Na Floresta

Erin Hunter · Capítulo 22 de 27

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Na Floresta

Capítulo 20

 

QUANDO PATA DE FOGO voltou ao acampamento, este já parecia um pouco melhor. Era evidente que grupos de gatos tinham passado o dia remendando e consertando sem parar. Pele de Geada e Flor Dourada ainda estavam ocupadas, reforçando as paredes do berçário, mas o muro externo voltara a ser sólido e seguro.

Pata de Fogo atravessou a clareira para ver se encontrava alguma presa fresca. Passou por Pata de Areia e Pata de Poeira, que se preparavam para sair na próxima patrulha.

– Desculpe – miou Pata de Areia, enquanto Pata de Fogo farejava, esperançoso, a área de refeições. – Comemos os dois últimos camundongos.

Pata de Fogo deu de ombros. Mais tarde caçaria alguma coisa para comer. Voltou para a toca dos aprendizes, onde encontrou Pata Cinzenta recostado no toco de árvore, lambendo uma pata.

– Onde está Pata Negra? – Pata de Fogo perguntou, sentando-se ao lado do amigo.

– Ainda não voltou, está cumprindo a tarefa – respondeu Pata Cinzenta. – Veja isto! – falou, levantando a pata para o amigo examinar. O curativo estava rasgado e sangrando. – Garra de Tigre me mandou pescar e eu pisei numa pedra pontuda no riacho.

– Parece bem profundo. É melhor pedir a Folha Manchada para dar uma olhada – sugeriu Pata de Fogo. – Por falar nisso, para onde Garra de Tigre mandou Pata Negra?

– Não tenho ideia! Eu estava com água fria até a barriga – murmurou Pata Cinzenta, que se levantou e saiu mancando na direção da toca de Folha Manchada.

Pata de Fogo se instalou e, com os olhos fixos na entrada do acampamento, esperou por Pata Negra. Depois de ouvir a conversa dos guerreiros na noite anterior, não podia afastar o sentimento de que alguma coisa terrível estava para acontecer ao amigo. Seu coração disparou quando viu Garra de Tigre entrar sozinho no acampamento.

Esperou mais um pouco. A lua estava alta no céu. Será que Pata Negra já não tinha voltado? Pata de Fogo lamentou não ter falado com Estrela Azul quando teve oportunidade. Agora, Risca de Carvão e Rabo Longo estavam de guarda na toca da líder e, naturalmente, o aprendiz não queria que soubessem de sua preocupação.

Garra de Tigre trouxera presas frescas e as partilhava com Nevasca no interior da toca dos guerreiros. Pata de Fogo percebeu que estava faminto.

Talvez devesse sair para caçar; quem sabe cruzasse com Pata Negra fora do acampamento. Enquanto pensava no que fazer, viu Pata Negra chegando apressado. Sentiu um arrepio de alívio, e não só porque o amigo trazia presa fresca entre os dentes.

O recém-chegado dirigiu-se diretamente a Pata de Fogo e deixou cair o bocado no chão. – O bastante para nós três! – miou, orgulhoso. – E deve ser mais que gostoso… veio do território do Clã das Sombras.

Pata de Fogo engasgou. – Você passou no território do Clã das Sombras?

– Era a minha tarefa – explicou Pata Negra.

– Garra de Tigre mandou você caçar no território inimigo! – Pata de Fogo mal podia acreditar. – Precisamos contar a Estrela Azul. Isso foi perigoso demais!

À menção do nome da líder, Pata Negra balançou a cabeça. Tinha os olhos apavorados, sombreados de medo, e sibilou: – Não diga nada, está bem? Eu sobrevivi! Até consegui alguma presa. Isso é tudo.

– Você sobreviveu desta vez! – disparou Pata de Fogo.

– Shhh! Garra de Tigre está olhando. Coma a sua parte e fique quieto! – ralhou Pata Negra. Pata de Fogo deu de ombros e pegou um pedaço de caça.

Pata Negra comeu depressa, evitando olhar o amigo. – Devemos guardar um pouco para Pata Cinzenta? – perguntou depois de um tempo.

– Ele foi ver Folha Manchada – Pata de Fogo resmungou com a boca cheia. – Cortou a pata. Não sei quando vai voltar.

– Guarde para ele quanto você quiser – retrucou Pata Negra, parecendo repentinamente esgotado. – Estou cansado; preciso dormir. – Levantou-se e se dirigiu para a toca.

Pata de Fogo ficou do lado de fora, observando o resto do acampamento se preparar para a noite. Tinha de contar a Pata Negra o que ouvira na floresta na noite anterior. O amigo precisava saber que corria perigo.

Garra de Tigre estava deitado ao lado de Nevasca, trocando lambidas, mas com o olho na toca dos aprendizes. Pata de Fogo bocejou para mostrar a Garra de Tigre que estava exausto; então levantou-se e entrou na toca.

Pata Negra estava dormindo, e, pelo tremelicar das patas e bigodes, via-se que estava sonhando. Pata de Fogo sabia que o sonho não era bom, pelos ligeiros miados e pequenos guinchos que o amigo emitia. De súbito, o gato preto se levantou, com os olhos arregalados de pavor. A pelagem estava totalmente arrepiada, as costas em arco.

– Pata Negra! – alarmou-se Pata de Fogo. – Acalme-se. Você está na nossa toca. Só eu estou aqui!

Pata Negra olhou à volta, assustado.

– Sou eu! – Pata de Fogo repetiu.

Pata Negra piscou e pareceu reconhecer o amigo; em seguida, jogou-se no leito.

– Pata Negra – miou, sério, Pata de Fogo. – Há uma coisa que você precisa saber. Uma coisa que ouvi na noite passada quando saí para procurar alho selvagem. – Pata Negra desviou o olhar, ainda tremendo por causa do sonho, mas Pata de Fogo insistiu. – Pata Negra, ouvi Garra de Tigre dizer a Risca de Carvão e a Rabo Longo que você traiu o Clã do Trovão. Afirmou que você escapou sorrateiramente durante a viagem para a Boca da Terra e contou ao Clã das Sombras que o acampamento estava desguardado.

Pata Negra girou o corpo para encarar o amigo. – Mas não fiz isso! – exclamou, horrorizado.

– Claro que não fez! – concordou Pata de Fogo. – Mas Risca de Carvão e Rabo Longo acreditam que sim, e Garra de Tigre os convenceu de que devem se livrar de você.

Pata Negra resfolegava, sem conseguir falar.

– Por que ele quer se livrar de você, Pata Negra? – perguntou gentilmente Pata de Fogo. – Ele é um dos guerreiros mais fortes do clã. Que ameaça você representa para ele? – Pata de Fogo suspeitava já saber a resposta, mas queria ouvir a verdade do próprio Pata Negra. Esperou enquanto o gato gaguejava atrás de palavras.

Finalmente, Pata Negra aproximou-se lentamente de Pata de Fogo e cochichou em seu ouvido: – Porque não foi o representante do Clã do Rio que matou Rabo Vermelho; foi Garra de Tigre.

Em silêncio, Pata de Fogo sinalizou que estava entendendo, e Pata Negra continuou, com os bigodes agitados de tensão. – Rabo Vermelho matou o representante do Clã do Rio…

– Então Garra de Tigre não matou Coração de Carvalho – Pata de Fogo não se conteve e interrompeu.

Pata Negra balançou a cabeça. – Não, não matou! Depois que Rabo Vermelho matou Coração de Carvalho, Garra de Tigre me mandou voltar para o acampamento. Eu queria ficar, mas ele uivou para eu ir; então corri para as árvores. Devia ter continuado a correr, mas não podia ir embora enquanto ainda estivessem lutando. Me virei e, rastejando, fui ver se Garra de Tigre precisava de ajuda. Quando me aproximei, todos os guerreiros do Clã do Rio tinham fugido, restavam apenas Rabo Vermelho e Garra de Tigre. Rabo Vermelho estava observando o último guerreiro fugir e Garra de Tigre… – Pata Negra fez uma pausa, depois resfolegou – Garra de Tigre p-pulou em cima dele, cravando-lhe os dentes na nuca, e Rabo Vermelho caiu morto no chão. Foi quando corri. Não sei se Garra de Tigre me viu.

Continuei em disparada até chegar de volta ao acampamento.

– Por que não contou a Estrela Azul? – Pata de Fogo pressionou, gentil.

– Será que ela acreditaria em mim? – Pata Negra duvidou, revirando os olhos. – Você acredita em mim?

– Claro que sim – Pata de Fogo miou. Lambeu Pata Negra entre as orelhas, tentando acalmar e confortar o amigo. Teria de achar outra oportunidade para falar a Estrela Azul da traição de Garra de Tigre. – Não se preocupe, vou esclarecer a situação – prometeu. – Enquanto isso, não saia de perto de mim ou de Pata Cinzenta.

– Pata Cinzenta sabe que eles querem se ver livres de mim?

– Ainda não. Mas vou ter de contar a ele.

Pata Negra calou-se e, ajeitando-se sobre a barriga, fitou o vazio.

– Está tudo bem, Pata Negra – ronronou Pata de Fogo, tocando com o nariz o corpo magro do amigo. – Vou ajudá-lo a sair dessa situação.

Pata Cinzenta entrou na toca quando o dia amanheceu. Pata de Areia e Pata de Poeira tinham voltado da patrulha havia pouco tempo e dormiam em seus ninhos.

– Olá! – miou Pata Cinzenta, parecendo mais animado do que nos últimos dias.

Pata de Fogo acordou de imediato e ronronou: – Você parece melhor.

Pata Cinzenta lambeu a orelha de Pata de Fogo. – Folha Manchada passou um pouco de visco no corte e me mandou ficar deitado por horas, sem me mexer. Devo ter adormecido. Aliás, espero que aquele pintassilgo lá fora seja para mim; estou morrendo de fome!

– É sim; Pata Negra o caçou. Garra de Tigre o mandou para a …

– Calem a boca, vocês dois – rosnou Pata de Areia. – Alguns de nós estão tentando dormir.

Pata Cinzenta revirou os olhos. – Venha, Pata de Fogo – miou. – Cara Rajada teve filhotes; vamos visitá-los.

Pata de Fogo ronronou de prazer. Enfim, alguma coisa para celebrar no Clã do Trovão. Olhou para Pata Negra, que ainda estava dormindo, e saiu da toca sem fazer barulho. Acompanhado de Pata Cinzenta, atravessou a clareira na direção do berçário. O sol nascendo fez sua pelagem brilhar com o calor e ele se espreguiçou com vontade, revelando a flexibilidade de sua espinha e a força de suas pernas.

– Pare de se exibir! – Pata Cinzenta reclamou sobre os ombros. Pata de Fogo parou de se alongar e seguiu o amigo.

Nevasca estava sentado do lado de fora do berçário, guardando a entrada. – Vieram ver os bebês? – miou à aproximação de Pata de Fogo e de Pata Cinzenta.

Pata de Fogo fez que sim.

Nevasca instruiu: – Que entre um de cada vez, o outro terá de esperar.

Estrela Azul está com ela agora.

– Você pode ir primeiro – Pata de Fogo ofereceu. – Enquanto isso, vou ver Presa Amarela. – Despediu-se de Nevasca com uma educada mesura e saiu na direção do ninho da gata.

Presa Amarela estava limpando atrás das orelhas, concentrada, com os olhos semicerrados.

– Não me diga que está esperando chuva! – Pata de Fogo provocou.

Presa Amarela olhou para ele e replicou: – Você anda ouvindo muitas histórias dos anciãos. Por que razão um gato lavaria as orelhas se vai pegar chuva de qualquer maneira?

Os bigodes de Pata de Fogo se mexeram, divertidos. – Não vai ver a nova ninhada de Cara Rajada? – perguntou.

Presa Amarela se retesou e balançou a cabeça. – Não acho que seria muito bem-vinda – grunhiu.

– Mas eles sabem que você salvou … – Pata de Fogo começou.

– As gatas superprotegem seus filhotes recém-nascidos, principalmente quando se trata da primeira ninhada. Acho que vou ficar de longe – Presa Amarela o cortou num tom que não dava chance a nenhuma ponderação.

– Como quiser. Mas eu vou vê-los. Deve ser um bom sinal, filhotes novos no acampamento.

Presa Amarela deu de ombros. – Pode ser – murmurou, sombria.

Pata de Fogo virou-se e voltou para o berçário. Nuvens tinham encoberto o sol, tornando o ar mais fresco. Uma forte brisa movimentava a sua pelagem e espalhava as folhas pela clareira.

Estrela Azul estava sentada do lado de fora do berçário. Atrás dela, a cauda de Pata Cinzenta acabava de desaparecer na entrada estreita. – Pata de Fogo – a gata cumprimentou –, veio ver os mais novos guerreiros do Clã do Trovão? – A líder tinha a voz cansada e triste.

Pata de Fogo ficou surpreso. Os bebês eram mesmo uma boa notícia para o Clã do Trovão?

– Vim, sim – respondeu.

– Quando terminar a visita, venha até minha toca.

– Sim, Estrela Azul – miou o aprendiz enquanto a líder se afastava. Ele sentiu a pelagem pinicar. Ali estava outra oportunidade para falar sozinho com Estrela Azul. Quem sabe, afinal, o Clã das Estrelas estava a seu lado.

Pata Cinzenta se afastou da entrada do berçário. – São realmente uma graça – comentou. – Mas agora estou morto de fome. Vou sair e caçar umas presas frescas. Se conseguir, guardarei algumas para você! – disse, piscando com carinho para Pata de Fogo e se distanciando.

Pata de Fogo ronronou um até logo e olhou para Nevasca, que, com a cabeça, deu-lhe permissão para entrar no berçário.

Esgueirando-se pela entrada diminuta, Pata de Fogo deparou com quatro gatinhos minúsculos, aconchegados no ninho fundo preparado por Cara Rajada. Exceto um deles, com pelo cinza escuro, todos tinham a pelagem cinza clara com manchas escuras, exatamente como a mãe. Miavam e se enroscavam junto à barriga de Cara Rajada, com os olhos bem fechados.

– Como se sente? – Pata de Fogo perguntou baixinho.

– Um pouco cansada – respondeu olhando com orgulho para a ninhada. – Mas os bebês são todos fortes e saudáveis.

– O Clã do Trovão tem sorte em tê-los – Pata de Fogo ronronou. – Estava falando sobre eles com Presa Amarela.

Cara Rajada não respondeu, e Pata de Fogo percebeu o lampejo de preocupação nos olhos da gata quando puxava um gatinho fujão.

Pata de Fogo sentiu no estômago um tremor de ansiedade. Embora Estrela Azul tivesse aceitado Presa Amarela no Clã do Trovão, parecia que a velha gata ainda não contava com a confiança de todos. Com o focinho, tocou carinhosamente a lateral de Cara Rajada, virou-se e voltou para a clareira.

A líder do clã esperava Pata de Fogo na entrada da toca. Rabo Longo estava sentado ao lado dela. O guerreiro malhado encarou Pata de Fogo com firmeza, mas o aprendiz o ignorou e olhou com expectativa para Estrela Azul.

– Entre – ela miou, virando-se para indicar o caminho. Pata de Fogo foi atrás. Rabo Longo imediatamente se levantou, como se fosse segui-los.

Estrela Azul o olhou por sobre o ombro e miou: – Acho que estarei a salvo com o jovem Pata de Fogo. – Rabo Longo pareceu inseguro por um instante; em seguida, sentou do lado de fora.

Pata de Fogo jamais estivera na toca de Estrela Azul. Seguiu-a com um andar macio pelo líquen que cobria a entrada. – Os bebês de Cara Rajada são adoráveis – ronronou.

Estrela Azul estava séria. – Podem ser adoráveis, mas significam mais bocas para alimentar, e a estação sem folhas logo vai chegar. – Olhou então para Pata de Fogo, que não conseguia disfarçar a tristeza pelo tom melancólico da líder. – Ah, não preste atenção no que eu digo – miou Estrela Azul, balançando a cabeça, impaciente. – O primeiro vento frio sempre me preocupa. Venha, fique à vontade. – Ela inclinou a cabeça na direção do chão seco e arenoso.

Pata de Fogo se acomodou sobre a barriga e esticou as patas à frente.

Estrela Azul andava lentamente em círculos em seu ninho de musgo. – Ainda estou dolorida da nossa sessão de treinamento de ontem – admitiu quando finalmente se aquietou e enroscou a cauda à volta das patas. – Você lutou bem, meu jovem.

Pela primeira vez, Pata de Fogo não parou para se deliciar com o elogio.

Seu coração estava disparado. Aquele era o momento perfeito para falar à líder dos seus medos a respeito de Garra de Tigre. Ele levantou o queixo, pronto para falar.

Mas foi Estrela Azul que falou primeiro, com o olhar além dele, fixo na parede da toca. – Ainda sinto o fedor do Clã das Sombras no acampamento – murmurou. – Esperava nunca ver o dia em que os inimigos invadiriam o coração do Clã do Trovão. – Pata de Fogo concordou em silêncio, percebendo que Estrela Azul ia continuar.

– E tantas mortes – ela suspirou. – Primeiro, Rabo Vermelho, depois Coração de Leão. Ao menos agradeço ao Clã das Estrelas porque os guerreiros que nos restaram são fortes e leais como eles. Ao menos com Garra de Tigre como representante, o Clã do Trovão ainda é capaz de se defender. O coração de Pata de Fogo pesou e um vento gelado o invadiu à medida que Estrela Azul continuava. – Houve um tempo, quando Garra de Tigre era um jovem guerreiro, que temi pelo ímpeto de sua paixão. Tal energia precisa ser bem canalizada. Mas agora estou orgulhosa de ver o respeito que o clã tem por ele. Sei que é ambicioso, mas a ambição faz dele um dos felinos mais corajosos que já tive a honra de ter a meu lado numa batalha.

Pata de Fogo soube imediatamente que não podia comentar com Estrela Azul suas suspeitas a respeito de Garra de Tigre. Não quando ela contava com seu representante para proteger todo o clã. Primeiro, ele mesmo, Pata de Fogo, teria de salvar Pata Negra. Respirou fundo e pestanejou; desse modo, quando a líder virou-se e o fitou diretamente nos olhos, não havia ali vestígio de espanto ou desapontamento.

As palavras seguintes de Estrela Azul foram emitidas em tom baixo e cheio de preocupação. – Você sabe que Estrela Partida vai voltar. Ele deixou claro na Assembleia que exige direitos de caça em todos os territórios.

– Nós o rechaçamos uma vez. Podemos voltar a fazê-lo – Pata de Fogo insistiu.

– É verdade. – Estrela Azul concordou com um aceno esquisito. – O Clã das Estrelas vai honrar sua coragem, jovem Pata de Fogo. – Fez uma pausa e lambeu um dos ferimentos no flanco. – Acho que você precisa saber que, na batalha com os ratos, não foi minha quinta vida que perdi, mas a sétima.

Pata de Fogo colocou-se imediatamente de pé, chocado.

Estrela Azul continuou. – Deixei o clã acreditar que se tratava de minha quinta vida porque não quero que temam pela minha segurança. Mais duas vidas e terei de abandoná-los e me juntar ao Clã das Estrelas.

Pata de Fogo raciocinava velozmente. Por que ela estaria lhe dizendo aquilo? – Obrigado por partilhar isso comigo, Estrela Azul – ele ronronou, respeitoso.

A líder fez um gesto com a cabeça. – Estou cansada agora – falou bruscamente. – Vá embora. Pata de Fogo, espero que não comente sobre esta conversa com ninguém.

– Claro que não, Estrela Azul – respondeu o aprendiz ao sair pela cortina de líquen.

Rabo Longo ainda estava sentado à entrada. Pata de Fogo passou por ele e se dirigiu à sua toca. Não sabia que pedaço da conversa com Estrela Azul o deixara mais perplexo.

Deteve-se ao ouvir um grito de horror vindo do berçário. Pele de Geada veio aos pulos até a clareira, com a cauda erguida e os olhos arregalados em alarme. – Meus filhotes! Alguém levou meus filhotes!

Garra de Tigre saltou na direção dela e convocou o clã. – Depressa, vasculhem o acampamento! Nevasca, fique onde está. Guerreiros, patrulhem a fronteira do acampamento. Aprendizes, procurem em todas as tocas.

Pata de Fogo correu até a toca mais próxima, a dos guerreiros, e forçou a entrada. Estava vazia. Apalpou as camas, mas ali também não havia nem sinal nem cheiro dos bebês de Pele de Geada.

Saiu, dirigindo-se rapidamente à própria toca. Pata Negra e Pata Cinzenta já estavam lá, deslocando os ninhos, farejando todos os cantos. Pata de Poeira e Pata de Areia vasculharam a toca dos anciãos. Pata de Fogo deixou-os encarregar-se disso e passou de um monte de grama a outro, enfiando neles o nariz, ignorando o espetar das urtigas. Não havia sinal dos filhotes. Olhou à volta dos limites do acampamento. Os guerreiros andavam para trás e para a frente, farejando sofregamente o ar.

De repente, Pata de Fogo localizou Presa Amarela a distância. Ela tentava atravessar um trecho do muro de samambaias onde não havia vigilância.

Provavelmente sentira algum cheiro, pensou, e correu na direção da gata, cuja cauda desapareceu no verde. Quando ele alcançou o muro de samambaias, ela já havia partido. Pata de Fogo farejou o ar. Não havia cheiro de filhotes, apenas o odor amargo do medo de Presa Amarela. Do que ela teria medo? – perguntou-se o aprendiz.

O grunhido de Garra de Tigre surgiu dos arbustos atrás do berçário.

Todos os gatos rumaram para lá às pressas, Pele de Geada à frente.

Amontoaram-se entre cotoveladas para tentar enxergar através da densa vegetação. Pata de Fogo enfiou o nariz e viu Garra de Tigre sobre um fardo imóvel de pelagem salpicada.

Folha Manchada!

Pata de Fogo olhou, incrédulo, o corpo sem vida. Um sentimento de fúria tomou conta dele, como se fosse uma nuvem escura; sentiu o sangue latejar nas orelhas. Quem teria feito aquilo?

Estrela Azul abriu caminho na multidão e inclinou-se sobre o corpo da curandeira – Ela foi morta pelo golpe de um guerreiro – miou, com voz suave.

Pata de Fogo levantou o pescoço e viu uma única ferida por trás do pescoço de Folha Manchada. Sua cabeça girou e ele, de repente, não conseguia concatenar as ideias.

Em meio à tristeza, Pata de Fogo ouviu um murmúrio no fundo da multidão, que cresceu até se tornar um único e cortante uivo. – Presa Amarela se foi!