Na Floresta

Erin Hunter · Capítulo 15 de 27

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Na Floresta

Capítulo 13

 

PATA DE FOGO FOI até a beira da ravina e, de lá, olhou o acampamento. Estava arquejando e tinha as patas escorregadias por causa do orvalho. Farejou o ar. Estava sozinho. Ainda havia tempo para falar com Presa Amarela antes que os outros voltassem da Assembleia. Sem fazer barulho, desceu a encosta rochosa e escorregou pelo túnel de tojo sem ser notado.

O acampamento estava silencioso e calmo, apesar do ressonar dos gatos que dormiam. Pata de Fogo rapidamente rastejou pela beira da clareira até o ninho de Presa Amarela. A velha curandeira estava enroscada em sua cama de musgo.

– Presa Amarela – murmurou, num tom de urgência. – Presa Amarela!

Acorde, é importante!

Os olhos cor de laranja se abriram e brilharam no luar. – Eu não estava dormindo – miou tranquilamente a gata, que parecia calma e alerta. – Você veio direto da Assembleia para falar comigo? Isso quer dizer que você ouviu. – Ela pestanejou e olhou para o outro lado. – Então Estrela Partida manteve a promessa.

– Que promessa? – perguntou o aprendiz, confuso. Presa Amarela parecia saber mais do que ele sobre o que estava acontecendo.

– O nobre líder do Clã das Sombras prometeu me expulsar de qualquer território dos clãs – a gata respondeu secamente. – O que ele disse a meu respeito?

– Ele nos advertiu que os filhotes estariam em perigo enquanto déssemos abrigo a uma vilã do Clã das Sombras. Não mencionou seu nome, mas os gatos do Clã do Trovão adivinharam de quem estava falando. Precisa ir embora antes que os outros voltem. Você está em perigo!

– Quer dizer que acreditaram em Estrela Partida? – Presa Amarela abaixou as orelhas e balançou a cauda com raiva.

– Acreditaram! – Pata de Fogo miou, apressado. – Risca de Carvão disse que você é perigosa. Os outros gatos estão com medo do que você possa fazer. Garra de Tigre está planejando voltar e… não sei… Acho melhor você ir embora antes que ele chegue!

Ao longe, Pata de Fogo escutava os gritos de gatos zangados. Presa Amarela, obstinada, tentou ficar de pé. O aprendiz deu-lhe um pequeno empurrão para ajudá-la a se levantar. Sua cabeça rodopiava com tantas perguntas. – O que Estrela Partida quis dizer quando nos advertiu para vigiar de perto os filhotes? – não pôde deixar de perguntar. – Você faria mesmo alguma coisa assim?

– Eu o quê?

– Maltrataria nossos filhotes?

Presa Amarela dilatou as narinas e olhou firme para Pata de Fogo. – Você acha isso?

Eles se encararam sem vacilar. – Não. Não acredito que você tivesse a coragem de machucar um filhote. Mas por que Estrela Partida diria uma coisa dessas?

O barulho dos gatos se aproximava e, com ele, odores de agressão e raiva. Presa Amarela olhava assustada de um lado para outro.

– Vá! Vá logo! – Pata de Fogo a apressou. A segurança de Presa Amarela era mais importante do que a curiosidade dele.

Mas a gata permaneceu onde estava e o fitou. De repente, um ar de calma tomou conta de seus olhos. – Pata de Fogo, você acredita que sou inocente e agradeço por isso. Se você acredita em mim, talvez os outros também acreditem. Sei que Estrela Azul é justa e vai me ouvir. Não posso fugir para sempre. Sou velha demais. Vou ficar aqui e enfrentar a decisão do seu clã. – Ela suspirou e deixou o corpo cair em seus quadris ossudos.

– Mas, e Garra de Tigre? E se ele…?

– Ele é cabeça-dura e sabe o poder que exerce sobre os outros gatos do clã, que o admiram. Mas até ele vai obedecer Estrela Azul.

O farfalhar na vegetação além das fronteiras do acampamento indicava que os felinos estavam quase na entrada.

– Vá embora, Pata de Fogo – sibilou Presa Amarela, mostrando-lhe os dentes escurecidos. – Não arrume problemas para você por estar aqui comigo agora. Não há nada que possa fazer por mim. Confie na sua líder e deixe que ela decida qual será o meu fim.

Pata de Fogo percebeu que Presa Amarela estava decidida. Tocou com o nariz a pelagem maltratada da gata e, em silêncio, penetrou nas sombras para observar.

Pelos tojos vinham os gatos, Estrela Azul à frente, acompanhada de Coração de Leão, com Pele de Geada e Pele de Salgueiro logo atrás. Pele de Geada se afastou da tropa e correu até o berçário, com a pelagem da cauda eriçada em alerta. Garra de Tigre e Risca de Carvão entraram pela clareira, ombro a ombro, caras amarradas. Os outros vinham atrás; os últimos eram Pata Negra e Pata Cinzenta. Assim que viu os amigos, Pata de Fogo foi encontrá-los.

– Você foi avisar Presa Amarela, não foi? – Pata Cinzenta perguntou baixinho.

– Fui, sim – Pata de Fogo admitiu. – Mas ela não vai embora. Confia que Estrela Azul vai tratá-la com justiça. Alguém sentiu a minha falta?

– Só nós – Pata Negra respondeu.

Os gatos que tinham ficado no acampamento começaram a acordar.

Deviam ter percebido o cheiro de agressão e ouvido a tensão nas vozes dos felinos que voltavam, pois todos chegaram correndo à clareira, de caudas levantadas.

– O que aconteceu? – perguntou um guerreiro malhado chamado Vento Veloz.

– Estrela Partida exigiu direitos de caça para o Clã das Sombras no nosso território! – explicou Rabo Longo em voz alta para que todos os gatos ouvissem.

– E nos advertiu sobre uma vilã que vai machucar nossas crianças – acrescentou Pele de Salgueiro. – Deve ser Presa Amarela!

Miados de raiva e ansiedade surgiram na multidão.

– Silêncio! – ordenou Estrela Azul, subindo na Pedra Grande.

Instintivamente, os gatos se posicionaram diante da líder.

Um grito agudo e alto fez todos virarem a cabeça na direção da árvore caída onde os anciãos dormiam. Garra de Tigre e Risca de Carvão arrastavam Presa Amarela do ninho com brutalidade. Ela guinchava furiosamente enquanto a puxavam até a clareira, para deixá-la em frente à Pedra Grande. Pata de Fogo sentiu a tensão tomar conta de cada músculo do seu corpo. Sem pensar, agachou, pronto para pular nos perseguidores de Presa Amarela.

– Espere, Pata de Fogo – falou Pata Cinzenta no ouvido do amigo. – Deixe que Estrela Azul cuide disso.

– O que está acontecendo? – perguntou a líder, pulando da Pedra Grande e encarando os guerreiros. – Não dei nenhuma ordem para atacarem nossa prisioneira.

Garra de Tigre e Risca de Carvão imediatamente soltaram Presa Amarela, que se agachou na terra, reclamando e cuspindo.

Pele de Geada, chegando do berçário, abriu caminho e colocou-se à frente dos gatos. – Chegamos a tempo – miou com voz assustada. – Os filhotes estão a salvo!

– Claro que estão! – disparou Estrela Azul.

Pele de Geada pareceu surpresa. – Mas… você vai expulsar Presa Amarela, não vai? – miou, com os olhos azuis arregalados.

– Expulsar Presa Amarela? – disparou Risca de Carvão, mostrando as garras. – Devemos matá-la agora!

Estrela Azul fixou os olhos azuis penetrantes na cara zangada de Risca de Carvão. – E o que ela fez? – a líder perguntou, com uma calma glacial.

Pata de Fogo prendeu a respiração.

– Você estava na Assembleia! Estrela Partida disse que ela… – começou Risca de Carvão.

– Estrela Partida disse apenas que existe uma vilã em algum lugar da floresta – miou Estrela Azul, com a voz tranquila, mas ameaçadora. – Ele não mencionou o nome de Presa Amarela. Os filhotes estão a salvo.

Enquanto estiver no meu clã, ela não será maltratada de forma alguma.

As palavras foram recebidas com silêncio e Pata de Fogo respirou aliviado.

Presa Amarela olhou para Estrela Azul e estreitou os olhos, com respeito – Se você quiser, vou embora agora, Estrela Azul.

– Não é necessário. Você nada fez de errado. Estará a salvo aqui. – A líder olhou para a multidão que rodeava Presa Amarela e miou: – Está na hora de discutirmos a real ameaça ao nosso clã: Estrela Partida. Já começamos a nos preparar para um ataque do Clã das Sombras – Estrela Azul começou. – Vamos continuar com os preparativos e patrulhar nossas fronteiras com mais frequência. O Clã do Vento se foi. O Clã do Rio concedeu direitos de caça para os guerreiros do Clã das Sombras. O Clã do Trovão está sozinho contra Estrela Partida.

Um murmúrio de desconfiança correu entre todos, e Pata de Fogo, ansioso, sentiu a pelagem eriçar.

– Então não vamos concordar com as exigências de Estrela Partida? – miou Garra de Tigre.

– Os clãs nunca partilharam direitos de caça – respondeu Estrela Azul. – Sempre conseguiram se manter nos próprios territórios. Não há razão para isso mudar. – Garra de Tigre aprovou com a cabeça.

– Mas temos condições de nos defender contra um ataque do Clã das Sombras? – perguntou a voz trêmula de Orelhinha. – O Clã do Vento não conseguiu! O Clã do Rio não vai sequer tentar!

Estrela Azul fitou os velhos olhos do guerreiro. – Precisamos tentar. Não vamos desistir do nosso território sem luta.

Por toda a clareira Pata de Fogo viu os gatos demonstrando concordância.

– Irei até a Pedra da Lua amanhã – anunciou Estrela Azul. – Os guerreiros do Clã das Estrelas vão me dar a força de que preciso para liderar o Clã do Trovão nestes tempos sombrios. Vocês todos agora precisam descansar.

Todos temos muito o que fazer quando amanhecer. Agora quero falar com Coração de Leão. – Sem mais nada dizer, virou-se e foi em direção à sua toca.

Pata de Fogo notou o olhar de admiração de alguns felinos quando Estrela Azul mencionou a Pedra da Lua. Os gatos do clã rapidamente se reuniram em grupos, miando baixinho, agitados.

– O que é a Pedra da Lua? – Pata de Fogo perguntou a Pata Cinzenta.

– É uma rocha que fica sob a terra e que brilha no escuro – respondeu o amigo. Sua voz estava rouca de espanto. – Todos os líderes de clã precisam passar uma noite na Pedra da Lua quando são escolhidos. Lá, os espíritos do Clã das Estrelas falam com eles.

– Falam o quê?

Pata Cinzenta franziu a testa. – Não sei – admitiu. – Só sei que os novos líderes precisam dormir perto da pedra e, enquanto dormem, têm sonhos especiais. Depois disso, recebem o dom das nove vidas e o nome de “estrela”.

Pata de Fogo observou Presa Amarela retornar mancando para seu ninho à sombra. Parecia que o tratamento ríspido de Garra de Tigre tinha piorado suas velhas feridas. Ao voltar para a toca dos aprendizes, Pata de Fogo decidiu que, pela manhã, ia pedir a Folha Manchada mais sementes de papoula.

– Então, o que aconteceu? – miou Pata de Poeira, ansioso, colocando a cabeça para fora da toca. Parecia ter esquecido suas diferenças com o novo aprendiz na ansiedade de saber sobre a Assembleia.

– É como Rabo Longo disse. Estrela Partida exigiu direitos de caça… – começou Pata Cinzenta.

Pata de Areia e Pata de Poeira sentaram e ouviram, mas Pata de Fogo observava o acampamento. Via as silhuetas de Estrela Azul e de Coração de Leão que, sentados lado a lado, na toca da líder, conversavam e pareciam preocupados.

Então percebeu a pequena forma de Pata Negra na entrada da toca dos guerreiros, Garra de Tigre ao lado. Viu as orelhas de Pata Negra abaixarem de susto diante da ferocidade do guerreiro, que se debruçava sobre o pequeno gato, duas vezes maior do que ele, com seus olhos e dentes brilhando ao luar. O que estaria dizendo? Pata de Fogo estava quase se aproximando para ouvir quando Pata Negra recuou, virou-se e, correndo, atravessou a clareira.

Pata de Fogo cumprimentou Pata Negra que chegou à toca, mas o amigo mal o notou, entrando sem dizer palavra.

Pata de Fogo se levantou para segui-lo quando viu que Coração de Leão se aproximava.

– Bem – miou o representante do Clã do Trovão, dirigindo-se, em passadas ágeis, até os aprendizes. – Parece que Pata de Fogo, Pata Cinzenta e Pata Negra vão passar a um estágio importante do treinamento.

– Qual? – perguntou, empolgado, Pata Cinzenta.

– Estrela Azul quer que os três a acompanhem na jornada até a Pedra da Lua! – disse Coração de Leão sem deixar de perceber o desapontamento no rosto de Pata de Poeira e de Pata de Areia, pois acrescentou: – Vocês dois não se preocupem; seu dia logo chegará. Por enquanto, o Clã do Trovão precisa da força e da habilidade de vocês no acampamento. Eu também vou ficar aqui.

Pata de Fogo olhou para Coração de Leão e depois para a líder. Ela ia de grupo em grupo de guerreiros, passando instruções. Por que o havia escolhido para a viagem? – pensava.

– Ela quer que vocês descansem agora – continuou Coração de Leão. – Mas, primeiro, devem ir até Folha Manchada pegar as ervas de que vão precisar para a expedição. É um longo caminho. Vão necessitar de alguma coisa para lhes dar força e reduzir seu apetite. Haverá pouco tempo para caçar.

Pata Cinzenta aquiesceu; Pata de Fogo desviou o olhar de Estrela Azul e também meneou a cabeça.

– Onde está Pata Negra? – perguntou Coração de Leão.

– Já está no ninho – respondeu Pata de Fogo.

– Ótimo. Deixem que durma. Vocês podem apanhar as ervas para ele – miou Coração de Leão. – Descansem bem. Partirão ao amanhecer. – Sacudiu a cauda e voltou para a toca de Estrela Azul.

– Bem – miou Pata de Areia. – É melhor então irem falar com Folha Manchada.

Pata de Fogo prestou atenção para ver se notava algum amargor na voz da gata, mas não havia. Não era hora para ciúmes. Todos os gatos do clã pareciam estar unidos contra as ameaças do Clã das Sombras.

Pata de Fogo e Pata Cinzenta foram depressa até a toca de Folha Manchada. O túnel de samambaias estava escuro. Nem mesmo a lua cheia conseguia penetrar na cobertura espessa.

A curandeira parecia esperar por eles quando surgiram na clareira iluminada pela lua. – Vieram buscar as ervas para a viagem – ela miou.

– Sim, obrigado – respondeu Pata de Fogo. – E acho que Presa Amarela precisa de mais sementes de papoula. Parece que as feridas a estão incomodando.

– Vou levar algumas para ela depois que vocês saírem. As ervas da viagem já estão prontas.

Folha Manchada indicou uma pilha de maços de ervas cuidadosamente amarrados. – Há suficiente para os três. A erva verde-escura vai evitar que sintam fome durante a viagem. A outra lhes dará força. Devem comer as duas um pouco antes de sair. Não são tão gostosas quanto presa fresca, mas o sabor não vai durar muito tempo.

– Obrigado, Folha Manchada – miou Pata de Fogo, inclinando-se para pegar um dos pacotes. Quando ele abaixou a cabeça, Folha Manchada se esticou e delicadamente esfregou o focinho na bochecha do aprendiz. Pata de Fogo sentiu seu cheiro doce e quente e ronronou em agradecimento.

Pata Cinzenta pegou os outros dois pacotes e os amigos voltaram através do túnel.

– Boa sorte! – desejou a curandeira. – Viajem em paz!

Chegaram à entrada da toca dos aprendizes e largaram os pacotes.

– Espero que essas ervas não tenham um gosto ruim demais! – murmurou Pata Cinzenta.

– Deve ser uma longa caminhada até a Pedra da Lua. Nunca nos deram ervas antes. Você sabe onde é? – perguntou Pata de Fogo.

– Além do território do clã, em um lugar chamado Pedras Altas. Fica sob o chão, em uma caverna que chamamos Boca da Terra.

– Você nunca esteve lá? – perguntou Pata de Fogo, impressionado por Pata Cinzenta saber tanto a respeito daquele lugar misterioso.

– Nunca, mas todos os aprendizes precisam fazer a viagem antes de se tornarem guerreiros.

Esse pensamento fez os olhos de Pata de Fogo brilharem de empolgação, e ele não pôde evitar uma certa altivez.

– Não eleve muito suas esperanças. Ainda temos de acabar o treinamento – disse Pata Cinzenta, como se lesse os pensamentos do amigo.

Através da coberta de folhas, Pata de Fogo olhou para as estrelas no céu escuro. A lua alta tinha passado. – Precisamos dormir um pouco – miou.

Mas pensou que seria muito difícil pegar no sono com a aventura do dia seguinte rodando na cabeça. Ir à Assembleia, fazer a viagem até a Pedra da Lua – como parecia distante agora a vida de gatinho de gente!