Não Pare!
Capítulo 8
Acordei com o barulho de motocicletas acelerando na minha rua.
— Ah, não! — Eu havia esquecido de programar o despertador. Não acreditei que chegaria novamente atrasada no colégio. Meu corpo estava todo dolorido e a sensação era de que eu tinha acabado de deitar, ou melhor, que eu tinha sido atropelada por um caminhão.
“Caminhão”?
Dei um pulo da cama.
— O quê?! — exclamei assustada com o que acabava de constatar: eu estava em casa, mais precisamente no meu quarto, e usava minha camisola de sempre. Checklist: boca sem nenhum machucado e a ferida no ombro direito parecia bem menor, apesar de superdolorida. — Impossível!
Atordoada, procurei pelas minhas roupas encharcadas do temporal da véspera. E lá estavam elas. Só que bem sequinhas e, como eu as deixava sempre, largadas sobre o pufe da escrivaninha.
— Não pode ser! — Eu não podia acreditar naquilo. Muito clichê. Alguém quer que eu acredite que estou ficando doida, mas não vou cair neste joguinho. A noite macabra de ontem aconteceu! Eu sei que aconteceu… Ou terá sido imaginação minha? Poderia minha mente ter passado para um nível doentio mais avançado do que apenas calafrios, tonturas ou perda de visão? Poderia ela ter, simplesmente, apagado? Ou melhor, produzido situações imaginárias? Não! Eu não estou ficando maluca! Foi então que me lembrei da parca. Sim, a parca! Ela tinha sido rasgada quando a janela do carro de Phill explodiu. Procurei o quarto todo e nem sinal dela. A dúvida crescendo em meu peito. Eu nunca a levava para o quarto mesmo. Sempre a deixava no cabideiro do hall de entrada. Com o coração acelerado, fui até a sala. Meus olhos procuraram pelo cabideiro e não havia nada nele. Então eu a vi, caída no chão. Corri até ela e a segurei em minhas mãos. Completamente seca. Inconformada, procurei pelo rasgo no ombro direito. Só um pequeno furinho. O furo que o cabo da sombrinha havia feito? Afundei o rosto em minhas mãos e ia desatar a chorar quando o telefone começou a tocar.
Stela?!
Nova taquicardia.
Onde estava minha mãe? Meu Deus, meu Deus! Eu não conseguia me lembrar de nada! Aliás, eu me lembrava de tudo. De tudo até… Até de que Richard tentara me matar. Ou não?
O telefone continuava tocando. Ao lado dele um pedaço de papel se destacava. Caminhei trôpega até ele e, ao ver o que estava escrito, desabei atordoada no sofá ao lado. Era um bilhetinho de Stela.
Minha querida,
O diretor da empresa praticamente me ordenou que antecipasse em uma semana a compra da nova resina de base da lente especial que estamos produzindo. Disse que o fornecedor ameaçou aumentar consideravelmente seus valores caso esta compra não fosse efetivada com urgência, logo, tive que viajar hoje mesmo. O lado bom é que volto depois de amanhã! Não consegui falar com você. Provavelmente você não carregou o seu celular de novo. Ou será que estava desligado? Quantas vezes devo lhe dizer que isto me preocupa muito? Ligue para mim assim que chegar, tá?
Beijos,
Mamãe.
— Pronto! Ela já deve ter infartado! Deve ser algum Hans comunicando o falecimento dela!
Minha mãe viaja mensalmente para a Alemanha, sede da sua empresa, a Fleischer & Koch. Ela é responsável pela compra da matéria-prima das lentes e, em especial, pelo controle de produção.
A campainha do telefone berrava agora. Olhei o identificador de chamadas: Stela. Que desculpa eu daria por não ter telefonado para ela? Estava tão tonta que não sabia nem por onde começar. O telefone gritando nos meus ouvidos conseguia me deixar à beira de um ataque de nervos. Droga!
— Oi, mãe. Desculpa, eu ia te ligar, mas eu me esqueci e… — fui interrompida com Stela tão perdida quanto eu.
— De que você está falando, filha?
— Eu não te liguei ontem porque eu trabalhei até tarde e…
— Que brincadeira é essa? — a voz dela estava amistosa.
— Ãh?
— Já sei. Não conseguiu aguardar pela surpresa, né?
— Eu…
— Eu também não — ela se atropelava. Estava tão eufórica, que mal percebera meu estado catatônico. — Depois que a gente se falou ontem à noite, fiquei pensando no assunto e resolvi ligar para lhe contar logo. — E fez uma pausa. — Aliás, a senhorita não está atrasada para o colégio? Pensei que fosse deixar o recado na secretária eletrônica.
Congela a cena.
“Depois que a gente se falou ontem à noite?”
Então eu havia ligado para ela? Tínhamos até conversado sobre surpresas e etc? Ah, não! Bob tinha razão. Eu não estava nada bem.
— Nina?
— Ãh? Ah! Eu perdi a hora, mãe.
— Sei. Você está bem?
Ela captou meu estado de perturbação.
— Claro! — soltei tensa. — Qual era a surpresa?
— Bom, uma você já sabe.
Não. Eu nem imaginava.
— A outra é uma viagem para Madri. Você sempre quis assistir a uma tourada e… Nina? Tudo bem mesmo?
— Sim, mãe. Estou um pouco indisposta. Acho que dormi mal. Adorei a surpresa — disse dissimulada.
— Você está se alimentando direito?
— Estou. Tenho que ir, mãe.
— Ok. Até amanhã, meu amor.
Devido ao me atraso e à minha cabeça em frangalhos, fui uma das últimas a concluir a prova de Biologia. A turma já aguardava a aula seguinte no anfiteatro anexo. Quando cheguei, o murmurinho era frenético.
Caramba! Será que todo mundo também se deu mal como eu?
Observei com mais calma e percebi que tal alvoroço não era generalizado. Apenas as garotas estavam em polvorosa. Um frenesi feminino.
— Ai! — sem que eu percebesse sua aproximação, Melly cutucou meu ombro ferido por debaixo da jaqueta jeans. Vi estrelas.
— O que foi? — xeretou indiscreta.
— Machuquei o ombro.
— Como? — Melly e sua inabalável curiosidade. Para se tornar uma exímia fofoqueira, faltava-lhe pouco.
— Num acidente.
— Que acidente? — interrogava-me no seu tradicional jeitão escandaloso.
— Eu me machuquei quando a sombrinha se partiu ao meio naquela ventania horrorosa. — Quem foi o causador: a sombrinha ou a explosão? Nem eu sabia. Real e imaginário estavam entrelaçados em minha mente perturbada. Mas eu precisava tirar o episódio da véspera a limpo. — Melly, por falar em acidente, você ouviu alguma coisa sobre um acidente terrível em um túnel aqui de Manhattan?
— Quando aconteceu?
— Acho que foi ontem.
— Não. Soube de um túnel que ficou temporariamente fechado, mas era para obras ou algo assim. Por quê?
— Nada — e, disfarçando, acrescentei: — Eu preciso entregar uma anotação para o Phill. Você o viu por aí?
— Ele não veio hoje.
— Não?! — exclamei acelerada.
— Não. Ele viajou com os pais. — E mordiscou o lábio inferior. — O que é que está havendo, Nina? Por que você está tão estranha?
— Eu? Que nada, bobagem sua.
Melly desconfiara de alguma coisa, mas não teve tempo de matutar, atordoada pela animada aproximação de uma garota gordinha que acabava de chegar do ginásio. Eu não a conhecia, mas sabia que ela era da nossa turma.
— Você viu, Melly?
— Claro! — respondeu ela cheia malícia. — Um espetáculo!
Um assovio altíssimo rasgou o anfiteatro.
— O que é que está havendo? — indaguei, mas ela nem chegou a me escutar.
— Vem cá, Nina! — Agitada, Melly me conduziu ao grupinho de meninas sentado mais ao fundo.
— Eles se pegaram pra valer? — perguntava uma delas supercuriosa.
— Não. Mas foi por pouco. Se não fosse a Sra. Norma, eles teriam se engalfinhado lá mesmo.
— Que cicatrizes sinistras eram aquelas? — arfou Susana.
“Cicatrizes”?
— Que corpo magnífico era aquele? — acrescentou Clarice agitada.
— E o rosto mal encarado então! — gemeu a gordinha.
— Posso saber sobre o que vocês estão falando, afinal de contas? — rugi.
Elas finalmente perceberam a minha presença.
— Menina, você perdeu o maior babado dos últimos tempos! — soltou Clarice.
— O que houve?
— Acabou de acontecer. Richard e Kevin quase se pegaram lá no ginásio.
Eu perdi a cor e engoli em seco.
— Ãh?! Kevin? Ele… — travei.
— Fique tranquila. Não chegou a acontecer nada com ele.
Bendita interrupção de Melly.
— Como nada? — indagou Clarice. — Os dois acabaram de chegar ao colégio e já foram suspensos!
— Por que eles brigaram? — Eu permanecia sem entender nada.
— Ninguém sabe o motivo da briga — adicionou Melly. — Mas sobre aquele corpo… Uau!
— Que corpo, Melly? — questionei com uma pontada de ciúmes. Por que eu estava assim?
— Do Richard! — esclareceu Susana. — Quando ele arrancou a camisa para partir para cima do Kevin, acabou deixando à mostra seu peitoral e suas costas lotados de cicatrizes. A mulherada ficou completamente hipnotizada. Assustador!
— Cicatrizes?! — perguntei atordoada.
— Sim. Muitas.
— Por que será que ele tem tanta cicatriz? — questionou a gordinha que se sentara ao meu lado. — Não parecem de acidente de moto…
— Deve ter sido em alguma briga — retrucou uma garota morena.
— Briga de gangues… — pensei ter matutado baixinho comigo mesma, mas foi o suficiente para Susana ouvir.
— É possível! E isto não é mais tentador ainda? — e soltou um gemidinho. — Ele deve ter pegada.
“Pegada”. É. Ele tinha. Se não fosse trágico, seria cômico ouvir aquele tipo de conversa na manhã seguinte ao meu-quase-imaginário-verdadeiro-estrangulamento.
— Ele é caladão e até meio estranho, mas parece que sabe como lidar com as mulheres, entende? — explicava a animada gordinha. — Quando ele nos olha fixo com aqueles olhos azuis maravilhosos, parece que consegue enxergar dentro da gente.
— Isto é muito constrangedor e ao mesmo tempo muito tentador, não? — comentou outra garota que até então estava muda, mas mantinha um sorriso congelado nos lábios. Enfeitiçada por ele.
— Existe algo enigmático nele… E eu pretendo descobrir! — disse a morena com um sorriso malicioso nos lábios. — Até porque o Kevin já tem dona. — Ela piscou para mim e eu corei.
E elas riam compulsivamente. Aliviada, percebi naquele momento que não era apenas em mim que aqueles olhos azuis causavam perturbação. As garotas já tinham sido alvo deles. Todas eram minúsculas estrelas sendo sugadas para a morte por aquele magnífico buraco negro.
Negras foram as notícias que Anna me enviou naquela noite:
Querida Nina,
Achei melhor deixar você a par de toda a horripilante história. Bem, encontraram a sepultura de Mary aberta ontem pela manhã. Não levaram nada de valor nem violentaram o corpo, como a polícia temia. Mas fizeram algo muito sinistro, digno destas seitas macabras que existem por aí. Eles arrancaram seus olhos! Por que alguém tiraria os olhos de uma pobre garota morta há poucos dias? Os policiais do caso dizem que é comum a utilização de órgãos humanos em rituais de magia negra, mas pretendem investigar a fundo este incidente. Eu só sei disto tudo porque foi manchete em todos os jornais aqui na Espanha. Minha mãe não me deixa mais sair de casa sozinha. Estamos em pânico. Tem algo muito errado nos rondando, isto é fato. Se cuida, tá?
Beijos,
Anna.
Eu não conseguia juntar as pistas daquela maldita charada. Na verdade, eu tinha muito poucas pistas. Talvez uma única: minhas anormais pupilas. Seria isto? Será que Anna também tem alguma deformidade em seus olhos, e, assim como eu, nunca mencionou?
Um turbilhão de teorias me assombrava.
Em nenhuma delas, entretanto, eu poderia imaginar o que descobriria em breve.