Não Pare!

F.M. Pepper · Capítulo 15 de 22

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Não Pare!

Capítulo 15

 

— Nina?! O que você está fazendo aqui?! — o semblante de Kevin era de pura felicidade.

Ele me abraçou e instantaneamente senti um mal estar passageiro. Ah, não!

— Depois lhe conto em detalhes — respondi, enchendo os pulmões de ar.

— Eu fiquei tão preocupado com você. O que houve com sua mãe lá no teatro? Por que você não retornou minhas ligações?

O coitado não podia imaginar o drama mexicano que eu havia acabado de passar.

— Você não tem que dar um pulo no seu hotel? — indagou-o o tal de Alec impaciente. — Depois vocês conversam a sós.

— Tem razão. — E, olhando para mim, acrescentou: — Vai ser rápido! É só o tempo de pegar algumas coisas.

— Ok — assenti feliz.

Caminhamos os quatro em silêncio até o local onde ele estava hospedado. Para minha surpresa, não era um hotel propriamente dito, mais parecia um prédio abandonado numa área bem afastada do centro comercial. Algo dentro de mim não gostou daquilo e tentou me avisar, mas não lhe dei ouvidos. Não tinha por que duvidar de Kevin e seus amigos, afinal, eu havia pedido para vir com eles, e não o contrário.

— Não é bem um hotel — tratou de se explicar. — Meus pais alugaram este apartamento de um amigo endividado. Além de ser bem mais em conta, era uma maneira de ajudá-lo — e sorriu olhando para os amigos.

— Tudo bem. Eu espero aqui embaixo — retruquei um pouco agoniada com a situação.

— Aqui embaixo? Sozinha? — e me fez uma pergunta amarga, deixando transparecer sua decepção: — Nina, você está desconfiando de nós?

— N-Não é isto — gaguejei. — Desculpa. É que tenho andado um pouco tensa… Ok! Vamos subir!

Ele abriu o portão enferrujado e fez um gesto para que eu entrasse na frente deles. À medida que subia os empoeirados degraus, algo dentro de mim gritava mais e mais alto. Trêmula com a situação desconfortável que se desenhava ao meu redor, olhei para trás e vi que Kevin era o último a entrar. Ele trancou o portão e guardou as chaves no bolso do seu casaco. Logo atrás de mim subia o tal de Alec, que mais parecia um lobo faminto, salivando diante de sua presa.

É tudo imaginação minha. Só pode ser! Kevin é uma boa pessoa, logo, seus amigos também devem ser.

Nossos passos produziam estranhos ecos pelo ambiente. Pareciam gritos de advertência. Avisos sombrios de que algo muito ruim estava à espreita. Subimos em silêncio. Atordoada, todo o som que eu ouvia agora era o de minha respiração e de meu coração tamborilando dentro do peito. Novo calafrio e a visão ameaçando embaçar, minhas pernas ficando bambas. Ia acontecer de novo.

Chegamos a uma espécie de atelier, que pela quantidade de poeira e teias de aranha devia estar abandonado há muito tempo. Minha intuição não gostou do que viu. De impulso, inventei uma desculpa ridícula:

— Puxa! Acho que perdi meu brinco! Deve ter caído lá embaixo! Vou descer só um minutinho para procurá-lo! — E, antes que eu pudesse me mover, uma mão agressiva me interceptou.

— Aonde você pensa que vai, mocinha? — era o tal de Alec.

— Vou descer rapidamente e…

— Shhh — grunhiu ele.

Eu congelei, em choque.

— Solte-a, Alec! — ordenou Kevin.

Aproximando-se de nós, Kevin me resgatou das garras de Alec e me envolveu em um abraço tenso. Aturdida com a estranha situação, respondi de forma apática ao beijo que ele me tascou logo a seguir. Meu corpo tomado por uma fraqueza estranha.

— Kevin, o que está havendo? Eu…

— Shhh — sussurrou ele em meu ouvido enquanto me imobilizava. — Não gaste suas energias.

— Ãh?

— Você vai precisar delas, garota. — Kevin soltou um suspiro estranho, ouvi um estalo e minhas mãos estavam presas a uma barra de ferro. Só então percebi que tudo ali havia sido devidamente preparado: o local deserto, as algemas esperando por mim. — Aprenda como se faz, Alec — concluiu ele cheio de superioridade.

— O que está acontecendo? Não pode ser! Kevin, você é bom… Me salvou da morte! — balbuciava aturdida sem compreender um mísero parágrafo daquele horroroso capítulo.

— Morte? Eu sou a morte! A sua morte, ouviu bem?

Aquelas palavras quase me fizeram desmaiar. Atônita. Não podia ser verdade: ele também fazia parte daqueles bizarros acontecimentos?!

— Você já deve saber que “as mortes” vêm lhe procurando há um bom tempo, não é mesmo? Que a sua adorável mãezinha conseguiu complicar um bocado as coisas para o nosso lado, criando estas ridículas lentes e colocando em você este colar enfeitiçado, né? Já deve saber também que Richard foi quem livrou sua cara das minhas garras por diversas vezes, não é verdade?

— Richard? Me livrou? — Eu estava completamente tonta. As informações se processavam desencontradas e a mil quilômetros por hora. Ele percebeu meu estado de perplexidade.

— Ah? Não sabia?! Que pena! Foi por isto que fugiu dele então? Fui mais convincente do que ele, não é mesmo? — soltou um riso demoníaco enquanto tragava um cigarro. — Toda aquela história sobre ele ser perigoso e tudo mais… Você caiu feito uma bobinha, como era de se esperar para uma garota da sua idade. Basta jogar charme, sorrir, ser gentil e pronto. Mas tem alguma coisa errada nessa história. Por qual motivo Richard vem poupando sua vida? O que ele tem a ganhar? Eu sei que ele nunca jogou para perder… Richard sabe de alguma coisa que eu ainda não tomei conhecimento. E eu preciso descobrir. É só por isto que não acabo com você agora mesmo — confessou, apertando com força meu rosto entre seus dedos. Sem pensar, reagi cuspindo em sua face, mas ele não se alterou. Encarando-me com semblante indiferente, ele se aproximou ainda mais de mim até que eu comecei a sentir uma ardência terrível em meu pescoço.

— Ai! — berrei de dor, tentando me desvencilhar da ponta acesa do cigarro que ele pressionava sobre minha pele. — Não! Pare! — Quanto mais eu gemia, mais ele parecia sentir prazer. — Por favor!

— Humanos! — suspirou, finalmente removendo o maldito cigarro de minha pele queimada e tornando a dar uma tragada.

Quando levantei o rosto, ainda perturbada com o que acabara de acontecer, pude jurar que as pupilas de Kevin estavam tão verticais quanto as minhas.

Oh, não! Meu cérebro entrara em colapso: eu estava enlouquecendo também!

E ele saiu, seguido pela sombra dos seus comparsas.

Tal como Richard havia me orientado, abri o maior berreiro. Gritei tanto o seu nome, que minhas cordas vocais ficaram ardendo. A ferida no pescoço ardia sem parar, meus pulsos sangravam, minha cabeça latejava de dor. Sentia-me muito mal, mas, naquele momento, eu estava mais chocada com as afirmações de Kevin do que com seus atos. Nem suas ameaças me impressionaram tanto quanto o que dissera sobre Richard. Seria Richard capaz de ir contra a sua própria seita por minha causa? Era isso que Ben queria dizer quando comentou que ele andava estranho? No entanto, Richard permitiria a minha morte em uma data específica? Tudo era tão sem sentido, nada batia com nada. Jogada à minha própria sorte, concluí que seria impossível encontrar a lógica dessas evidências. Uma única coisa parecia certa: se era para morrer, que fosse nos braços de Richard. Apesar de violento, assustador e por vezes insuportável, algo me dizia que ele não me deixaria sofrer, que me pouparia de um fim triste. Aquela súbita certeza deixou aflorar um sentimento que eu vinha sufocando há um bom tempo, mas que sempre soube que existia. Um sentimento forte que preencheu meu peito de forma tão entorpecente que a sensação que eu tinha era de que nada mais tinha importância longe dele e que tudo seria perfeito se ele estivesse por perto.

Já devia ser de madrugada, ouvi Kevin e seus escudeiros retornando ao covil.

— Ora, ora! Ainda acordada? — perguntou Kevin, em tom de deboche.

— Ela está aproveitando os últimos minutinhos — gargalhava o amigo de aparência vampiresca. Ele ainda salivava.

Sebastian, bem mais franzino que os dois e que até então permanecera calado, chamou Kevin em um canto reservado. Acho que não queria que eu ouvisse a conversa, o que foi prontamente dispensado por Kevin:

— O que é? — Kevin permanecia irritado.

— Não acha melhor acabarmos logo com isto e mostrarmos o serviço completo para Leônidas? — sussurrou Sebastian.

— Do que você tem medo?

— Tem algo errado com esta garota, Kev.

— Não vejo nada de errado. É só uma garota que deu a sorte de ter uma mãe bem esperta. Se bem que, nem tão esperta assim… Não tão esperta quando encontrou um resgatador astuto, como eu, pela frente.

— Foi você?! — berrei com súbito ódio mortal. — Você matou minha mãe?!

— Com um prazer inenarrável, posso acrescentar. Talvez só não seja maior que o prazer que terei em acabar com você! — completou com ar de triunfo, gritando à distância.

Estava tudo muito claro agora. O semblante de desespero de Stela ao ver Kevin conversando comigo no teatro e depois nos cercando na saída. Ela sabia de alguma coisa. Se não sabia, ao menos pressentia. Ele a matou! Mas, como, se ele não se aproximou dela? Não pude me conter e bolei uma pergunta que mexesse com seus brios.

— Pensando bem — continuei em voz alta —, acho improvável que tenha sido você quem matou a minha mãe. Você está se aproveitando do imprevisto para ganhar a fama — e dei um risinho de escárnio.

Seus traços faciais deformaram-se no mesmo instante, e, tremendo, precipitou-se sobre mim. Agarrou uma mecha de meus cabelos e a puxou com vontade:

— Eu guiei a morte dela, sua tola! — ele rosnava. — Nós, resgatadores, somos capazes de fazer isto sempre que desejamos. Utilizamos um infeliz que esteja com suas horas contadas para dar cabo deste tipo de missão. Uma morte indireta! É muito fácil dominar a mente fraca de vocês, humanos.

— Você usou aquele homem para matá-la? — perguntei, puxando meus cabelos de volta.

— Que brilhante ela é!

— Mas como fez o lustre desmoronar? — insisti.

— Eu o preparei para aquilo, era só uma questão de tempo — concluiu.

— Era só o homem ficar segurando a minha mãe bem debaixo dele?

— Exatamente! Podia ter sido melhor. Se não fosse aquele idiota do Richard, eu teria atirado em um coelho e acertado dois.

— Kev, ainda assim acho melhor acabar logo com isto! — pedia Sebastian, em estado de evidente tensão, agora já não mais fazendo questão de esconder a conversa entre eles. — Leônidas e o nosso clã teriam sua moral elevada. Sabe que nosso líder é fraco, que não tem condições de organizar um exército, muito menos de liderá-lo. Não dê tempo para Von der Hess agir. Fique com o prestígio para você e, com certeza, será seu sucessor. Por que arriscar? Vamos acabar logo com isto!

— Ainda temos tempo! — ele trovejou. — Vou descobrir por que Richard quis mantê-la viva durante todo este tempo… Até porque, Shakur também ficaria satisfeito com a eliminação dela. Ou não?

— Vai ver ele a manteve viva e a trouxe para cá para que Collin realizasse o serviço. Você sabe que Collin só tem força física, mas não é inteligente.

Passadas algumas dúzias de minutos, percebi que Kevin e Sebastian estavam de saída do outro aposento. Fingi estar adormecida.

— Não tire os olhos dela, Alec. Ouviu bem?

E saíram trotando, deixando-me sozinha com aquele rapaz de aparência vampiresca e engordurada. Ainda de olhos fechados, ouvi um barulho típico de alguém se acomodando, fiz um leve movimento e verifiquei que Alec acabara de se deitar. Dei mais algum tempo e voltei a observá-lo com meio milímetro de pálpebras abertas. Ele se espreguiçava com vontade e, de repente, algo brilhante me cegou. Um feixe de luz entrou pela janela daquele sombrio lugar, atingiu um molho de chaves na cintura daquele ser horripilante e refletiu em meu rosto.

Um sinal! Só podia ser! Era tudo o que eu mais queria naquele momento: o molho de chaves. Abri meus olhos lentamente. Verifiquei que o infeliz se encontrava em um relaxado cochilo, mas as chaves estavam, para minha infelicidade, bem presas a uma presilha da sua calça.

Estiquei-me o máximo possível, na inútil tentativa de me aproximar do meu objeto de soltura, minha liberdade. Droga! Tão perto e, ao mesmo tempo, tão longe das preciosas chaves. Uma ideia por demais absurda alojou-se em minha cabeça: e se eu me insinuasse… Será que ele não teria a tal curiosidade masculina, que Ben havia comentado? Será que, para me possuir, ele não acabaria me soltando e me dando uma chance de escapar dali? Resolvi tentar.

— Ei? Ei, você? Pode me ajudar, por favor? — quase fiquei enjoada, de tão melada que saiu a minha voz.

O rapaz deu um pulo da sua posição original, assustado. Continuei:

— Por favor, você poderia coçar as minhas costas? Eu estou desesperada!

— Se vire sozinha! — respondeu agressivo.

— Eu já tentei, mas não consigo. Não tenho onde me esfregar!

Ele continuou me olhando, agora mudo. Vendo alguma alteração em sua fisionomia, apressei-me em implorar de forma sensual.

— Por favor, não custa nada pra você, e eu ficarei muitíssimo grata — e lancei um sorriso sedutor.

Ele pensou por algum tempo e depois vestiu seu costumeiro sorriso faminto, aproximando-se lentamente de mim.

— Onde é?

— No centro das costas, bem acima.

Ele se abaixou e começou a coçar de forma bruta. Vendo que não estava sendo bem-sucedida na minha investida, aproximei ainda mais meu rosto de sua oleosa face, sorri e disse baixinho:

— Um pouco mais para cima, bem perto do pescoço. Naquele momento, ele começou a me coçar com uma estranha vontade, aproveitei-me da situação: — Você tem as mãos fortes, sabia? Adoro homem com mãos fortes! — Para minha angústia, demorou um bom tempo até que viesse algum tipo de resposta.

— Eu sei. — De repente, ele deixou à mostra parte de seus dentes. Acho que era sua estranha forma de sorrir.

Pronto! Massageara o seu ego. Seria mais fácil ir adiante.

— Você não tem a tal… curiosidade? — sussurrei próximo ao seu ouvido e ele ficou pálido.

— É. Bem… Eu tenho — concordou suando e olhando para a porta.

— Algum problema? — perguntei assim que percebi um pequeno sinal de relutância se formar em seu rosto nojento.

— Kevin pode chegar a qualquer momento — retrucou ele com aspereza.

— E o que pode acontecer? Tem medo dele? — Era pegar ou largar, eu tinha certeza de que o havia jogado contra a parede.

— Claro que não! — vociferou. E tasquei-lhe um beijo antes mesmo que ele pudesse parar para pensar. Senti que ele estava gostando daquele meu beijo cinematográfico. Que infelicidade a minha! Meus dois primeiros beijos dispensados às duas figuras mais horrorosas que apareceram em minha vida. Após algum tempo, ele arregalou os olhos.

— Eu senti! — exclamou.

— É mesmo? — e sorri, com terrível medo do que ele pudesse ter sentido.

Agora foi ele que me agarrou, e suas mãos invadiram minha blusa. Era tudo o que eu precisava. Numa fração de segundos, mordi-lhe a língua com tamanha força, que levei um pedaço dela junto comigo. Peguei uma caneta que estava à mostra no bolso de sua camisa, e, aproveitando-me que ele relinchava feito louco, arranquei o molho de chaves de sua cintura e finquei a caneta em seu corpo, com toda a força, direcionando-a para suas partes de baixo, por entre as suas pernas.

— E isto? Você sente agora? — indaguei com ódio.

O uivo foi ensurdecedor, seus olhos cerrados de dor por frações de segundo se abriram e me deixaram horrorizada. Estavam familiarmente estranhos, como os meus. Oh, não! Eu não estou nada bem! Será que estou vendo coisas? Meus pensamentos se atropelavam em meio ao desespero. Minhas mãos tremiam e não conseguiam encaixar as chaves com destreza. Eram muitas. Entrei em pânico ao ver que ele começava a suportar a dor e a se voltar para mim, espumando de cólera. Droga! Droga! Droga! Nenhuma chave entrava. Pareciam todas iguais! Droga! Ele está se levantando! É essa! Por fim, uma chave entrou no cadeado enferrujado e, antes mesmo que eu pudesse girá-la, senti um golpe fortíssimo em minha cabeça e um líquido escorrendo por minha testa. Sangue.

— Não! Me solte! Socorro! — gritei ainda tonta.

Um estrondo, ruídos de metais se chocando e um gemido de dor dilacerante. Agora só enxergava vultos, as imagens estavam turvas. Senti o calafrio percorrendo o meu corpo e, desta vez, ele me trouxe boas lembranças. Lembranças de um passado bem próximo. Senti saudades dele, de suas mãos fortes e cheias de cicatrizes, de seus olhos azuis brilhantes e até mesmo do seu jeito rude comigo. O importante era que ele estivesse comigo. Sugada daquele momento de torpor, senti meu corpo sendo abraçado e levantado. Por instinto, abri meus olhos, e quase desmaiei de tanta felicidade:

— Richard?!

— Fique quieta. Já vai passar. — Era ele mesmo, sempre seco. Minha morte salvadora.

E apaguei.