Na Floresta
Capítulo 18
– VOCÊ ESTÁ CONTANDO A Pata de Fogo como protegi Rabo Vermelho?
Pata de Fogo sentiu um arrepio gelado ondear a pelagem atrás do pescoço.
Pata Negra ficou agitado, com os olhos arregalados de medo. Garra de Tigre debruçou-se sobre eles, mostrando os dentes em um rosnado ameaçador.
Pata de Fogo deu um pulo e encarou o novo representante. – Ele estava dizendo que gostaria que você tivesse ficado aqui para tomar conta de Coração de Leão também, só isso! – miou, raciocinando rápido.
O guerreiro olhou de um para o outro e se afastou lentamente. Os olhos verdes de Pata Negra nublaram-se de pavor; ele começou a tremer sem controle.
– Pata Negra? – miou, alarmado, Pata de Fogo.
Mas o amigo nem sequer levantou o olhar. Com a cabeça baixa, aproximou-se lentamente de Pata Cinzenta e agachou-se perto dele, apertando o corpo magro na pelagem espessa do companheiro, como se, de repente, sentisse frio.
Pata de Fogo olhou desolado para os dois amigos, aconchegados ao lado do corpo de Coração de Leão. Sem saber o que fazer, também se aproximou e juntou-se aos outros aprendizes, pronto para passar ali toda a noite.
À medida que a lua se movia no céu, os outros felinos se uniram na vigília. Por último chegou Estrela Azul, quando o acampamento já estava calmo e tranquilo. Em silêncio, sentou um pouco afastada, fitando o representante morto com uma expressão tão triste que Pata de Fogo teve de desviar o olhar.
Ao amanhecer, um grupo de anciãos foi buscar o corpo de Coração de Leão para levá-lo ao local do enterro. Pata Cinzenta os seguiu para ajudar a cavar a sepultura onde o grande guerreiro iria descansar.
Pata de Fogo bocejou e se espreguiçou. Estava gelado até os ossos. A estação das folhas caídas se aproximava e a floresta estava coberta de neblina; mas, acima das folhas, o aprendiz viu o céu rosado do amanhecer.
Observou Pata Cinzenta desaparecer com os anciãos na vegetação cheia de orvalho.
Pata Negra levantou-se e voltou correndo para a toca dos aprendizes.
Pata de Fogo o seguiu devagar e o encontrou enroscado, com o focinho sob a cauda, como se dormisse.
Pata de Fogo estava cansado demais para falar. Ajeitou o musgo na cama e se acomodou para um longo sono.
– Levantem-se!
Pata de Fogo escutou Pata de Poeira chamando na entrada da toca e abriu os olhos. Pata Negra já estava sentado, com as orelhas eriçadas. Pata Cinzenta, a seu lado, não parava de se mexer. Pata de Fogo ficou surpreso ao se deparar com a forma cinza e familiar. Não ouvira o gato voltar depois do enterro de Coração de Leão.
– Estrela Azul convocou outra reunião – avisou Pata de Poeira, abaixando-se e saindo pelas samambaias.
Os três aprendizes rastejaram para fora da toca quentinha. O sol já não estava a pino e o ar se tornara mais frio. Pata de Fogo tiritava, a barriga roncando. Não se lembrava da última vez que tinha comido e imaginou se teria oportunidade de caçar hoje.
Pata de Fogo, Pata Cinzenta e Pata Negra rapidamente se juntaram à multidão reunida sob a Pedra Grande.
Garra de Tigre, ao lado de Estrela Azul, falava: – Durante a batalha, nossa líder perdeu outra vida. Agora que lhe sobraram apenas quatro das nove vidas, vou nomear um guarda-costas para acompanhá-la o tempo todo.
Nenhum gato tem permissão de se aproximar se os guardas não estiverem presentes. – Os olhos cor de âmbar do representante piscaram para Pata Negra e depois para o resto da multidão. – Risca de Carvão e Rabo Longo – continuou, desviando o olhar para os guerreiros –, vocês serão os guarda-costas de Estrela Azul.
Os dois gatos concordaram e sentaram, imponentes.
Estrela Azul falou, e sua voz soou delicada e calma depois do grito de comando do representante: – Obrigada, Garra de Tigre, por sua lealdade.
Mas o clã precisa compreender que continuo aqui, a apoiá-lo. Nenhum gato deve hesitar em me procurar, e fico feliz em falar com qualquer um, estando ou não com guarda-costas. – Os olhos faiscaram rapidamente na direção do representante. – Como determina o código dos guerreiros, a segurança do clã é mais importante do que a de qualquer membro individualmente. – Fez uma pausa e seu olhar cor do céu deteve-se rapidamente em Pata de Fogo. – E agora quero convidar Presa Amarela para juntar-se ao Clã do Trovão.
Miados de surpresa se elevaram entre alguns guerreiros. Estrela Azul olhou para Pele de Geada, que acenou, concordando. As outras rainhas olhavam em silêncio.
A líder continuou: – Suas ações na noite passada provaram que ela é corajosa e leal. Se ela o desejar, vamos recebê-la como membro efetivo deste clã.
De onde estava, à beira da multidão, Presa Amarela olhou para a líder do clã e murmurou: – Estou honrada, Estrela Azul, e aceito o convite.
– Ótimo – miou a líder com a voz firme, indicando que o assunto estava encerrado.
Pata de Fogo ronronou de prazer e deu uma cutucada de leve em Pata Cinzenta. Ficou surpreso ao perceber quanto significava para ele a demonstração pública de confiança que Estrela Azul concedera a Presa Amarela.
A líder voltou a falar. – Na noite passada, conseguimos nos defender com sucesso do ataque do Clã das Sombras, mas eles ainda são uma grande ameaça. O trabalho de reparo que começamos nesta manhã vai continuar.
As fronteiras serão patrulhadas o tempo todo. Não devemos achar que a guerra acabou.
Garra de Tigre ficou de pé, com a cauda levantada, e olhou para os gatos reunidos abaixo. – O Clã das Sombras atacou enquanto estávamos fora do acampamento – grunhiu. – Escolheram bem o momento. Como sabiam que o acampamento estava indefeso? Eles têm olhos aqui dentro?
Pata de Fogo congelou, horrorizado, quando o guerreiro fixou o olhar cortante em Pata Negra. Alguns felinos seguiram o olhar de Garra de Tigre e fitaram, confusos, o aprendiz, que olhava para o chão, movimentando as patas, nervoso.
O representante continuou: – Ainda falta um pouco para o pôr do sol.
Precisamos nos concentrar em reconstruir o acampamento. Enquanto isso, se suspeitarem de alguma coisa, ou de alguém, falem comigo. Estejam certos de que qualquer coisa que me disserem será mantida em sigilo. – Fez um aceno, dispensando o clã; voltou-se e começou a falar baixinho com Estrela Azul.
Os gatos se dispersaram e começaram a se movimentar pelo acampamento, avaliando os danos e formando grupos de trabalho.
– Pata Negra! – chamou Pata de Fogo, ainda chocado com a sugestão maldosa de Garra de Tigre de que o próprio aprendiz teria traído o clã. Mas Pata Negra já tinha ido embora. O amigo o viu oferecendo ajuda a Meio Rabo e a Nevasca, antes de se apressar a catar galhos para tapar os buracos no muro da fronteira. Era evidente que Pata Negra não queria falar.
– Vamos ajudá-lo – sugeriu Pata Cinzenta, com a voz desanimada e exausta e os olhos opacos.
– Vá você. Vou daqui a pouco – respondeu Pata de Fogo. – Primeiro quero ver se está tudo bem com Presa Amarela depois da luta com Pé Preto.
O gato procurou Presa Amarela no ninho, perto da árvore caída. Ela estava esticada na sombra, com um olhar pensativo.
– Pata de Fogo – ronronou ao vê-lo. – Fico feliz que tenha vindo.
– Queria saber se está tudo bem com você.
– Os hábitos antigos duram mais do que os cheiros antigos, não é? – miou Presa Amarela, com um lampejo de sua velha espirituosidade.
– Acho que sim – confessou o aprendiz. – Como se sente?
– Essa antiga ferida da perna voltou a doer, mas vou ficar bem.
– Como conseguiu expulsar Pé Preto? – perguntou Pata de Fogo, incapaz de esconder a admiração.
– Pé Preto é forte, mas não é um lutador inteligente. Foi mais desafiador lutar com você.
Pata de Fogo procurou em vão o brilho de humor nos olhos da gata.
Ela continuou: – Eu o conheço desde que era filhote. Ele não mudou. Tem energia, mas não cérebro.
Pata de Fogo sentou a seu lado e ronronou: – Não me surpreendeu o convite de Estrela Azul para você se juntar ao clã. Você realmente provou sua lealdade na noite passada.
Presa Amarela mexeu a cauda. – Um gato realmente leal talvez lutasse ao lado do seu clã de origem.
– Se fosse assim, eu estaria lutando pelos meus Duas-Pernas! – argumentou Pata de Fogo.
Presa Amarela olhou-o com admiração. – Disse-o bem, meu jovem. Mas você sempre foi um filósofo.
Pata de Fogo ficou triste, pois lembrou-se de que Coração de Leão dizia a mesma coisa. Ele perguntou a Presa Amarela: – Você sente falta do Clã das Sombras?
A gata pestanejou e finalmente miou. – Sinto falta do antigo Clã das Sombras. De como costumava ser.
– Até Estrela Partida se tornar líder? – perguntou, curioso, o aprendiz.
– É – admitiu Presa Amarela, com suavidade. – Ele mudou o clã. – A gata soltou uma risada ofegante. – Ele sempre teve lábia. Se quisesse, poderia fazer você acreditar que um camundongo é um coelho. Talvez por isso eu fosse tão cega às suas falhas – disse a gata, com o olhar distante, perdida nas lembranças.
– Aposto que você não adivinha quem é o novo curandeiro do Clã das Sombras! – miou Pata de Fogo, lembrando-se, de repente, do que soubera na Assembleia. Parecia que muitas luas haviam se passado.
Suas palavras pareceram trazer Presa Amarela ao presente. – Não me diga que é Nariz Molhado? – ela miou.
– Acertou!
A gata balançou a cabeça. – Mas ele não consegue curar o próprio resfriado!
– Foi o que Pata Cinzenta disse! – Por um momento, ronronaram juntos, divertidos. O aprendiz se levantou. – Vou deixá-la descansar agora. Se precisar de mais alguma coisa hoje, é só chamar.
Presa Amarela levantou a cabeça. – Só mais uma coisa, Pata de Fogo; soube que você esteve envolvido em uma luta com ratos. Eles o feriram?
Está tudo bem. Folha Manchada tratou dos meus ferimentos com cravo-da-índia.
– Às vezes, cravo-da-índia não basta para mordidas de ratos. Encontre uma moita de alho selvagem e role em cima dela. Acho que você a encontrará não muito longe da entrada do acampamento. Isso vai extrair qualquer veneno que os ratos tenham deixado. Mas – acrescentou secamente – não creio que seus colegas de toca venham a me agradecer pelo conselho!
– Não faz mal. Eu agradeço! Obrigado, Presa Amarela! – o aprendiz ronronou.
– Vá com cuidado, meu jovem! – A gata manteve o olhar por um instante; então, descansou o queixo sobre as patas dianteiras e fechou os olhos.
Pata de Fogo deslizou sob os galhos que rodeavam o ninho de Presa Amarela e se dirigiu ao túnel de tojos, à procura de alho selvagem. O sol se punha e ele ouviu as rainhas colocando os filhotes para dormir.
– Aonde você pensa que vai? – grunhiu uma voz saída das sombras. Era Risca de Carvão.
– Presa Amarela me disse para ir…
– Não receba ordens daquela vilã! Vá ajudar os outros com os consertos.
Nenhum gato deve deixar o acampamento esta noite! – ordenou o guerreiro, chicoteando a cauda de um lado para o outro.
– Está bem, Risca de Carvão – concordou o aprendiz, submisso, abaixando a cabeça. – Saco de Carvão – murmurou baixinho, dando a volta e dirigindo-se aos limites do acampamento, onde viu Pata Cinzenta e Pata Negra ocupados, remendando um grande buraco no muro de vegetação.
– Como está Presa Amarela? – perguntou Pata Cinzenta quando Pata de Fogo se aproximou.
– Está bem. Aconselhou-me a rolar em alho selvagem para neutralizar as mordidas de rato. Estava saindo para achar a moita, mas Risca de Carvão me mandou ficar no acampamento – explicou Pata de Fogo.
– Alho selvagem? – miou Pata Cinzenta. – Gostaria de experimentar.
Minha perna ainda está latejando.
– Eu podia sair de fininho e trazer um pouco – ofereceu-se Pata de Fogo, magoado com o modo grosseiro como Risca de Carvão o tratara e gostando da oportunidade de desforra. – Ninguém vai perceber se eu passar por esse buraco aqui. Vai demorar só uns dois pulos de coelho.
Pata Negra franziu a testa, mas Pata Cinzenta concordou num sussurro: – Vamos lhe dar cobertura.
Pata de Fogo agradeceu com o focinho e pulou pelo vão no muro.
Fora do acampamento, dirigiu-se para a moita de alho selvagem, guiado facilmente pelo alerta do cheiro forte. A lua subia no céu cor de violeta e o sol mergulhava no horizonte. Uma brisa fria fazia ondular a pelagem de Pata de Fogo. De repente ele sentiu um cheiro de gato trazido pelo vento.
Com cuidado, farejou. Seria o Clã das Sombras? Não, apenas Garra de Tigre e outros dois felinos. Voltou a farejar o ar. Risca de Carvão e Rabo Longo! O
que estariam fazendo ali?
Curioso, o aprendiz colocou-se em posição de tocaia. Esgueirou-se pela vegetação, pata ante pata, mantendo-se a favor do vento para não ser detectado. Os guerreiros estavam na sombra de uma moita de samambaias, com as cabeças bem próximas. Logo Pata de Fogo estava perto bastante para ouvi-los.
– O Clã das Estrelas é testemunha de que meu aprendiz, desde o início, mostrou poucas possibilidades, mas nunca esperei que se tornasse um traidor! – grunhiu Garra de Tigre.
Os olhos de Pata de Fogo se arregalaram, e ele ficou tão espantado que sua pelagem se arrepiou. Pelo visto, Garra de Tigre pretendia fazer mais do que apenas acusar Pata Negra de trair o clã!
– Por quanto tempo você disse que Pata Negra ficou desaparecido durante a viagem até a Boca da Terra? – perguntou Risca de Carvão.
– O suficiente para ter ido até o acampamento do Clã das Sombras e voltar – foi a resposta ameaçadora do representante.
O pelo da cauda de Pata de Fogo se eriçou de raiva: Isso é impossível! Ele esteve conosco o tempo todo! , pensou.
A voz de Rabo Longo, agitada, tinha agora um tom mais alto: – Ele deve ter contado a eles que a líder do Clã do Trovão e o guerreiro mais forte tinham saído do acampamento. Por que mais atacariam bem naquela hora?
– Somos o último clã a resistir ao Clã das Sombras. Precisamos permanecer fortes – ronronou Garra de Tigre, num tom de voz agora aveludado. Esperou em silêncio por uma resposta.
Foi Risca de Carvão que se apressou a responder, como se ainda fosse aprendiz de Garra de Tigre e estivesse respondendo a uma pergunta sobre técnicas de caçada. Ao ouvir suas palavras, Pata de Fogo ficou sem ar, de tanto medo. – E o clã estaria em melhor situação sem um traidor como Pata Negra.
– Devo dizer que concordo com você, Risca de Carvão – murmurou Garra de Tigre, com a voz grave de emoção. – Mesmo sendo meu próprio aprendiz… – o guerreiro desconversou, como se estivesse por demais aborrecido para continuar.
Pata de Fogo já tinha ouvido bastante. Esquecendo totalmente o alho selvagem, voltou na direção do acampamento, o mais rápida e silenciosamente possível.
Decidiu não contar a Pata Negra o que tinha ouvido. Ele ficaria apavorado. Pata de Fogo pensava rapidamente. O que poderia fazer? Garra de Tigre era o representante do clã, um grande guerreiro, popular entre os felinos. Ninguém daria importância às acusações feitas por um aprendiz.
Mas o amigo estava em grande perigo. Pata de Fogo sacudiu-se, tentando colocar as ideias em ordem. Só havia uma coisa a fazer: contar a Estrela Azul tudo o que ouvira e tentar convencê-la de que estava dizendo a verdade!