Não Pare!

F.M. Pepper · Capítulo 13 de 22

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Não Pare!

Capítulo 13

 

O navio tinha uma área aberta, como a de uma balsa antiga, que servia para acomodar carros e motos. A travessia do mar Mediterrâneo levaria toda a noite. A paisagem limitava-se a uma embaçada névoa, que migrava aos poucos do cinza escuro para o negro melroado. A visibilidade era péssima. Enquanto todo o grupo esperava a chegada ao seu destino, observei que não havia mulheres naquela mórbida embarcação. Os rapazes passavam por mim com muita frequência, como se admirando um animal em extinção ou um monumento raro. Sentia-me muito mal.

— Você precisa comer. Vou pegar algo para mim também — determinou Richard. — Ben, tome conta dela enquanto isto.

— Pode deixar, Rick.

Ben parecia ser um bom sujeito. Inocente até. Aproveitei-me daquele momento a sós com ele para furtar-lhe algumas respostas.

— Todos aqui têm a mesma idade?

— Aproximadamente. Cada missão é dada para um resgatador e seu grupo de acordo com a idade da vítima.

— Vítima?

— Ops! Falei demais!

— Então vocês são mesmo um grupo de assassinos?

— Hã? C-Claro que não! Quero dizer, bem… — ele gaguejava confuso. Não o deixei pensar.

— Qual a sua idade, Ben?

— Devo ter entre dezenove e vinte e dois anos.

— Como assim? Não sabe quantos anos tem?!

— Esta coisa de idade nunca foi muito importante para a gente.

— E a de Richard?

— Hum… Acho que tem o mesmo tempo que eu… Não sei bem.

— Sei. Então — continuei —, todos vocês são resgatadores?

— Sim. Mas só existem quatro resgatadores principais. Um para cada clã. Eu sou um resgatador de ação indireta, ou seja, eu faço parte de um grupo.

— O grupo do Richard?

Ele assentiu com a cabeça.

— Assim nós podemos nos dividir e, com isto, aumentamos a eficiência de nossas missões. Passamos as coordenadas para o nosso resgatador principal e, caso não esteja por perto, ele nos transfere esta incumbência — explicou.

— Missões? Você quer dizer… as vítimas? Como eu?

— É — respondeu de imediato e, no afã de me dar sua opinião, acrescentou em baixo tom: — Tem algo estranho acontecendo, sabe?

— O quê?

— Não sei ainda… Nada — ruminou chateado consigo mesmo, talvez por ter deixado escapar o que não devia. Sua ingenuidade era evidente.

— Por que todos têm esta curiosidade mórbida sobre mim? — continuei.

— Bom, nem todos querem te matar…

— Não?! — indaguei com súbita atenção.

— Muitos de nós achamos que talvez não seja bom matar você, talvez seja chegada a hora de desobedecermos aos protocolos e deixar que você viva pra que a gente possa entender como você surgiu. Que talvez você seja um milagre de Tyron, perdoando-nos dos nossos erros, quero dizer, dos erros dos nossos antepassados. Porém, outros acham que, se quebrarmos os protocolos, maior será a ira divina, e o nosso povo estará perpetuamente condenado. É o que os principais líderes acham. Acho que eles preferem que você seja eliminada por precaução. Eles evitam correr riscos, ainda mais nestes tempos nervosos.

— Tempos nervosos?

— É. Uma guerra entre os clãs está prestes a estourar.

— Se esta guerra não estivesse tão próxima de acontecer, você acha que meu futuro seria diferente?

Ele contraiu a testa.

— Acho que não faria diferença alguma, em nenhum dos clãs. — Então Ben abaixou a cabeça, enfiou as mãos nos bolsos e, sem me encarar, arranhou a garganta para me confidenciar uma informação que o deixava visivelmente sem graça. — Porque ainda haveria a curiosidade masculina…

— Clãs? Curiosidade masculina?!

Ele se limitou a responder a primeira pergunta:

— Clãs são os nossos reinos e são em número de quatro: Thron, Storm, Windston e Marmon. Cada qual com seu líder. O nosso é Thron, o mais forte deles.

Meu Deus! O universo imaginário criado por eles era mais complexo do que eu podia imaginar.

— E este tal de Shakur é o seu líder? O líder de Thron? — adiantei-me.

— Sim. Ele é o mais forte e impiedoso de todos.

— E quais são os outros?

— O líder de Storm é Kaller, o de Windston é Wangor e o de Marmon, Leônidas.

— E o que você quis dizer com curiosidade masculina? — Eu queria perguntar mais coisas, mas, diante da chegada iminente de Richard, apressei-me em interrogá-lo sobre aquele comentário nada agradável. — O que quis dizer com aquilo? — insisti.

— Acho que Rick não vai gostar — continuou aos tropeços, mantendo os olhos fixos no convés.

— O que foi? Prometo manter segredo — soltei dissimulada.

— É que… Nós não temos sentimentos. — Ele suava agora, olhando furtivamente para os lados.

— Vocês não têm sentimentos? — sua resposta era tão cômica quanto esdrúxula.

— Quero dizer, temos alguns, mas…

— Mas?

— Não somos capazes de desenvolver o mais importante dos sentimentos humanos.

— Qual? — Eu não conseguia acreditar que estava tendo aquele tipo de conversa.

— O amor! — E suspirando, emendou: — Mas não é só o amor, propriamente dito. Nós não sentimos nada, sabe?

— Nada como?

Ele tentou disfarçar, checando a todo instante a chegada de algum intruso.

— Eu vejo os filmes de romance do seu mundo, acho tudo tão bonito, mas não consigo entender…

— Entender o quê?

— Sabe, o que vocês chamam de beijo, para nós é tão… tão estranho.

— Estranho como? Pode ser mais claro?

— Colocar uma boca na outra — e arranhou a garganta: — Encontrar uma língua com a outra para nós não diz absolutamente nada, sabe? Não sentimos nada. É tudo mecânico — suspirou. — Até os bebês!

— O que têm eles? — estremeci.

— Então… — Ele parecia encabulado. — Eles são feitos apenas para dar continuidade à nossa espécie. Não existe aquela adoração que vocês têm.

— Você quer dizer que sua mãe não liga para você?

— Mãe?! Não temos mãe! Não sabemos nem quem são nossos pais! Ninguém sabe. — As palavras de Ben pareciam um triste desabafo. — As mulheres cumprem a sua obrigação de gerar um único filho e pronto. Elas apenas nos botam no mundo e somos criados pelas inférteis, que cuidam de nós até sabermos guerrear e depois somos soltos. Pertencemos apenas ao nosso clã, que seria, como vocês dizem, a nossa família.

— Mas eu ouvi que Collin é filho de Shakur.

— Ah! Isto é porque os líderes são os únicos que mantêm os filhos por perto por questão de sucessão do clã. Não porque gostem deles… Tem que haver a continuidade do sangue, não é mesmo?

— Então todos os líderes mantêm seus filhos junto deles?

— Quando estão vivos, sim. — E perdeu a cor quando um rapaz passou por nós. — É melhor pararmos esta conversa. Richard pode chegar a qualquer momento.

— Por que tem medo de Richard? — aproveitei-me da situação.

— Eu não tenho medo dele — murmurou. — É que, às vezes, ele perde a cabeça. E eu não quero estar por perto quando ele fica bravo pra valer…

Eu arregalei os olhos e ele percebeu.

— Mas ainda assim é o melhor de todos os resgatadores! — acrescentou. — E o mais completo também. Richard é forte como um touro, é inteligente, tem carisma, além de ser, indiscutivelmente, o mais habilidoso no manejo das armas e dos animais! Ele sempre foi muito severo e até agressivo, mas…

— Mas?

— Mas oferece mortes justas aos seus resgatados — suspirou. — A não ser que…

— A não ser o quê?

— Que seja ruim para Thron. Richard sempre colocou Thron em primeiro lugar. Por isso ele é admirado por todos, principalmente Shakur. É um líder nato!

— Então ele será o líder de Thron quando Shakur morrer?

— Deveria, mas não. Será Collin, o filho de Shakur.

— Ah!

— Mas o resgatador principal assumirá a posição de líder nos reinos sem sucessores.

— Claro — respondi automaticamente. — Mas o que você queria dizer sobre a curiosidade masculina? — voltei ao assunto.

— É que… — Ele olhava de um lado para outro, seu rosto enrubescendo mais do que nunca — existe um boato que… talvez… alguém como você, possa nos fazer sentir algo mais — e sorriu sem graça para mim, envergonhado. Eu não sabia se dava uma gargalhada ou me preocupava. Aquela insanidade toda não podia ser verdade. Ou podia? Ele continuava sua explicação: — É que não temos o tato desenvolvido…

— O tato?

— Sim. Temos o olfato, audição e visão bem desenvolvidos. O problema está no tato, no toque. Dizem que faz parte da nossa maldição — suspirou. — Quero dizer, somos capazes de ouvir, cheirar e enxergar muito melhor do que vocês, humanos, mas somos muito limitados no que se refere ao tato. Um toque, um abraço, um beijo não são capazes de mexer em nossos corações, nos fazer arrepiar, perder o fôlego, enfim, não são capazes de nos fazer sentir nada. Somos anestesiados para as boas sensações. Apesar do risco, os rapazes acham que se tiverem um contato maior com você, sabe?

— Sabe o quê, Ben? — Silenciosamente, Richard se aproximou de nós. Olhava desconfiado para Ben. — Você não andou falando demais, andou?

— N-Não, Rick — ele gaguejava. — Eu estava só batendo um papinho. Não é mesmo, moça?

— Ãh? É claro! — entrei na defesa do pobre coitado. — Ele estava me falando um pouco sobre a Tunísia.

— Bom — Richard sepultou o assunto.

O cansaço se abateu sobre o grupo e aos poucos todos estavam dormindo. Sentei em um canto próximo ao mastro principal e me encolhi, protegendo-me da névoa gelada. Richard saiu de seu posto de vigília e se aproximou de mim.

— Proteja-se do vento — ele sussurrou.

— Por que se preocupa comigo, se está prestes a me matar?

Ele me fuzilou com seu olhar. Suas safiras brilhavam tanto, que pareciam ser constituídas por inúmeros diamantes prata-azulados. Sem resposta, como de costume. Olhou para os lados e observou que apenas nós dois estávamos acordados. Então ele fez algo que me queimou dos pés à cabeça, fazendo a fria névoa parecer uma abafada sauna. À sua rude maneira, ele se abaixou para arrumar o meu casaco, abotoando os botões um por um. Ao ajeitar a gola para cobrir-me com o capuz, ele afastou meus cabelos, puxando-os para trás da nuca, e então deslizou a ponta de seus dedos pelo meu pescoço, pousando-os abaixo de meu queixo. Neste momento tive a certeza de que não apenas eu estava arfando, mas seu peito musculoso subia e descia rapidamente, num ritmo acelerado. Num jorro de constrangimento, abaixei a cabeça. Ele acabou de arrumar meu capuz e se levantou.

— Descanse um pouco — concluiu com ar sério e tornou a assumir seu posto de vigia.

Um turbilhão de conflitantes sentimentos devastava o meu peito em brasas. Cérebro e coração duelavam numa batalha sangrenta. Distintamente do que sentia por Kevin, meu cérebro insistia em afirmar que Richard não era confiável. Meu coração, no entanto, oscilava entre o certo e o errado, o morno e o ardente. Kevin era gentil, agradável. Richard me queimava.

Enquanto tentava adormecer, infindáveis perguntas me torturavam: Ben tinha falado sobre um risco… Seria para mim ou para eles? O que Ben queria dizer com os rapazes quererem ter um contato maior comigo? Seria o que eu estava pensando? E Richard? Teria ele todo cuidado comigo porque aguarda uma data específica? Porque cumpre o tal protocolo em favor de Thron? Seria por isto que só pretendia me liberar para Collin no momento exato da minha hora? A avidez com que meus olhos procuravam por ele me surpreendia. Não conseguia evitar as estranhas sensações que aquele garoto gerava em mim. Apesar de rude, ele era lindo. Como a morte poderia ser tão bela? O certo seria que ela fosse horripilante, como nos filmes de terror. Mas lá estava ele. Para contradizer tudo e todos. Lindíssimo! Seus cabelos negros eram acariciados de um lado para o outro pelas mãos do vento, suas sobrancelhas, igualmente negras, eram as mais perfeitas molduras para as suas preciosas safiras azuis; sua pele alva era o oposto da escuridão, trazia paz. Tudo nele ela belo. Belo como a vida, nunca como a morte. Se toda esta loucura fosse verdade, eu estaria diante de uma baita contradição, mas… Pare já com isto, Nina! Nada do que você está presenciando é real. Tudo não passa de uma grande encenação de um bando de loucos psicopatas!

Começava a amanhecer quando Richard deu o alarme:

— Acordem! Chegamos!

Um leve alvoroço foi seguido por um silêncio. Algo estava acontecendo e eu nada conseguia compreender. Percebi que todos olhavam para um navio muito semelhante ao nosso, que também atracava no Golfo de Túnis.

— Como eles souberam? — rugiu Collin. — Você deixou pistas?

— Óbvio que não! — retrucou Richard tenso.

— Homens, escondam-na! — ordenou Collin.

Dois homens amarraram minhas mãos, me encapuzaram e me levaram para um local abafado. Conversavam aflitos entre si:

— Os resgatadores de Kaller não estão aqui à toa, você não acha? — soltou um deles.

— Com certeza! Deve ter sido o Richard! — continuou o outro.

— Não sei, não! Collin está louco para assumir o trono de Shakur… Pode muito bem ter feito uma emboscada para criar um estopim.

— Mas ainda acho que pode ser Rick. Ele anda muito estranho ultimamente, não acha? Por que Shakur mandaria Collin vigiá-lo, se não pressentisse alguma coisa?

— Pode ser.

— Já observou como ele cuida desta humana?

— Eu também cuidaria se me desse bem no final — respondeu o outro e os dois riram.

— Por falar neste assunto, que tal a gente…

De repente eles se calaram. Instantes depois, um par de mãos segurava a minha cintura, enquanto outras desabotoavam o meu casaco.

— Me faça sentir, garota! — uma das vozes parecia salivar, enquanto a outra se deliciava em risinhos impregnados de malícia.

Instintivamente, tentei chutar um deles, mas minhas pernas estavam imobilizadas. Apavorada, pus-me a berrar ao sentir aquelas mãos nojentas deslizando pelo meu corpo. Abafado pelo capuz, o grito saiu baixo. Mas não precisei berrar pela segunda vez. Senti uma lufada de vento, seguida de um movimento brusco e um estrondo. A claridade agora exposta. Parte do capuz rasgado ainda estava presa ao meu pescoço.

— Sentiu agora? — era a voz de Richard num rugido estrondoso. Mesmo parecendo assustador, cada vez mais sentia prazer em tê-lo por perto. Minha visão agora recobrada detectou onde estava a outra parte daquele maldito capuz.

Lá estava ela, pendurada junto a um corpo que flutuava. Richard havia agarrado um dos infelizes pelo pescoço e o suspendera contra uma parede de madeira coberta de limo, enquanto imobilizava o outro com a afiada lâmina de uma espada. Espada?! De perfil pude observar que havia sangue demais em suas feições.

— O que há com você? — desafiou o que estava suspenso.

— Comigo? — indagou Richard feroz.

— Não, Virtle, cale-se — ordenava o outro rapaz.

— Acha que não percebemos como está diferente? — insistiu o primeiro. — Quando Collin for o líder, você vai se dar mal. Argh! — ameaçou entre gemidos. Richard o sufocava com uma facilidade impressionante. O homem já ia perdendo os sentidos quando seu comparsa implorou:

— Por favor, Rick, não o mate! Só estávamos curiosos, você sabe! Ela é diferente!

Quase em câmera lenta, suas mãos foram se afrouxando, e o primeiro homem caiu próximo ao outro. Richard deitou sua testa com violência naquela parede nojenta, tentando livrar-se de algo que o devorava por dentro, como se a dor fosse maior nele do que no pobre coitado ali abatido. Ainda de costas para eles, deu o comando:

— Saiam!

— Essa garota enfeitiçou você? Virou seu cão de guarda? — desafiou o rapaz que Richard quase havia estrangulado. — Antes era você quem começava estas brincadeiras e agora está assim?

— É meu último aviso, Virtle. Saia antes que eu o mate — ameaçou Richard ainda de costas.

— Vamos embora, cara. — O segundo homem puxava o colega e parecia amedrontado.

— Ok, mas não sem isso… — E, girando-se habilmente, Virtle me puxou para junto dele. Pressionando seu corpo contra o meu, passou sua língua nojenta em meu pescoço. — Deixa eu ver… Tem gosto de…

— Me solta, seu porco! — gritei, e uma fraqueza generalizada tomou conta de mim. E não foi apenas fraqueza. Angústia crescia dentro do meu peito.

Richard soltou uma gargalhada diabólica.

— Ah! Era isso? — indagou debochado. — Se tivesse me perguntado, eu lhe diria o gosto dela, cara.

— Prefiro descobrir por conta própria — rebateu Virtle no mesmo tom enquanto passava as mãos pela minha cintura, ameaçando ir além. A angústia se transformou em sofrimento, desespero, e foi quando notei que estava chorando. Eu tinha o rosto coberto de lágrimas.

Dali em diante foi tudo tão rápido, que tive dificuldade em processar o que via acontecer bem diante dos meus olhos. Em uma fração de segundo, Richard já havia se lançado sobre o tal Virtle, desferindo-lhe socos que fizeram espirrar sangue para todo o lado. Quando finalmente consegui acompanhar a velocidade dos golpes, Virtle já havia tombado. Mesmo desacordado, Richard ainda o acertava com uma sequência de investidas violentas. Assim como eu, o outro rapaz estava tão atordoado com aquela cena que, quando resolveu dar o fora dali, já era tarde demais. Richard já havia sacado um punhal.

— NÃO! — berrei sem força em meio ao pranto mas, graças aos céus, foi o suficiente para que Richard congelasse. A arma saiu trôpega das mãos dele e, ainda assim, passou de raspão pelo sujeito.

— Saia! — ordenou nervoso ao rapaz que parecia petrificado pelo choque. Quando procurei pelo sujeito, ele havia desaparecido como num passe de mágica, num piscar de olhos.

Com a fisionomia diferente, Richard veio em minha direção, desamarrou as minhas mãos e removeu o restante do capuz.

— Você está machucada? — perguntou tenso, mas não consegui responder. A fraqueza melhorara consideravelmente, mas me parecia impossível estancar o choro. As lágrimas desciam involuntariamente, drenando a dor de uma alma sofrida e contaminada. Da minha alma. Desde que eu havia entrado naquele circo dos horrores, pela primeira vez percebi que eu não conseguiria segurar a onda. Pela primeira vez deixei cair a máscara e mostrei que eu estava sofrendo, que não aguentava mais. Eu estava tendo uma crise nervosa.

— Você está sentindo alguma coisa, Tesouro? — indagou ele aflito, sem saber o que fazer.

Em meio ao choro compulsivo, eu afundei minha cabeça em seu peito quente e todo o meu corpo tremeu. Poderia jurar que o dele também. Uma sensação de bem-estar indescritível espalhou-se por minha pele e espírito, como se dele emanasse algum tipo de energia que me revigorava e anestesiava ao mesmo tempo. Embora aturdido, Richard não tentou me afastar. Pelo contrário, segurou uma de minhas mãos e, sem dizer mais nada, deixou que eu chorasse o quanto quisesse. Para minha surpresa, vi brotar um olhar suave em sua face severa. Ele parecia comovido com meu sofrimento.

— O que vão fazer comigo? — indaguei. Ele soltou um suspiro, mas não me respondeu. Eu podia sentir as batidas aceleradas do seu coração por debaixo daquela couraça ameaçadora e, por mais estranho que possa parecer, não me senti amedrontada. Pelo contrário, tive esperanças.

— Você está melhor? — perguntou depois de alguns minutos. Fiz que sim e então Richard secou minhas lágrimas e me ajudou a levantar. Eu não conseguia descrever o que sentia no peito naquele exato momento. Medo? Atração? — Venha comigo.

Acompanhei-o até o píer, onde todos se encontravam.

— Fique aqui — decretou. — Ben, fique atento. Não deixe ninguém tocar nela e também não a deixe sair. Em hi-pó-te-se al-gu-ma! Fui claro?

— Ok, Rick! — respondeu Ben, olhando preocupado para a mão ensanguentada de Richard.

Richard se aproximou de Collin e deve ter-lhe dito algo muito interessante, pois os olhos deste último faiscaram de tanto êxtase. Algo de importante estava acontecendo ali.

— O que está acontecendo, Ben? Aonde Richard foi?

— Foi determinar estratégias.

— Estratégias?

Ben desvencilhou seu olhar do meu rosto suplicante. Nada disse, apenas deu de ombros. Todos observavam Richard, que, naquele momento, estava no cais conversando com homens do outro navio. Richard tratava em especial com um rapaz ruivo que estava de costas para nós. Ele me parecia familiar… Depois de um longo tempo, pude observar Richard dando um largo sorriso. Era a primeira vez que eu o via sorrir abertamente. Seu sorriso era hipnotizante. Depois de tudo que ele me fez passar, como eu ainda podia me sentir magneticamente vidrada por aquele rapaz? Embriagada com aquela visão espetacular, fui atingida pelas costas por uma voz irritante, sussurrando veneno ardente em meu ouvido direito. Tal presença se aproveitara de um descuido de Ben, que brincava com algumas gaivotas que nos sobrevoavam, atraindo-as com pedaços de biscoitos.

— Pois é, gracinha! — era Igor. — Está pensando que Richard tem alguma atenção especial por você? Pois está deveras enganada! Richard é um ótimo ator, sabia?

Eu meneei com a cabeça, de má vontade. Ele salivava enquanto falava:

— Ou você acha que todo aquele teatro lá das casinhas foi de verdade?

Ele radiografou a decepção em minha face. Continuava a se deliciar:

— Foi tudo uma encenação muito bem planejada entre Collin e Richard. Tudo armado para que você confiasse plenamente nele, caso precisasse… Até que foi divertido! Collin nem dormiu de tanta excitação por ter acertado a sua cara. Richard não é fácil! Fingindo ser seu protetor… Um pouquinho mais de tempo e você tinha caído nas garras dele, como previsto.

— Idiota! — bradei.

— Uh! Mas, e então? Você sabia que, para ser um excelente resgatador, tem que ser antes de tudo um exímio negociador? Ele está negociando a sua partida neste exato momento, se é que me entende.

— A minha morte? — indaguei incrédula.

— Não preste atenção ao que ele diz! — Ben ouviu e entrou em minha defesa. — Que prazer você tem em lhe dizer isto, Igor?

Igor soltou uma gargalhada artificial e se retirou.

Novo choque, outra decepção. Eu não sabia mais o que era verdade ou mentira. O que devia fazer? Em quem confiar? Fiquei ali paralisada e sob o castigo das chicotadas do incessante vento mediterrâneo, aguardando-o como os outros. Após um longo intervalo de tempo, Richard estava de volta. Cochichou algumas palavras com um Collin espumante de excitação.

— Experimentos? Ótimo! Quando faremos a troca? — perguntou Collin em alto tom.

— De duas a três horas. É só o tempo de eles conseguirem a autorização de Kaller — respondeu Richard.

Experimentos? Troca? Toda troca envolve dinheiro… Seria o tráfico de órgãos tão rentável a ponto de patrocinar e mobilizar tanta gente? Seriam minhas diferentes pupilas tão valiosas assim? Naquele momento senti meu sentimento de esperança se desintegrar em minúsculos fragmentos, eliminando completamente a ideia de que um milagre aconteceria em breve, de que as ações de Richard eram a prova de que ele não era tão insensível assim e que se apiedava de mim, sua futura vítima. Mas não adiantava tentar me enganar. Richard também estava me usando, negociando meu resto de existência. Compreendi que meu fim começava a ser desenhado.

Antes de me matarem, fariam experimentos comigo. Que tipos de experimentos? Não quis alimentar minha curiosidade. Senti uma certeza crescer dentro do meu peito: eu tinha de fugir! Eu era filha de Stela, uma mulher guerreira. E, assim como minha mãe, eu não aceitaria os fatos facilmente. Se realmente me restavam alguns dias, haveria de vivê-los da minha maneira.

Não foi bem assim que aconteceu…