Não Pare!
Capítulo 18
Como ele havia alertado, a segunda metade do nosso trajeto foi muito cansativa. Quando dei por mim, e eu estava deitada dentro de um saco de dormir.
— Onde estamos?
— Longe.
— Onde? — insisti.
— Na entrada do grande deserto oriental. Na Argélia, próximo à fronteira da Tunísia.
— Ãh? — dei um pulo. Para minha surpresa, nós já havíamos atravessado o Mediterrâneo. — Mas, por quê?
— Porque é uma excelente rota de fuga. Beba! — E me apontou um copo cheio de água.
— Eu desmaiei?
— Mais ou menos. Você estava muito cansada, então resolvi dar uma ajudinha… — comentou, lançando-me um discreto sorriso.
— Ajudinha?
E, pondo-se de pé, ordenou:
— Venha comer. — E se afastou.
Foi então que eu me deparei com o estonteante cenário. Estávamos a sós, cercados por um oceano de areia. A escuridão envergonhou-se diante da claridade de uma lua cheia e imponente. Uma toalha estendida sobre a areia acomodava uma série de iguarias: diversos tipos de frutas, queijos, pães, entre muitas outras coisas que perderam sua importância quando meus olhos detectaram aquela escultura singular. Ele se virou e seus olhos azuis-turquesa me queimaram por dentro.
— Este é um deserto milenar, um lugar mágico — suspirou e me apontou a toalha, desviando seus olhos dos meus. — Ainda não sei do que você gosta. Comprei um pouco de tudo que achei apetitoso. Espero que goste.
Ele estava aberto, sem a sua usual armadura.
— Está ótimo. Obrigada. — Sentei-me na areia assim como ele. — Estou faminta! — comentei e mordi uma nectarina.
— Está se sentindo bem? — E continuou olhando para o nada, enquanto eu o observava com avidez.
— Estou bem. Só um pouco tonta. Mas acho que isto já faz parte da minha vida ultimamente — zombei.
Estava escuro mas, pelo movimento de elevação da sua bochecha, acho que ele sorriu para o horizonte. Eu gostaria de ter visto. Algo dentro de mim dizia que estávamos indo bem. Aproveitei o momento:
— Quando inventei que precisava ir a algum banheiro decente lá em Túnis, que ideia lhe dei com aquela mentira?
— Deixar você sob os cuidados de Kaller, sem que os outros soubessem — soltou com ar triunfante. — Dos quatro clãs apenas um não a quer morta, Storm. Eu não tinha conhecimento disto até o incidente do teatro. Com certeza, se eu não te salvasse naquela noite, outro te salvaria. Um rapaz que você também conhece.
— Outro rapaz?! Quem?
— John Bentley.
— O ruivo? — perguntei completamente perdida.
— Ele mesmo. John é o principal resgatador de Storm e é um sujeito discreto. Acredito que ele estava apenas aguardando o momento exato para intervir. — Ele escolhia as palavras que ia utilizar. — A missão dele não era matar você, como a nossa. Kaller, o líder dele, quer você viva para estudos. Comenta-se que ele acredita que você é a chave para a solução de muitas coisas em meu mundo. Que o fato de você existir pode ser positivo, e não negativo como os outros três clãs imaginam. Segundo estes últimos, seria melhor aniquilar algo que nunca deveria ter existido.
— Eles estão certos — murmurei e ele se adiantou:
— Aquela sua história de ir a um banheiro melhor e etc. era perfeita!
— Perfeita?
— Sim. Você queria fugir e eu a deixaria fugir, sem que você mesma ou que alguém percebesse. Por fim, sem que ninguém soubesse da minha intromissão, eu a resgataria e a levaria para John. Desta forma, você não ficaria sujeita a uma morte infeliz e eu não seria punido por não ter cumprido minha missão.
Não era a resposta que eu gostaria de ter ouvido.
— Então você vem me salvando só para me poupar de uma morte dolorosa? Só por pena?
— Talvez você não morra. — Esquivou-se, tornando a olhar para o horizonte. — Kaller a quer viva.
— E aquela briga entre você e Collin? Igor disse que foi tudo armação dos dois para cima de mim. Quem me garante que o que você está me dizendo agora é verdade? — alfinetei-o sem piedade, instigada pelo meu orgulho ferido.
— Canalha! — E passou as mãos pelo rosto. — Realmente foi tudo uma grande armação! — tornou a puxar o ar com força. — Collin falsificou a carta de Shakur na qual supostamente este lhe passava o domínio da minha missão. E aquela história do sumiço da Leila também era pura mentira! Ele fez tudo aquilo para me afastar de você, porque sabia que eu não permitiria que nenhum deles… não permitiria que lhe causassem nenhum mal.
Em quem acreditar?
Ele percebeu meu estado de confusão e rapidamente tratou de melhorar o ânimo da nossa conversa:
— Então, voltando ao nosso outro assunto, você não imagina a cena de espanto que tive de fazer diante de um Collin apavorado com a consequência de sua própria incompetência. — E me deu um olhar maroto. — Como ele explicaria a Shakur que havia deixado uma simples garota humana lhe passar a perna? — suas feições tornaram a ficar leves, ele piscou e me deu um resplandecente sorriso. — Erroneamente acreditei que em Túnis seria fácil encontrar você. Acho que senti sua presença perto de uma cafeteria lá no centro.
— O cybercafé! Eu estive lá.
— Depois eu soube. Mas, como de costume, você complicou muito as coisas para o meu lado. Você tinha que correr imediatamente para os braços daquela víbora?
Em outro contexto seria até engraçado ouvir um assassino falar de outro assassino, uma morte excomungar outra morte.
— Mas eu não sabia que Kevin era…
— A mais terrível das suas possíveis mortes?! — repreendeu-me intolerante.
— Sim. — E abaixei a cabeça, constrangida por minha estupidez.
Suas mudanças de temperamento eram constantes, agora ele estava visivelmente irritado, encarando-me com furor.
— Não deu para perceber seu sorriso cínico e congelado durante todos aqueles dias lá no colégio? Você é tão ingênua assim? Não foi o que me pareceu lá no atelier!
— Você ouviu?
— Sim, eu ouvi a parte final da sua encenação! E posso dizer que foi bem convincente! — Richard grunhia agora.
— Foi a única saída que consegui contemplar — disse satisfeita com aquela reação tempestuosa dele.
Ele controlava a respiração com dificuldade:
— Eu sei. Eu estava ficando transtornado com a ideia daquele sujeito te agarrando… E então compreendi seu ridículo plano quando o infeliz uivou. Levei um bom tempo até conseguir quebrar a fechadura da segunda porta! — arfou. — Aquele Alec estava tão possuído que nem me ouviu arrombar a porta e partir para cima dele.
— Você o matou?
— Claro. É o que faço de melhor, lembra?
— E agora?
— Bom, Collin colocou todos nós no seu encalço. Eu lhe sugeri que nos separasse para que pudéssemos cobrir uma área maior, antes que os resgatadores dos outros clãs pusessem as mãos em você. Sem a sombra de nenhum dos rapazes do grupo, eu poderia achar você com mais facilidade e dar continuidade ao esquema que havia bolado.
— Por que você fez isto tudo? Por que me salvou tantas vezes, se seu objetivo era exatamente o oposto? — eu insisti na pergunta mais elementar de toda aquela conversa.
Ele tornou a me fuzilar, um mar revolto dentro de seus olhos rutilantes.
— Eu já lhe disse!
— Porque ainda não chegou a minha hora? Quer mesmo que eu acredite nisto? — imprensei-o contra a parede e desta vez sua resposta foi bem diferente, apesar de não ser a que eu desejaria ter ouvido.
— Não achei correta a forma como queriam te matar — disse em baixo tom. — Se fosse apenas para eliminá-la, tudo bem. Mas eu percebi muita maldade exalando no ar por conta de uma curiosidade animal. — E desconversou com urgência. — Está na hora de descansar. Vamos!
Permaneci imóvel, uma lágrima jogava-se desamparada por minha face. Por um instante, um breve instante, poderia jurar ter visto a expressão de seu rosto vacilar, mas, no segundo seguinte, ele já estava de pé e concluía seu massacre sobre mim.
— Será que ainda não compreendeu? Eu sou um zirquiniano! Não sou capaz de ter sentimentos humanos! Eu não sinto nem poderei sentir nada de bom por você nem por ninguém. Entenda de uma vez por todas que eu fui criado para tirar vidas e não me apegar a elas, fui claro?
— Muito — respondi em baixo tom e fui para o meu saco de dormir.
Era madrugada quando acordei com Richard ditando novos comandos. Ele havia queimado todos os nossos vestígios.
— Rápido! Temos que partir agora!
— O que houve? Por que tudo isto? — perguntei de pé devido ao susto.
— Sem rastros, lembra-se? — subiu como um raio em sua robusta moto e me puxou para junto dele.
O frio começava a se dissipar, dando lugar a um agradável calor, que logo se intensificaria. Richard acelerava feito um louco por algo que parecia ser vestígio de uma antiga estrada. O deserto impiedoso cobrara seu preço sobre ela. O calor aumentava de forma exponencial, quase insuportável, quando chegamos a uma espécie de vilarejo no meio do nada.
Entramos em um curioso restaurante. A única e estratégica parada dos corajosos transeuntes daquela região. Apesar de simples, o local era devidamente preparado. Quatro grandes pias de porcelana encardidas denunciavam sua idade. Ficavam dispostas bem na entrada, junto ao que rudemente poderia ser chamado de hall. Toalhas não tão limpas dispunham-se penduradas ao lado de cada uma delas. Qual não foi a minha surpresa quando nos dirigimos para o salão principal! A arquitetura exterior não fazia jus à sua beleza interior. A inexpressiva fachada nos levava a crer que se tratava de um ambiente muito humilde. Para meu espanto, possuía um salão enorme, coberto apenas nas laterais. O centro que ficava exposto e deveria ser castigado pelo sol era, no entanto, a mais interessante das paisagens. Exalava um frescor agradabilíssimo. Ocupado por um diminuto e cristalino lago e inúmeras palmeiras, era um verdadeiro oásis, a nos oferecer conforto e frescor. Algumas mesas de madeira foram colocadas entre as palmeiras e as demais formavam um grande círculo na área coberta. Escolhi ficar ali, entre as palmeiras.
— Como você descobriu este lugar? — exclamei exultante.
— Minha vida me fez conhecer os mais terríveis, mas também os mais incríveis lugares. Este é só mais um deles.
Ele me pediu licença e retirou a jaqueta. Suado, deixou à mostra seu musculoso e magnífico tórax grudado à sua camiseta branca. Não consegui conter minha expressão de puro deleite com aquela cena. Se estivesse em condições de reparar em mais alguma coisa, teria percebido que ele estava gostando da minha reação. Tive que fazer força para me concentrar na comida, mas, a cada descuido, eu me pegava admirando a perfeição de seu rosto, seu corpo, seus traços, seu contorno. Tudo nele era lindo, exuberante. Definitivamente, eu estava flertando com a morte.
— Afinal de contas, que sentimentos vocês são capazes de ter?
— Os usuais. — Ele remexia as mãos e observava de esguelha dois caminhoneiros que palitavam os dentes enquanto aguardavam a chegada da conta.
— E quais seriam? — insisti.
Ele ficou sem graça. Roçou a garganta e continuou:
— Ora, os sentimentos do meu povo são… são…
— Fale.
— Nós não sentimos nada. — soltou abatido. — Nada que valha a pena! Só o essencial para a nossa sobrevivência.
— Tais como?
— Basicamente: fome, sede, sono e dor. E sentimentos para autoproteção.
— Autoproteção?
— Sim. Quero dizer… bem… para nos defendermos de situações difíceis.
— E nas situações agradáveis? — provoquei. Ele olhou bem dentro dos meus olhos, mas permaneceu calado.
— Tudo bem! — emendei. — É verdade que vocês só possuem a dor física, nunca a dor emocional, como Ben comentou?
— Sim.
— Mas meu pai sentiu! — retruquei de imediato, sem pensar nas consequências daquela investida.
— Quem te disse isto? Foi Leila? Eu sou a morte! Não fui claro o bastante?! — bradou impaciente.
— Mas meu pai se apaixonou por minha mãe! E ele era a morte dela, assim como você é a minha! — rebati, tentando fazê-lo enxergar o que eu queria acreditar que fosse verdade. E emendei, vendo uma pitada de dúvida surgir em sua face perfeita: — Graças a este amor, eu nasci! Eu sou a prova de que é possível!
Hesitante, ele não me respondeu. Encarou-me com suas penetrantes safiras azuis-turquesas e então abaixou a cabeça. Apertava os próprios punhos com violência. Aproveitei-me daquele seu momento de dúvida e tomei uma atitude que jamais poderia imaginar que teria coragem: eu, deliberadamente, me inclinei em sua direção. Ele levantou a cabeça, e nossos rostos ficaram a poucos centímetros, nossos olhos praticamente dentro uns dos outros. Suas pupilas começaram a vacilar, e, inconsequente, aproximei-me ainda mais.
— Isto é impossível! — ele trovejou mais alto do que nunca, jogando-se para trás.
— Mas Leila disse que… — dentro de um misto de atordoamento e decepção, eu também recuei.
— Não! — rugiu. Seu semblante visivelmente alterado. — Tudo não passa de uma lenda ridícula, garota! Quer saber? Estou cansado desta loucura! — E levantou-se num rompante.
— As pessoas do seu mundo são sempre grossas e inconstantes como você? — retruquei no mesmo tom.
— Vou fazer uns acertos na moto. Acabe de comer e me encontre lá fora! — esbravejou e saiu trotando, deixando o dinheiro das despesas sobre a mesa.
Contrariamente ao que ele estava esperando, não demorei nem dois minutos para ir ao seu encontro. Queria tirar a limpo aquela história sobre os meus pais, mas fui surpreendida por uma conversa que arrancou o chão sob meus pés com absurda violência. Sem que ele me visse, pude escutá-lo com perfeição por detrás da porta lateral do hall de entrada. Ele estava na varanda e falava ao celular.
— Eu sei. Eu já a encontrei, Collin.
Collin?!! Novo choque.
— Sim, é claro que ela caiu na minha conversa. — Sua voz ainda mais seca do que de costume. — Não. Ela nem imagina.
Imagina o quê? Cretino de uma figa! Meu estômago se contorceu diante da certeza escancarada: o mentiroso fazia jogo duplo! Era tão ou mais maquiavélico que Kevin.
— Já vou entregá-la.
Ah, mas não vai mesmo! Fui despertada por uma série de soluços desencontrados de um sofrido carburador. Ele pertencia a uma caminhonete para lá de idosa. Seu condutor buzinava impaciente para o colega que usava o sanitário externo do restaurante. Uma pá reluziu na carroceria aberta. Nem precisei pensar: um sinal! Sem que ninguém percebesse, saí por uma portinhola lateral, corri abaixada e me joguei na parte traseira da caminhonete. Poucos minutos depois, estávamos de saída. Destino incerto, mas, com certeza, melhor que o que me aguardava ao lado daquele psicopata mentiroso de outro mundo. Rezava para que estivesse bem longe dali quando o filho da mãe desse por minha falta. Percebi que rezar seria insuficiente, precisaria de um milagre. Somando-se ao fato de que a estrada encontrava-se num estado lastimável, o pequeno caminhão estava caindo aos pedaços. Para piorar, eu era castigada sem piedade por um sol escaldante.
Depois de um longo tempo sacolejando naquela caçamba, comecei a ouvir vozes irritadas vindas da boleia do caminhão. Antes mesmo que eu tentasse compreendê-las, fui lançada longe e quase caí da carroceria. Dois estrondos: o pequeno caminhão havia tropeçado em uma cratera, e eu, tentando me agarrar em qualquer coisa, havia esbarrado na pá que caíra na estrada soltando um ruído para lá de alto. Paramos. Um barulho de porta abrindo e fechando. De repente o som de uma voz berrando frases indecifráveis de uma língua local. E a voz começou a ficar cada vez mais clara e alta. Um dos homens se aproximava com a intenção de buscar a pá caída. Foi tudo tão rápido que não tive como reagir. Quando o sujeito se virou para recolocar o objeto na carroceria, levou um baita susto com a minha presença e desatou a berrar. Fiquei sem reação. O colega veio com rapidez em seu auxílio e, sem que me deixassem falar uma palavra sequer, puxaram-me pelos cabelos e me jogaram na estrada. Caída, implorei em todas as línguas que conhecia, na esperança que uma delas lhes fosse compreensível, mas nada. Nem francês. Árabe, só falavam e compreendiam árabe. A velocidade com que se desfizeram de mim foi impressionante.
Abandonada, naquele momento me deparei com o nada no sentido mais amplo da palavra. Não havia nada. Nem ao meu redor, nem na minha vida. Presenteada com um passado de mentiras e um presente de amarguras. Furtada de um futuro com esperança. Se morresse ali, ninguém daria por minha falta. Uma perfeita indigente. Dando de ombros com a desgraça em que me encontrava, tomei a decisão de avançar a pé pela inóspita estrada esburacada. A partir daquele momento, era só o deserto em toda a sua imponência e ainda assim decidi desafiá-lo. Nem um único veículo passara por mim desde que saíra daquele restaurante. Media o avançar do tempo a partir dos danos físicos. Bolhas e mais bolhas surgiam sob o tênis, fazendo meus pés arderem à medida que estouravam, enquanto o boné que Richard havia me dado pouco conseguia filtrar a violência dos raios solares sobre minha face. Minha pele estava severamente queimada, eu estava mais do que quente, estava febril. O sol finalmente começou a ceder e um familiar vento morno assumiu o seu lugar, sendo rapidamente sucedido pela linda lua cheia de outrora. Neguei-me a encará-la. Ela me fazia recordar dele. Meu corpo tremia compulsivamente, só não sabia se era devido ao impiedoso frio ou se era a febre me consumindo. Por fim, minhas pernas cambalearam e caí. Havia chegado ao máximo do meu martírio. Um ser excluído, destinado a vagar entre as dimensões. Caída, eu delirava. Eu estava em um campo verde, bem cuidado e repleto de flores de diversos tipos e cores. O aroma de lavanda no ar, meu preferido. Árvores frondosas abrigavam-me amigavelmente nas sombras de suas copas, e eu descansava tranquila e feliz, em profunda harmonia com a atmosfera ao redor. Leila estava sentada ao meu lado e sorria carinhosamente para mim. Acariciava meus volumosos cabelos castanhos claros, que ao sol mostravam algumas mechas douradas. Depois olhou para mim, ela estava diferente agora, tinha os olhos com o mesmo defeito que os meus. Seu sorriso de repente desapareceu e seu semblante era de medo: “Corra, Nina! Você precisa decifrar o caminho. Acredite na lenda, na sua lenda pessoal! A existência dos nossos mundos depende de você. Corra, filha!” Eu queria perguntar de que caminho estava falando, mas ela desapareceu, como uma névoa que se dissipa.
E por que eu tinha que correr? Ao longe, uma figura singular fez meu peito se encher de felicidade: era ele, lindo e me fuzilando com seu olhar penetrante. Estava vindo em minha direção, e eu não tinha medo. Ele estava diferente, usava uma capa preta e carregava algo em suas mãos que eu não conseguia identificar. Como num passe de mágica, ele já estava perto de mim. Eu lhe estendi meus braços, deixando em evidência o arfar de meu peito e ele sorriu um sorriso estranho. Não era o seu inebriante sorriso, mas sim um sorriso forçado, amarelo e familiar. Num movimento brusco, vi suas mãos levantarem algo grande e assustador: uma foice cuja lâmina reluzia de tão afiada. Gritei apavorada o seu nome, mas a figura que estava na minha frente já havia se transformado em um monstro. Ele havia se transformado naquilo que realmente era: a Morte.
— Não! — berrei.
— Tesouro, acorde! Você está delirando! Está me ouvindo? — era a voz dele e havia aflição nela. Lembro-me de ter recobrado a consciência e, sem pestanejar, me jogado para trás, arrastando meu corpo febril pela areia ao tentar me desvencilhar daquele cretino.
— Seu mentiroso de uma figa! — Com o resto de minhas forças, consegui me levantar. Ele tornou a me segurar.
— O que está acontecendo? Você é louca? — rugiu.
— Solte-me! Quem é você para falar de loucura? — trovejei. — Você sabe muito bem o que está acontecendo, seu canalha! Gostou do joguinho? A idiota aqui caiu direitinho, não foi?
— Joguinho?! Que joguinho? Você está delirando por causa da febre! — continuou rugindo.
— Eu ouvi sua conversa com Collin, seu mentiroso! — protestei, e, assim que senti suas mãos se afrouxando, tomei uma atitude inesperada para mim mesma: arranquei uma espécie de punhal que ele levava consigo. Sua cor transitou do vermelho púrpura para o branco pálido.
— Você entendeu tudo errado! — soltou tenso.
— Ah, é?
— Nina, eu tive que enganar Collin! Senão não teríamos nenhuma chance!
— Que ótimo! Pois agora quem não quer chance alguma sou eu! — gritava ao mesmo tempo em que apontava o punhal para o meu próprio peito.
— Nina, pare com esta brincadeira ridícula! Solte isto! — ordenou nervoso, mas ao tentar se aproximar, toquei-me com a ponta afiada daquela lâmina. Foi o suficiente para brotar um fio fino de sangue em minha blusa. Ele recuou e, por um instante, pude admirá-lo mais uma vez. Estava completamente encharcado de suor, com o rosto e os braços cobertos de areia. Para se proteger do sol, ele havia enrolado a camiseta branca ao redor de sua cabeça, deixando todos os esculpidos músculos e as inúmeras cicatrizes de seu peitoral à mostra. Como, mesmo naquelas condições, ele podia ser tão lindo? Num esforço colossal, consegui me livrar do seu magnetismo.
— Diga-me: o que mais eu tenho a perder? Por acaso me sobrou algo por que lutar?
— Nina, eu… — Seu semblante transtornado era a certeza de que ele percebera a gravidade do momento e meu estado de perturbação. Como mágica, suas pupilas assumiram a forma vertical, fazendo-me vacilar ao admirar outro ser semelhante ao que eu sempre fui: uma aberração. Ele se aproveitou do momento e se jogou sobre mim. Desequilibrei e caímos os dois, rolando pela areia ainda morna. O peso de seu corpo sobre o meu, uma de suas mãos imobilizando o braço com que eu segurava o punhal, sua boca a milímetros da minha…
— Me larga, seu cretino! Eu odeio você! — cuspi em seu rosto e comecei a socá-lo com o outro braço, mas ele me segurava com força.
— Você é impossível! — vociferou.
— Então por que voltou? — berrava, tentando me desvencilhar de suas enormes mãos enquanto era atingida por uma onda de eletricidade que subia e descia por minha coluna ininterruptamente: novo calafrio a caminho.
— Porque…
— Por que não me mata logo? — rosnei.
— Porque… DROGA! — trovejou com violência, fuzilando-me sem compaixão com suas penetrantes safiras. — Não consegue enxergar o que fez comigo? Você será a minha desgraça, garota! — rugiu, e, antes que eu pudesse rebatê-lo, jogou a faca longe, me apertou contra seu corpo suado, segurou meu rosto com uma força descomunal e me deu um beijo avassalador. Sua boca na minha, sôfrega, desesperada, selvagem. As fagulhas entraram em combustão. Fogo. O meu corpo ferveu. Minhas terminações nervosas explodiram de prazer. Foi maravilhoso enquanto durou, mas durou pouco. Eu desmaiei. Na primeira vez que acordei, senti suas mãos acariciarem meus cabelos e, com cuidado, me levantar com extrema facilidade e colocar em seu colo, enquanto um vento agradável amansava a dor da minha pele em brasas. Então ele seguiu lentamente, o motor da moto agora baixo, cadenciado.
Voltei a apagar.