Não Pare!

F.M. Pepper · Capítulo 16 de 22

Páginas do PDF

Não Pare!

Capítulo 16

 

Acordei com a cabeça extremamente dolorida. Richard me carregava com facilidade, levando-me em direção a uma solitária cabana embiocada no meio de enormes montanhas.

— Já cuidei da queimadura e o edema começou a ceder — disse ele apontando com o nariz para a minha testa em formato de melancia.

— O que houve? Tive que levar pontos?

— Por sorte não, mas o hematoma está considerável. — De impulso, levei minhas mãos à cabeça para ver o tamanho do estrago, mas ele me advertiu. — É melhor não tocar!

— Aiii!

— Eu te disse. — As magníficas safiras cintilaram.

— Hum. Há quanto tempo estou desacordada?

— Umas doze horas.

— Quanto tempo ainda tenho? Quinze dias? — perguntei com tempero sarcástico, sentindo-me ainda muito fraca.

— Tecnicamente, entre quatorze e dezesseis dias — respondeu-me esboçando um discreto sorriso.

Meu coração se agitou extraordinária e incompreensivelmente: seria pelo sorriso dele ou porque via o esboço de uma milagrosa saída daquele absurdo pesadelo?

— O que você quer dizer por tecnicamente?

— Mudança de planos.

— Mudança de planos?! — Eu o entendia cada vez menos.

— Você mente muito mal, sabia? — arfava levando-me em seus braços.

— Eu sei. Minha mãe me dizia com frequência. Mas como…

— Eu notei que você estava mentindo ao pedir para ir no banheiro lá na cidade. Facílimo de perceber.

— E fez o meu jogo?

— Sim.

— Por quê?

— Depois… — E me colocou no chão com extremo cuidado.

— Richard! — cumprimentou feliz uma senhora parada à porta da humilde choupana.

— Olá, Leila!

— Olá! Quanto tempo, filho!

Filho? E ela continuou:

— Sua aparência está péssima! O que lhe aflige?

— Nada. Eu estou bem.

— Quer que eu acredite?

Ele não respondeu.

— Venham! — A senhora me observou dos pés à cabeça em estado de êxtase, fez sinal para que entrássemos e calmamente se acomodou próximo a uma lareira. Fazia algum tipo de tapeçaria enquanto um gato preto bem balofo emaranhava-se por entre suas pernas. — Que saudades, querido! — sua voz feminina, bem fraca e terna, destoava das figuras que encontrei nos meus últimos episódios. Era agradável, perfeitamente humana e normal. Leila era uma senhora franzina, de cabelos grisalhos, olhos pequeninos como ervilhas negras e aparência bondosa.

— Leila, preciso de sua ajuda! Preciso ficar aqui esta noite e sei que pode ser perigoso para você.

— É ela, não é?

Richard assentiu com a cabeça.

— Que graça teria a nossa existência sem alguns perigos, não é mesmo? — Seu semblante denunciava inexorável satisfação. Então, virou-se para mim e exclamou admirada: — Incrível! Nunca pensei que eles conseguiriam… — Seus miúdos olhos estavam vidrados nos meus. — E eu que achei que tudo não passava de uma lenda… Venha cá, meu amorzinho.

— Eu estou bem aqui — funguei.

— Ela é geniosa, né? — gargalhou baixinho.

— Nem imagina o quanto — Richard foi rápido no gatilho em seu comentário maldoso.

— Com licença, Black — ela dirigiu-se ao gato. A aparente frágil senhora caminhou em minha direção e encarou-me por alguns segundos. Esboçou um movimento, ao qual me opus de imediato. — Calma! Não vou te fazer qualquer mal.

— Então me deixe ir embora!

— Eu gostaria. — E olhou para Richard, que tinha a cabeça inclinada para baixo, seus faiscantes olhos azuis fixados num pedaço de madeira solto do assoalho. — Filho, tudo bem?

— Tudo — respondeu ele.

— Sei… — Ela continuou sua inspeção sobre mim. Após estudar meus olhos por um demorado tempo, passou a mão na minha gargantilha e, quando ameaçou tirá-la, eu a impedi.

Richard emitiu um som surdo, incompreensível.

— O que foi? — ela lhe perguntou confusa. — Eu só quero examiná-la, nada mais. Posso vê-la, Nina? — pediu delicadamente.

O semblante de Richard era de tensão, mas olhou firmemente para mim e acenou com a cabeça. Trêmula e sem opção, entreguei-lhe meu amuleto da sorte.

— Incrível! — exclamava enquanto o cheirava com extrema atenção. — Como não pensei nisto antes? A pessoa que o fez é muito inteligente…

— Era! — explodi. — Era minha mãe! Vocês a mataram, seus assassinos!

Ela não me respondeu. Devolveu-me a gargantilha e voltou pensativa para a sua cadeira.

— Rick, gostaria de ter uma palavrinha a sós com você. — Deixe-a ficar um pouco com os meninos.

Richard permanecia calado, mas agora a fitava com ar austero.

— Por que a desconfiança? Você sabe que aqui não há qualquer perigo. — E, sem pedir licença, apertou um botão preso à parede. Não ouvi nada, mas, pouco tempo depois, dois rapazes já estavam na sala, junto a nós. Um bem alto e cheio de acne no rosto e outro bem mais baixo e atarracado.

— Meninos, fiquem com ela enquanto tenho uma conversa com o irmão de vocês.

Irmãos? Como assim?

— Ok, Leila. Por Tyron! É ela? — perguntou eufórico o mais alto.

— Sim, Estwic — retorquiu a senhora.

— Uau! Hoje eu vou ter sobremesa!

— Não se atreva a tocar nela — advertiu Richard.

— Deixa disso, cara. Você sempre se amarrou nestas brincadeiras.

— É, eu sei… — explicou, recompondo-se. — Mas acho arriscado demais tentar nossas brincadeiras em uma híbrida, cara.

“Híbrida”?

E, com jeito casual, acrescentou:

— Deixei Ben encarregado de uma humana linda. Se quiser, posso transferi-la para você.

“Humana linda”?

— Mas será que não podemos nem ao menos tentar na híbrida? Ela…

— NÃO! — Richard esbravejou. — Desde quando você contesta uma ordem minha? O que é que está acontecendo com todo mundo, droga?! Saia daqui! — Visivelmente aborrecido, Estwic se retirou.

— Estwic não fez por mal, filho! — Leila contemporizava. — Você sabe que ela é capaz de causar reações deste porte, não sabe?

Richard não lhe respondeu.

— Ewan, cuide de Nina enquanto converso com Rick — ordenou ela.

Sem pronunciar uma única palavra, o baixinho delicadamente me conduziu para a área externa.

Estwic não estava por perto. Ewan sentou-se em um comprido banco feito de um tronco de árvore tombado. Apontou-me o lugar ao seu lado. Ao fundo da pequena casa, uma visão magnífica: um mar de crisântemos me recepcionava com alegria. Eram tantos e num amarelo tão vivo, que pareciam executar uma coreografia. Abanavam para mim dançando ritmadamente de um lado para o outro, sob o comando de um vento fino e maestral. Não sei precisar o tempo que ficamos ali naquele descampado, o medo talvez triplicasse a demora e os frutos de minha imaginação. O que os dois estariam tramando lá dentro? Mas então por que os outros dois também não podiam estar por perto? Provavelmente havia algum tipo de hierarquia nestas seitas… Não! Recuso-me a acreditar nesta maluquice!

— Você quer? — Ewan ofereceu-me um pedaço de chocolate.

Balancei a cabeça negativamente.

— Você precisa recuperar as forças. Ainda tem uma longa viagem pela frente.

— Para onde?

— Para o grande deserto depois de Sabhã.

— Para que tanto trabalho?

— Ãh? — Olhava-me sem entender.

— Para me matar. Por que não acabam comigo aqui mesmo?

— Ah! Isto? — e deu uma risada alta. — Não é assim que as coisas funcionam. Temos alguns protocolos a seguir.

— Protocolos? Você quer dizer rituais? Tipo o que fizeram com os olhos da garota de Londres?

Ele me fitava meio desconcertado com aquela pergunta.

— Não posso falar mais nada, sinto muito. Terá de perguntar a Richard. Como seu executor, só ele pode lhe dar qualquer esclarecimento.

— Você quer dizer que só o meu específico assassino pode me fornecer as informações que preciso?

— Sim. Nós não podemos nos intrometer na missão de outro resgatador sem permissão.

Então era sobre isto que Richard e Collin discutiam?

— Existem resgatadores de mesma patente em cada clã. — Ele se apressou em explicar.

— Então existem outros atrás de mim?

— Sim. Um de cada clã.

Percebi certo grau de imaturidade neste tal de Ewan e decidi continuar colocando lenha naquela nossa conversa de loucos. Em algum momento ele haveria de se queimar e me entregaria informações importantes daquela farsa.

— E se o resgatador não realizar sua tarefa?

— Nunca vi isto acontecer — franziu a testa, confuso. — Por que ele faria isto?

— Digo, hipoteticamente?

— Eu acho que seria expulso de Zyrk ou preso e destituído de seu cargo. Às vezes, até castigado. Não sei dizer.

— Castigado? — Eles tinham, realmente, muita imaginação. — E seria expulso para onde?

— Ora, para o Vértice!

— Você quer dizer o inferno?

— Ah, é isso mesmo! É assim que vocês humanos o chamam.

— Pare de falar com ela! — ordenou Estwic, aparecendo do nada. — Sabe que não podemos confiar nos humanos!

O outro me olhava com semblante de raiva, muita raiva. E, antes mesmo que ele pudesse partir para qualquer gracinha idiota, a porta da frente se abriu como sinal de que já podíamos entrar.

Anoitecera, e as luzes daquele pequeno lugar já estavam acesas. Meu pânico de antes não havia me permitido observar quão agradável era o pequeno ambiente. Móveis talhados de imbuia estavam arrumadamente dispostos ao redor de uma ampla mesa de jantar, igualmente rústica. A pequena cozinha era separada da sala apenas por uma baixa parede de madeira coberta por uma pedra de granito marrom, fazendo papel de aparador. Cestas de vime repletas de frutas enfeitavam o ambiente. A mesa de jantar destoava daquela visão. Ela havia sido caprichosamente colocada, requintada demais para um lugar tão simples. Guardanapos de linho, pratos de porcelana branca, talheres de prata e copos de cristais estavam adequadamente dispostos. O cardápio exposto além de apetitoso era digno de um hotel cinco estrelas: salmão ao molho de maracujá, carne assada com batatas coradas, arroz e uma bela salada.

— Espero que goste! — Leila me apontou um assento e acomodou-se bem diante de mim. Richard sentou-se ao meu lado. Rígido.

Durante o jantar somente ela e Ewan falaram. Este último para suspirar e pedir que alguém passasse uma ou outra comida para perto dele. Leila divagava sobre coisas que eu não conseguia entender, sobre um mundo único, sem divisões.

— O fim da maldição — suspirava baixo.

— O quê? — perguntou Ewan, com a boca cheia de comida.

— Nada, filho. Coma — murmurou ela, e, neste momento, senti o braço de Richard esbarrar no meu, o calafrio se espalhando por minha pele. Tentei evitar, mas não consegui deixar de olhá-lo de canto de olho. Ele estava todo arrepiado, suas negras sobrancelhas cerradas sobre os profundos olhos azuis-turquesa. Olhei para frente e vi Estwic nos encarando desconfiado. Richard enfrentou-o com o olhar. Leila abafou a cena pegando uma flor do arranjo de crisântemos que enfeitava a mesa, arrancou uma pétala e a depositou em sua pequena taça de cristal. Depois a encheu de vinho, bebeu de um gole só e deu um sonoro e satisfeito suspiro:

— Os crisântemos são flores abençoadas e cheias de mistérios! Uma lenda antiga diz que uma única pétala do crisântemo colocada no fundo de uma taça de vinho é capaz de trazer vida longa e saudável.

— E você acredita nestas besteiras, Leila? — indagou Estwic impaciente.

— Eu acredito no poder dos vegetais e minerais. Acredito que de sua energia surge a força indispensável à nossa sobrevivência e… deixa pra lá! — retrucou contrariada, levantou-se e jogou um pedaço de salmão para Black, que não parava de ronronar sobre uma almofada ao pé da mesa.

O jantar havia terminado e, por mais incrível que pudesse parecer, lá estava eu calmamente ajudando aquela senhora a retirar a mesa. Uma sensação de bem-estar me invadia, como se algo me desse a certeza da chegada de dias melhores. Ewan e Estwic assistiam a um programa esportivo na pequena televisão, enquanto Richard parecia dormir recostado em um humilde sofá abaixo da janela.

— Coitado. Está exausto! — e deixou escapar um suspiro: — Ah! A maldição.

— Que maldição? — perguntei curiosa.

Num rompante, Estwic desviou seu olhar da televisão e nos encarou de um jeito tenso.

— Maldição! Cortei meu dedo! — berrou Leila.

— Ãh? — continuei confusa, sem ver qualquer vestígio de sangue.

— Venha comigo! — ela exclamou, puxando-me acelerada pela manga de minha blusa. — Meninos, coloquem água para ferver enquanto vou procurar mudas de erva-doce. Estou embrulhada. Comi demais! Nina vai me ajudar. — E saímos, deixando-os para trás.

Enquanto caminhávamos para uma horta situada bem distante do terreno, Leila pegou um lampião, acendeu-o e começou a puxar conversa.

— Acho que chegou a hora, minha filha. Já era tempo…

— Do que você está falando?

— Eu não devia ter esta conversa com você. Só Rick poderia, mas acho que ele não o fará… Então resolvi quebrar os protocolos e lhe passar algumas informações para que você nos compreenda melhor.

— O que quer dizer? Vai me dar explicações antes de me matar? É esta a hora a que você se referia?

— Claro que não! — e riu animadamente. — A hora de, finalmente, colocarmos um fim nesta horrível maldição.

— Que maldição?

— Na maldição que acompanha o nosso povo há milhares de anos. Eu não sei exatamente como ela surgiu. Tudo que sei me foi contado pelos meus ancestrais e data de tempos muito remotos.

Agora fui eu quem deu um alto riso de deboche. Ela se empertigou.

— Você precisa acreditar na lenda! Eu lhe rogo: acredite no que vou lhe dizer. Não tenho motivo algum para lhe enganar!

— Só o motivo de me manter viva até uma determinada data e aí então…

— Mas pode ser diferente! Eu acredito que algo extraordinário está prestes a acontecer! — sua fisionomia transbordava emoção.

— O que está prestes a acontecer? Que lenda?

Ela abriu um largo sorriso. Aguardava avidamente por meu súbito interesse.

— A lenda de Zyrk. Reza a lenda que, no início dos tempos, Tyron criou apenas duas dimensões e não quatro, como hoje em dia. Eram chamadas de Plano e Intermediário.

— Tyron?

— Sim. Tyron. Nossa maior divindade.

— Seria um Deus?

— Mais do que isto! O maior de todos os Deuses. — E emendou: — Saiba que a sua dimensão também já foi a nossa em algum momento de um passado distante, e era chamada de Intermediário. Naquela época, meu povo ainda não havia sido banido do Intermediário.

— O Intermediário?

— Sim. É onde hoje vivem os humanos, mas de onde fomos expulsos um dia — suspirou infeliz. — Veja bem — frisou ela —, estou aqui, mas não sou daqui. Eu não sou humana, Nina. Eu estou apenas na condição de humana para poder desempenhar minhas missões. Pertenço a uma dimensão paralela à sua.

Engoli em seco. Eu queria rir, mas a dúvida começava a ser plantada dentro de meu atordoado cérebro. A gentil senhora parecia sincera.

— Então — ela continuou — Tyron, assim como um pai que reparte a sua fortuna, dividiu o seu mundo entre seus dois únicos filhos. Diz-se que a sua divisão foi muito justa e que cada irmão seria totalmente soberano e responsável por uma metade do Intermediário. A única incumbência dada a eles era cuidar bem daqueles que Tyron chamava de irmãos adotivos, ou seja, nós. Entenda que antigamente éramos um único povo e não havia distinção.

Eu estava perdida naquele rico universo imaginário. Ela prosseguia com calma:

— Como já disse, éramos um único povo e só nos dividimos por causa da maldição. Vocês, humanos, tiveram a sorte de ser guiados pelo filho bom. Meus antepassados tiveram o infortúnio de ter o filho mau como seu mentor — e roçou a garganta. — Diz-se que, após muitos e muitos anos, sem que seus filhos soubessem, Tyron voltou ao Intermediário para examinar como cada um deles havia cuidado da sua parte e dos seus indefesos irmãos adotivos. Quando chegou aqui, ficou extremamente decepcionado e aborrecido com um dos seus filhos. O primeiro havia trabalhado duro, dando atenção a todas as suas áreas, tornando-as mais belas e habitáveis. Cuidou carinhosamente de seus irmãos e ensinou-lhes sentimentos de compaixão, perdão, amizade e o mais complexo deles: o amor. O segundo, por sua vez, fez um caminho de destruição e descaso por onde passou. Destruiu áreas belas, tornou insuportável o que antes era perfeitamente habitável e, principalmente, semeou a discórdia e o ódio. Seus irmãos adotivos ficaram maus e invejosos. Quando Tyron descobriu tudo aquilo, sofreu muito. Diz-se que o grande dilúvio de outrora nada mais foi que seu choro de decepção. Histórias!

Sorriu e continuou:

— Fingindo não saber de nada, e querendo dar mais uma chance ao filho mau, ele enviou um mensageiro ao Intermediário. O mensageiro comunicou aos filhos que Tyron lhes faria uma “visita” em uma determinada data. Seria o dia da prestação de contas de seus feitos. O segundo filho, por demais ardiloso, mandou espiões checarem como estava indo a metade do seu irmão, e eles ficaram assombrados com todas as maravilhas que encontraram. Cheio de cólera e decidido a arrumar um meio de escapar da ira iminente de seu Pai, ele bolou um plano diabólico. Foi pessoalmente visitar o irmão, levando-lhe a falsa notícia de que o dia do encontro com Tyron havia sido alterado para uma data mais distante, e que ele precisava de sua ajuda. Ele o enganou contando que teve muita dificuldade em administrar a sua metade e que havia sido ludibriado por algumas das criaturas que Tyron tinha lhe conferido proteger. Sabendo de sua bondade, pediu para ficar em seu lugar só por alguns dias. Disse-lhe que gostaria de aprender suas técnicas de cuidado e os seus seguidores veriam como seria viver em um bom ambiente, e com isto também se tornariam pessoas melhores. O irmão bondoso acreditou nas palavras daquele crápula e, juntamente com seu povo, trocou de posição às vésperas do prestar de contas. Mas Tyron sabia de tudo! E, antes mesmo que chegasse o dia do encontro, surpreendeu os dois, aparecendo inesperadamente no Intermediário. Solicitou que cada um mostrasse as obras executadas. O irmão mau pediu para começar e Tyron permitiu.

— Querido Pai, antes de lhe mostrar todas as minhas obras e conquistas efetuadas, gostaria de lhe dizer que algum estrago lhe foi causado dias atrás devido ao fato de ter trocado de posição com meu irmão. Emprestei-lhe a minha parte e conduzi meus protegidos à parte dele. — O irmão bondoso ficou perplexo com aquele discurso e não conseguiu pronunciar uma única palavra. — Então — continuou o mau —, devido à sua tamanha desorganização e falta de controle sobre os seus protegidos, alguns danos lhes foram causados nestes dias, mas serão prontamente recuperados.

Tyron, sabendo que tudo aquilo era uma farsa, voltou-se para o filho bom e perguntou:

— O que tens tu a me dizer?

— Dê-me algum tempo, meu Pai, que recuperarei a parte danificada. — O filho bom teve pena do irmão e se prontificou a ajudá-lo, a despeito da sua absurda maldade.

— Filho bom! A ti não darei apenas uma parte, mas sim o todo. Vá! Tudo te pertence a partir de agora.

Depois virou-se para o filho mau e disse:

— Filho mau! Poderia apenas ter-me pedido desculpas e eu te perdoaria. Virás comigo e te ensinarei melhor aquilo em que falhei.

Mas o filho mau não aceitou ter perdido seu império. Esbravejou, blasfemou e, num acesso de fúria, atacou seu irmão pelas costas, apunhalando-o mortalmente. Diz a lenda ainda que Tyron chorou sangue naquele momento e baniu o filho mau do Intermediário, lançando-o para um novo e terrível plano que acabara de criar: o Vértice, ou o inferno, como vocês dizem. Ia fazer o mesmo com todos aqueles indivíduos maldosos que estavam sob sua influência, quando o filho bom, em seus braços, lhe fez um último pedido: que tivesse piedade daquelas pobres almas, pois elas eram fracas e manipuláveis. Tyron então olhou para aquelas perversas criaturas, que eram os meus ancestrais, e lhes mandou uma maldição:

— E vocês, horda de desgraçados! Enquanto não souberem o que é compaixão, não saberão o que é nem sentirão os efeitos do maior de todos os sentimentos: o amor. Vocês não saberão o que é amar! Por enquanto, tudo que posso lhes dar é uma nova dimensão e a terrível tarefa de tirar vidas, dia após dia, para que um dia vocês se cansem de viver em função da morte e de toda destruição que vêm gerando e entendam o valor da vida. Mas isto só será possível no dia em que conceberem um filho por amor. Se criado no amor, ele será a chave para o perdão, a porta de passagem entre os dois mundos.

E Leila se calou, pensativa.

— Eu sou este filho? — perguntei sob tensão.

— Acho que sim, Nina.

— E não era para vocês estarem felizes?! Isto não é bom? Os mundos se comunicarem? — bradei, sem compreender.

— Você não prestou atenção ao que eu lhe disse? — ela retrucou no mesmo tom. — O nosso mundo não sabe o que é amar! Para a grande maioria dos meus, você é um enorme perigo! Nós somos eminentemente maus, egoístas e predadores, e é por isto que estamos presos em outra dimensão, compreende? Nós somos a continuação dos nossos horrorosos ancestrais. Não temos os bons sentimentos! Só os maus! Nós somos a antítese da vida, todos nós. É só o que podemos e sabemos fazer: matar! Dia após dia, séculos após séculos.

— M-Mas então? — gaguejei atônita, completamente exangue.

— Por que ainda não matamos você? — envergou-me um sorriso pausadamente.

Balancei a cabeça com muito medo de ouvir a resposta.

— Porque eu acho que um milagre está acontecendo. Porque Tyron está mostrando compaixão por nós, depois de muito tempo esquecidos…

— Eu não entendo.

— Nem eu. Mas você está aqui, e eu não sei como… Você é o fruto do amor impossível de um dos nossos com uma dos seus.

— O quê?! — rugi, transtornada com aquela confissão.

— Sim, filha. Seu pai foi um dos nossos.

— Isto é tudo mentira! Eu nunca tive pai! — Meu cérebro ardia. Como aquele bando de homicidas poderia saber de meu pai? Onde obtiveram tal informação se Stela nunca mencionara nada sobre ele… nem mesmo para mim?

— Nina, você é fruto de um amor sem medidas.

— Pare com estas mentiras descabidas! — cuspia as palavras.

— Você não poderia…

— Não poderia o quê? — indaguei furiosa.

— Existir! — Ela esfregou a testa. — Era para ela ter morrido antes mesmo de lhe ter concebido, entende?

— NÃO!

Paciente, ela respirou e continuou:

— O que eu quis dizer é que não pode haver qualquer contato mais profundo entre os nossos povos. Seria letal! — suspirou. — Além do mais, todos têm a sua hora. E não somos nós que decidimos. Apenas cumprimos ordens. Dele. Tudo na vida tem um ciclo: nascer, crescer, envelhecer, morrer. Nem todos conseguem completar o seu ciclo, mas este é outro assunto… Tudo tem um porquê. Só não nos é confidenciado. Como lhe disse, nós só executamos as ordens.

— Eu continuo não entendendo.

Confesso que havia ficado um pouco preocupada com aquela questão do contato.

— Melhor assim! — sua entonação ficara rude, pela primeira vez.

E se afastou. Ficou calada algum tempo enquanto escolhia as ervas ou as palavras apropriadas:

— Cada clã enviou o seu melhor resgatador para eliminá-la, sabia? Nesta altura, a coitada de sua mãe já não teria mais como proteger você de nós. — Sua voz retornara ao habitual: suave.

— E por que só agora? Por que não enviaram antes?

— Sempre estivemos atrás de você. Mas não podíamos cometer erros. Nós não podemos matar diretamente a pessoa errada. Nunca!

— Diretamente?

— Sim, quero dizer, eu não posso matar você se não for a sua hora, mas…

— Mas?

— Mas eu posso sugestionar mentalmente uma pessoa que está prestes a morrer a levar você consigo.

— Como assim? Vocês podem induzir uma pessoa a matar outra quando ela estiver perto da hora de sua morte? Induzir um assassinato?

— Sim.

— Então era por isto que nos últimos dias diversas pessoas tentaram me matar? — grunhi e me lembrei do comentário maldoso de Kevin sobre guiar a morte das pessoas.

— Isto aconteceu?

— Diversas vezes! E eu pensando que estava enlouquecendo! Era isto então?

Ela ficou pensativa por outro longo período, seus olhos turvos denunciavam sua preocupação. Tive que perguntar novamente.

— Foi o que me aconteceu?

— Sim. Como não era para você ter nascido, ficou estabelecido pelos magos que seu dia de partida seria o dia de sua passagem definitiva. Desta forma, os seus resgatadores não poderiam buscar você antes desta data, e então utilizaram outros meios…

— Meios indiretos?

Ela assentiu.

— Mas não tiveram muito sucesso, não acha? — desdenhei da situação, achando que ela se defenderia de imediato, mas fui surpreendida por um sorriso escancarado. Seu semblante era de pura excitação.

— Acho. É um milagre! — exultava de satisfação.

— Ãh?! Que milagre? — indaguei, mas ela me deu as costas e balançava a cabeça de um lado para o outro. — Por que só agora? Por que não me mataram antes?

— Não sei ao certo, talvez por ser sua data de maturidade. Mas acredito que, pelo motivo anterior, não poderíamos cometer erros. Além do mais, nunca acreditamos que esta lenda fosse verdadeira, que você existisse pra valer. Teoricamente não era para você ter nascido, por consequência, você não tinha uma época exata para morrer.

— Vocês cometem erros? A Morte falha?

— Depende do que você considera falhar. Que nós cumpriremos a nossa missão é fato, mas, na qualidade e no número de tentativas, é que se encontra a diferença.

— Matar de primeira seria o mais eficiente?

— Sim. Sem deixar rastros.

Minha fisionomia deixou claro que não compreendi o significado daquelas palavras, e ela continuou tranquilamente:

— Sem desencadear uma morte dolorosa.

— Dolorosa para quem?

— Sempre para quem vai. Para os que ficam, existe o aprendizado.

— Hum. E Richard… então… sempre acertou de primeira e nunca deixou rastro?

— Nunca — soltou pensativa.

— Mas se este tal Shakur é o mais temido dos líderes e Richard seu principal resgatador, significa dizer então que ele deve ser tão mau quanto seu líder, não é verdade?

— Pssiu! Fale baixo! — E deu uma espiada ao nosso redor. — Você não deve encarar desta forma. — Ela tinha o olhar apreensivo. — Quero que saiba que, para nós, zirquinianos, não existe um bom ou um mau. Há apenas o que chamamos de eficiente e não eficiente.

— Então por que ele não foi eficiente? Por que ele não fez logo o seu serviço e me liquidou de uma vez? Por que me salvou das mãos de Kevin e de Collin? Por que esta agonia?

— Ele obedece regras e… talvez exista um motivo maior — concluiu.

— Qual? Arrancar os meus olhos em praça pública? — grunhi.

Leila não me respondeu, dando de ombros.

— Eu acho que é melhor nos recolhermos, o tempo esfriou bastante.

— Você sente frio? Não disse que eram insensíveis? — ataquei.

— Nina, nós não temos os bons sentimentos existentes, em especial, o amor! Todos os demais estão presentes. Sensações como frio, fome, calor, cansaço, dor são todas iguais às de vocês. Agora chega, vamos entrar!

— Espere! — interceptei-a, aflita com o turbilhão de perguntas que se formava dentro de meu peito. — Você disse alguma coisa sobre data de maturidade. O que quer dizer com isto?

— É a sua data de passagem definitiva — esclareceu.

— Então minha data de passagem é o dia do meu aniversário?

— Sim. A partir dos dezessete anos ela será definitiva, por isso é chamada de data da maturidade.

— Só dezessete?

— Atualmente vocês andam bem imaturos com esta idade, mas, há alguns séculos, as pessoas já tinham suas famílias perfeitamente constituídas nesta faixa etária. Sem contar que as doenças nos faziam buscá-los bem mais cedo do que hoje em dia.

— Vocês morrem?

— De certa forma sim. Nós concluímos nossas missões. Todos nós temos um número de missões já determinado quando nascemos.

— Vocês nascem? Quero dizer, vocês então se casam e têm filhos como nós?

— Mais ou menos. Nós somos obrigados a continuar a nossa espécie.

Recordei-me imediatamente sobre o comentário de Ben.

— Eu já lhe disse. Nós não sabemos o que é amar — continuou Leila. — Quando muito evoluídos, desenvolvemos a capacidade do bem-querer, do cuidado com os outros. Pouquíssimos conseguem. No geral, somos completamente frios. Achei, aqui estão! — Abaixou-se e pegou algumas mudas de erva-doce e de outras plantas desconhecidas que estiveram ali durante toda a nossa conversa.

Num gesto de desespero, agarrei seu braço e supliquei-lhe a única resposta que me fazia sentido:

— Afinal de contas, o que vão fazer comigo?

Ela lentamente se soltou de mim e pousou suas mãos sobre meus ombros, seus olhos fixos nos meus.

— Se soubesse, eu realmente lhe diria. — Deixou suas mãos caírem e pôs-se a caminhar.

Dirigimo-nos até a porta em silêncio. Muitas coisas que Leila disse faziam sentido dentro da minha outrora vida de nômade, entretanto, a lógica berrava dentro de meu cérebro que tudo aquilo não passava de um grande teatro, uma espetacular encenação de um grupo de loucos. Antes de entrar, ela segurou meu braço mais uma vez e, com um olhar profundo, disse apenas uma frase:

— Confie nos sinais.

Eu gelei. As mesmas palavras de Stela? Meu coração deu um salto e por pouco não escapuliu por minha boca. “Sinais”? O que ela queria dizer com aquilo?Antes que eu pudesse formular qualquer pergunta, ela abriu a porta. Ewan e Estwic assistiam ao canal de esportes, vidrados em um campeonato de hóquei canadense.

— Que demora! — exclamou Estwic. — Pensei que tivessem se perdido por aí. — E riu olhando para Ewan, que nem reparou na piadinha sem graça, de tão entretido no jogo.

Acompanhei-a até a pequena cozinha anexa, observando pelo canto do olho aquela figura de Adônis dormindo no sofá. Leila me viu observando-o e sussurrou para que os outros não nos ouvissem.

— A beleza dele é aquela que você não consegue enxergar. Tenha paciência. É tudo muito novo e assustador para ele também. — O que ela queria dizer com aquelas últimas palavras? Mantive-me calada enquanto Leila divagava: — Observe estas mudas. — E apontou para as horripilantes plantas que eu não conhecia. — Elas são o exato oposto das rosas! Depois que uma rosa murcha, o que resta?

— Os espinhos — respondi.

— E quando os espinhos caem?

— Não sobra nada.

— Exato. Infelizmente, as rosas são frágeis e egoístas. Cobram um preço muito alto se quisermos a sua companhia: poucas horas para termos o prazer de observar a sua beleza exuberante e muitos dias acompanhando sua deterioração. De presente, elas nos deixam apenas seus míseros espinhos… Estas plantas, no entanto, desabrocham e florescem com a adversidade. Esquisitas e até feias, murcham e morrem sem chamar a atenção quando permanecem no seu solo de origem. Mas são guerreiras inatas. Fazem questão de nos presentear com a sua própria morte, caso queiramos a sua companhia. — E suspirou: — Quando começarem a murchar, seus espinhos cairão e uma lindíssima flor brotará de seu áspero caule. Esta rara flor, a qual chamo de Drahcir, é forte e resistente, e nos dá o prazer de admirá-la por meses a fio. Quando, por fim, sua beleza começar a se esvair, ela novamente nos presenteia com um chá de sabor maravilhoso, que nos proporciona a cura de muitos dos nossos males. Não se deixe enganar pelas aparências… Aguarde até os espinhos dele caírem — apontou para Richard com um gesto de cabeça — e terá muito a ganhar.

O que ela queria dizer com aquilo? Aprisionada em meus pensamentos, adormeci com a cabeça caída sobre a mesa de jantar. Pelo menos é o que acho. Acordei já de dia e deitada sobre uma cama bem quentinha, acreditando por um breve instante que tudo aquilo não passara de um sonho. Fui trazida à realidade por um cochicho que se fazia ouvir pelas pequeninas aberturas da janela basculante acima de minha cabeça. Do lado de fora, duas pessoas entabulavam uma conversa tensa. A primeira voz era inconfundível, pertencia à Leila. A segunda era… de Richard.

— Nem pense em se envolver! Ela é minha missão — ele rugia.

Missão? É sobre mim que estão falando!

Assisti a conversa escondida por detrás da cortina.

— Eu tentaria Wangor — continuou Leila.

— Pode ser… Preciso acabar logo com isto! Eu estou ficando louco, Leila! Não consigo mais traçar planos com objetividade. Eu não aguento mais, além do mais, ela me tira do sério! — concluiu apressadamente, assim que constatou os dois outros rapazes se aproximando.

— Eu sei, mas você precisa ter paciência. Lembre-se de que ela não é um de nós, assim como o pai dela foi. Ela é diferente! Não faça nada que venha se arrepender depois, meu querido — sussurrou Leila para Richard, enquanto disfarçava acenando para os outros, chamando-os para perto deles.

— Arranjei a moto que você me pediu, Rick! Está toda preparada — aproximou-se Ewan.

— E então? A belezura vai dormir a manhã toda também? — alfinetou Estwic.

— Vou chamá-la, mas você sabia que o sono é um excelente reparador, filho? — Leila respondeu àquele comentário com repreensão. — Saiba que ela é uma humana e, como tal, é muito mais vulnerável às suas necessidades fisiológicas do que nós. — E saiu ajeitando o coque com firmeza.

Minha cabeça girava. Será que era o que eu estava imaginando? Estaria Richard se interessando por mim e sentia-se em conflito? Seria capaz de ir contra aquele grupo macabro só por minha causa? Minha alma transbordava de felicidade. Meu coração estava pra lá de agitado dentro da caixa torácica. Percebendo a aproximação de Leila, mergulhei por sob os lençóis, fingindo dormir o mais profundo dos sonos.

Não sei se fui convincente.