Não Pare!
Capítulo 11
— Ela está bem? — ouvi uma voz feminina muito gentil.
— Sim. Ela estava muito cansada e acho que exagerou na dose do remédio para dormir. Já deve estar quase acordando — esclareceu uma voz masculina polida, porém seca.
“Seca”? Meus sentidos começando a se recobrar.
— Ela deve acordar com fome — observou a voz feminina.
— Deve mesmo. — E o dono da voz masculina passou os dedos por uma mecha dos meus cabelos, arrumando-os por trás de minha orelha direita.
Um arrepio. O choque daquele contato me fez acordar de imediato. Percebi pelos assentos que estava dentro de um avião. Ainda um pouco tonta, virei-me para o lado e quase tornei a desmaiar de susto.
— O que você está fazendo aqui?! O que eu estou fazendo aqui?! — atônita, soltei um grito rouco, quase afônico.
— Pode até fazer, mas um escândalo não lhe ajudará em nada — Richard explicou no seu habitual tom irônico.
Olhei em volta e não havia ninguém. Era um jatinho particular. Estávamos apenas eu, ele, a comissária de bordo, o piloto e o copiloto. Entrei em pânico.
— Não adianta berrar, fui claro? Todos aqui foram muito bem pagos para manter total discrição.
Não podia acreditar que me tornara refém de um grupo de sequestradores.
— Minha mãe? O que aconteceu com ela?
Ele permaneceu calado, encarando o encosto do assento à sua frente.
— Você a matou! — gritei e comecei a chorar. Em estado de perturbação, fiz menção de me levantar, mas aquele psicopata me impediu, segurando-me com força. Nova fraqueza e eu tornei a tombar sobre o assento.
— Leia. — E me jogou um jornal com as manchetes do dia.
Estampada na primeira página do jornal reluzia a manchete com o título “Novo Show da Broadway: a Morte é o espetáculo”. Encharcada de lágrimas, foi doloroso demais ler tudo. Devorei as palavras até a parte em que havia a confirmação da morte de um homem de meia-idade. Passei os olhos com rapidez nas linhas restantes, e nada. Li e reli, mas nada! Não havia qualquer comentário sobre nenhuma mulher morta, nem ao menos ferida.
— Impossível! — engasguei com as lágrimas em minha garganta. — Onde ela está? O que vocês fizeram com ela?
Não podia sucumbir ao pânico. Levei um bom tempo até conseguir me recuperar do meu acesso de choro e fúria. Por fim, respirei fundo, deixei as emoções de lado, e permiti que meu cérebro agisse. Tinha de ser fria na situação em que me encontrava.
— O que você tem a ver com tudo isto? — indaguei sem olhar para ele. Concentrava-me em inspirar e expirar. Tinha certeza de que o pânico iria me sufocar.
— Nada. Mas eu lhe avisei.
— O que você quer de mim? Nós não somos ricas! Não temos dinheiro, não percebe?
Ele achou graça.
— Não estou interessado em suas economias. Sou apenas o seu resgatador.
— Você é o quê?! — meu guinchado saiu abafado.
— A sua morte.
Minhas vísceras se contorceram até dar câimbras. O que era aquilo? Um joguinho macabro?
— Hã?! — Teria eu escutado aquela barbaridade? Virei-me para encará-lo, mas ele olhava fixo para a frente. — Se você é mesmo a minha morte, então por que ainda estou aqui? — rosnei e, após um longo intervalo de tempo, ele tornou a me olhar.
— Porque não era para você ter morrido com ela. Não naquele momento — sua resposta veio cortante como uma lâmina afiada. Tornei a segurar as lágrimas e olhei friamente para ele, o horror me corroendo por dentro.
— Então ela morreu?
Ele confirmou com a cabeça.
— Assim como Phill, não foi?
— Phill está vivo. Mas eu diria que ele ainda vai ficar algum tempo fora do ar… — soltou com ar de gozação.
— E por que não comentaram nada sobre Stela no jornal? O que vocês estão tramando?
Sem resposta.
— Por que não me deixou morrer junto dela?
Kevin tinha razão. Aquele garoto deveria ser um psicopata e, com certeza, tinha uma morte bem planejada para mim. Seria daquela seita que dilacerava os olhos de suas vítimas? E para onde estaria me levando?
— Já disse. Não era a sua hora — bufou. — Agora me deixe dormir.
— Como assim? Você sabe por acaso qual é a minha hora?! — gritei, começando a me descontrolar.
Ele comprimiu os olhos, encheu os pulmões de ar e tornou a me encarar.
— Tesouro, você é especial — sua voz estava um pouco diferente. Desta vez, não identifiquei seu costumeiro sarcasmo.
— Especial? Eu? Ah, deve ser o meu azar! A garota mais azarada deste mundo, né? — fiz ironia da minha triste sina.
— Você não é azarada. Você é…
— Sou o quê? Sortuda? Todos estes acidentes em minha vida são sinal de sorte? Ser órfã de pai, não ter família, e ainda perder a pessoa que mais amo nesta vida às vésperas de completar dezessete anos? Ser sequestrada por um psicopata? Isto é ter sorte? Puxa! Como as coisas estão mudadas! — praticamente vomitava as palavras, percebendo que começava a perder o medo da situação. Eu havia perdido tudo de mais importante em minha vida, inclusive a paz e a esperança. Tanto fazia agora viver ou morrer. A morte, por sinal, me parecia até interessante.
— Aquelas situações foram forçadas, artificiais — disse olhando bem dentro dos meus olhos.
— Forçadas? Sei. Posso saber o porquê?
— Não lhe interessa.
— Claro que interessa, seu estúpido! — gritei.
Naquele exato momento a comissária de bordo se aproximou de nós. Seus belos cabelos tinham um tom alaranjado artificial, provavelmente para assentar com os chamativos olhos cor de mel. Mas, assim mesmo, ela era muito bonita.
— Que bom que acordou, dorminhoca! Pensei que passaria as dez horas de voo sem comer absolutamente nada! — Olhava para mim, mas dava um sorrisinho de lado para Richard.
— Dez horas?! — exclamei desnorteada.
— Sim, querida. O que vai querer: medalhão de carne com arroz à piamontese ou frango ao curry com legumes?
— Droga nenhuma! — berrei.
— Traga o medalhão de carne — ordenou ele e, virando-se para mim, ameaçou: — Se não quiser que eu empurre tudo por sua garganta adentro, é melhor tratar de comer, garota.
— Satisfeito? — enfrentei-o após meia dúzia de garfadas. — Agora sua presa está prontinha para o abate, não é?
— Você é insuportável! Volte a dormir que é o melhor para nós dois! Aonde pensa que vai? — rosnou ao me ver levantar.
— Vou ao banheiro. Posso? — Ele apenas acenou com a cabeça, bufando.
Entrei no banheiro, fechei a porta e desmoronei em prantos. Para onde aquele psicopata estaria me levando? Que conversa era aquela de eu ser especial? De não ter chegado a minha hora? Se ele sabia qual era a minha hora, é porque… porque estava planejando o meu assassinato!
— Está se sentindo bem? — era a aeromoça puxando conversa assim que saí do minúsculo toalete. Lançou-me um sorrisinho e continuou: — É raro ver um rapaz tão preocupado com a namorada. Ele não saiu do seu lado nem um minutinho sequer. Ele veio carregando você desde a sala de embarque até aqui e não aceitou que ninguém o ajudasse. Toma conta de você como um cão de seu dono. Só que melhor.
— Melhor? — dei corda para a mulher. Quem sabe ela não deixava escapar alguma informação.
— Claro! Arrumou teu corpo confortavelmente no assento, te agasalhou do frio, além de ficar te olhando o tempo todo. Ah, se eu tivesse aqueles magníficos olhos azuis vidrados em mim também… — suspirava.
— Por favor, você precisa me ajudar! — meu tom era de desespero. Se ela soubesse o porquê daqueles olhos azuis ficarem me encarando…
— Como? — indagou ela.
Não tive tempo para mais nada, um pigarro nos interrompeu.
— Já acabou? Então volte para seu assento — ordenou ele, ríspido.
A aeromoça se despediu e, antes que ela pudesse ir embora, eu a interceptei:
— Para onde estamos indo?
— Nossa! Você dormiu tanto que se esqueceu? Vamos a Roma, querida.
— Roma?!
— Ah! Roma é tão romântica nesta época do ano! Vocês vão aproveitar muito! — e saiu suspirando mais ainda.
— Por que está me levando para Roma? — perguntei aturdida.
— Vamos despistá-los — suas respostas vinham resumidas. Tava na cara que ele não era um sujeito dado a bate-papos.
— Despistar quem?
— Aqueles que querem antecipar a sua hora — mais direto impossível.
— “Minha hora”? — gelei. — Você quer dizer “minha morte”?
— Sim.
Agora eu odiava a sua franqueza. Recuperei meu raciocínio e continuei:
— Por que querem antecipar a minha morte?
Era inacreditável estar ali, viajando não sei para onde e conversando tranquilamente com meu futuro algoz sobre a minha morte tão iminente.
— Para que você não abra o portal entre os três mundos abaixo do Plano, quero dizer, das três dimensões inferiores.
Meu queixo despencou. Eu estava acompanhada não de um assassino comum, mas de um lunático.
— Portal?! Três mundos?
— Sim. Você tem a chave de comunicação entre as três dimensões inferiores — explicou-me sem esboçar um mínimo de vontade. Seu semblante permanecia indecifrável para mim.
— Eu? Chave? Três dimensões? Você é louco! — gritei histérica.
— Talvez um pouco — e riu da própria piada.
— São quantas dimensões, afinal de contas?
Ele me estudou por um momento, parecia decidir se responderia ou não.
— Quatro. A principal ou superior que chamamos de Plano; o Intermediário ou segunda dimensão; a terceira dimensão e, por fim, a última que chamamos de Vértice.
— Que chave é essa que eu possuo?
— Ninguém sabe ainda — e me encarou ferozmente com as suas estupendas pedras azuis. Tremi.
— Você pode ser um pouco mais claro? — perguntei, desvencilhando-me do seu olhar perturbador.
— Com exceção do Plano, nós acreditamos que alguma parte em você seja a chave para a comunicação das demais dimensões entre si, ou seja, dos nossos mundos entre si.
— Nossos mundos?
— Sim. O seu, o meu e o Vértice — explicava mastigando um chiclete com vontade.
— O que você quer dizer por meu mundo? A Terra?
— O que vocês denominam Terra nós chamamos de segunda dimensão ou Intermediário.
— Hum. E qual é o seu mundo?
— A terceira dimensão. Nós administramos a sua dimensão.
— Vocês vêm de outro planeta para administrar o nosso?
— Não. Nós também pertencemos a este planeta, só que em outra dimensão. São mundos que caminham paralelamente, coexistem. A diferença é que o seu mundo não sabe da existência do meu — falava displicentemente, como se fosse a coisa mais banal deste mundo.
— O quê?! — Oh, não! Eu estava conversando com um desequilibrado, um fanático por histórias sobrenaturais. — Você assiste a muitos filmes de ficção científica, não é mesmo?
Ele fingiu indiferença, tornando a olhar para o assento à sua frente.
— E a quarta dimensão? — insisti.
— É o mundo das sombras, da escuridão. Nós a chamamos de Vértice, mas vocês a chamam de Inferno ou coisa do tipo.
Engoli em seco.
— E o que é o Plano? — poderia imaginar qual seria a resposta.
— A Luz. Alguns de vocês chamam de Paraíso, outros de Céu, tem vários nomes…
— E a sua dimensão tem nome? — perguntei irônica, enquanto ele permanecia impassível.
— Sim. Chama-se Zyrk. — e se empertigou no assento. — Imagine um triângulo de cabeça para baixo. É assim que nos definimos. Em ordem, de cima para baixo estão: o Plano, o Intermediário, Zyrk e o Vértice.
— Zyrk?! — definitivamente eu devia estar numa história em quadrinhos.
Antes que eu pudesse continuar com as minhas centenas de perguntas, o avião começou a aterrissar. Ele se inclinou sobre mim para checar o cinto de segurança e seu pescoço ficou na direção de meu nariz. Virei o rosto com a intenção de evitá-lo, mas pude sentir o aroma de sua pele, tão penetrante e inebriante quanto ele. Tudo nele era rude e pungente, e aquilo parecia mexer comigo de uma forma muito nova, diferente de todas as sensações pelas quais já havia passado. Percebi o familiar calafrio espalhando-se com delicadeza por minha pele, uma onda de eletricidade percorrendo minha coluna dorsal. Imediatamente minha percepção reconheceu aquele impacto físico.
— Foi você!
— Eu o quê?
— Foi você que me fez sentir todos aqueles calafrios! — disse com os dentes cerrados.
Ele arqueou uma sobrancelha e deixou brotar um sorriso torto no canto da boca.
— Antes que pense em fazer qualquer besteira, como fugir, por exemplo — ele continuou com sua postura sarcástica —, fique sabendo que você não tem um mísero centavo, não tem qualquer identidade e muito menos um passaporte. Portanto, é bom que coopere, ou vai acabar presa no setor de imigração. E posso lhe garantir que será apenas perda de tempo, além do que o tratamento para um imigrante ilegal não é nada agradável.
— Aposto que é melhor que o seu! — rosnei.
— Pois vai perder sua aposta fácil, garota — disse ele, mantendo seu jeito irritante.
Pensei bem. Viajar pelo mundo era algo que eu conhecia. Infelizmente ele tinha razão.
— Vamos! — ordenou, pondo-se atrás de mim. Assim que passamos pelo setor de imigração, decidi que arrumaria um jeito de fugir daquele desequilibrado.
Saímos do grande salão do aeroporto de mãos dadas. O calafrio ainda me abatendo e me deixando meio tonta.
— Como você faz isto comigo?
— Porque você é receptiva.
— Receptiva? O que quer dizer com isto? Você delirou? Solte-me agora! — vociferava.
— Calminha. Já te disse que é melhor cooperar — ele achava graça, deixando-me ainda mais furiosa.
As pessoas nem perceberam que eu não caminhava. Na verdade, eu estava flutuando. Ele me segurou pela cintura, mantendo-me erguida a poucos centímetros do chão e me conduziu até uma área pouco movimentada do estacionamento. Ah, não! De novo não! De impulso, chutei sua perna e mordi seu braço com a maior força que consegui empregar. Tudo que ouvi foi um assovio seguido de uma gargalhada diabólica.
— É tudo que você consegue? — e ria de se contorcer. O cafajeste estava gostando, o que inflava minha ira.
Chutei-o ainda mais, esperneei, gritei ao máximo, mas nada, ele se divertia com o meu desespero. Por fim, cedi, exausta. Como ele podia ser assim tão forte? Ele não tinha sentido nada? Tinha sim! Um pouco de sangue escorria pela ferida feita pelos meus dentes. Senti-me melhor em vê-lo sangrar. Por alguns instantes, quase acreditei que ele não era mesmo do meu mundo. Mas não. Ele era humano! Era apenas um desequilibrado, um psicopata. E psicopatas são mais fortes que a média, eu já tinha lido sobre isto em algum lugar…
— Vamos! — levantou-me com facilidade, apertando-me contra seu peito. Por que eu perdia as forças quando ficava muito perto dele? Que papo era aquele de ser receptiva aos calafrios dele? Seria algum tipo de hipnose? Enquanto tentava me concentrar, ele me colocou sobre uma moto esportiva tão imponente quanto aquela que havia usado em Nova Iorque. Puxou um capacete e, antes mesmo de tentar colocá-lo em minha cabeça, dei um soco e o arremessei para bem longe dali.
— Você tem um gênio e tanto, não é mesmo? — rugiu.
— Olha quem fala! — enfrentei-o.
— Pois agora vai ficar assim mesmo! — pulou na moto, e saiu dali pilotando em altíssima velocidade.
— Eu pensei que você quisesse matar apenas a mim. Não sabia que também planejava seu próprio suicídio! — ironizei aos berros. Ele parecia não se importar com absolutamente nenhuma das minhas agressões verbais. — Estamos a quase duzentos quilômetros por hora, seu louco! Por que não me empurra logo para um carro me pegar? Desta vez você pode ter mais sorte! — alfinetava-o continuamente, mas senti que estas últimas palavras o agrediram mais que as anteriores. Insisti. — Que foi? Está chateado porque eu descobri que você falhou, é?
— Você não sabe de nada!
— Sei que você é um grosso, um assassino e um louco! Não vai ganhar nada em me matar! Deixe-me ir embora!
— Eu devia mesmo — esbravejou e permanecemos calados por um longo tempo, até que ele reduziu bruscamente a velocidade da moto para conferir uma placa desbotada na estrada.
— O que pretende fazer comigo?
— Esconder você por algum tempo.
Sem que eu esperasse, ele tornou a acelerar, fazendo-me desequilibrar da moto. Mas, com um incrível reflexo, conseguiu puxar meus braços para junto de seu peito com mais força do que antes. Pude sentir o calor fluir de seu corpo musculoso aquecendo-me do frio e vento que nos cercavam. Ele não respondia a nenhuma das minhas perguntas. Esperneei um pouco mais, mas acabei dando uma trégua. Não só por estar cansada, mas principalmente pelo medo do colossal abismo que se formava sob os nossos pés. Literalmente voávamos enquanto subíamos por uma estrada muito íngreme e estreita, a qual serpenteava uma assustadora cordilheira. Escondi meu rosto em suas costas largas. Acho que esta atitude o fez baixar um pouco a guarda.
— Por favor, deixe-me ir embora — implorei baixinho.
— Não — replicou seco, como sempre.
Não havia qualquer chance de persuadi-lo. Ele estava convicto de suas intenções, no caso, me raptar para algum objetivo macabro. Eu tinha duas opções: acabar logo com tudo e pular naquele abismo abaixo de nossos pés ou então tentar outra oportunidade de fuga.
Optei pela segunda.