram-se a uma distância respeitosa, para esperar até que Garra de Tigre parasse de falar.
– E então, Folha Manchada? – Garra de Tigre dirigiu-se à gata atartarugada com um miado arrogante. – Como ele está? Acha que pode salvá-lo? Passei muito tempo treinando esse gato e não quero que meus esforços vão por água abaixo na primeira batalha.
Folha Manchada não levantou o olhar do paciente ao responder. – Vai ser mesmo uma pena se, depois do seu valoroso treinamento, ele morrer na primeira luta, não é? – Pata de Fogo percebeu uma certa provocação no suave miado da curandeira.
– Ele vai sobreviver? – perguntou Garra de Tigre.
– É claro. Só precisa descansar.
Garra de Tigre resfolegou e olhou para a figura imóvel. Cutucou Pata Negra com uma das garras dianteiras. – Vamos lá! Levante-se!
Pata Negra não se mexeu.
– Olhe só o tamanho daquela garra! – Pata de Fogo sibilou.
– Caramba! – comentou Pata Cinzenta, impressionado. – Eu é que não ia querer lutar com ele!
– Devagar, Garra de Tigre!! – Folha Manchada colocou sua pata sobre a unha afiada do guerreiro e gentilmente a afastou. – Este aprendiz precisa ficar em repouso até que o corte cicatrize. Não queremos que a ferida se abra só porque ele resolveu dar um salto para agradá-lo. Deixe-o em paz.
Pata de Fogo prendeu a respiração, esperando a reação de Garra de Tigre. Imaginou que poucos gatos ousariam dar ordens ao guerreiro daquele jeito. O grande gato malhado se retesou e parecia que ia falar alguma coisa quando Folha Manchada miou, provocando: – Até você sabe que não se pode discutir com uma curandeira, Garra de Tigre.
Os olhos do guerreiro chisparam com as palavras da pequena gata atartarugada. – Eu não ousaria discutir com você, querida Folha Manchada – Garra de Tigre ronronou. Virou-se para sair e viu Pata Cinzenta e Pata de Fogo. – Quem é este? – perguntou a Pata Cinzenta, olhando-os de cima.
– É o novo aprendiz.
– Cheira a gatinho de gente – resfolegou o guerreiro.
– Eu era um gato doméstico – Pata de Fogo miou, atrevido –, mas estou treinando para ser um guerreiro.
Garra de Tigre fitou-o com súbito interesse. – Ah, claro. Agora me lembro. Estrela Azul mencionou ter tropeçado em um gatinho de gente desgarrado. Então ela vai realmente treinar você?
Pata de Fogo sentou ereto, ansioso para impressionar o ilustre guerreiro do clã, e miou, com todo o respeito: – Vai, sim.
Garra de Tigre olhou-o, pensativo. – Vou acompanhar seu progresso com interesse.
Pata de Fogo estufou o peito com orgulho, enquanto Garra de Tigre se afastava. – Acha que ele gostou de mim? – perguntou a Pata Cinzenta.
– Não acho que ele goste de nenhum aprendiz! – sussurrou o amigo.
Foi quando Pata Negra se mexeu e movimentou as orelhas. – Ele já foi? – perguntou baixinho.
– Quem? Garra de Tigre? – respondeu Pata Cinzenta, aproximando-se. – Já, já foi.
– Como vai? – Pata de Fogo perguntou, tentando se apresentar.
– Saiam, os dois! – Folha Manchada protestou. – Como posso cuidar desse gato com tantas interrupções? – Impaciente, balançou a cauda para Pata Cinzenta e Pata de Fogo e colocou-se entre eles e o paciente.
Pata de Fogo percebeu que a curandeira falava sério, apesar do brilho vívido nos calorosos olhos cor de âmbar.
– Venha, então, Pata de Fogo – miou Pata Cinzenta. – Vou lhe mostrar nosso território. Até mais tarde, Pata Negra.
Os dois gatos deixaram Folha Manchada com o aprendiz ferido e atravessaram a clareira.
Pata Cinzenta parecia pensativo. Estava claramente levando seu papel de guia muito a sério. – Você já conhece a Pedra Grande – começou, apontando com a cauda a rocha grande e lisa. – Estrela Azul sempre se dirige ao clã dali. É onde fica sua toca. – Ergueu o nariz na direção de uma gruta na lateral da Pedra Grande. – A toca foi escavada há muitas luas por um velho riacho. – Uma cortina de liquens cobria a entrada, protegendo do vento e da chuva o refúgio da líder.
– Os guerreiros dormem aqui – Pata Cinzenta continuou.
Pata de Fogo seguiu-o até um arbusto a pouca distância da Pedra Grande.
Dali se podiam ver bem os tojos da entrada do acampamento. Os galhos do arbusto eram baixos, mas Pata de Fogo conseguiu ver um espaço protegido, onde os guerreiros faziam seus ninhos.
– Os guerreiros mais experientes dormem perto do centro, onde é mais quente – explicou Pata Cinzenta. Normalmente, partilham as presas frescas naquela moita de urtiga. Os guerreiros mais jovens comem ali perto. Às vezes são convidados a se juntar aos veteranos nessa hora, o que é uma grande honra.
– E os outros gatos do clã? – perguntou Pata de Fogo fascinado, mas ainda completamente perplexo com todas as tradições e os rituais da vida no clã.
– As rainhas também ficam nos alojamentos dos guerreiros quando estão nessa função, mas, quando estão esperando filhotes, ou amamentando, ficam em um ninho perto do berçário. Os anciãos têm seu próprio lugar, do outro lado da clareira. Venha, vou lhe mostrar.
Pata de Fogo seguiu Pata Cinzenta, atravessando a clareira e deixando para trás o canto sombreado onde ficava a toca de Folha Manchada.
Pararam ao lado de uma árvore caída que protegia um pedaço de grama viçosa. Agachados no meio do verde macio estavam quatro anciãos devorando um roliço filhote de coelho.
– Pata de Poeira e Pata de Areia devem ter trazido a presa para eles – Pata Cinzenta explicou baixinho. – Um dos deveres dos aprendizes é pegar presa fresca para os anciãos.
– Olá, meu jovem – um dos anciãos saudou Pata Cinzenta.
– Alô, Orelhinha – miou Pata Cinzenta, inclinando a cabeça com respeito.
– Este deve ser nosso novo aprendiz. Pata de Fogo, não é? – miou um segundo felino. Seu pelo malhado era marrom-escuro e havia apenas um cotoco no lugar do rabo.
– Isso mesmo – Pata de Fogo respondeu, imitando o gesto respeitoso de Pata Cinzenta.
– Meu nome é Meio Rabo – ronronou o gato marrom. – Bem-vindo ao clã.
– Vocês já comeram? – miou Orelhinha.
Pata de Fogo e Pata Cinzenta negaram com a cabeça.
– Há comida bastante aqui. Pata de Poeira e Pata de Areia estão se tornando ótimos caçadores. Você se importa se esses jovens partilharem um camundongo conosco, Caolha?
A rainha cinza desbotado, ao lado dele, balançou a cabeça. Pata de Fogo percebeu que a gata tinha um olho embaçado e cego.
– E você, Cauda Mosqueada?
A outra anciã, uma gata atartarugada de focinho cinza, miou com uma voz alquebrada pela idade: – Claro que não.
– Obrigado – miou Pata Cinzenta, ansioso. Adiantou-se, pegou um camundongo grande da pilha de presas e atirou-o aos pés de Pata de Fogo, perguntando: – Você já provou camundongo?
– Ainda não – Pata de Fogo admitiu. De repente, sentiu-se estimulado pelos odores mornos que exalavam da presa fresca. Todo o seu corpo tremeu ao pensar em partilhar a primeira comida de verdade como membro do clã.
– Nesse caso, pode dar a primeira mordida. Deixe um pouco para mim! – Pata Cinzenta abaixou a cabeça e se afastou, dando passagem para Pata de Fogo.
O gato agachou e deu uma boa mordida no camundongo. A carne suculenta e macia traduzia os sabores da floresta.
– Então, o que achou? – perguntou Pata Cinzenta.
– Fantástico! – murmurou Pata de Fogo, ainda de boca cheia.
– Chegue para lá, então – miou Pata Cinzenta, dando um passo à frente e inclinando a cabeça para dar uma mordida.
Enquanto os dois aprendizes partilhavam o camundongo, ouviam os anciãos conversar.
– Quanto tempo vai levar para Estrela Azul nomear um novo representante? – perguntou Orelhinha.
– O que você disse? – miou Caolha.
– Acho que, além de cega, você está ficando surda! – disparou Orelhinha, impaciente. – Perguntei quanto tempo vai levar para Estrela Azul nomear um novo representante.
Caolha ignorou a resposta irritada de Orelhinha e dirigiu-se à rainha atartarugada: – Cauda Mosqueada, você lembra o dia, muitas luas atrás, em que a própria Estrela Azul foi indicada como representante?
Séria, Cauda Mosqueada miou: – Claro! Foi pouco depois que ela perdeu os filhotes.
– Ela não vai ficar contente em indicar um novo representante – observou Orelhinha. – Rabo Vermelho serviu-a fielmente por muito tempo.
Mas ela precisa se decidir logo. De acordo com os costumes do clã, a escolha deve ser feita antes da lua alta que ocorre depois da morte do antigo representante.
– Ao menos, desta vez, a escolha é óbvia – miou Meio Rabo.
Pata de Fogo levantou a cabeça e passeou os olhos pela clareira. O que será que Meio Rabo queria dizer? Para Pata de Fogo, todos os guerreiros pareciam dignos de se tornar representante. Talvez ele estivesse se referindo a Garra de Tigre; afinal, queria vingar a morte de Rabo Vermelho.
Garra de Tigre não estava longe; sentado, apontava as orelhas para o lugar onde os anciãos conversavam.
Quando Pata de Fogo esticava a língua para lamber dos bigodes os últimos restos do camundongo, da Pedra Grande ouviu-se o chamado de Estrela Azul. O corpo de Rabo Vermelho ainda estava na clareira, um cinza-claro na luz que se apagava. – Um novo representante precisa ser indicado – ela miou. – Mas, primeiro, vamos agradecer ao Clã das Estrelas pela vida do nosso guerreiro. Esta noite ele estará ao lado de seus companheiros, entre as estrelas.
Fez-se silêncio quando todos os gatos elevaram os olhos para o céu, que começava a escurecer com o cair da noite sobre a floresta.
– Agora devo nomear o novo representante do Clã do Trovão – Estrela Azul continuou. – Digo essas palavras ante o corpo de Rabo Vermelho, para que seu espírito possa ouvir e aprovar minha escolha.
Pata de Fogo olhou para Garra de Tigre. Não pôde deixar de notar o desejo nos olhos cor de âmbar do grande guerreiro quando ele fitou a Pedra Grande.
– Coração de Leão – miou Estrela Azul – será o novo representante do Clã do Trovão.
Pata de Fogo estava curioso para ver a reação de Garra de Tigre. Mas o rosto escuro do guerreiro nada revelava quando ele se dirigiu para cumprimentar Coração de Leão com um abraço tão forte que quase fez o gato dourado perder o equilíbrio.
– Por que ela não escolheu Garra de Tigre como representante? – Pata de Fogo perguntou baixinho para Pata Cinzenta.
– Provavelmente porque faz mais tempo que Coração de Leão é guerreiro; por isso tem muito mais experiência – Pata Cinzenta sussurrou em resposta, ainda olhando para Estrela Azul.
A líder voltou a falar: – Rabo Vermelho também era mentor do jovem Pata de Poeira. Como não deve haver demora no treinamento de nossos aprendizes, devo indicar o novo mentor de Pata de Poeira imediatamente.
Risca de Carvão, você está pronto para receber seu primeiro aprendiz; assim, continuará o treinamento de Pata de Poeira. Você teve um ótimo mentor em Garra de Tigre e espero que passe adiante as excelentes habilidades que lhe foram ensinadas.
Risca de Carvão encheu o peito com orgulho ao aceitar a missão com um gesto solene. Dirigiu-se a Pata de Poeira, inclinou a cabeça e, de forma desajeitada, trocou toques de nariz com o novo pupilo. Pata de Poeira movimentou a cauda com respeito, mas seus olhos sem brilho estavam tristes pela morte do antigo mentor.
Estrela Azul elevou a voz. – Passarei a noite velando o corpo de Rabo Vermelho, antes de o enterrarmos ao nascer do sol. – Pulou da Pedra Grande e foi deitar-se outra vez ao lado do corpo do guerreiro. Muitos dos outros felinos se juntaram a ela, entre eles, Pata de Poeira e Orelhinha.
– Devemos sentar com eles? – sugeriu Pata de Fogo. Tinha de admitir que a ideia não o atraía muito. Fora um dia agitado e estava começando a se sentir cansado. Tudo o que queria era achar um lugar quente e seco para se enroscar e dormir.
Pata Cinzenta balançou a cabeça. – Não; apenas os mais chegados a Rabo Vermelho estarão com ele na última noite. Vou lhe mostrar onde vamos dormir. A toca dos aprendizes é ali adiante.
Pata de Fogo seguiu Pata Cinzenta até um cerrado arbusto de samambaia que ficava atrás de um toco de árvore cheio de musgo.
– Todos os aprendizes partilham presas frescas nesse toco – Pata Cinzenta falou.
– São quantos aprendizes? – perguntou Pata de Fogo.
– Não tantos quanto de costume; apenas eu, você, Pata Negra, Pata de Poeira e Pata de Areia.
Enquanto os dois aprendizes se instalavam ao lado do toco de árvore, uma jovem gata surgiu devagar das samambaias. Tinha a pelagem avermelhada, como a de Pata de Fogo, mas muito mais desbotada, mal se distinguindo as riscas mais escuras.
– Eis então o novo aprendiz! – ela miou, estreitando os olhos.
– Olá – respondeu Pata de Fogo.
A jovem gata farejou e disse rispidamente. – Ele cheira a gatinho de gente. Não me diga que vou ter de dividir meu ninho com esse fedor repulsivo!
Pata de Fogo ficou surpreso. Desde sua luta com Rabo Longo, todos os gatos tinham sido bastante amigáveis. Talvez estivessem apenas abalados com as novidades de Pata Negra, pensou.
– Perdoe Pata de Areia – desculpou-se Pata Cinzenta. – Ela deve estar com uma bola de pelo entalada em algum lugar. Não costuma ser tão mal-humorada.
– Cale a boca! – cortou Pata de Areia.
– O que é isso, jovens? – Ouviu-se a voz grave de Nevasca atrás dos aprendizes. – Pata de Areia! Como minha aprendiz, esperava que fosse um pouco mais cordial com o recém-chegado.
Pata de Areia levantou a cabeça e olhou para Nevasca, com ar desafiador.
– Sinto muito, Nevasca – ronronou, sem parecer nem um pouco arrependida. – É que não esperava fazer meu treinamento com um gatinho de gente; só isso.
– Tenho certeza de que vai se acostumar, Pata de Areia – miou Nevasca, calmamente. – Já está ficando tarde e o treinamento começa bem cedo amanhã. Vocês três devem dormir um pouco. – Lançou um olhar severo para Pata de Areia, que concordou, obediente. Quando Nevasca saiu, ela girou e desapareceu na moita de urtigas, fungando mais uma vez ao passar por Pata de Fogo.
Com um movimento de cauda, Pata Cinzenta convidou Pata de Fogo a segui-lo e foi atrás de Pata de Areia. O chão da área de dormir era coberto de musgo macio, e o luar fraco deixava tudo com um delicado tom de verde.
O ar cheirava a samambaia e era mais quente do que o lá de fora.
– Onde é que eu durmo? – perguntou Pata de Fogo.
– Em qualquer lugar, desde que não seja perto de mim! – rosnou Pata de Areia, enquanto revolvia um pouco de musgo com a pata.
Pata Cinzenta e Pata de Fogo trocaram olhares, mas nada disseram. Pata de Fogo juntou uma porção de musgo com as garras. Depois de preparar a cama, fazendo um ninho aconchegante, andou em círculos até se sentir confortável e acomodou-se. Seu corpo todo estava sonolento e feliz. Aquele era seu lar, agora. Ele fazia parte do Clã do Trovão.