Não Pare!

F.M. Pepper · Capítulo 9 de 22

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Não Pare!

Capítulo 9

 

Eu estava dormindo quando Stela chegou em casa. Acordei com ela me beijando a testa.

— Estava com saudades, filha. Estou indo para o trabalho. Nos vemos lá no teatro.

— No teatro?! — indaguei sonolenta.

— Se liga, dorminhoca! — E animada acrescentou: — Seu primeiro presente, Nina. — E como eu não esboçava reação, acrescentou: — O Fantasma da Ópera!

Ah! A surpresa da qual eu não me recordava.

— Tava só implicando com você — fingi brincar. Stela me lançou uma piscadela e saiu apressada.

 

Cheguei faminta ao refeitório durante o recreio. Peguei uma bandeja e entrei numa enorme fila.

— Nina?

— Oi, Kevin! Você não tinha sido suspenso? — perguntei atabalhoada.

— Claro que não! — E me lançou um sorrisinho maroto.

— Eu queria me desculpar pelo bolo que eu te dei na noite do temporal, eu tive que trabalhar até tarde e…

— Não precisa se desculpar de novo — adiantou-se Kevin.

— De novo?!

Essa não! Eu já havia me desculpado e não me lembrava?

— Aliás, só aceito a desculpa se estiver tudo certo para mais tarde — continuou Kevin.

— Para mais tarde?! — a expressão de perplexidade em minha face devia ser evidente.

— Sim, Nina. Nosso encontro. Você está se sentindo bem?

— Encontro?

Era tudo o que eu mais queria, mas eu não tinha combinado nada com Kevin. Ou tinha? Comecei a suar frio e ele percebeu.

— Você se esqueceu? — indagou com semblante desapontado.

— Claro que não! — menti. — É que…

— Que?

— Kevin, eu não queria, mas preciso desmarcar nosso encontro. — Senti ódio de mim mesma por estar dizendo aquelas palavras.

— Ah, não! Por quê?

— Eu já tinha um compromisso com minha mãe — respondi inconformada.

Eu queria matar Stela naquela hora. Até sem planejar, ela conseguia destruir todas as minhas chances de ser uma garota normal.

— Sério? Ou você está só me dispensando? Nina, se você não quiser, não precisa…

— Sério mesmo! — consegui interrompê-lo. Ele precisava acreditar em mim. — Vamos assistir ao Fantasma da Ópera. Foi presente dela para o meu aniversário.

— Seu aniversário é hoje?

— Não. Só daqui a três semanas.

— Hum. — Ele abriu um largo sorriso.

— Stela é assim mesmo. A ansiedade parou nela e ficou.

— Tudo bem. A gente se vê amanhã então?

— Claro! — respondi e logo atrás de mim ouvi um assovio inoportuno:

— Com licença, pombinhos — soltou Richard com a voz arrastada. Kevin fechou a cara e me puxou para perto dele.

— Venha, Nina — disse ele encarando Richard, que, assoviando, fingia escolher uma fruta na prateleira ao lado.

— Eu só vou acabar de me servir — respondi.

O celular de Kevin começou a tocar.

— “Tá legal. Já vou.”— E, tampando o bocal do celular, explicou: — É minha mãe. Vou ter que sair mais cedo hoje.

Richard soltou uma gargalhada estrondosa, fazendo todo o refeitório olhar para nós. Que ódio!

— Ah! Mamãe… — O cretino fazia graça.

— Eu preciso ir — desculpou-se Kevin olhando o relógio. — Acabe de se servir e saia logo daqui, Nina. Eu te ligo mais tarde, ok?

— Ok.

Eu estava de saída quando Richard bloqueou minha passagem.

— Com licença? — rosnei.

— Adoro maçã. Ah! O fruto proibido… — comentou ele, abocanhando com vontade uma maçã. Eu forcei caminho e ele me impediu empurrando meu ombro direito. Senti a dor do contato e instintivamente levei a mão para proteger a ferida.

— Ai!

— Ops! Encostei no ombro errado. Foi mal. — E suas safiras azuis piscaram para mim.

“Ombro errado”? Senti o calafrio se espalhando pelo meu corpo e minha visão ameaçou ficar turva.

Eu não estava enlouquecendo. A noite macabra tinha acontecido!

— O acidente… Phill… Você sabe! — balbuciei aturdida.

— Eu não sei do que você está falando, Tesouro.

— Sabe sim! — rosnei.

Então ele aproximou seu rosto perfeito e assustador do meu. Com o olhar frio, disse entre dentes:

— Mas você não me ouviu. E vai pagar por isso.

E saiu.

— Nina?! Vai ficar parada aí? — Era Melly vindo ao meu encontro. — O que estava rolando?

— Ãh?

Eu ainda estava tonta demais. Richard confessara. Mas como pode? Que tipo de truque ele fez comigo?

— Pare de bancar a bobinha. Por que Kevin e Richard se estranharam? — Melly insistia.

— Não sei.

— Como não sabe? Tá na cara! Os dois estão disputando você! Aquela briga de ontem deve ter sido por sua causa!

— Pare de bobeira, Melly! — retruquei, mas meu pensamento estava longe. Estava em Phill e na ameaça que Richard havia feito.

— Tudo bem. A gente conversa depois — murmurou ao perceber meu comportamento estranho.

— Desculpa, Melly. Aquele Richard é um grosso. Ele parece ter algum assunto mal resolvido com o Kevin e sempre que pode arruma um meio de infernizar a vida do meu anjo.

— “Anjo”?! Já está assim?

O sinal tocou e tínhamos que ir direto para a nossa sala. Faríamos um teste de Matemática.

— Te conto depois.

— Fala sério! — resmungou Melly, inconformada. — Eu não sei se estou mais arrasada porque vou fazer a prova de Matemática ou se é porque só vou saber dos detalhes mais tarde.

— A curiosidade mata, sabia?

— Rá! Rá!

O teste foi mais difícil do que eu imaginava, e, mesmo assim, Melly o havia concluído antes de mim. Aguardava-me sentada num murinho no lado de fora da sala, balançando as pernas no ar sem parar: — Quero saber todos os detalhes. Todinhos! — suspirou. — Antecipei umas comprinhas que iria fazer no seu bairro para hoje, assim posso ir andando com você.

— Você é terrível! — E dei de ombros. A companhia divertida de Melly veio bem a calhar. Atordoada com os últimos acontecimentos, pelo menos por alguns minutos ela me livraria da tortura mental a que havia sido submetida.

Melly praticamente me obrigou a lhe contar tudo, quero dizer, quase tudo. Omiti a noite macabra da maldita tempestade. Ao chegarmos em frente ao meu prédio, ela me fez a pergunta que a consumia: — Kevin foi abusado?

— Não, de jeito algum! Kevin é sempre muito gentil e educado.

Talvez até demais.

— Ele não tentou beijar você? — havia incredulidade em seu tom de voz.

— Me deu um selinho — respondi corando.

— Fraquinho o rapaz… — E tamborilava os dedos na mochila.

— Fraquinho?!

— Ok, ok. Dá para passar, em se tratando de um primeiro encontro, não é mesmo? — lançou-me um sorrisinho meio sem-vergonha e continuou a me sondar: — Sentiu o calafrio?

— Que calafrio?! — Ultimamente a palavra calafrio tinha vários significados para mim.

— As borboletas batendo dentro do estômago, menina!

— “Borboletas”? Não! Sei lá, foi tudo muito rápido e…

— E…?

— Talvez amanhã — continuei ao ver o olhar de reprovação no rosto franco de Melly.

— Amanhã?!

— Ele me convidou para sair amanhã — respondi hesitante.

— Isto é bom. Muito bommmmm. — Ela fazia caras e bocas hollywoodianas. — Vai que ele é tímido e você sem experiência…

— Experiência?! — exclamei gargalhando e aproveitei para alfinetá-la: — E você? Por acaso tem tanta experiência assim, Dra. Melly?

— Jura que não conta para os meus pais? — encenou um sussurro.

— Juro. O que foi?

— Eu já namorei alguns garotos — e lançou-me um sorriso apimentado — escondido de meus pais.

— Alguns? — Meu queixo caiu, mas o segurei bem a tempo para que Melly não reparasse.

— E já fiquei com outros também, né? Ninguém é de ferro — justificou-se.

Pause. Tinha que deixar a fita rolar, mas eu havia congelado. Não sei se deu para disfarçar minha expressão de perplexidade e ódio de mim mesma. Eu era a maior nerd de todos os tempos! A nerd mor! E eu que achava Melly meio tolinha e desligada… Até ela já havia ficado com vários garotos! E eu?! NÃO!!! Nunca havia namorado, sequer havia beijado algum garoto para valer. Nada vezes nada! A idiota aqui mal sabia como dar um beijo de verdade. Não poderia contar a Melly que todos os meus treinos de beijos molhados e “calientes” foram dados em copos de vidro, como ensinara a Teen & Teens, uma revista que comprara em Londres há uns dois anos. No mínimo, ela ia se acabar de rir e debocharia de mim pelo resto de nossas vidas.

— Com quantos garotos, Melly? — perguntei com o pensamento ainda longe.

— Ah, não me lembro.

— Deixa de ser mentirosa! Quantos? — ordenei.

— Jura que não vai se espantar?

Espantar?! Minha nossa!

— Juro. Fala logo!

— Bem… Contando com a colônia de férias…

— Melly, você é uma depravada! Que idade você tinha quando começou a distribuir beijos pela cidade inteira?

— Tô brincando! Só queria ver a sua reação. — E ria um riso solto antes de confidenciar o que eu tanto queria: — Eu já beijei uns nove garotos.

— Nove?! — deixei meu espanto à mostra.

— Ora, Nina! Em que mundo você vive? Nove não é um número tão alto assim para uma garota de dezessete anos! Não sei sobre as cidades em que você viveu, mas estou absolutamente dentro da média daqui de Nova Iorque. — Franziu a testa e deu uma fungada.

A pergunta que buzinava dentro de minha cabeça naquele instante era se Melly ainda poderia ser virgem. Eu sabia que eu era uma idiota do tipo animal em extinção etc., mas o que eu precisava ter noção era se o abismo que havia entre mim e as garotas da minha idade era grande demais. Será que, como eu imaginava, sexo para elas dependia mais da curtição de uma descarga de adrenalina do que de um sentimento importante?

— Pra valer foram cinco — corrigiu Melly categórica, libertando minha mente atormentada.

— Pra valer? Como assim?

— Ora, Nina. Beijos que vale a pena ser lembrados! Os outros foram frios, sem graça.

Pelo que parece, o seu beijo foi assim…

— Não foi não! — defendi-me, não querendo dar o braço a torcer. Ela percebeu a minha insegurança.

— Foi sim — afirmou, taxativa.

— Por que você diz isto? — tentei imprensá-la contra a parede, mas o tiro saiu pela culatra.

— Você já havia beijado algum garoto antes dele? — sua pergunta foi direta.

— Eu, eu…

— Já? — ela insistia, mordiscando o lábio inferior para conter um risinho.

— Não.

A resposta me consumiu de vergonha. A vontade que eu tinha naquele momento era de fazer um buraco no chão e enfiar a cabeça dentro dele.

— Então? — interrogou-me com naturalidade.

— Então o quê? — devolvi aflita.

— Você não tem experiência, como eu havia dito. — Senti um alívio imediato. Melly não gargalhou e nem mesmo tripudiou sobre minha inexistente vida amorosa. Naquele momento eu passei a gostar um pouco mais dela. — E, pode acreditar em mim — acrescentou com ar de grande conhecedora do assunto —, quando o beijo vale a pena, a gente nem respira direito no dia seguinte. Pra falar a verdade, a gente não faz nada direito nas semanas seguintes.

Quem caiu na gargalhada fui eu: — Mas isto aí não é só beijo, Melly! Você já devia estar apaixonada.

— Será? — E olhou para cima, piscando as pálpebras de maneira teatral. — Às vezes eu misturo uma coisa com a outra, sabe? Mas de uma coisa eu tenho certeza: o seu beijo não teve eletricidade.

— Eletricidade?! — Achei graça. Por hora, eu dispensaria qualquer tipo de descarga elétrica sobre o meu corpo. Já me bastavam os acontecimentos mais que estranhos dos últimos tempos…

— Mas ainda temos esperança no amanhã, não é mesmo? — e soltou sua risadinha característica. — Tenho que ir. Aproveite o espetáculo de hoje. É lindíssimo!

Ledo engano.

Não houve amanhã.