Não Pare!
Capítulo 17
— Está na hora! Precisam partir. E que Tyron esteja com todos nós! — Leila despediu-se de nós com um semblante preocupado. Se não estava representando, com certeza tentava camuflar algo que a deixava muito aflita.
A viagem transcorreu tranquila. Pela primeira vez não havia tensão entre mim e aquele deus grego. Sua fúria parecia ter se abrandado.
— Está com frio? — checou, olhando-me pelos cantos de seus magníficos olhos azuis.
— Não. — Era verdade. Eu estava em brasas, mais quente do que nunca. Era incapaz de perceber o vento frio trespassando meus poros.
— Fique tranquila. Está tudo sob controle — tentou disfarçar, mas seu semblante permanecia preocupado.
— Eu estou tranquila — disse pela primeira vez, e de forma honesta, desde que meu martírio começara. Ele franziu as sobrancelhas, quase esboçando um tímido sorriso. — Para onde estamos indo?
— Para o grande deserto além de Sabhã.
— Vamos voltar para o continente africano?
Ele confirmou com um aceno de cabeça.
— Por que tão longe? — insisti.
— Porque os portais são milenares e, portanto, só surgem em locais especiais — soltou em seu tradicional jeito seco.
— O que você quis dizer por eu ser receptiva? — fui direto ao ponto.
— Quando se tem o dom da percepção. Alguns humanos têm — berrou enquanto fazia uma manobra rápida.
— Alguns humanos?
— Sim.
— E no que consiste este dom? — gritava à medida que o motor de sua moto rugia.
— O humano perceber a nossa presença.
— Sei. Se estou olhando para você, logo eu consigo perceber sua presença, não acha óbvio?
— Você sim, mas a maioria dos seus só nos enxerga quando nós queremos. Espere um pouco. — E começou a diminuir a velocidade ao avistar uma humilde casinha de madeira, cercada por uma paisagem lindíssima. Cortinas quadriculadas de vermelho e branco dançavam animadas ao som do vento. Pareciam acenar para nós pelas pequenas janelas abertas, todas também pintadas de vermelho. Sua porta e telhado brancos davam o arremate final daquela simpática casa de bonecas. Mal percebi que tínhamos feito um longo percurso e que chegávamos a uma afastada área agrícola. Ele saltou da moto, me levantou com cuidado e me colocou no chão.
— Onde estamos? — perguntei.
— Em uma parada estratégica. Vamos fazer um lanche e descansar um pouco antes de continuar. A próxima etapa é bem pior.
— Mas…
— Chega de conversa! E cuidado onde pisa — ele me interrompeu bruscamente. Sua rispidez havia retornado com força total. Começou a andar em direção à pequena cabana, deixando-me para trás.
— Eu preciso de respostas! — grunhi aos quatro ventos enquanto o seguia. Ele me enervava com sua pose de general.
— Cuidado com o chão — ordenou, mantendo suas passadas firmes. — Está cheio de…
— Ah, não! — gemi logo atrás.
— Fezes bovinas!
Havia enfiado os pés em uma quantidade impressionante de estrume. Com exceção de dois estreitos caminhos de pedras, o restante era tudo lama. Um grande e desafiador atoleiro.
— Você é bem descuidada, não é mesmo? — tinha impaciência ao falar. — Aprenda a ter mais atenção no que faz e por onde anda! Não posso te vigiar o tempo todo!
Dono de uma força incrível, ele me agarrou pela cintura e me retirou daquele lamaçal. Sem que eu pudesse esperar, Richard me colocou no chão de terra firme com todo o cuidado. Seu corpo grudado ao meu e seu olhar fixo em meus olhos fizeram minha respiração vacilar. Sem graça desviei o rosto. Ele se afastou e me jogou um pedaço de pano velho para que me limpasse.
— Obrigada. Quer dizer que você pode ser invisível para várias pessoas?
— Quase todas. É só querer.
— Quem são vocês? Extraterrestres? — e lancei uma gargalhada sarcástica.
— Você ainda não entendeu absolutamente nada do que eu expliquei? Não conseguiu perceber a gravidade de todas as situações por que passou? — ele trovejava.
Engoli em seco, manchas vermelhas de vergonha começavam a afoguear meu rosto. Ele continuou, irritadiço:
— Também pertenço ao seu mundo, só que em uma dimensão diferente, uma dimensão paralela à sua! Sou um resgatador!
— Então você realmente resgata vidas?
— Sim, como a sua! — e franziu o cenho.
Meu rosto empalideceu, senti um frio no estômago. Lembrei-me de um fato passado.
— No avião? Aquela senhora que entrou no toalete… Então quer dizer… você…
— Sim. Eu também estava naquele toalete, só que aquela senhora não foi capaz de me ver. Ela não era receptiva como você! — rugiu.
Todos já haviam me explicado inúmeras vezes, mas só agora, depois de todos aqueles acontecimentos, começava realmente a acreditar. — Então você é de fato a… a…
— A sua Morte! Sim! Eu sou o que vocês costumam chamar de Morte. O que mais eu tenho que dizer ou fazer para você acreditar em mim?
Minha gargalhada nervosa foi rapidamente substituída por um choro compulsivo.
— Pare com esta loucura! — berrava. — Por que toda esta encenação? Esta gente toda atrás de mim? Por que estão fazendo isto comigo? Se você é mesmo a minha Morte, mate-me logo!
— Não. — Havia uma incompreensível dor em seu semblante.
— Por que não? Por que me torturar?
— Eu não quero te torturar. — Seus olhos azuis brilhavam mais que o lindíssimo céu sobre nós e pareciam sinceros.
Aquelas afirmações começavam a me perturbar.
— Por que eu?
— Já lhe disse. Você tem a chave do portal.
— Ah! Certo! — desdenhei. — E como pode ter tanta certeza?
— Os seus olhos.
— O que têm eles?
— São diferentes.
Eu gelei dos pés à cabeça.
— C-como notou? — gaguejei.
— Inicialmente por eliminação e uma pitada de sexto sentido. — Ele pegou um graveto comprido e começou a rabiscar alguns desenhos no solo úmido.
— Eliminação?! — Minha pressão rolou ladeira abaixo. — Quer dizer que vocês realmente mataram outras garotas até chegar a mim?
Ele não reagiu a esta pergunta, o que me fez imaginar uma resposta terrível.
— E depois? — adiantei-me.
— Depois porque percebi que você tem uma característica impossível para os seus.
— E qual é?
— Você não é sugestionável.
— Ãh?
— Você não tem a mente susceptível aos nossos comandos. Daí o porquê de nós não podermos eliminar você de maneira direta.
— Só através de outras pessoas que estavam prestes a morrer? A morte indireta?
— Exato.
Um ensurdecedor silêncio preencheu o ambiente e o meu cérebro por um longo período de tempo.
— Sua mãe era uma mulher muito perspicaz — ele reiniciou a conversa de maneira inesperada. — Conseguir enganar a morte por quase dezessete anos não é para qualquer um.
— O que você quer dizer com isto? — minha voz saiu trêmula, meu nervosismo em ascensão.
— Por que você acha que viviam mudando de cidade em cidade, de país em país?
— Devido ao emprego dela!
— Você acredita mesmo nisto? — sua voz rude tinha uma pitada de piedade camuflada.
Agora quem não tinha resposta era eu. Ele continuou:
— Por que você acha que o humor dela mudava com tamanha intensidade, de uma hora para a outra, diante de um mínimo sinal de perigo? Por que você acha que ela não gostava que você fizesse novas amizades?
— Por quê? — indaguei perplexa, quase afônica. Como ele podia saber detalhes tão íntimos de nossas vidas?
— Porque ela simplesmente sabia de tudo e queria proteger você. Desde o momento em que você foi concebida, a vida daquela mulher acabou. Ela vivia só para manter você viva. Abdicou da sua própria existência com o objetivo impossível de livrar você de nós.
— Como ela sabia? Eu não entendo…
Ele caminhava devagar, olhando ao longe um pequeno grupo de homens que acabava de sair da simpática casinha. Mais de perto pude ver que se tratava de um humilde restaurante no meio do nada. Richard dirigiu-se então para algumas rochas que ficavam ao lado de um antigo caramanchão. Limpou-as com as mãos, fez sinal para que eu me sentasse ali e depois se acomodou mais acima, bem próximo de mim.
— Seu pai era um de nós — seus olhos se estreitaram, sua testa franziu. Ele parecia sentir algum tipo de sofrimento.
— Leila me explicou mas… eu não entendo. Não pode ser! — objetei com os dentes trincados.
— Eles violentaram as regras do universo.
— Ãh?! O que quer dizer?
Ele ficou mudo.
— Eles se apaixonaram? É isto?
Ele assentiu com a cabeça.
— Como aconteceu?
— Nunca entendi. Eu não sabia que era possível — murmurou, deixando as mãos encobrirem o rosto.
Eu estava perplexa com a cena. Ele respirou profundamente e continuou:
— Nós não desenvolvemos muitos sentimentos. Não temos essa aptidão.
— Você quer dizer que… a Morte um dia se apaixonou? Isto é ridículo! — exclamei engasgada.
— Achávamos que era lenda. A profecia era milenar…
— Profecia? — Meus neurônios ferviam.
— Sim. Mas esta é outra longa história… Não temos tempo — adiantou-se e continuou: — Eu não sei de detalhes. Só sei que em uma missão seu pai conheceu sua mãe.
— Ela também era receptiva?
— Como você.
— O que você quer dizer com “eles violentaram as regras”? — retornei ao ponto que me incomodava.
— Sua mãe deveria ter morrido há mais de dezessete anos, Nina. Ela era a missão dele! Mas seu pai não conseguiu porque se apaixonou por ela, e ela por ele. O amor deles era tão grande, que, mesmo sabendo dos riscos, preferiram continuar juntos. Foi a primeira vez em toda a existência que um de nós conseguiu conceber um filho com um dos seus. Você!
Agora meus lábios tremiam involuntariamente. Como eles poderiam ter inventado uma história tão bem bolada como aquela? Onde obtiveram todas aquelas informações sobre mim e Stela?
— E o que houve depois que fui concebida? — retruquei desconfiadíssima.
— Sua mãe fugiu.
— E meu pai?
Ele deu de ombros.
— Pouco se sabe dele depois deste episódio.
— E por que minha mãe fugiu se o amava? Nada disto faz sentido! — protestava, mas meu peito começava a pressentir o pior. Estava agitado demais.
— Para proteger você, eu acho.
— Mas, me proteger dele? Se ele nos matasse, não acabaríamos juntos? Não iríamos para o mundo dele? Quero dizer, o seu mundo? O mundo dos espíritos?
— Eu não disse que meu mundo é dos espíritos! — ele bradou nervoso. — Nós estamos apenas em outra dimensão! A única diferença é que, diferentemente de vocês, temos conhecimento do seu mundo! Então, quando uma pessoa morre, ela vai para as outras dimensões que mencionei, o Plano ou o Vértice, e não para a minha. Fui claro?
— Então por que está me levando para a sua dimensão? — indaguei com fúria.
— Isto não lhe interessa! — ele rebateu na mesma moeda.
Aguardei algum tempo, enchi meus pulmões de ar e tomei coragem para continuar a sabatina:
— Então eles não queriam se separar?
— Exatamente — ele suspirou. — Se ele cumprisse a sua missão — matá-la —, teria que abrir mão dela. E ele estava apaixonado demais para fazer isto. Se saísse de perto dela, outro resgatador acabaria sendo enviado para concluir a missão em atraso.
— Atraso?
— Sim. Nós temos um determinado tempo para cumpri-las, em geral.
— As pessoas não têm o dia de sua morte já definido quando nascem?
— Só algumas. Excluindo a morte indireta, que, para nós, zirquinianos, é irrelevante e sem qualquer prestígio, a grande maioria das pessoas têm o livre-arbítrio, que pode lhes dar ou tirar alguns anos de vida.
— Então não existe o que chamamos de sorte?
— Como assim? Ganhar na loteria? — ele perguntou confuso.
— Um avião cair e de cem passageiros só sobrarem dois, por exemplo?
— Esta sorte não. Definitivamente, estava muito longe da hora deles. Como eu disse, alguns podem ir um pouco antes, outros, um pouco depois, depende das circunstâncias…
— Então meu pai adiou um pouco a morte de minha mãe?
— Exato. E como ele não podia ficar com ela em tempo integral, porque tinha outras missões a executar, ele a ensinou alguns truques para manter outros de nós afastados dela enquanto trabalhava.
— Trabalhava? Rá! — dei uma gargalhada sarcástica.
— Sim, Nina. Este é nosso trabalho. Manter o equilíbrio do planeta. As pessoas têm que morrer porque outras têm que nascer. É assim que tem que ser.
— E que truques eram estes?
— Está vendo este cordão em seu pescoço?
— O que tem de mais? — tremi.
— Foi ou não pedido de sua mãe para que nunca o retirasse?
Apenas acenei com a cabeça. As evidências eram irrefutáveis. Ele se empertigou.
— Este tipo de pedra é muito rara. Leila me contou que é um rubi-escalarte artificialmente modificado. É uma pedra prensada com uma espécie rara de limão, oriunda apenas das florestas tropicais da Nova Guiné, associada a um tipo exótico de citronela que só dá em grandes altitudes. Tem ação repelente, potencializada pelo seu elevado índice de radioatividade natural.
— E como funciona?
— Nossa perseguição também é feita através da captura de cheiros, essências. Como esta pedra tem caráter repelente, ela elimina tais sinais se estiver presa ao corpo da pessoa.
— Uma simples pedra pode enganar a morte? — ri, já gozando da situação.
— Por algum tempo.
— Dezessete anos?
— Não.
— Então como você explica esta demora toda?
— Não sei. Não tenho acesso a este tipo de informação. Além do mais, existe muito mistério a respeito da morte de seu pai, da sua concepção, do desaparecimento de vocês duas etc. Tudo que sei é que sua mãe era uma mulher muito inteligente e que, quando soube que estava grávida, fugiu. Não deixou qualquer recado para seu pai. Simplesmente sumiu. Seu pai se sentiu traído e a perseguiu a vida toda. Ela sabia fugir dele como ninguém, pois ele mesmo a havia ensinado os truques. Quando finalmente a encontrou, seu coração se partiu em pedaços. Ela estava com um lindo bebê no colo e o bebê era sua filha, indiscutivelmente.
— Indiscutivelmente? — pressentia uma estrondosa enxaqueca a caminho.
— Sim. Você herdou os olhos de seu pai. — Visivelmente abatido, ele abaixou os olhos para o solo úmido. — Estas pupilas verticais pertencem à minha espécie.
Sem que eu esperasse, Richard deixou suas explicações verbais e tornou fisicamente visível aquilo que eu me recusava a acreditar. Ele se levantou, caminhou um pouco mais à frente e ficou de costas para mim. De repente se virou, fazendo meu queixo despencar em queda livre de susto.
— O quê?! Oh! — exclamei transtornada. Suas preciosas pedras azuis haviam sido ofuscadas. Os holofotes estavam agora em suas pupilas, que me fuzilavam: verticais e lagárticas como as minhas! Meu peito queimava num misto de horror e satisfação, meu cérebro alertava-me de que eu não era mais uma aberração.
— Acredita agora? Acredita que herdou esta característica do meu mundo? — sua voz estava diferente, embargada talvez.
A sensação era de que a enxaqueca explodira algum vaso por detrás de minha córnea esquerda.
— Então era por isto… — Se morresse agora, morreria feliz. Eu tive um pai e fui concebida com amor. — Mas, seus olhos… Eu vi… Você também usa lentes? — perguntei desnorteada.
— Não. Quando chegamos à maturidade, somos capazes de ter controle sobre as nossas pupilas, contraindo-as ou dilatando-as quando desejamos, a não ser quando…
— Quando?
— Quando estamos sob forte tensão, estresse. Diante de um perigo, ela se fecha instintivamente.
— Então daqui a algum tempo as minhas pupilas irão abrir?
— Sim.
— Quando?
— Quando chegar a hora certa.
Era isto! “Quando chegar a hora.” A frase predileta de Stela, e que me deixava furiosa. Eu precisava saber mais.
— Então eu sou uma de vocês?
— Não. Você é muito mais. Você é uma híbrida! — contestou inflamado.
Toda a minha salivação secara, engoli de forma árida. Novamente um ser diferente.
— O que meu pai fez depois de ter me descoberto?
— Ninguém sabe. Desapareceu. E outros de nós assumiram a sua missão.
— Ele não voltou para a sua dimensão?
— Se voltou, eu não sei. Ninguém sabe, eu acho… — respondeu pensativo.
Um estalo brotou em meus pensamentos acelerados:
— Tinha algum motivo para minha mãe ficar tão perturbada quando meu aniversário se aproximava?
— Sim. E era forte. — Ele quebrou o graveto com violência, seus olhos devidamente restituídos. — Só temos acesso ao meu mundo, através de um portal de entrada. Antes da sua data de maturidade, você só teria acesso a Zyrk na sua data de aniversário. Os portais só permitiriam a sua passagem nesta data específica. O que provavelmente deveria deixar sua mãe ensandecida.
— Está explicado… — soltei num infeliz murmúrio.
— Isto, devo ressaltar, porque você é uma híbrida. Aos humanos, qualquer tipo de passagem é vetada.
— Só me deixariam entrar na sua dimensão no dia do meu aniversário?
Ele assentiu a cabeça positivamente.
— E existem vários portais?
— Poucos. E eu acredito que nem você saiba qual é a sua real data de nascimento. Sua mãe deve ter registrado você em dia diferente, próximo, mas diferente do verdadeiro.
— Você disse que meus olhos permitiriam que os mundos se comunicassem. Esta comunicação… Isto não é bom? — mudei o ângulo da conversa.
— Nosso conselho dos magos e grandes líderes não chegou a uma conclusão definitiva — suspirou desanimado. — Os magos preferiram manter-se neutros e três dos quatro líderes decidiram que você deveria ser eliminada, para que se preservasse a harmonia entre os mundos. Que nada deveria ser alterado, sob o risco de perder o tão importante equilíbrio da vida. Um único clã acredita que você deve ser capturada para estudos porque seus olhos podem ser a explicação de muitas dúvidas que pairam em nosso mundo.
— Mas você não faz parte deste clã…
— Não. — Sua resposta seca me fez gelar.
— Então por que me salvou?
Apesar de não me responder, sua atitude a seguir me agradou. Ele se enrijeceu e, sem graça, não conseguiu disfarçar os olhos azuis chamuscando em faíscas.
— Venha! Vamos comer — soltou com dificuldade. — Ainda temos muito chão pela frente.
Era verdade.