Não Pare!

F.M. Pepper · Capítulo 7 de 22

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Não Pare!

Capítulo 7

 

O dia seguinte se arrastou. Kevin não apareceu no colégio e nem comentara nada que não iria na véspera. Os demais alunos novos também haviam faltado. Que estranho! Na minha ansiedade em reencontrá-lo, as horas pareciam passar em câmera lenta. Tudo ia devagar. Pensando bastante no que ele havia dito sobre Richard, achei tudo meio exagerado. Uma pitada teatral temperada de ciúmes, talvez. O que me deixava mais empolgada ainda com o nosso encontro de logo mais.

O tumulto na Strike finalmente cessara e as coisas retornaram ao normal. Rose aproveitou a calmaria para sair mais cedo e resolver algumas pendências de ordem pessoal, deixando a gerência com Beth. Normalmente, ela deixava com Bob. Orgulhosa de si, Beth se esmerava em fazer tudo com extremo cuidado. Bob achava graça da situação e aproveitava para implicar com a coitada. Eu desfrutava de cada momento de sossego decorando uma série de frases de impacto que pudessem impressionar Kevin. Eu precisava ter mais desenvoltura que na noite anterior. Faltando poucos minutos para fechar a loja, ouvi Beth disparar uma série de “Sim, claro!”, “Fique à vontade!”, “Pode deixar!”, “Com certeza!”, que me deixaram intrigada. Virei-me para ver o que estava acontecendo.

— Essa não! Logo agora! — pensei alto, furiosa, quando percebi uma baita compra prestes a começar, a poucos minutos da minha tão esperada saída. De costas, segurando uma comprida lista de compras, estava um rapaz alto, de ombros largos, cabelo bem preto, liso e farto. Trajava calça preta e jaqueta pretas. Segurava um capacete preto com o desenho de um raio dourado. Parecia ser bem interessante, porque não só os olhos de Beth estavam hipnotizados assim como seus lábios encontravam-se congelados em um sorriso tão amplo que expunha até seus sisos. Ela estaria assim porque ia realizar a melhor venda dos últimos meses ou porque o rapaz era muito gato? Pela quantidade de produtos que ele pretendia levar, aquela venda não seria nada rápida. Tinha que ser logo agora? Logo quando Kevin viria me buscar para um encontro de verdade? Devo ter nascido no dia do azar!

— Nina! — berrou Beth. — Venha me ajudar, por favor!

Eu fingi que não ouvi, empilhando alguns DVDs numa banqueta embaixo da prateleira principal. Se eu me fingisse de compenetrada, talvez ela chamasse Bob, que, apesar de mais distante, estava desocupado. Mas ela voltou a me chamar e agora com um tom bem mais enérgico do que da primeira vez. Droga!

— Nina?!

— Pois não? — tive que responder.

— Ajude-me aqui, por favor.

— Beth, eu estou um pouquinho ocupada. Não dá para chamar o Bob? — retruquei abaixada, sem olhar para ela.

— Você por acaso está vendo o Bob por aqui? — sua resposta foi azeda.

Levantei a cabeça com má vontade e, quando meus olhos fizeram a varredura, não encontraram nada ao nosso redor. Nem sinal de Bob.

— Estou indo!

Logo que me aproximei, o rapaz se virou e me recepcionou com um familiar sorriso irônico. Fiquei sem cor. Senti meus pés perderem o chão e minha visão esmorecer ao entrar em linha direta com um par de olhos deslumbrantes e atormentados, em um rosto igualmente perfeito e contraído. Ai. Meu. Deus. Não podia ser! Richard? Ah, não! Meu estômago se revirou. Sem os óculos escuros e sem aquela ridícula bandana na cabeça, ele era outra pessoa. Porém uma coisa permanecia igual: sua expressão de sarcasmo e superioridade.

— Pois não? — respondi meio atordoada, meio enfurecida.

— Nina, o Sr. Trent deseja fazer uma compra de CDs e DVDs de grande porte. Eu sugiro que você o ajude na seleção dos artistas enquanto inicio o cadastro de todos os que ele já adquiriu para que a gente consiga sair daqui antes das dez.

O som grave da aldrava se fechando encheu o recinto e o meu peito de aflição. Ah, não! A loja já havia encerrado seu turno e eu estava ali, presa, e por causa dele.

— Dez?! — indaguei irritada. Kevin passaria às nove.

— Desculpe-me, senhor. Nina, venha cá!

Disfarçadamente, Beth me puxou pelo braço, levou-me para uma área mais reservada da loja e se dirigiu a mim de forma educada, porém incisiva: — Este rapaz vai fazer uma das maiores compras que eu já vi neste setor. Eu pedirei a Rose para lhe dar hora extra ou parte da porcentagem desta venda, o que acho justo. Agora, se você fizer jogo duro para sair cedo no seu terceiro dia de trabalho, sinto lhe informar que é melhor não retornar amanhã. Fui clara?

— Com certeza — sussurrei cabisbaixa.

— Ok. Pode ir ajudá-lo.

Assim que me virei, Beth emendou:

— E, Nina?

— Hum?

— Afinal, não vai ser tão difícil assim, não é mesmo? — acrescentou com um sorrisinho maroto. — Fazia tempo que não via um garoto tão bonito! Bonito é pouco. Es-pe-ta-cu-lar! — e com outra risadinha virou-se para adiantar os lançamentos.

— Bem, o que mais o senhor deseja? — retornei, fingindo eficiência. O ódio que sentia por aquele garoto me fazia perder a lucidez.

— Por hoje, só isto — grunhiu e me entregou uma lista imensa de cantores e grupos de rock. — E rápido, garota! — Seus gestos desencontrados evidenciavam que ele estava ali contra a sua própria vontade. Como se estivesse sendo forçado a fazer algo que não queria.

— Como?

Quem este idiota pensa que é para mandar em mim?

— Seja rápida, ok? — rosnou e me deu um sorriso tão verdadeiro quanto uma nota de três dólares.

— Ora, seu grosso e… — tornei a encará-lo com furor e de novo me peguei divagando. Como ele conseguia ser tão… tão bonito… tão exuberante… e absurdamente insuportável?!

— Tudo bem, Sr. Trent? — gritou Beth à distância para bajulá-lo, já sentindo o clima esquentando entre nós dois.

— Perfeitamente. Estamos apenas discutindo algumas faixas de músicas! — E lhe enviou outro falso sorriso.

Como mentia com naturalidade o dissimulado! A esta hora, Kevin devia estar cansado de me esperar, ou talvez tivesse ido embora, achando que lhe dei o maior bolo, enquanto este filhinho de papai fica aqui enchendo a minha paciência depois do horário. Por que não chegou mais cedo? Era isso! Ele queria me enervar, eu podia sentir seu cínico olhar tripudiando sobre mim.

— Aqui está. — Depois de uma cansativa “caça ao tesouro”, despejei tudo que havia encontrado sobre o balcão. — É tudo que temos no momento.

Ele tirou vagarosamente uma das mãos do bolso da jaqueta e verificou as horas em seu relógio. Parecia estar tirando onda com a minha cara.

— Mais alguma coisa, senhor? — grunhi entre dentes.

— Por que a pressa, Tesouro? — indagava-me com escancarada ironia, divertindo-se com minha aflição.

Filho da mãe! Primeiro me manda ser rápida e agora quer ir em slow motion?

— Pare de me chamar assim! — adverti com os dentes trincados.

— Algum problema? Se for o caso, eu farei os pedidos diretamente à Beth e…

— Não! — esbravejei e fiquei aliviada ao me certificar que Beth não estava nos observando. — Deseja mais alguma coisa?!

— Muitas, deixe-me ver… — E ficou olhando para o nada, com a clara intenção de me irritar. — Está bem! Quero mais uma caixa deste conjunto aqui e duas do Pink Floyd.

Pink Floyd? Eu queria aquela coletânea há tempos. Não perdi o ensejo:

— Você pretende distribuir tudo por aí ou vai dar o mesmo CD para os seus familiares durante os próximos cinco anos? Que falta de originalidade!

— Não te pedi opinião — rebateu ele.

— Ótimo! Acabou?

Por que ele conseguia me irritar daquela maneira? Por que seu olhar me queimava tanto? Seria realmente capaz de afetar a minha psique com algum tipo de truque, como Kevin havia dito?

— Sim. Mas tem um probleminha. — Então Richard apertou os lábios, tentando esconder que se divertia à minha custa.

— Qual?

E, virando de costas para mim, dirigiu-se até o balcão onde Beth estava. Gelei.

— Beth?

— Ãh? Oi! O senhor está sendo bem atendido? — Seus olhos brilhavam.

O cretino passou lentamente as mãos pelos fartos cabelos, olhou para mim e fez uma pausa cinematográfica.

Pronto! Acabo de perder meu emprego!

— Muito bem — e desferiu com seus bélicos olhos azuis um tiro certeiro em Beth, que se deixou abater com incrível facilidade. — É que tem um probleminha.

— Pode falar, Sr. Trent.

— Eu preciso levar toda esta mercadoria ainda hoje, senão infelizmente não poderei efetuar a compra.

— Isto não é problema! Nós temos todo o restante do que o senhor pediu no estoque. O serviço de entrega já encerrou a esta hora, mas poderemos levar a encomenda até o seu carro.

— Pois é, mas estou de moto.

— Então nós faremos um embrulho bem compactado e o prenderemos ao banco do carona. Vai nos tomar só mais alguns minutinhos, se o senhor não se importar em esperar…

— Tudo bem. Eu aguardo.

“Minutinhos”? O tempo gasto naquela maldita venda duplicou. Ou pior, triplicou. Beth se enrolou mais do que o previsto nos lançamentos, quer por falta de prática, quer por estar em êxtase diante da consumação dos astronômicos lucros. Para meu desespero, o tom de sua voz dizia tudo:

— Nina?! O Sr. Trent precisa levar a sua mercadoria ainda hoje e…

Eu tinha ouvido toda a conversa com a esperança de que Bob já tivesse retornado não sei de onde. Não poderia ir sozinha com Richard até lá fora. Se o que Kevin presenciara era verdade, eu estaria correndo um risco absurdo. Como explicar toda aquela teoria a Beth? Além de achar que agia de má vontade, me taxaria como louca, no mínimo. Comecei a tremer, deixando à mostra meu estado de nervos. Era óbvio que ele havia armado tudo aquilo! O que queria comigo afinal de contas? Podia sentir seus olhos selvagens me observando com atenção. Teria de disfarçar meu medo.

— Tudo bem, Beth. Eu o ajudo.

Beth expressou sua satisfação com um balançar de cabeça.

— Está dispensada. De lá, pode ir. Eu ainda tenho muitas coisas para lançar. Até amanhã!

— Até, Beth — disse, e inventei um álibi para que ela desse por minha falta: — Ainda retornarei para guardar umas caixas de DVDs.

— Ok — respondeu-me no modo automático.

Apostaria meus dois dentes frontais que ela não havia prestado a mínima atenção.

Fomos andando lado a lado e em silêncio até o estacionamento. Pelo horário, completamente deserto. Durante todo o tempo mantive-me alerta a qualquer movimento suspeito da parte dele. Ele caminhava em direção à moto esportiva mais imponente que eu vira em toda a minha vida, talvez uma Kawasaki Ninja top de linha. Era negra e exibia um enorme raio dourado estampado no lado direito da carenagem. Enquanto eu me esforçava em transportar o desajeitado pacote, ele carregava seus dois embrulhos com a maior facilidade, confessando a ridícula encenação. Um discreto ruído. Foi o suficiente para fazê-lo reduzir o ritmo de suas passadas. Com uma expressão sinistra, começou a olhar em todas as direções. Aterrorizada, senti uma descarga de adrenalina. Outro barulho, e Richard já estava plantado atrás de mim. Trêmulas, minhas pernas não sabiam que direção tomar.

— Ah! — gritei quando senti uma fisgada gelada me atingir por trás. O calafrio passeou novamente por mim. Olhei por cima do ombro e Richard me indicava a direção que devia seguir da pior forma possível: camuflado por detrás da jaqueta de couro, ele pressionava um objeto pontiagudo contra as minhas costas. Uma pistola?

— Nem pense em parar, garota. Continue andando — ordenou entredentes e, em estado de choque, obedeci. O horror de ter aquele objeto pressionado contra o meu corpo parecia drenar minhas energias. Comecei a ficar fraca. Eu sabia que precisava berrar enquanto ainda tinha forças, mas minha garganta queimava, fechando-se com velocidade assustadora. — Deixe tudo aí — sussurrou em meu ouvido. Aflita, livrei-me da pesada carga colocando-a sobre o banco da moto. Novos ruídos. Um trepidar. A respiração dele me atingindo. Atordoada, vasculhei tudo ao meu redor. Nem uma alma viva que pudesse me socorrer. Absolutamente ninguém. O que fazer agora? Outros sons. Gotas d’água minando de uma rachadura do teto e mergulhando numa poça de óleo logo adiante, como um cronômetro denunciador do tempo que se esvaía.

— Não! — meu grito saiu afônico, quase um assovio rouco quando, subitamente, Richard me segurou pela cintura, imobilizando-me.

— Fique quieta!

— Solte-me!

— Sua…

— Tudo bem aí? — uma voz conhecida resgatava-me daquele pesadelo. Era Bob. — Nina?! Você está bem?

Após balbuciar qualquer coisa, Richard liberou-me de suas garras.

— Olá! Então você é o Bob? Acabei de fazer esta compra em sua loja — começou ele com a cara mais cínica deste mundo.

— Reconheci o embrulho — soltou Bob, encarando-o desconfiado. Eu continuava em choque, imóvel. Richard foi rápido:

— Nina veio me ajudar a trazer a mercadoria até a moto, já que você havia saído.

— Sei. Por que então ela está com esta cara de quem viu um fantasma?

— Porque acho que ela não estava passando bem. Parece que estava se sentindo meio estranha quando, sem querer, esbarrei nela. Então eu a segurei com força bem na hora em que ela ia desmaiar sobre estas ratazanas aqui no chão. — E apontou para os meus pés.

Bob e eu olhamos para o local indicado ao mesmo tempo. Quatro enormes ratazanas semiputrefeitas jaziam a milímetros de meu pé esquerdo.

— Ai! — Dei um pulo para trás enquanto Bob gargalhava.

— Mulheres! — zombou Bob, e os dois riram entre si. — Pode ir, Nina! Eu ajudo o moço. Estas caixas estão bem desajeitadas mesmo.

Eu estava atônita com a situação.

— Nina? — chamou Bob. — Procure logo um médico, menina. Você não está nada bem.

Assenti com a cabeça, atordoada, e saí dali o mais rápido possível.

Somente do lado de fora da Strike me lembrei de respirar. O que havia acabado de acontecer afinal de contas? Tinha sido tudo imaginação minha ou uma grande farsa? Estaria ficando paranoica por causa das frequentes tonturas e calafrios? Meu peito ardia. Um indefinido misto de fúria por ter perdido meu tão esperado encontro com Kevin, medo por estar desenvolvendo algum tipo de doença mental e alívio por ter escapado daquele garoto amedrontador distraiu-me de tal forma que custei a perceber a queda vertiginosa no número de pedestres pelas redondezas. Poucos carros cruzavam a avenida escancarada em frente ao grande shopping center adormecido. Constatei imediatamente o porquê. Já passava das onze da noite, e um vendaval arrepiante anunciava uma tempestade a caminho. Saquei minha sombrinha para me proteger da chuva grossa que começava a me atingir.

— Ah, não! Ai!

A ventania era tanta que a sombrinha se entortou de uma forma estranha, partindo-se em duas partes. Uma delas voou em minha direção e a ponta afiada do cabo de alumínio atingiu meu ombro direito, furando meu casaco novinho em folha. Enquanto eu checava os danos, ouvi um ruído fino, mas, ao fazer a varredura do local, não encontrei ninguém por perto. Desconfortável com o ermo ambiente, joguei o capuz da parca sobre a cabeça e acelerei. Meu coração veio à boca quando, ao virar a esquina, percebi passos cadenciados logo atrás dos meus. Estava sendo seguida! Sem coragem de olhar para trás, apertei o ritmo a ponto de começar uma corrida. Minhas pernas bambearam ao ouvir o meu nome ecoar pela calçada deserta.

— Nina?

Meu corpo congelou. Sem comando. A voz tornou a me chamar e eu a reconheci.

— Phill?!

— Oi! Caramba! Já estava ficando preocupado com você!

— Ãh?

— Depois eu explico. Agora vou te dar uma carona antes que um dilúvio desabe sobre nós — respondeu acelerado.

— Ok! — Um sorriso se estampou em minha face. Phillip era o meu anjo da guarda naquela noite macabra.

— Ainda bem que meu pai me emprestou o carro — arfou ele enquanto entrávamos no seu antigo Chevrolet Malibu e saíamos dali. — Você sempre faz hora extra assim?

— Não, Phill. Hoje foi uma loucura. Aliás, como me achou aqui?

— Melly me disse que você estava trabalhando na Strike e então eu resolvi te fazer uma surpresa — suspirou. — Só não imaginei que seria tão difícil! — E me olhava pelo canto do olho.

— Puxa, Phill! Você estava me esperando desde nove horas?

Ele sacudiu a cabeça, confirmando.

— Acho que um aluno novo da nossa turma também estava esperando alguém… — levantou a sobrancelha direita, indagando-me com o olhar. — O garoto louro bonitão, sabe qual é?

— O Kevin? — meus pulmões se estufaram de felicidade. Disfarcei.

Pensei em fazer algumas perguntas, mas me contive. Bem a tempo. Ele se adiantou:

— Foi embora agora há pouco… e sozinho. — Havia um certo veneno de satisfação escorrendo pelo canto de sua boca.

— Ele também estava esperando desde cedo?

— Não sei. O lourão estava estacionado do outro lado da avenida e eu só o vi instantes antes de ele ir embora.

— Ele não deve ter te visto.

— Pode ser — matutou. — Mas o que é isto? Tá maluco?! — Phill abriu a janela e desatou a xingar um motoqueiro que acabava de nos dar uma fechada e tanto. Mudou de ideia ao ser atingido por uma rajada violenta de vento e chuva. A tempestade tomara proporções assustadoras. Relâmpagos rasgavam o céu negro, trovões açoitavam nossos ouvidos. — Onde estão os guardas para multar um imbecil como este?

— Em casa e bem quentinhos — brinquei. — É a chuva, Phill! A visibilidade está péssima.

Phill deu uma risada e soltou uma piadinha jocosa:

— O problema é o horário! Deve estar com pressa porque, quanto maior a demora em chegar em casa, maior a surra que vai levar da mulher.

Nós rimos. A tensão do ar se dissolveu e, para minha infelicidade, foi o suficiente para animá-lo a me bombardear com suas infrutíferas cantadas.

— Sei que você mora no East Village, só não sei o endereço exato. Sabe como é? Preciso…

— CUIDADO! — gritei ao ver um carro crescendo na sua lateral assim que entramos em uma rua transversal. Por sorte os reflexos de Phill estavam em ordem e, ao invés de frear, ele acelerou e nos fez escapar de um grave acidente.

— Você viu? Os faróis dele estavam apagados! — Phill xingava alto e ameaçou parar o carro para tirar satisfação com o condutor do outro veículo. A chuva torrencial dificultava tudo. Não conseguíamos enxergar praticamente nada à nossa frente.

— Não, Phill! Por favor! Pode ter sido sem querer! Esta chuva está muito forte!

— Está na cara que foi de propósito! — bufou ele.

— Tudo bem! E se foi mesmo de propósito? — retruquei nervosa. — E se forem vários? O que você vai fazer? Brigar com todos? — Phill ficou assustado com a minha postura agressiva. Respirei fundo e tratei de contemporizar: — Desculpe, Phill, mas não dá para enxergar nada! Se foi mesmo de propósito, é porque quem está por detrás daquele volante é doido ou está procurando algum tipo de confusão, não vê? Por que você acha que o carro estaria com os faróis apagados numa tempestade como essa?

Phill meneou a cabeça, mas dirigia tenso. Eu o convenci a reduzir a marcha em um sinal, mesmo estando aberto para nós.

— Só por precaução — adverti.

— Isto é um absurdo! — ele reclamava sem parar quando comecei a sentir o calafrio se espalhando pelo meu corpo. Mau agouro.

— Acelera, Phill — ordenei.

— Mas você não pediu para eu reduzir?

Uma sensação obstrutiva invadia minhas células.

— Acelera! — gritei, e antes que ele me desse qualquer tipo de resposta, empurrei com força a perna que se apoiava no acelerador.

— O quê?! Nossa!

Nossos pescoços chicotearam no ar. Sorrateira, aproveitando-se da pouca visibilidade e do barulho da tempestade, uma pick-up com os faróis também apagados nos acertou pela traseira, e o estrago só não foi maior porque acabávamos de acelerar.

— Estamos sendo perseguidos, Phill! — gritei, enquanto ele assumia o comando da aceleração.

— Como?! Por quê? O que é que está havendo?

— Não sei! Droga! A pick-up continua atrás de nós! — esbravejei assustada ao perceber que o demoníaco carro acendera seus faróis altos, cegando-nos por completo.

— O quê?Ah!

A pick-up raivosa havia nos acertado novamente.

— Acelera!

— Eu não sei para onde estamos indo!

— Acelera, Phill! Temos que encontrar um lugar seguro!

De repente estávamos numa corrida de horror. Carros e motos surgiam do nada, avançando desorientadamente sobre nós. O calafrio aumentava, impondo-se. Um estrondo invadiu o carro.

— Argh! — Senti meu ombro direito arder. Cacos de vidro explodiram sobre nós.

— Nina?! — Phill estava descontrolado. Olhei para o lado e minha janela não estava mais lá. Havia sido completamente estilhaçada. Estávamos cercados por motoqueiros selvagens, que atacavam nossas laterais com ferocidade. — Você está sangrando? — berrava ele. Foi quando me dei conta daquela umidade quente escorrendo sob minha parca.

— Cortei meu ombro!

Antes que eu tivesse tempo de averiguar o estrago, Phill me trouxe de volta à nossa terrível situação.

— Vamos bater!

O coitado suava em bicas, seus reflexos começando a ceder sob a ação do sistema nervoso em colapso. Ele estava sendo tomado pelo pânico quando percebeu que um caminhão avançava sobre nós em sentido contrário enquanto a pick-up nos cercava por trás. Era o nosso fim.

— Desvia! — ordenei histérica.

— Não dá!

— Desvia! Oh, não!

Phill tinha razão. Atordoada, eu não havia me dado conta de que acabávamos de entrar em um túnel com uma única pista em funcionamento. A outra estava em obras e bloqueada por blocos de concreto. Não tínhamos para onde desviar. Seríamos esmagados e reduzidos a pó. Levei as mãos ao rosto em desespero e vi tudo acontecer em fração de segundos. Prestes a sermos imprensados contra o caminhão, uma potente moto fez uma manobra suicida, entrou alucinada entre a pick-up e o nosso carro, alterando o trajeto da pick-up e fazendo-a rodopiar. Logo em seguida nos alcançou e chocou-se violentamente contra a porta de Phill, o que o fez se assustar e perder o controle do carro. Tudo rodou e depois se apagou.

Quando recobrei meus sentidos, estava sendo arrastada para fora do carro pela janela quebrada. Um som alto e intermitente apunhalava meus ouvidos. Estilhaços de vidro, pedregulhos e poeira encobriam tudo ao meu redor. Havíamos capotado, e o Chevrolet Malibu jazia de cabeça para baixo, com a lateral esquerda esmagada contra a parede do túnel em obras, ou seja, estávamos do outro lado do túnel. O barulho e a fumaça que abafavam o lugar eram emitidos pelo caminhão que tinha sua frente separada da carroceria tombada. Ao bater na pick up, a buzina deve ter sido afetada e disparara. A pick up estava completamente destruída. Sobrara apenas a carcaça toda retorcida e a lataria espalhada em irreconhecíveis pedaços. Não tive coragem de procurar pelos seus ocupantes. Por um milagre, saí ilesa daquele acidente, mas Phill estava desacordado e tinha a cabeça coberta de sangue.

— Phill? — gritei horrorizada.

— Venha.

Reconheci de imediato aquela voz seca e repugnante, e minha visão ameaçou ficar turva. Oh, não! Richard?!

— Foi você! — balbuciei em pânico, aturdida. Senti que tinha batido com a cabeça.

— Você vem comigo! — berrou.

— Não! O que está havendo? Solte-me! — minha voz saía fraca. Pressentia o pior.

— Rápido!

— Eu não vou com você a lugar algum! — zonza, tentei esboçar algum tipo de reação, seguida por um berro abafado. Ambos em vão.

— Ah, vai sim! — Sem fazer o menor esforço, ele me levantou e pôs-me sobre a moto. Ágil como um gato, acomodou-se logo atrás de mim e deu a partida.

Kevin estaria certo? Seria aquele marginal capaz de penetrar em minha mente, deixando-me em um paralisante estado de torpor ou eu estava assim em virtude do acidente? Era tudo muito confuso. O vento congelante e a chuva torrencial começavam a mostrar seus efeitos, recobrando-me a consciência aos poucos.

— O que quer de mim? — O sangue pulsava em meus ouvidos.

— Cale a boca, senão…

— Senão o quê? O que vai fazer? Vai acabar comigo, como fez com Phill? — retruquei, tentando disfarçar meu medo em visível ascensão.

— Você é pior do que eu pensava! — ele rugiu.

— Você sabe onde eu moro?! — berrei preocupada ao vê-lo fazer com perfeição o caminho para a minha casa. Então ele mudou o trajeto e, de repente, deu uma freada brusca, parando em uma rua deserta e mal iluminada.

— Chega! — ordenou, agarrando um de meus pulsos com força descomunal. Uma descarga elétrica percorreu todo o meu corpo, deixando-me em estado de confusão mental. O familiar e paralisante calafrio me açoitava sem piedade. Quando dei por mim, ele estava me encarando, fuzilando-me com seus estupendos olhos azuis-turquesa. Um tiro certeiro, fazendo tudo ao redor perder o foco e meu raciocínio sangrar. Uma hemorragia de compreensão, o quebra-cabeça começando a tomar forma. “Estupendos olhos azuis-turquesa?!” Foi como se um filme passasse em minha cabeça em fração de segundos. Era isso! Seus olhos azuis eram sem sombra de dúvida os mesmos olhos que eu vi quando quase fui esmigalhada pelo andaime, os mesmos olhos que me fitaram na confusão lá na Strike. Será ele o assassino que vem tentando me matar todo este tempo? Será ele o mesmo psicopata que Anna mencionou? Há sete dias ele poderia ter estado em Londres e assassinado a tal de Mary…

Em choque com as recentes descobertas, não percebi a expressão de seu rosto se alterar. Richard estava rígido.

— Merda!

Naquele momento, ouvi a sirene de um carro de polícia passar pela avenida transversal àquele macabro beco. Meu peito se encheu de uma súbita esperança. É agora! Não vou deixar que ele me leve para lugar algum. Não enquanto tiver forças para lutar. Como reflexo, no mesmo instante em que ele subiu na moto, rapidamente dei um pulo pra trás e desatei a correr e a gritar como uma louca, pedindo ajuda a quem quer que aparecesse no meu caminho.

— NÃO! Sua estúpida! Volte aqui! — ele trovejava.

A rua escura e desabitada em nada me ajudava. Fui surpreendida pelo ronco de um carro dobrando a esquina e acelerando em minha direção.

— Socorro! Aqui, por favor! — gritava aos prantos. Cheguei a olhar para trás com medo de que Richard já estivesse se aproximando, mas a escuridão do local bloqueava tudo.

O carro acendeu seus faróis altos ofuscando a minha visão. Tateando, tentei correr em direção daquela que parecia a única forma de sair viva dali.

— Por favor, aqui! — acenei.

Tive a impressão de que o veículo acelerava ainda mais na minha direção, ao invés de reduzir, o que instantaneamente me fez entender que aquele poderia ser o comparsa do meu algoz, vindo em seu auxílio. Afinal de contas, o que ele estaria fazendo naquele lugar abandonado, naquele exato momento? Imediatamente me pus a correr sobre a calçada imunda, porém no sentido contrário. O carro parecia um touro raivoso, investindo contra a capa vermelha de um toureiro. Eu era a capa vermelha. Minha visão começava a se adaptar, mas ainda assim não conseguia enxergar nada com precisão. Todos os postes de luz queimados ou quebrados daquela rua uniam forças à luz ofuscante que vinha daquele veículo. Enquanto meu fôlego me permitisse correr, eu lutaria pela minha vida. Para o meu azar, no rumo que tomei, a rua não tinha saída. Escondi-me atrás de um poste de concreto bem largo. Para me atingir, o sujeito teria que derrubá-lo. Mas, e se ele estivesse armado? Antes mesmo que eu pudesse pensar em uma alternativa de fuga, o nervoso carro começou a investir pesadamente contra a velha coluna de concreto que me protegia. O ronco do seu motor rosnava, parecendo imitar a fúria de seu condutor. Eu só não conseguia entender o que estava acontecendo. O que eu havia feito de errado? Por que eu?

Abaixada, encolhida com a cabeça escondida entre os joelhos e pressentindo que o poste que me protegia estava prestes a ceder, ouvi o rugido de uma moto me atingir. Um inesperado braço estendido em minha direção.

— Suba! — ordenou Richard, mas suas mandíbulas tremiam.

— Não! — eu chorava copiosamente.

Naquele momento o carro desvairado atacou com mais violência ainda o pilar que me protegia. Este começou a ruir, as estruturas metálicas que erguiam a lâmpada já queimada caíram a poucos centímetros de meu corpo. Meu fim era evidente.

— Agrh!!! — rosnou ele.

— Ah!!!

Um forte trepidar, um estrondo colossal seguido de um clarão, meu corpo arremessado no ar: eu havia sido atingida por um raio ou pelo carro homicida? Sem dor? Antes que eu pudesse reagir ou mesmo entender o que acabara de ocorrer, a mão cheia de cicatrizes já tinha me agarrado pela cintura e me puxado para cima da moto no exato instante em que toda a estrutura desabou. Imobilizada em uma ridícula posição de bruços, minha cabeça, braços e pernas ficaram pendurados e sacolejavam a cada guinada da maldita moto. Tudo que consegui compreender era que saíamos daquele beco macabro da maneira mais rápida possível, ou seja, de qualquer jeito.

Ele acelerou de forma assustadora, pilotando como um louco. Mesmo estando encharcada, tudo em mim fervia. O vento gelado era um bálsamo para o meu rosto em chamas. A chuva torrencial já não me incomodava mais. Por mais absurdo que pudesse parecer, naquele momento meu pânico havia desaparecido e uma espécie de alívio se insinuava. Minha sensação era de que estava saindo ilesa de um terrível pesadelo. Apenas um sentimento de dúvida me oprimia: como eu podia ficar tão calma abraçada ao meu algoz? Como podia estar tranquila depois dos horrorosos momentos por que acabara de passar? Subitamente senti sua musculatura se enrijecer por completo.

— Porra! — ele rosnou ao frear a Kawasaki violentamente.

Minha estupidez não me permitiu entender o que acabava de acontecer: estávamos encurralados! Do nada, o carro ensandecido surgiu atrás de nós. Ele acelerava com furor e, sem sair do lugar, ameaçava avançar sobre nós rugindo seu motor a altíssimos decibéis. Seus coléricos faróis piscavam numa espécie de código para outro carro à nossa frente, sendo prontamente respondidos. O outro veículo, que obstruía uma das duas únicas saídas possíveis, fritava seus pneus soltando claustrofóbicas nuvens de uma fumaça escura e cheirando a borracha queimada. A terceira saída estava completamente obstruída por um gigantesco caminhão estacionado. Começava a ficar sufocada, não sei se pela ausência de oxigênio no ar ou se por um medo devastador do que estava por acontecer. Richard não hesitou:

— Você vai passar pela lateral do caminhão! — ordenou enquanto vigiava os dois carros se aproximando de nós.

— O quê? Não dá! — guinchei. — É muito apertado!

— Cale a boca e faça o que eu mando — berrou.

— Mas não dá!

— AGORA! — trovejou.

Com uma guinada que fez meus globos oculares chacoalharem em suas órbitas, a moto acelerou com extrema rapidez, e ele praticamente me despejou para a estreita passagem entre o caminhão de obras estacionado e o muro de um antigo prédio comercial. Então ele e a sua moto desapareceram, indo ao encontro dos seus supostos inimigos. Eu não quis ver mais nada. Arranhando-me ao me espremer contra aquele muro de cimento chapiscado, tentava impor alguma velocidade em minhas pernas, já que meu cérebro estava absolutamente lerdo. Ao conseguir transpor o obstáculo, desatei a correr, sem ter a mínima noção de onde estaria e para onde estava indo. Depois pensaria nisso. Por ora, teria que me esconder em algum lugar seguro, mas, para meu desespero, as poucas lojas na região já haviam fechado quer pelo horário, quer pela tempestade que não dava trégua. E agora?

Avancei pela avenida como uma alma penada. Corria a esmo e em estado de pânico, minhas lágrimas camufladas em meu rosto e corpo encharcados, meus sentidos absolutamente desnorteados. Silencioso como um gato, ele surgiu atrás de mim, quase me matando de susto.

— Ãh?!

Como aquele louco havia escapado?

— Suba!

— Não!

— Rápido! Antes que eu me arrependa! — ordenou impaciente.

— NÃO! Eu não vou com você a lugar nenhum!

Descontrolada, desatei a socá-lo e xingá-lo. Nervoso, ele se livrou das minhas investidas, empurrando-me com violência. Tombei de queixo no chão e senti gosto de sangue em minha boca. Ele desceu da moto e veio em minha direção. Ainda zonza e com a boca latejando, tentei me afastar dele, arrastando-me pelo asfalto cheio de lama.

— Eu não queria… — desatou ele a dizer com a fisionomia perturbada.

— O que vai fazer agora? — Mesmo tomada por um medo atroz, eu ainda o enfrentava. — Acabar comigo? Como fez com Phill?

Bastou. No mesmo instante, ele me puxou do meio-fio alagado, cerrou as mãos ao redor do meu pescoço e começou a estrangulá-lo. Outro jorro de compreensão. Era a hora. Dentro de mim algo sinalizava que havia chegado o momento. Os acidentes anteriores me alertaram, mas não conseguiram me preparar para este terrível momento: minha morte. Ninguém da minha idade está preparado para morrer. E eu sabia que ele ia me matar. Não havia como escapar. Eu seria estrangulada. Em segundos eu sentiria um click e tudo acabaria. Eu acabaria. Por que eu? Por que agora? Por um breve instante consegui pousar meus olhos nos dele e, por mais absurdo que possa parecer, não tive medo, mas sim fascinação. A fúria naquelas magnéticas safiras azuis-turquesa borbulhava de um jeito assombrosamente estupendo, quase hipnotizante. Ele era tão, tão… O que estava acontecendo comigo? Eu estava sendo hipnotizada pelo meu assassino? Seria parte de algum truque diabólico?

Subitamente Richard franziu a testa e soltou uma espécie de uivo raivoso. Pronto! É agora! Não havia mais nada a fazer. Resolvi então fechar os olhos e ficar imóvel, aguardando pelo pior. Esperei. Esperei… Senti que a pressão diminuía e, como nada acontecia, tornei a abrir os olhos. Deparei-me com ele me observando de um jeito estranho, como se estivesse me estudando. Foi então ele colocou sua assustadora mão sobre a minha boca e sussurrou em meu ouvido:

— Não torne a aparecer naquele colégio. Desapareça desta cidade e desfrute ao máximo o tempo que ainda tem com a sua mãe.

Pisquei e tudo ficou embaçado. O que acabara de acontecer comigo tinha sido um truque de ilusão?

Verdadeiro ou falso?