Não Pare!

F.M. Pepper · Capítulo 12 de 22

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Não Pare!

Capítulo 12

 

Duas motos estavam estacionadas um pouco mais adiante de uma curva angulosa, onde um rapaz também vestido de preto aguardava por nós. Provavelmente seu cúmplice.

— Igor? — O rosto de Richard ficou ainda mais mal encarado do que de costume.

— Eu mesmo! — o sujeito tinha uma voz arrastada. — E aí, meu camarada? Foi difícil te encontrar, hein? Você não dá notícias… Shakur vai ficar feliz em saber que te achamos! — Era um rapaz com a aparência desconfiada, tinha um pescoço comprido com pomo de adão saliente, um corpo forte e uma cicatriz horrorosa que atravessava seu rosto de uma extremidade à outra. Seu ar era de triunfo. — Que bonequinha, não é mesmo? — babava olhando para mim. — A gente podia fazer uma festinha como aquela com a garota de Londres, tipo fritar uns olhinhos, deixe-me ver a textura… Fantástico!

“Garota de Londres”? Senti uma fisgada na cabeça.

— O que é fantástico, Igor? — outra voz, agora bem grave e até simpática surgiu logo atrás do rapaz da cicatriz. O garoto por trás dela era quase um gigante e tinha aparência bem simplória.

— Olhe, Ben! Veja os olhos desta belezura. Não me admira por que demoramos tanto para encontrá-la. Veja! São perfeitos!

Confirmado. O interesse deles era esse mesmo: minhas anormais pupilas!

— É verdade. Impressionante! — O gigante me olhava com curiosidade. E mudou de assunto: — Puxa, Rick! Sentimos sua falta!

— Obrigado, Ben. Os outros rapazes estão aí?

— Não. Estão nos esperando em Nápoles. Igor foi quem achou que talvez o encontrasse por aqui. Ele tem um faro…

— Eu sei — e franziu a testa. — E Collin?

— Está com eles, nos esperando.

— Bom — acrescentou Richard sem vontade.

— E aí? Que tal uma brincadeirinha com ela? Ainda temos tempo — insistia Igor. — Só que desta vez faremos diferente. Você começa, eu termino.

— A gente decide quem termina mais tarde — respondeu Richard impaciente. — Vamos logo.

A viagem transcorreu num clima tenso. Havia um conflito evidente entre eles. Talvez pertencessem à mesma seita, mas tivessem opiniões divergentes. Vez ou outra sentia que o rapaz da cicatriz me observava com uma curiosidade indecifrável. De modo sincronizado, sempre que eu começava a me sentir estranha, Richard acelerava. Ou será que eu me sentia mal porque ele acelerava? Minha razão estava confusa. Eu não conseguia acreditar em tudo que tinha acontecido. Eu havia perdido tudo de mais importante, meu mundo, minha vida. Como uma marionete, estava sendo jogada de um lugar para outro, prisioneira de um grupo de fanáticos de algum tipo de seita misteriosa. E, para piorar a situação, sabia que seria eliminada em breve.

— Vejam! É Collin e o nosso grupo — gritou o tal do Ben. — Estranho. Por que estão aqui e não em Nápoles? — sem malícia, expressava em voz alta aquilo que não conseguia entender.

— Vai ver ficaram com saudade da gente. Aqui, pessoal! — berrou Igor, acenando e dando um risinho irritante.

Paramos junto a um grupo de rapazes que, assim como os primeiros, também estavam vestidos de preto. Parecia uma gangue de motoqueiros. Tinham praticamente a mesma idade, em torno dos vinte anos. Um garoto se destacava no grupo por sua fisionomia má e seu olhar de superioridade. Tinha a barba por fazer e cabelos oleosos e desgrenhados. Assim como Richard, era alto e forte, mas menos atlético. Da forma como se portava e como os outros o tratavam, parecia ser o líder.

— Finalmente! — exclamou.

— Paramos para descansar, Collin — respondeu Ben.

— Não te perguntei nada, imbecil.

Ben encolheu-se. Collin virou seu olhar inicialmente para Richard e depois para mim, analisando-me por um bom tempo. Senti Richard soltar um suspiro de desaprovação, mantendo intacta uma fisionomia ilegível.

— Impressionante! Venha cá, garota.

Fiquei paralisada.

— É surda? Venha aqui, agora! — seu tom imperativo era muito pior do que o de Richard.

Diante da minha dificuldade em descer da moto, e com uma impaciência exagerada, o tal Collin deu três passos largos e parou em frente a mim. Então ele me segurou com força pelo braço e me puxou para perto dele. Depois começou a fazer ridículas piadinhas:

— É uma pena ter que acabar com uma gracinha destas, não é mesmo? — E me apresentava aos demais rapazes como se mostra uma valiosa mercadoria de leilão. Eles riam com gosto. — Olhem a perfeição destas lentes! Inacreditável! E o odor então! Uau! — E começou a me cheirar de cima a baixo, parando ao nível do meu pescoço.

— É o cordão? — perguntou a Richard, que apenas assentiu com a cabeça.

O que haveria de errado com o meu cordão?

— Fabuloso! Que satisfação concluir uma missão como esta, não é mesmo? — Voltou a olhar para Richard, que nada respondeu, encarando-o apenas. E continuou: — Mas é uma graça! Boneca, seu lindo rosto me é familiar… Engraçado… — e deu de ombros. — Também já se foram tantas missões! — e sua gargalhada ecoava pelos seus súditos. — Deixe-me ver uma coisinha… — acrescentou, esfregando os dedos selvagens no meu rosto. Quando já passavam do meu pescoço, suas mãos foram paralisadas por Richard.

— Pode brincar à vontade com a garota, mas não a mate — advertiu irônico. — Ela é minha missão.

— Para o melhor resgatador de Zyrk, você anda bem desinformado, meu camarada — rebateu Collin após uma risadinha malévola. — Shakur ordenou que você a transferisse aos meus cuidados.

— Impossível! — rosnou Richard.

— É verdade, cara. Dá uma olhada! — E retirou um envelope do bolso de sua jaqueta, entregando-o a Richard, cujo rosto tornara-se tenso à medida que sorvia o seu conteúdo. Ele permaneceu algum tempo com os olhos fechados, sua testa lotada de vincos, até finalmente dobrar o papel, devolvendo-o a Collin.

— Se ele quer assim, pois que seja feita a vontade de Shakur — concluiu secamente.

— Ótimo!

— Mas aí não diz que é para antecipar a hora dela — retrucou Richard.

— Como?

— Você me ouviu. Aí diz apenas que é para eu deixar você concluir a minha missão, mas não menciona qualquer comando sobre antecipar a hora dela. Protocolos. Lembra-se? — retribuiu-lhe o falso sorriso.

— Não fique todo confiante só porque é o protegidinho de meu pai. Saiba que no futuro aquele clã me pertencerá e você poderá se arrepender de algumas atitudes do passado… — ameaçou Collin.

— Será mesmo? Muita coisa pode acontecer até lá — rebateu Richard com jeito debochado.

— Não conte com isto — Collin espumava. — Vamos logo! Já perdemos muito tempo! — ordenou ao grupo.

Estava absolutamente tonta com toda aquela conversa. Quem era Shakur? Que história era aquela de clã? Protocolos? Se entendi direito, Richard e aquele Collin não simpatizavam um com o outro. Richard deixaria Collin me matar desde que ele obedecesse à data prevista para a minha morte.

— Suba, garota! — ordenou Richard tenso.

— O que está acontecendo? — Ao perguntar, notei que ele estava completamente imóvel. Igor nos observava com atenção, mantendo sua moto logo atrás da nossa. Richard desacelerou e ficamos no pelotão de trás. Talvez para não deixar evidente que nos vigiava, Igor não acompanhou a nossa desaceleração e permaneceu mais à frente.

— Antes de falar, veja se alguém está nos observando — ralhou num sussurro.

— Quanto tempo eu tenho, afinal de contas?

— Aproximadamente uns dezoito dias. Não conseguimos identificar a data correta. Sua mãe fez um serviço excepcional. Por isto temos que levá-la para seu provável local de nascimento.

— Eu nasci aqui na Itália.

— É o que nós também achávamos, mas todos os sinais indicam a Tunísia.

— Tunísia? Impossível!

— Pois acredite.

— E chegando lá vão me matar?

Sem resposta.

Após horas de viagem, eles decidiram descansar em uma escondida parada de caminhoneiros no meio da estrada. Tudo planejado para que ninguém me visse ou conversasse comigo. Quando não era Richard, estava sempre escoltada por dois seguranças do grupo. Chances de fuga: zero.

— Agora ela vem comigo! — ordenou Collin, dando novo sorriso mordaz para Richard. — Venha, belezura! — E Collin me apontou o banco do carona em sua moto.

Gostei daquilo. Talvez fosse mais fácil me desvencilhar dele do que de Richard, sempre tão atento. Caminhei em sua direção, esboçando um discreto contentamento. Ele se deliciou com a cena. Com certeza havia uma forte rivalidade entre os dois e eu tiraria proveito dela.

Collin acelerava feito um louco, seguido de perto por Richard, que não o deixava se afastar nem por um segundo. Permanecia colado e, por vezes, eu tinha a impressão que poderíamos até nos chocar, de tão próximo que as motos se encontravam.

— Eu não quero ficar com ele! — berrei.

— O quê? — Collin parecia confuso com aquela afirmativa.

— Eu prefiro ficar com você! — tentaria qualquer insinuação para me livrar daquele bando de malucos, inclusive tramar uma briga entre eles poderia ser uma boa forma de conseguir tempo para fugir.

Ele abriu um sorriso.

— Claro, boneca!

Novas paradas se sucederam, e todas elas eram semelhantes àquela primeira. Desertas e fantasmagóricas. Collin mantinha-me afastada de um Richard visivelmente irritado.

— Quanto tempo até Mársala? — indagou Collin a um dos seus homens. Ben o seguia de perto. Notei que Richard o enviava para me vigiar sempre que precisava se afastar.

— Dois dias, se mantivermos este ritmo — disse o sujeito.

— Bom.

— Algum sinal de outro grupo? — E Collin deu uma piscada, como uma espécie de espasmo ou tique nervoso. Deveria estar com os nervos à flor da pele. O outro homem arregalou os olhos, se empertigou e, gaguejando, forneceu-lhe a resposta.

— Não, senhor. Mas surgiu um problema, nós perdemos nosso ponto de apoio em Palermo.

— O que, imbecil?

— Não conseguimos qualquer comunicação com Leila.

— Como assim? — Ben intrometeu-se, assustado.

— Ela desapareceu.

— Um resgatador não pode simplesmente desaparecer e pronto! — Collin rugiu.

— Eu sei, senhor, mas parece que foi algo pior… — o rapaz se apressou em explicar-lhe. — Leila deixou tudo para trás, como se a tivessem raptado. Não levou nada consigo. Seus afilhados também desapareceram. Sua casa em Palermo estava arrombada!

— Por Tyron! Meu pai já foi informado?

— Sim, senhor. Ele quer que a procuremos. Não tolerará qualquer ataque de outro clã.

Céus! Que tipo de conversa era aquela? Aqueles rapazes realmente acreditavam no que diziam, como se todos tivessem passado por algum tipo de lavagem cerebral. Eles viviam em um mundo imaginário. Tinham hierarquia e tudo mais. Quem seria a tal de Leila? Uma pessoa que recobrou o juízo, se mandou e agora é tida como desertora? E este líder Shakur? Seria ele o grandessíssimo charlatão que comandava esta seita de degenerados?

— Envie cinco homens em sua busca!

— Sim, senhor!

— Richard os comandará!

— Mas… — Ben tentou interceder.

— Ande! Repasse minha ordem!

Sem Richard por perto, algo me dizia que seria mais fácil arrumar um meio de me desvencilhar deles. Dois segundos depois, Richard apareceu, sua face roxa de fúria.

— Quem você pensa que é para me dar ordens? — bufava Richard.

— Pensei que se importasse com Leila… Além do mais, não fui eu, mas sim Shakur quem ordenou. — E lhe entregou uma carta. — Se for rápido, ainda conseguirá nos encontrar em Sabhã, antes da passagem.

Visivelmente aborrecido, Richard saiu trotando e pronunciando palavras em uma língua indecifrável. Collin não escondia o sorriso de satisfação, o que não me agradou em nada.

— Vamos! — ordenou ao grupo.

E rapidamente estávamos de volta à estrada. Após algumas horas, meu corpo começava a dar os primeiros sinais de cansaço. Minha musculatura contraída, repleta de ácido lático, era a prova da minha exaustão. Precisava agir de imediato.

— Estou muito cansada. Será que não poderíamos descansar um pouco? — insinuei-me melosa.

— Não — sua resposta foi seca. Ele agora não parecia tão interessado em mim como antes. Teria sido tudo uma grande encenação apenas para implicar com Richard? Que estúpida eu era! Isso que dá fazer planos contando com prováveis circunstâncias. Nada é provável quando se lida com loucos! Detectei então uma pequena vila, cheia de minúsculas casinhas surgindo ao longe. Era a minha chance.

— Por favor! Se eu não beber alguma coisa, acho que vou desmaiar — apelei com voz teatral.

— Droga! — resmungou o sujeito, enquanto sinalizava sua desaceleração aos demais.

Eles pararam ao nosso redor.

— A garota está passando mal. Temos que prendê-la a um de vocês e continuar a viagem. Não suporto mais seu peso em minha moto!

— Eu preciso de um copo d’água, por favor! — fiz cena.

— Tragam água.

— Os cantis estavam vazios, já os jogamos fora — disse um dos rapazes, superamedrontado.

— Inúteis! Eu mesmo resolvo isto. — E me puxou de forma agressiva pelo antebraço. Caminhávamos em direção às pequenas casas de tijolinhos coloridos que eu havia visto. Assim que encontrasse qualquer pessoa, começaria a gritar, pedindo por socorro. Eu não tinha nada a perder.

O frio fez as pessoas se recolherem mais cedo e, como já tinha anoitecido, não havia nenhum transeunte pelo local. Todos os sons e luzes vinham de dentro das humildes habitações. Era horário do jantar. Vozes de pessoas conversando, sons de talheres chocando-se contra pratos, televisores ligados e crianças brincando eram facilmente identificados à medida que passávamos diante das portas. Aquela caminhada começava a me afligir. Por que não tocou logo na primeira casa? Por que parecia escolher a casa em que bateríamos? Que diferença faria? De repente ele parou. Tudo parou. Até minha respiração parou. Angústia. Apreensão. Cinco minutos se passaram. Dez. Vinte. Uma hora. O que estávamos aguardando? O que Collin estava esperando, afinal de contas? Todo o som ao nosso redor eram os uivos do vento em sua dança sinistra, quase fúnebre. De repente, os olhos de Collin começaram a se revirar, deixando visível apenas a parte branca das órbitas, como em uma crise epiléptica. Mau sinal. Logo em seguida ele começou a soltar frases e palavras sem o menor sentido. Acuada e nervosa, senti meu coração acelerar no peito. Então seus olhos voltaram ao normal, mas ele parecia aéreo, longe dali. Eu reconheci aquele olhar, mas não me recordava de onde. Calafrios. Pronto. Agora eu tinha certeza: alguma coisa ruim ia acontecer. Eu podia pressentir.

— Vamos — comandou ele.

Com meu braço agarrado entre seus dedos, atravessamos a pequenina rua principal e paramos bem defronte a uma casa cujas paredes mesclavam a cor de sua tinta verde velha com uma grande quantidade de musgo que se entranhava. Parecia abandonada, com seus muros descascados e vidraças quebradas. Esperou mais alguns minutos, quase me matando de agonia, e então ordenou:

— Agora sim. Pode bater. — Então ele me soltou e ficou logo atrás, me observando.

Obedeci. Era chegado o momento. Minha chance de fuga. Minhas mãos tremiam tanto, que quase não consegui tocar a campainha. Pude ouvir o som de uma televisão ligada e uma voz resmungando seguida de um par de chinelos anunciando lentos passos em nossa direção. A porta finalmente se abriu e, enojada com a cena dantesca que se desenhou a minha frente, demorei alguns segundos até retomar o raciocínio. Um homem andrajoso e extremamente obeso veio me atender. Sua boca estava cheia de comida e um fio de macarrão ainda pendia pelo canto esquerdo do lábio inferior. Ele não havia nem se dado ao trabalho de abandonar o enorme e gorduroso prato, carregando-o consigo.

— O que deseja? — Tive o desprazer de ver a comida dançando de um lado para o outro sobre a sua língua flácida. Segurei a ânsia de meu estomago e perguntei, prendendo a respiração:

— O senhor poderia me arranjar um copo d’água? — Collin me vigiava mais de perto.

— O que é isto? Não vou ajudar vagabunda nenhuma a esta hora da noite! Está pensando o quê? — Sem que ele pudesse esperar, empurrei sua gigantesca barriga para longe, precipitando-me para dentro da casa e implorei por ajuda.

— Socorro! Por favor, me ajude! Eu fui sequestrada por este homem! — berrei a plenos pulmões.

— Ãh?! Quem? Você é louca?

— Cuidado! Atrás de você! — gritei. Com dificuldade, o homem se virou.

— Não tem ninguém aqui… Argh!

Foi tudo tão rápido, que meu cérebro teve dificuldade em processar o que meus olhos presenciaram. Como assim? Ele não havia enxergado Collin? O homem obeso olhava para o nada quando foi brutalmente atacado por Collin, que o socou repetidas vezes na altura do estômago, fazendo-o despencar no chão como uma jaca, ou melhor, um porco. Seus olhos arregalados, sua boca espumando. Estava morto.

— Sua mentirosa! Você vai ver! Eu vou matá-la agora mesmo! — Collin partiu como um bicho para cima de mim. Agarrou-me pelo cabelo e jogou minha cabeça contra a parede. Tudo ao meu redor começou a girar. No chão, meio desacordada, vi seu corpo ser arremessado longe, bem no momento em que vinha me socar, trombando na mesa e caindo ao lado do abatido gordo.

— Richard? — berrou ele, assustado.

Richard?!

— Richard, não! — Collin implorava ao ver o adversário partindo contra ele.

— Collin, Collin… Com quem pensa que está lidando? — Imobilizando-o com o pé, Richard começou a esmagar o crânio de Collin com violência. No entanto, não havia raiva em sua voz, mas um sarcasmo diabólico.

— Argh!

— Collin, Collin… Será que vou ter que matar outra pessoa além dela?

— Argh!

— Tentando comer a merenda dos outros? — indagou Richard displicentemente, enquanto continuava a pressionar a cabeça do adversário. — Que feio!

— Eu, eu…

— Você não ia repartir a garota comigo? Mesmo sabendo que mal posso esperar pelo dia dela, que ando faminto por ela há um bom tempo?

— Eu ia… Argh! Não, por favor! — O pranto por clemência de Collin era vexatório.

— Muito bem. — Sem hesitar, Richard deu-lhe um chute na barriga. Presenciar Collin se contorcendo pelo chão me deixou mais atordoada ainda. Eu não sabia qual dos dois me dava mais medo naquele momento. — Verme!

Ele permaneceu de costas por um bom tempo, como se estivesse reagrupando as próprias ideias, até que veio em minha direção:

— Venha, garota. — E me ajudou a levantar.

— Você acaba de decretar a sua partida antecipada! — Contorcido no chão, Collin ainda tinha coragem de ameaçá-lo. Mal consegui olhá-lo, pois Richard impedia meu campo de visão.

— Que ótimo! Assim não terei que ficar dando cobertura a um inútil.

— Você verá!

— Verei. Mas, por enquanto, é você que terá que se ver com Shakur — grunhiu Richard enquanto caminhávamos para a saída e o deixávamos caído, gemendo atrás de nós.

— Não conte nada do que viu a ninguém, compreendeu? Se abrir o bico… — ameaçou feroz, e eu assenti com a cabeça. — Ben, ajude-me aqui! Leve-a com você e cuide dela.

— O que houve?

— Ela caiu.

— Puxa!

Ben “caiu” naquela conversa mole?

— Tenho um assunto a resolver. Não tire os olhos dela, fui claro?

— Ok, Rick!

Eu me sentia muito mal. Por fora e por dentro. Queria acreditar que tudo aquilo não passava de uma destas pegadinhas da televisão. Que num passe de mágica tudo voltaria ao normal. Mas não! Presenciei outra morte cruel. O óbvio se desenhava com nitidez: eu era refém de um grupo de assassinos. A atitude covarde de Collin e a reação tempestuosa de Richard foram a certeza disso. Após algum tempo, Richard veio ao meu encontro. Checou minha cabeça e cada osso do meu corpo.

— Ai! — reclamei da sua falta de tato.

Ele levantou uma das sobrancelhas e uniu os lábios, como que segurando o riso.

— Podemos ir! — ordenou ao grupo. — Mas antes quero que gravem uma coisa — berrou para que todos o escutassem. — A garota é minha missão! Coitado daquele que se esquecer disso.

Chegamos à cidade de Palermo. De lá, pegamos um velho e fantasmagórico navio, que parecia ter sido fretado apenas para o nosso grupo. Um senhor de aparência macabra nos aguardava no píer com um sorriso aterrador. Cada membro do grupo lhe deu duas moedas de ouro.

— Duas moedas de ouro? Uma para ir e outra para voltar? — Fui remetida a uma cena mitológica. — Ele é um barqueiro? — perguntei petrificada.

— Mais ou menos. — Richard retirou quatro moedas de ouro e as entregou àquela figura encapuzada.

— Boa viagem — a voz trêmula deixou escapar uma risadinha maldosa, guardando com satisfação as moedas de ouro que eram depositadas em suas deformadas mãos.

Definitivamente, não seria uma boa viagem.