Na Floresta
Capítulo 23
PATA DE FOGO CONSEGUIU identificar a presença de diversos gatos na patrulha, andando rápido. Não pôde reconhecer, no entanto, os odores individuais dos felinos no meio dos odores terrais do brejo, mas sabia que se tratava do Clã do Trovão. Prendeu a respiração quando ouviu as passadas se aproximarem e se afastarem rápido.
– Vamos mesmo tentar resgatar os filhotes sozinhos? – disse, baixinho, Pata Cinzenta.
Presa Amarela respondeu primeiro: – Talvez consiga alguma ajuda dentro do Clã das Sombras. Nem todos os gatos apoiam Estrela Partida.
Pata de Fogo retesou as orelhas, e Pata Cinzenta, surpreso, movimentou a cauda.
– Quando se tornou líder – explicou Presa Amarela –, Estrela Partida obrigou os anciãos a deixarem a segurança do interior do acampamento.
Tiveram de ir para a fronteira e caçar por si mesmos. São gatos que cresceram de acordo com o código dos guerreiros. Alguns deles podem nos ajudar.
Pata de Fogo fitou com firmeza os velhos olhos, pensando com rapidez. – E posso conseguir convencer o grupo de caça do Clã do Trovão a nos ajudar também – miou. – Se conseguir falar com eles antes que vejam Presa Amarela, posso fazê-los acreditar na versão dela. Pata Cinzenta, espere no freixo morto, onde sentimos cheiro de sangue dos filhotes, até que um de nós retorne.
Pata Cinzenta parecia preocupado. – Mas você acredita realmente que Presa Amarela vai voltar com ajuda? – murmurou para Pata de Fogo.
– Vocês têm de acreditar em mim – grunhiu Presa Amarela. – Vou voltar.
Pata Cinzenta olhou para Pata de Fogo, que concordou com a cabeça.
Sem mais dizer, Presa Amarela passou correndo pelos dois aprendizes e desapareceu nos arbustos.
– Será que fizemos a coisa certa? – perguntou Pata Cinzenta.
– Não sei – Pata de Fogo admitiu. – Se fizemos, somos heróis e os filhotes estão salvos. Se estivermos errados, podemos nos considerar mortos.
Pata de Fogo correu atrás da patrulha, perto das amoreiras, passando por tojos e no meio de urtigas. A trilha era fácil de seguir. Os zangados felinos do Clã do Trovão não estavam tentando disfarçar sua presença no território do Clã das Sombras.
No céu, a espessa camada de nuvens tinha finalmente se dissipado. Além das copas das árvores, o Tule de Prata brilhava no céu noturno. A lua acabava de nascer, mas sua luz fria não penetrava na bruma que tomava conta da vegetação sombria.
Pata de Fogo se concentrou no odor que havia adiante. Sentiu o cheiro de Nevasca. Voltou a farejar. Garra de Tigre não estava com eles. Correu para alcançá-los e, detendo-se de repente, parou logo atrás do bando do Clã do Trovão.
Os guerreiros se viraram e o olharam de forma penetrante, com a pelagem arrepiada e as orelhas agressivamente abaixadas. Risca de Carvão estava com eles, além da jovem Pelo de Rato e do guerreiro malhado Vento Veloz. Pelo de Rato não era a única representante feminina na patrulha.
Pele de Salgueiro também estava lá.
– Pata de Fogo! – grunhiu Nevasca. – O que está fazendo aqui?
Pata de Fogo arfou, procurando ar. – Estrela Azul me mandou! – arquejou. – Ela queria que eu encontrasse Presa Amarela antes de…
Nevasca o interrompeu. – Ah! Estrela Azul disse que eu podia encontrar um amigo aqui. Agora compreendo o que ela quis dizer – miou, olhando intrigado para o aprendiz.
– Garra de Tigre está por perto? – perguntou Pata de Fogo, sentindo um formigamento de orgulho quando os gatos trocaram olhares.
Nevasca olhou curiosamente para Pata de Fogo. – Estrela Azul insistiu que era necessário ele ficar no acampamento para proteger os outros filhotes.
Pata de Fogo logo entendeu, aliviado. Miou com urgência: – Nevasca, preciso de sua ajuda. Posso levar você até os filhotes. Pata Cinzenta está esperando por mim. Planejamos resgatá-los esta noite. Vocês vêm conosco?
– Claro que sim! – Os guerreiros agitaram as caudas, empolgados.
– Isso significa atacar de surpresa o acampamento do Clã das Sombras – Pata de Fogo advertiu.
– Você pode nos guiar até lá? – Vento Veloz perguntou, ansioso.
– Não, mas Presa Amarela pode. E ela prometeu trazer ajuda de seus antigos aliados no acampamento.
Pele de Rato o encarou e, zangada, balançou a cauda. – Você achou Presa Amarela? – sibilou.
– Não estou entendendo – miou Nevasca, confuso. – A traidora vai ajudar a resgatar os filhotes que roubou?
Pata de Fogo respirou fundo para se acalmar e então, mirando firmemente os olhos de Nevasca, explicou: – Presa Amarela não os levou.
Nem matou Folha Manchada. Ela quer nos ajudar a resgatar os filhotes.
Nevasca devolveu o olhar e pestanejou. – Vá na frente, Pata de Fogo – ordenou.
Pata Cinzenta estava esperando perto do freixo, andando sem parar à volta do tronco podre. Parou assim que viu a patrulha surgir da bruma e estremeceu os bigodes numa saudação.
– Algum sinal de Presa Amarela? – perguntou Pata de Fogo.
– Ainda não – respondeu Pata Cinzenta.
– Não sabemos qual é a distância para o acampamento do Clã das Sombras – Pata de Fogo apressou-se em dizer, ao ver Nevasca se retesar a seu lado. – Ela pode estar voltando neste momento.
– Ou pode estar alegremente trocando lambidas com seus camaradas do Clã das Sombras enquanto ficamos aqui como bobos esperando para cair numa emboscada! – miou Pata Cinzenta.
Nevasca observou os dois aprendizes. As orelhas do guerreiro se mexiam, nervosas. – Pata de Fogo? – cobrou.
– Ela vai voltar – prometeu o aprendiz.
– Disse-o bem, jovem Pata de Fogo – Presa Amarela surgiu de trás do freixo e sentou-se. – Você não é o único que consegue chegar de mansinho, sem ninguém perceber – ela miou para Pata de Fogo. – Lembra-se do dia em que nos conhecemos? Daquela vez você também estava olhando para a direção errada.
Outros três felinos do Clã das Sombras saíram de trás da árvore e se colocaram calmamente de ambos os lados de Presa Amarela. Os gatos do Clã do Trovão se arrepiaram, alertas e desconfiados.
Os gatos dos dois clãs se olharam em silêncio. Pata de Fogo estava inquieto e desconfortável, sem saber direito o que fazer. Afinal, um dos felinos do Clã das Sombras, um gato cinza, falou. Seu corpo era comprido e magro, a pelagem opaca. – Viemos para ajudá-los, não para lhes fazer mal.
Vocês vieram por causa dos filhotes; vamos ajudar a resgatá-los.
– O que vocês ganham com isso? – perguntou Nevasca, desconfiado.
– Queremos ajuda para nos livrar de Estrela Partida. Ele quebrou o código dos guerreiros e o Clã das Sombras está sofrendo.
– Então é simples assim? – grunhiu Vento Veloz. – Basta chegarmos ao seu acampamento, pegar os filhotes, matar seu líder e voltar para casa.
– Vocês não vão encontrar tanta resistência quanto pensam – murmurou o gato cinza.
Presa Amarela se levantou. – Deixe-me apresentar-lhes meus velhos amigos – ela miou, abrindo caminho entre os gatos do Clã das Sombras.
Colocou-se à frente do gato cinza. – Este é Pelo de Cinzas, um dos anciãos do clã.
– Este é Manto da Noite, um guerreiro que já era experiente antes de Estrela Afiada ser morto. – Ela deu uma volta ao redor de um felino preto maltratado.
– E esta é uma das nossas rainhas mais velhas, Nuvem da Aurora. Dois de seus filhotes morreram ao expulsar o Clã do Vento.
Nuvem da Aurora, uma pequena gata malhada, cumprimentou-os com um miado e disse: – Não quero perder nenhum outro filhote.
Nevasca lambeu rapidamente o peito para abaixar a pelagem. – Vê-se que são guerreiros competentes, já que conseguiram nos alcançar sem que notássemos. Mas são suficientes? Precisamos saber o que vamos enfrentar quando atacarmos o acampamento do Clã das Sombras.
– Os velhos e os doentes estão aos poucos morrendo de fome – miou Pelo de Cinzas. – As perdas entre os filhotes são mais do que podemos suportar.
– Mas se a situação está tão ruim – disse, de repente, Risca de Carvão –, como o Clã das Sombras tem demonstrado tanta força ultimamente? E por que Estrela Partida continua como líder?
– Estrela Partida está rodeado por um pequeno grupo de guerreiros de elite – respondeu Pelo de Cinzas. – São os que devemos temer, porque morreriam por ele sem pestanejar. Os outros guerreiros obedecem às suas ordens apenas porque têm medo. Lutarão ao lado dele enquanto acreditarem que Estrela Partida vai vencer. Se acharem que vai ser derrotado…
– Vão lutar contra ele, não por ele! – Risca de Carvão completou, indignado, a frase do ancião. – Que tipo de lealdade é essa?
A pelagem dos felinos do Clã das Sombras começou a se eriçar.
– Nosso clã não foi sempre assim – interrompeu Presa Amarela. – Quando Estrela Afiada o liderava, éramos temidos por nossa força. Mas, naquele tempo, a força vinha do código dos guerreiros e da lealdade ao clã, não de medo e desejo de sangue – A velha curandeira suspirou. – Se ao menos Estrela Afiada tivesse vivido mais tempo…
– Como ele morreu? – perguntou Nevasca, curioso. – Houve muitos boatos nas Assembleias, mas ninguém parecia saber ao certo.
Os olhos de Presa Amarela se nublaram de pesar. – Ele caiu numa emboscada de uma patrulha de guerreiros de outro clã.
Nevasca assentiu com um movimento de cabeça. – É o que a maioria dos gatos andava pensando. Realmente são tempos difíceis estes em que os líderes são atacados no escuro, não numa batalha aberta e honrada.
Pata de Fogo franziu o cenho, imaginando prontamente diferentes planos de luta. – Há alguma possibilidade de pegarmos os filhotes sem alertar todo o clã? – perguntou.
Nuvem da Aurora respondeu: – São guardados de perto. Estrela Partida está esperando que o Clã do Trovão tente resgatá-los. Vocês não conseguirão pegá-los em segredo. A única esperança é o ataque aberto.
– Então devemos concentrar o ataque em Estrela Partida e em sua segurança interna – miou Nevasca.
Presa Amarela tinha uma sugestão. – Os guerreiros do Clã das Sombras me levariam até o acampamento. Poderiam dizer que me capturaram.
Precisamos ter certeza de que Estrela Partida e seus guerreiros estarão fora das tocas. A notícia da minha captura vai levá-los até a clareira.
Quando estiverem todos a céu aberto, darei o sinal para atacarem.
Nevasca ficou em silêncio por um instante. Finalmente aquiesceu, mostrando um semblante sério quando encarregou seus guerreiros do ataque. – Muito bem, Presa Amarela – miou. – Por favor, leve-nos ao acampamento do Clã das Sombras.