Não Pare!
Capítulo 22
As cenas seguintes ficaram borradas em meu cérebro. Intermitentes. Só consigo me lembrar da incrível aceleração que Richard impusera ao animal, de seu musculoso braço me apertando contra seu peito, do vento gelado me atingindo e da grande muralha de pedras crescendo em nossa direção. Lembro-me ainda de ter soltado um berro de pavor e fechado os olhos, protegendo minha cabeça em seu peitoral largo e convidativo. O cavalo finalmente parou e o único som que preenchia o ambiente vinha das batidas de nossos corações acelerados. Sem coragem de reabrir os olhos, eu permanecia com a cabeça aninhada em seu peito e meu corpo imobilizado por seus braços. O que estava acontecendo, afinal? Por que ele havia retornado?
— Por quê? — sussurrei sem me mexer. Eu não precisava completar a frase. Ele sabia o que eu queira perguntar. Ambos sabíamos, e ele, assim como eu, talvez não quisesse confrontar a dura realidade estampada na face do outro. Na minha, sofrimento, amargura, decepção. Na dele, traição, cobiça, triunfo. Sua respiração quente e ofegante ficou ainda mais forte, penetrando em meus cabelos e atravessando a manta.
— Por que eles não nos seguiram? — insisti quando finalmente arrumei coragem para levantar a cabeça, dividida por emoções contraditórias: chorar, lutar, xingar e, principalmente, perdoar, ávida por seus beijos e abraços. No breve instante em que nossos olhares se cruzaram, procurei algum vestígio de remorso, culpa ou vergonha em sua face, qualquer mínima expressão que pudesse me dar esperanças de que tudo havia sido um grande engano e que ele retornara por mim, por nós. Mas não havia nada. Tudo que encontrei foi um semblante frio, indiferente. Senti todo o ar sendo violentamente tragado dos meus pulmões. Nem uma febre alta me consumiria tanto. O gelo que irradiava de seu olhar causou um irreparável dano dentro de mim.
— Se eles nos seguissem, morreriam — respondeu ele de má vontade enquanto descia do cavalo. Estendeu a mão para me ajudar, mas recusei. Agitado, Richard rasgou a faixa dourada que amarrava o véu sobre sua cabeça.
— Deixe-me ver isso — disse ele, tomando meu braço ferido.
Com o turbante, ele fez uma espécie de torniquete para estancar meu sangramento. Enquanto ele enfaixava meu braço, eu me esforçava em não admirá-lo, o que se tornara uma tarefa hercúlea para os meus pouquíssimos e desavergonhados neurônios em funcionamento. Como alguém tão vil e inescrupuloso podia ser tão lindo?! Como, apesar de tudo, eu ainda me sentia loucamente atraída por ele?
— Por que está cuidando de mim? Sete mil moedas foi pouco, Richard? Resolveu aumentar o lance das apostas? — provoquei.
— Não temos tempo para gracinhas, garota. Desça! — ordenou.
Olhei ao meu redor sem saber bem o que estava procurando e me deparei com um lugar muito mais amedrontador do que o deserto que acabara de atravessar. Um mar de escuridão nos ladeava. Finalmente, consegui identificar que estávamos em uma estreita gruta. Sem que eu esperasse, ele me puxou do animal. Nossos corpos tornaram a se roçar, uma palpável e intensa energia fluiu por nossas peles. Eu tremi. Ele tremeu.
— “Garota”? Já esqueceu meu nome? — tornei a provocá-lo, tomada por uma dor que me invadia sem piedade. A dor da certeza. Onde antes havia a esperança da dúvida, agora imperava a certeza do descaso. Ele já havia se esquecido de mim, de nós. — Mas o seu nome não sai da minha cabeça, Richard — confessei encarando-o.
— Estupidez a sua — retrucou de forma ácida enquanto terminava de amarrar meu braço com a faixa. Outro golpe certeiro. Seria difícil me recuperar agora. Senti uma fraqueza generalizada e a respiração ficando cada vez mais difícil.
— Estúpida… porque acreditei em você… — murmurei. Mesmo de cabeça baixa, percebi como ele franzia a testa e esboçava um sorriso indecifrável. Minhas pernas começaram a tremer e tive medo de desabar. — Diga-me apenas o porquê, Richard — insisti, fazendo de tudo para me manter de pé.
— Eu disse que era um erro. Não lhe escondi que tinha minhas dúvidas — explicou em tom sarcástico.
Eu não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Ele voltara a ser a mesma figura desprezível de quando o conheci?
— E não tem mais? — tentei enxergá-lo melhor, precisava ver sua reação, mas era quase impossível naquela escuridão.
— Não. — A fisionomia nebulosa que consegui distinguir foi imediatamente substituída por uma deformada. Meu corpo se arrepiou por inteiro. — E, se você for um pouquinho inteligente terá compreendido o que eu quis dizer.
— Você… Por quê? — Levei as mãos à boca, atordoada. Meus olhos ardiam, mas não havia lágrimas. Seca. Desértica por dentro.
— Porque sou um zirquiniano! — E soltou uma gargalhada demoníaca. — Zirquinianos não valem nada. Será que ainda não entendeu?
— Você valia tudo para mim — rebati sem pensar, tentando controlar a vertigem que se apoderava de meu corpo. Por um momento ele pareceu vacilar e uma veia latejou em seu pescoço. Sem pestanejar, tornou a vestir a couraça de indiferença.
— Você é que vale muito, híbrida — ironizou e meus joelhos por pouco não dobraram. O peso da decepção era demais para mim. — Valeu a pena o esforço.
— “Híbrida”? “Esforço”? — balbuciava sem conseguir acreditar na dureza daquelas palavras.
— Ainda estou lhe fazendo um favor, se quer saber.
— “Favor”? — A vertigem avançou e a visão ameaçou falhar. Respirei fundo, mas não encontrei ar. — Que favor, Richard? Do que você está falando?
— Não lhe interessa e basta deste assunto! — respondeu impaciente e, vendo minha condição perturbada, concluiu o massacre de forma irônica: — Você sempre soube o que eu sou, híbrida. Por que se iludiu?
Respire, Nina. Aguente.
Lancei-lhe um sorriso tão gelado quanto a minha alma.
— Responda-me apenas: por que se esmerou em me enganar se não havia necessidade de me fazer acreditar que sentia algo por mim?
— Eu nunca enganei você — respondeu ele com a voz subitamente rouca.
— Não? Ah! — arfei. — Como imaginei… Foi só para matar sua curiosidade, só para me usar. Tem razão, Richard. Você é igual a todos os outros.
— Desde o início eu lhe disse que a deixaria sob os cuidados de John — disse ele, tentando manter a fisionomia impassível, mas começava a cerrar os punhos.
— Mas não comentou que partiria na manhã seguinte, que me venderia como uma mercadoria — rebati azeda. — Que prazer teve em me fazer sofrer após ter me usado? Eu já não tinha sido suficientemente penalizada?
Ele engoliu em seco e não me respondeu.
— E o que planeja agora, Richard? — inquiri sentindo minhas pálpebras se fechando.
Ainda sem resposta.
Aguente só mais um pouco, Nina. Já vai acabar. Concentre-se.
— Já não conseguiu o que queria? — insisti e, tateando, apoiei-me na gelada parede de pedras. Senti que ia desmaiar.
— Não! — retrucou áspero. — Você é minha missão, e de mais ninguém.
Era óbvio! Era isso que ele queria dizer: ele era a minha morte! Se alguém devia me matar, este alguém era ele.
— Ah, sim! Claro! Por que não pensei nisto antes? — soltei irônica. — Você é a minha morte…
— Sim, garota. Eu sou a sua morte! — rosnou entre dentes.
— Ótimo! — guinchei. — Então me mate agora, Richard, e acabe logo com isso!
Ele arregalou os olhos, como fazia quando estava nervoso, e começou a andar de um lado para outro.
— Foi pra isso que você voltou, não foi? Além de ficar rico, vai ganhar muito prestígio concluindo sua missão, não é? — ataquei com uma força remanescente que jamais pensei possuir.
Silêncio.
— Responda! — berrei e ele franziu o cenho.
— Não é tão simples assim, eu…
Na mosca! Nem a escuridão do entorno podia esconder a confissão estampada em seu rosto.
— O que está esperando? Mate-me agora, Richard! Não foi para isso que veio me buscar? — voltei a ordenar, aproximando-me dele. Podia jurar ter visto suas pupilas tremerem.
— NÃO! — rebateu tenso, dando um passo para trás. — Eu… eu não consigo — balbuciava transtornado sem me encarar, como se estivesse travando uma batalha interna. — Longe de você tudo fica tão fácil, tão claro, mas, quando me aproximo de você, nada faz o menor sentido, eu simplesmente não consigo ir adiante, eu…
— Não precisa se consumir. — E lancei-lhe um sorriso debochado. — Você não terá trabalho algum, afinal você já me matou há vários dias. O que você está vendo, Richard, é apenas um corpo sem alma.
— Nina, eu…
— Será que não percebeu que a decepção que me fez passar teve o mesmo efeito que um punhal cravado nas minhas costas? — indaguei feroz. — Ops! Me esqueci. Zirquinianos não sentem nada, não é mesmo? Pelo menos, nada de bom.
— Nina, eu… — Suas pupilas contraíram-se num rompante. Tenso, ele não me contestou, apenas segurou meus braços com força e me puxou para junto dele, abraçando-me com desespero e avidez. Quis reagir, mas simplesmente não conseguia me afastar de seu magnético tórax. Nova onda de calafrios. — Eu não… — arfou. — Nina, eu não tive a intenção, eu…
— Acabe logo com isso, Richard — implorei baixinho com a cabeça afundada em seu peito. — Mas, por favor, não me deixe sofrer.
Ele me apertou com intensidade contra seu corpo quente, quase tão febril quanto o meu, e soltou um gemido.
— Me perdoe, por favor. Nina… — fuzilando-me sem compaixão, ele afastou minha cabeça de seu musculoso peitoral e a segurou entre suas mãos trêmulas.
— Não precisa me pedir desculpas, Richard — disse sentindo-me repentinamente estranha. — Eu sei que não teve culpa. Fez apenas o que foi treinado desde que nasceu: matar.
— Não! — bradou e sua testa se via lotada de vincos. — Nina, eu… — Ele hesitava. — DROGA! Eu não sei mais o que fazer! — trovejou. — Eu preciso de você! Eu quero você, Nina. Mas eu não posso! NÃO POSSO!
Seus olhos eram uma arma letal, que fulguravam sem compaixão. Laser! E me atingiram de maneira devastadora. Senti meu corpo desfalecer, mas, dentro de mim, algo sombrio permaneceu intocado e alerta, insensível à presença arrasadora que Richard exercia sobre minha matéria e espírito. Lá dentro. Borbulhando. Crescendo… Ganhando forma. A resposta dentro de outra resposta. “Os zirquinianos existem para tirar vidas e não para se apegar a elas”.
Egoísmo! Este era o porquê de tudo!
De fato, Richard havia me avisado. Não era amor o que sentia por mim, mas, sim, desejo. Desejo de despertar seu corpo anestesiado. Desejo por tudo que poderia experimentar por meio de uma híbrida. Eu valia muito mais do que uma fortuna em moedas. Minha morte era sinônimo de vitória, status, poder. Ele seria o grande vencedor desta louca jornada. Mercenário e sem escrúpulos, ele já havia rolado os dados. Só que agora era a minha vez de jogar…
— Beije-me, Rick! — pedi, deixando meu rosto roçar pelas palmas de suas mãos.
— Eu não posso. Você está muito fraca. — Ele afagou o meu rosto e, delicadamente, envolveu-me junto ao seu corpo fervente. O calor que exalava de sua pele me atingia em instáveis ondas eletromagnéticas. Calafrio. Quentura. Faíscas. — Eu não posso, Tesouro — sussurrou e escondeu o rosto atormentado na curva de meu ombro, deixando suas mãos acariciarem meus cabelos e minha nuca. Tornou a se afastar e nossos olhares se sustentaram, vidrados. Por uma eternidade ou apenas uma pulsação? Impossível saber. O fator tempo desintegrou, mas era chegada a hora de colocar em prática o que havia aprendido com ele mesmo: blefar. Era o momento da cartada final: o beijo da morte. Agora era a minha vez de decidir e a opção era fácil: morrer. Perdera minha mãe, meus sonhos tinham sido aniquilados, minhas verdades apagadas. O pior de tudo: meu coração fora trapaceado pela única artéria de esperança que o fazia pulsar, ir adiante. Enganada e abandonada pela única pessoa em que a minha alma havia apostado todas as suas fichas. E o que me restara? Nada. Morrer era o que eu mais desejava naquele momento. Um fim para o meu martírio, um ponto final rápido e indolor.
— Beije-me — tornei a pedir, mas, na verdade, eu queria dizer mais. Dizer que, apesar de tudo, eu o amava. Que, no fundo, eu compreendia a razão da sua dualidade, de tudo. Que não o culpava por ele ser daquele jeito. Afinal de contas, a quem eu queria enganar? Tão extraordinária e simples como uma vida que se inicia, Richard era o desfecho surpreendente, o término de uma jornada inexplicável, a minha morte.
— Ah, Tesouro — gemeu e, hesitante, tornou a me estudar com suas hipnóticas safiras azuis-turquesa. Teria captado o que não consegui dizer? Compreendido o que estava por detrás daquele pedido? Ou simplesmente agia de acordo com seu instinto zirquiniano e ansiava por desfrutar, uma vez mais, das espetaculares sensações que um híbrido poderia lhe oferecer? A resposta pouco importava agora. Eu já havia decidido.
— Richard… — sorri e aproximei meu rosto do dele, permitindo que nossas respirações se encontrassem. Após um suspiro de satisfação, ele sorriu de volta e se curvou. Apertando-me violentamente contra seu corpo, ele deixou seus lábios fundirem-se nos meus. Richard era um fio de alta tensão desencapado e me eletrocutava de prazer. Sua boca macia, sua pele ardente, suas mãos fortes… Não tive força para lutar contra, e nem queria. Foi quando aconteceu: ele sugou minha energia vital, ou o que restava dela. Senti meu coração trepidar freneticamente no peito até perder a força e parar de bater.
Há pouco mais de um mês, eu nunca havia pensado em como morreria. Paradoxalmente, a morte surgiu em meu caminho e, junto com todos os horrores, ela me trouxe felicidade, vida. A vida que eu jamais imaginaria ter. Muito além das minhas expectativas. Infelizmente, com uma mão ela me acariciava e com a outra, me ceifava. A lâmina da foice, entretanto, não era fria ou cortante, mas aveludada e entorpecente.
— Nina?!
De repente, um novo choque. Dor. Calor. Combustão. Um curto-circuito avassalador e paralisante. Senti meu corpo ser comprimido e arremessado à estratosfera. Fogo incandescente me queimava por dentro. Tudo ardia, me consumia, me entorpecia…
— Ah, não! Nina?!
Onde eu estava? Sua voz vinha tão distante…
— Não! Não! Não! Tesouro?! Fale comigo!
Espasmos. Meu corpo foi violentamente castigado por uma sequência de espasmos incontroláveis.
— Nina?! Eu não podia ter beijado você deste jeito! — ele esbravejava.
Eu já não sentia mais meu corpo. Imagens borradas dançavam em meu campo de visão.
— Por Tyron, o que foi que eu fiz?! Tesouro, não! — gritava apavorado.
Um lindo sonho cheio de vozes e espectros dançantes…
— Ah, não, Nina, não! Por favor, fique comigo! Nina, você consegue me ouvir? — a voz distante era trepidante.
Senti o tudo e absorvi o nada. Eu estava completa e vazia.
Que voz suave era aquela? Eu a conhecia?
— Nina, por favor! Escute-me, por favor, por favor, Tesouro, não! — implorava a voz sacudindo o meu corpo inanimado.
Minha audição conseguia distinguir um soluço de desespero açoitando a bem-vinda quietude. Estaria sonhando?
— Não desista, por favor, não desista — um choro compulsivo. Cortante.
Desistir…
O sonho estava perdendo a cor, a definição.
— Nina, não! Não! Eu sinto muito. Eu, eu… — Novos soluços. Uma agradável sensação percorria meu rosto. Ele era acariciado e umedecido ao mesmo tempo. Um sabor. Uma mistura de doce e salgado. Gosto de lágrima. Muitas delas. Foi a última coisa que senti. — Por favor, aguente! Tesouro, eu… — e a bela voz desapareceu. Sem vestígios. Sem despedida.
O sonho perdeu o som. Os espectros se foram, dando lugar a um oceano de sombras e escuridão.
#
Um incômodo em minhas pálpebras. Claridade? Meu corpo sacolejava de um lado para o outro. Como reflexo de defesa, abri os olhos e me levantei num rápido impulso. Estupidez. Deveria ter permanecido como estava e de olhos bem fechados!
— Onde estou? — em pânico e atordoada, berrei para um sujeito de calvície reluzente que cavalgava à minha frente.
— Finalmente! — bradou satisfeito o homem. Ele deixou um largo sorriso se abrir logo abaixo de seu volumoso bigode avermelhado. Extasiadas pupilas verticais me saudavam, abrindo-se e fechando-se sem a mínima timidez. — Bem-vinda a Zyrk!
Ah, não!
Saiba como continua a surpreendente história de Nina. Não perca o segundo livro da série que está dando o que falar!
Você terminou Não Pare!
F.M. Pepper
Livros como este
Depois do livro
Páginas que vieram com esta edição, guardadas aqui para consulta.