Não Pare!
Capítulo 6
Cheguei bem mais cedo do que o programado na Strike e fui direto ao meu departamento. Estranhei porque a seção em que iria trabalhar não estava mais lá. Era agora uma ala só de sapatos e acessórios masculinos.
— Trocaram de lugar. — Foi o que uma gentil vendedora estava me explicando quando o Sr. Crawford, o supervisor geral, me interceptou e me encaminhou ao térreo. Ele era um homem alto, usava óculos do tipo fundo de garrafa, que deixavam seus olhos esbugalhados ainda maiores, e estava sempre carrancudo.
— Agora as vendas vão deslanchar! — Para meu espanto, ele falava com muito entusiasmo enquanto me conduzia até a seção de CDs e DVDs. Apresentou-me aos demais vendedores da minha repartição. Todos supersimpáticos.
— Oi! Eu sou Rose, a mais antiga aqui. Pessoal, esta é Nina, a garota de sorte do setor!
— Oi — foi tudo que consegui pronunciar. Garota de sorte? Deve ser uma brincadeira de muito mau gosto. — Por que garota de sorte? — perguntei intrigada.
— Fomos promovidos justamente no seu primeiro dia de trabalho. Muita coincidência, não?
— Promovidos? Como assim?
— O desejo de todo funcionário desta loja é trabalhar no térreo, Nina. Como é local de passagem, as vendas aqui são muito maiores do que em qualquer outra parte da loja, independentemente do produto que se esteja vendendo, entende?
— Ah! — exclamei surpresa.
Rose era a gerente da seção. Devia ter uns trinta anos de idade, era magra e tinha propositais cabelos longos e sempre soltos com a intenção de disfarçar suas orelhas de abano.
— Aquele bonitão ali é o Bob, nossa enciclopédia ambulante — continuou Rose, fingindo gritar e apontando para um rapaz gordinho, cheio de espinhas no rosto, que vestia roupas muito apertadas para o seu avantajado manequim.
— Oi, Nina — disse Bob. — Quanto à enciclopédia, é tudo mentira, mas pode acreditar no quesito beleza aqui do papai — completou rindo por baixo dos óculos sem desgrudar nem um segundo da tela de seu computador.
— Tá bom — respondi. Ele parecia ser um cara engraçado.
— E aquela ali é a Beth — gesticulou Rose —, superbem-informada de todos os lances que acontecem por aqui. Sabe como é: fofocas, festinhas, empregados novos, clientes estranhos, bacanas e até dos ladrõezinhos metidos a conquistadores, entre outros.
— Oi, Nina. Pode deixar que a manterei informada sobre tudo que estiver rolando — retrucou Beth, uma funcionária com a pele cor de jambo, baixinha e muito falante.
— Obrigada, vou precisar — observei em tom de brincadeira.
— Então pode ficar sabendo que as vendedoras de perfumes e cosméticos já odeiam você — alertou ela com uma pitada de intriga.
— Mas por quê?
— Ora, porque tomamos o lugar delas, bobinha! — e riu com vontade.
— Puxa! — Eu não sabia se devia ficar feliz ou chateada. Desvencilhando-me dos meus pensamentos, Rose foi direto ao assunto. Mostrou-me a melhor forma de abordagem para com os clientes, como deveria ser o atendimento, como acessar os cadastros, estoque, lista de pedidos etc.
— O Sr. Crawford nos disse que você domina muitas línguas. É verdade, Nina?
— Na verdade, não domino as línguas, Rose. Apenas sei me comunicar o suficiente para me fazer entender — respondi meio constrangida.
— Quais são elas?
— Além do inglês, falo francês, espanhol, alemão e um pouco de holandês, dinamarquês e português.
— Uau! Você é uma poliglota! Sr. Crawford tinha razão. Nossas vendas vão deslanchar! — Sorrindo, ela apertou minha bochecha e saiu.
O turno passou de forma tranquila. Enquanto eu conversava com um chileno que me pedia explicações sobre as melhores coletâneas de Trash Metal, percebi que o chão começou a sair de debaixo dos meus pés. O calafrio passeava pelo meu corpo.
— Ah, não! De novo, não! — murmurei, apoiando-me no balcão mais próximo para não cair de boca em cima dos CDs à minha frente.
— O que foi, moça? Você está bem? — perguntou assustado o chileno.
— Sim. Só um pouco tonta.
Decidi que não iria desmaiar no meu primeiro dia de trabalho. Hoje não! Em questão de segundos, vi entrar em nossa seção um grande grupo de turistas japoneses. À medida que se aproximavam, o calafrio aumentava, mas eu estava disposta a lutar. Uma dor de cabeça enlouquecedora me atingiu abruptamente, como se um aneurisma tivesse a ponto de estourar meu crânio. Parecia que meu cérebro estava lutando contra alguma força estranha, penetrante.
— Você está passando mal?
— É só uma indisposição. O senhor se incomodaria de terminar o atendimento com outro colega?
— Você está muito pálida! Vá ao ambulatório, moça!
A dor de cabeça aumentava vertiginosamente. O que quer que seja, apareça! Não vou me entregar! Apesar da multidão ao meu redor, minha intuição me fez detectar aquilo que abalaria por definitivo as pilastras das minhas certezas. Eram os olhos azuis-turquesa mais lindos que eu já havia visto na vida. Os mesmos que me deparei logo após a queda do andaime. E eles me fitavam com ferocidade e tensão. Perdi o fôlego. Na mesma hora interceptei outro par de olhos caminhando em minha direção. Eram de Kevin e me observavam com preocupação. O que ele estaria fazendo aqui? Quis caminhar ao seu encontro, mas minhas pernas não me obedeceram. Minha cabeça latejava. Concentrei-me, fazendo força contra aquilo que me atacava mentalmente, e, quando dei por mim, não estava mais ali. Acordei sentada em uma cadeira com Rose quase me afogando com um copo d’água, Beth me abanando e Bob conversando nervosamente com o Sr. Crawford. Pude captar evidente tensão na atmosfera, como se algo horrível tivesse acontecido.
— Nina, você pode me ver? Pode me ouvir? — gritava Rose.
— Sim. Acho que minha pressão baixou. — E fui levantando, em uma inútil tentativa de disfarçar meu péssimo estado.
— É isto! É muita pressão, coitada! — defendia-me Rose. — Ela foi submetida a muito estresse. Imagina atender um grupo inteiro de japoneses logo de cara!
— Claro! — confirmou Bob ainda tenso. — Foi uma fatalidade. Ela nem sabe falar japonês!
— Mas japoneses também falam outras línguas, como inglês, por exemplo — retrucou agressivo o Sr. Crawford.
Sobre o que eles estariam falando? Será que perdi uma boa venda? Droga! Não tinha coragem nem de perguntar.
— Ela fez boas vendas logo de cara, Sr. Crawford. Não é demais? — completou Beth.
Entendi. Estavam todos me dando cobertura contra uma possível investida do Sr. Crawford.
— Tudo bem — concluiu com aspereza o supervisor. — Voltem ao trabalho!
Quando o Sr. Crawford se afastou, aproveitei para agradecê-los:
— Obrigada, pessoal. Tive isso alguns dias atrás. Acho que vou ter que fazer algum tratamento para a minha pressão — expliquei-me completamente sem graça.
— É bom mesmo, Nina. Mas, por ora, está tudo bem. Pode voltar ao seu serviço — concluiu Rose.
Após algum tempo, aproximei-me de Bob para tirar mais informações.
— Bob, o que o Sr. Crawford quis dizer sobre falar japonês? Eu fiz alguma coisa errada? Por favor, me diga.
Ele respondeu-me sem rodeios:
— Nina, você é epiléptica?
— Não! Claro que não! — respondi arrasada.
— Bem… — ele explicou. — Você delirou! Na verdade, você estava possuída, como se tivesse incorporado algum espírito ou coisa do tipo… Foi assustador! Ao mesmo tempo em que parecia estar inconsciente, você se contorcia e pronunciava palavras estranhas, nada com nada, entende? Parecia estar lutando contra alguma entidade, sei lá! Foi bizarro!
— Meu Deus! — foi tudo que saiu de minha garganta. — O que mais eu fiz? — Minha voz falhava, mas consegui segurar o choro.
— Bem, um alvoroço se formou. Tinha japonês correndo para todos os lados.
— Ah, não!
— Mas o pior não foi isto!
— Teve mais?
— Sim — e deu um longo suspiro. — Enquanto Beth ligava para o ambulatório, nós tivemos que nos afastar para conter aquela situação e, quando retornamos, nos deparamos com uma cena pra lá de esdrúxula: um japonês estava sobre você, só que não estava lhe ajudando. Mesmo com você inconsciente, a impressão que dava era que vocês estavam lutando. De repente, o japonês se levantou e balbuciou algumas palavras, a única que consegui entender foi “morte”. Ele estava com um olhar muito sinistro, como se a “coisa” que estava em você tivesse sido transferida para ele, e então o sujeito começou a andar sem rumo, até que saiu pela porta da ala Leste e se suicidou, jogando-se na frente de um carro que passava naquele momento. Bem na frente da nossa loja!
— Não pode ser! — soltei horrorizada.
— Pois é! Mas não esquente a cabeça. Com certeza, tudo não passou de uma infeliz coincidência.
“Infeliz coincidência”?
Como poderia acreditar nisso depois de receber este e-mail naquela mesma noite:
Nina, estou muito preocupada! Encontrei mais duas garotas na internet que também têm a nossa idade e relatam os mesmos fatos estranhos que vêm acontecendo conosco. O problema é que, como não recebia qualquer resposta de Mary, resolvi então ligar para ela. Qual não foi a minha surpresa ao saber que Mary havia morrido! De repente! Perguntei à empregada da casa que me atendeu como havia acontecido e ela me disse que ninguém entendia. Disse que uma única testemunha a viu atravessando uma grande avenida em Londres. Segundo a mulher, ela já havia alcançado a calçada, mas, inesperadamente, um homem a agarrou e se jogou junto com ela na frente de um carro que passava em alta velocidade. Os dois morreram na hora! Ela ia fazer dezessete anos daqui a dezoito dias! Foi aí que entrei em pânico! Nina, eu farei dezessete daqui a dezenove dias! Será que eu sou a próxima? Mandei um e-mail para Teresa para saber a sua data de nascimento. E você? Quando faz aniversário?
Anna.
Minha intuição dizia que algo de muito ruim estava por acontecer. Eu faria dezessete anos daqui a vinte e quatro dias. Caso viesse a acontecer, a morte de Anna seria a confirmação da minha logo a seguir? Meu Deus! Será que devo contar para Stela? Não posso! Ela surtaria. Seriam apenas caraminholas da cabeça da Anna? Mas eu também quase fui atropelada! Seria algum tipo de assinatura do criminoso? Seria um psicopata? Ou seriam vários? Será que existe algo em comum que nem suspeitamos? Ah! Bobagem! Existem milhares de garotas da mesma idade que eu pelo mundo. Estou é ficando paranoica, isto sim! Debrucei-me na cama exausta e apaguei.
Na tarde daquela terça-feira, cheguei ao trabalho extremamente tensa. Temia tomar conhecimento das consequências da desastrosa confusão da véspera. E, para a minha surpresa…
— Aí está ela! — gritou Bob.
— Não bastasse ser nossa garota da sorte agora também é a garota propaganda do setor! — pulava Rose de tanta excitação.
Com certeza devo ter feito cara de paisagem, ou seja, fiquei paralisada e muda com a cena diante de mim.
— Garota propaganda? — retruquei perplexa.
— Sim, lindinha — continuou Rose. — Graças à confusão de ontem, a loja hoje apresentou recorde de vendas em todos os setores, em especial o nosso. Achamos que as vendas ainda serão maiores no seu turno, porque vão querer ver a garota do momento.
— Ah, não!
— Fique tranquila. Seu rosto não saiu no noticiário — concluiu Beth.
Ufa! Se Stela me visse na TV sendo atacada por um japonês suicida, seria o nosso fim em Nova Iorque. Fiz algumas preces pedindo aos céus que fosse um dia calmo. Vesti meu uniforme, que na verdade era só um avental bacaninha, e fui para a minha área dentro do setor.
O expediente estava quase no fim quando uma voz macia soou bem atrás de mim:
— Olá, Nina!
Era Kevin. Lindo e louro.
— O-Oi — gaguejei.
— Tudo bem?
— Tudo! Você por aqui de novo?
— De novo?
— Sim. Você também não esteve ontem aqui? Quero dizer… durante a confusão?
— Confusão? Ontem? Infelizmente não — Kevin me interrompeu, e, antes mesmo que eu pudesse contestá-lo, ele abriu novamente aquele seu anestésico e luminoso sorriso e me deixou sem ação diante de uma proposta inesperada. — Eu gostaria de saber se eu posso acompanhá-la até a sua casa.
— Me acompanhar? — quase engasguei. — Claro!
— Que horas termina seu expediente?
— Já terminou. Só falta concluir esta venda e…
— Então te espero lá fora. Tchau. — E me deu uma piscadinha rápida.
— Tchau — respondi robotizada. Caramba! Ele é um cara sem rodeios.
Quando saí, Kevin já me aguardava em pé, encostado em um Ford Mustang azul escuro, novinho em folha. Despedia-se de um garoto magro, alto e com um quadro de calvície bem adiantado para a sua idade.
— Ah! Este é Sebastian, um amigo meu. Sebastian, esta é Nina. — Apresentou-nos com seu jeito educado de sempre.
— Oi, Nina! Já estava de saída. Então até lá, Kev!
— Até.
O garoto deu um tapinha nas costas do amigo e fez um breve aceno de cabeça para mim. Eu retribuí e tornei a olhar para Kevin, que, como sempre, estampava um enorme sorriso em seus lábios.
— Finalmente! — ele soltou feliz.
— Não quer dar uma carona ao seu amigo? — perguntei, tentando esconder meu estado de ansiedade por estar a sós com ele.
— Claro que não. — Ele fez uma cara marota e acrescentou. — Ele vai se encontrar com a namorada agora.
— Ah!
— Não nos víamos há um bom tempo — explicou-se. — Nós temos parentes em comum na Europa.
— São da mesma família?
— Mais ou menos. Venha, pode entrar.
Kevin circulou por diversas ruas dirigindo com muita desenvoltura, estacionou o carro próximo ao meu prédio, e, de repente, os assuntos se esgotaram. Estávamos os dois ali, completamente mudos. Talvez ele estivesse tão nervoso quanto eu. Tentei engatar uma ou outra conversa, mas nada parecia fluir. Por fim, comecei a falar da minha falta de sorte e o quão grata eu era a ele por ter me salvado daquele quase atropelamento. Era o assunto pelo qual ele esperava com ansiedade.
— Você fica tonta com muita frequência? — perguntou.
— Já tive algumas tonteiras na minha vida, mas nada como agora. — Abaixei a cabeça sem graça, mas, pelo canto dos olhos, dava para ver que ele me observava com atenção. — Acho que é pressão baixa.
Gentil, ele passou as costas de sua mão pela minha bochecha. Eu tremi antes mesmo de ficar ruborizada.
— Sabe, Nina, estou um pouco preocupado com você — disse num tom baixo.
— Por causa destas tonturas? Não precisa, eu…
— Também por isto, mas porque eu vi uma coisa que me deixou grilado, sei lá! — sua voz saiu mais baixa ainda, agora era ele quem estava sem graça.
— O que você viu? — indaguei.
— Sabe aquele tal do Richard?
— Aquele garoto mal-encarado? — Ele assentiu com a cabeça. — O que tem ele?
Ele respirou profundamente e soltou:
— Nada… É que…
Meu coração dava cambalhotas de alegria, ele teria… ciúmes de mim?
— Não gostei dele desde a primeira vez que o vi. Ele tem um olhar que me dá calafrios — acrescentei.
— Calafrios? — Havia curiosidade no seu semblante.
— Por aí. Não me sinto nada bem perto dele.
— É. Isto acontece comigo também.
— Jura? — perguntei, incrédula com aquela confissão inesperada.
— Não gosto do jeito dele. — Suas bochechas vermelhas fizeram meu coração saltitar. Sim! De fato ele tinha ciúmes de mim! — Não sei dizer ao certo. — E sua fisionomia ficou rígida. — Como eu vou lhe contar isto…
— Por favor, fale!
— Bem, Nina. Eu acho que… não! Eu não tenho como provar, mas tudo me faz crer que o Richard é algum tipo de psicopata.
Meu estômago se revirou.
— Como? — sibilei, perdendo o sangue em minhas veias.
— Eu não havia ligado os fatos — soltou pensativo. — Mas, finalmente compreendi. Ontem à tarde, quando caminhava pela Lexington, eu o vi agredindo uma pobre senhora que atravessou o seu caminho. De início fiquei assustado com a cena, mas aí tudo fez sentido!
Eu o acompanhava sem conseguir assimilar o que me dizia. Ele se adiantou em explicar:
— Eu acho que ele tentou te assassinar naquela grande avenida em frente à escola! — concluiu. — Não sei não, mas também acredito que ele está de olho em mim…
— Mas como? — minha garganta estava se fechando. — Eu não o vi… — balbuciava atônita.
Kevin respirou profundamente e soltou.
— Eu o vi naquele dia, mas não liguei os fatos.
— Você o viu?
— Sim! Você não disse que se sentia mal perto dele, com calafrios? Então? Você não sabe que existem pessoas que têm o poder de afetar mentalmente a psique de outras, fazendo-as cometer atos estranhos e inexplicáveis, inclusive suicídios?
— Não é possível! — deixei escapar meu pânico.
— Sim, Nina. Eu já li sobre isto, e é perfeitamente possível. E eu acho que é o que vem acontecendo com você. Foi o que eu presenciei ontem lá no seu trabalho.
— Ontem?!
— Sim. Por isto eu fiz questão de vê-la hoje. Eu não queria te assustar ainda mais, mas você precisava saber! — Ele olhou pela janela, como se procurando as palavras corretas. — Me desculpe por ter mentido hoje mais cedo. Eu realmente estive ontem lá na Strike.
— Ontem? Eu sabia!
— Este convite de hoje era para ter acontecido ontem. — Seu rosto agora empalidecido. — Assim que cheguei ao seu departamento, fiquei muito assustado com o que vi.
Suas palavras me açoitavam.
— O que você viu, Kevin?
— Aquele marginal estava olhando para você de um modo muito assustador enquanto balbuciava palavras indecifráveis. De repente, um inesperado tumulto se formou e você…
— Eu o quê?
— Você entrou numa espécie de hipnose ou coisa do tipo. Quando tentei socorrê-la, senti que algo me impedia, me paralisava. Fiquei completamente sem ação, mas Richard percebeu que eu o observava. Não sei se foi isto que o impediu de ir mais adiante, só sei que o coitado do japonês não teve a nossa sorte.
Tudo que ele dizia tinha muito sentido, as peças começavam a se encaixar.
— Oh, não!
Surtei.
— Calma, não precisa se preocupar, eu… — Tremi quando ele segurou uma de minhas mãos. Meu corpo respondia de modo involuntário a qualquer contato com o dele. — Não vai acontecer nada com você. Ele já viu que estou de olho nele. Que estou com você.
— Comigo? — perguntei ainda sem juntar as ideias.
— Sim. Com você. — E abriu outro lindo sorriso que me fez enrubescer.
Agindo por conta própria, minha razão ralhava comigo. Advertia-me de que já era tarde, que eu precisava entrar e que, se Stela resolvesse aparecer, eu estaria em maus lençóis. Apesar da vontade de ficar ali com ele, resolvi não arriscar.
— Kevin, eu… eu preciso entrar.
— Eu sei. — Então, ele se inclinou, beijou minha bochecha e tornou a se afastar. Ah, não! Só isso? — Boa noite. Durma bem e tente não esquentar a cabeça, ok?
— Ok. Tchau, então — disse decepcionada, desejando que ele deixasse sua timidez de lado e se despedisse de mim de um jeito bem mais interessante que aquele.
Ele ficou parado, ainda sorrindo. Seu semblante denunciava que ele queria algo mais, mas que estava sem coragem de ir adiante. Eu estava na mesma situação.
Ao abrir a porta do carro ele novamente me chamou:
— Nina?
— Sim?
Quando tornei a me virar, ele já estava bem próximo do meu corpo. Sem deixar de sorrir para mim, aproximou seus lábios dos meus e os beijou rápida e delicadamente. Senti uma breve tontura, mas fui sugada daquele inebriante momento por um ofuscante farol que acabara de surgir na minha rua. Kevin se recompôs meio assustado.
— Acho melhor você entrar. — E, sem sucesso, tentou checar o retrovisor. Seus olhos contraíram assim que deram de cara com a luz refletida dos inoportunos faróis. — Quer sair amanhã?
— Quero.
— Te pego no mesmo horário.
— Ok — despedi-me quase sem enxergá-lo. Os indesejáveis faróis continuavam a embaçar minha visão.
E embaçariam muito mais coisas…