Não Pare!

F.M. Pepper · Capítulo 14 de 22

Páginas do PDF

Não Pare!

Capítulo 14

 

Os rapazes foram dispensados por uma hora. Uns aproveitaram para passear por Túnis, e, se eu não estivesse naquela situação, até acharia graça em saber que as mortes também gostavam de passear, divertir-se. Outros resolveram descansar um pouco, afinal de contas, poderiam estar sobrecarregados dos trabalhos anteriores, quem saberia? Eu só podia estar delirando: é óbvio que aquilo tudo não passava de um grande espetáculo. Eles não eram a morte coisa alguma! Estavam muito vivos e malucos para o meu gosto! O fato é que eu estava só, acompanhada de um pensativo Ben.

— Vão me trocar, Ben?

— Acho que sim.

Ele percebeu as lágrimas que tentava esconder. Tocou com um dedo em meu rosto, com o intuito de sentir a umidade, e depois levou este dedo à boca, provando seu sabor.

— Lágrimas! — suspirou. — Só consigo tê-las por dor física, nunca por dor emocional, como nos filmes. — E continuou após um momento de reflexão: — Muitas vezes me deparei com elas. Os humanos soltam-nas quando me encontram, mas, sabe como é, por medo de mim. Mas elas eram diferentemente das suas.

— E como são as minhas? — sondei desanimada.

— São doces, como acreditei que seriam — e suspirava. — Não fique assim. Se Rick tomou esta decisão, é porque era a melhor para você.

— Mentira! — bradei, enxugando o rosto.

— Pois deveria acreditar. Rick tem andado estranho, sabe? Acho que ele sente alguma coisa por você… — parou de falar quando viu que Igor nos observava. — Venha! — E Ben me levou para uma área mais afastada. — Droga! Será que Igor me ouviu?

— Ouviu o quê? — fingi não entender.

— Nada. Nada — contestou aflito.

— Tudo certo, Ben? — Era Richard, que sempre conseguia nos surpreender com suas aparições repentinas.

— C-Claro! — gaguejou o colega.

— Deixe-a comigo agora! Pode ir! — E, dando-me as costas, seu olhar vagava para algum lugar distante, encoberto pela névoa cinza escura. Uma pequena e cintilante luz destacava-se em meio àquele nevoeiro, como uma estrela reluzindo no nada.

— Que luz é aquela? — perguntei, já que o vi olhando para ela.

— Que luz? Não vejo nada, senão este fog fora de época! — resmungou.

Ele não a vê? É isto! Um sinal! Stela me recomendou segui-los quando aparecessem! Ele está me avisando que é hora de fugir!

— Preciso ir ao banheiro.

— Tudo bem. Eu acompanho você até a porta.

Mal entrei, saí fingindo ânsia de vômito.

— Não consigo! Vocês homens são uns porcos! — Agora era o meu teatro. — Nenhuma mulher seria capaz de entrar num banheiro destes! — E cuspi demonstrando nojo. — Estou passando mal!

Ele me fitava confuso, como se procurando uma solução viável. Observei que um dos rapazes havia acabado de chegar de seu passeio e falava sobre um grande mercado a céu aberto. Era isso!

— Por acaso você não viu nenhum banheiro feminino na cidade, nenhum shopping ou grande loja? — dirigi-me a ele, que sem ação olhou para Richard pedindo permissão para falar.

— Pode falar! — ele consentiu.

— Não vi shopping, mas tem a Almedina.

— Almedina?

— É uma espécie de mercado murado.

Stela já havia mencionado sobre estes lugares de comércio fervente, repletos de ruas estreitas e confusas, um verdadeiro labirinto. Era exatamente o que eu precisava!

— Serve! — E, virando-me para ele, implorei: — Por favor, eu preciso ir. Se não quiser ter o trabalho, deixe algum homem me vigiar. Deixe Ben ir comigo.

— Eu irei com você. — Observava-me com o semblante estranhamente modificado. — Pensando bem — continuou —, pedirei a Collin para acompanhar você. Tenho que tratar de detalhes da negociação. — Antes de se afastar, porém, ele segurou minha mão esquerda:

— Nina, tome cuidado! — Senti suas mãos suando.

— Para ir ao banheiro? — rebati em tom sarcástico.

— Existe muito tráfico de garotas brancas e da sua idade por aqui.

— Ninguém terá interesse em uma “quase defunta”, não é mesmo?

— Eles não sabem que por trás da sua beleza existe uma “quase defunta” — fiquei anestesiada com aquela resposta. — Se precisar de mim, grite meu nome — continuou com os olhos ardentes, as duas mãos agora apertando a minha.

Assenti com a cabeça. Não tinha resposta para aquele rascunho de confissão. Quase desisti do meu plano de fuga. Saber que ele me achava bela, me fez perder o chão. Percebi a tempo que deveria ser outra grande cena, de fato, uma boa estratégia da mais esperta cabeça daquele grupo de loucos. E pensar demais acabaria me confundindo… Chega! Era hora de agir.

Collin chegou bufando.

— Ande logo, sua pirralha! E nem pense em aprontar outra gracinha!

Túnis parecia ser uma cidade muito bela; exótica e eclética ao mesmo tempo. Uma boa mistura entre o ocidental e o oriental. O mercado de que o rapaz havia falado parecia ser um mix de shopping center a céu aberto dentro de um distrito histórico: fontes, palácios e mesquitas misturavam-se em meio a lojas e tendas espalhadas por todos os cantos. E assim como toda a cidade, era incrivelmente mágico e lotado, poluído com tanta informação. Fechado para o tráfego de automóveis, permitia o trânsito de um enxame de pessoas indo e vindo apressadamente, falando alto numa língua indecifrável; árabe, talvez, mas extremamente sonora. As lojas eram muito coloridas. Espremidas umas às outras, apresentavam inusitados formatos e tamanhos. Na sua maioria exibiam produtos feitos de couro e estanho. Absorta por aquele rebuscado e confuso universo, acabei tropeçando nas longas vestes de um senhor que cruzava o nosso caminho. Refém das asquerosas mãos de Collin, acabei desequilibrando-o também e nós três trombamos sobre uma banca de lenços e objetos de bronze. Em nossa queda, levamos ao chão todos os produtos que estavam expostos no mostruário. Um estrondo seguido de um grito ecoou pelas ruas estreitas do local. Uma confusão enorme se formou. Quando olhei para o lado, Collin esquecera-se completamente de mim. Ele gemia apertando a palma de sua mão esquerda que sangrava sem parar. Ele havia caído por cima de algum objeto cortante. Ótimo! Era a hora de me mandar dali! Em meio ao caos da aglomeração de curiosos, eu peguei um enorme facão que reluzia ao meu lado, levantei-me e, sem olhar para trás, saí dali correndo como uma louca.

Quando Collin desse por minha falta, eu já estaria longe. Decidi que venderia meu cordão, faria algum dinheiro, o suficiente para me levar para um lugar bem distante de toda aquela loucura. E se não me oferecessem nada de valor por ele, eu pediria socorro na embaixada americana.

Perambulei por um labirinto de ruelas e becos estreitos. Corri sem rumo, querendo apenas me afastar daquele garoto e seus comparsas. Dirigi-me em direção a um centro comercial bem diferente do exótico mercado. De certa forma, me fazia lembrar um centro urbano ocidental, com prédios altos, ruas engarrafadas e pessoas apressadas. Achei um cybercafé e, assim que pus meus pés dentro da loja, fui advertida aos gritos pelo proprietário. Não entendia uma palavra sequer do que ele dizia, mas era evidente que estava profundamente irritado com algo que eu havia feito. Minha fisionomia paralisada de susto o fez diminuir a gritaria e se aproximar de mim. Tentei algumas línguas, inglês, espanhol e até arrisquei um péssimo italiano. Mas nada. Ele puxava com agressividade o facão que eu havia acomodado em minha cintura e balbuciava algumas palavras nervosamente. Um cliente se levantou, incomodado com aquela exibição, e se retirou, dando-lhe apenas um merci!

— Merci?! Parlez-vous français? — perguntei empolgada.

— Oui — disse o homem, arrastando um francês muito pior do que o meu.

— Graças a Deus! — exclamei. — Por que o senhor está irritado?

— Não pode entrar com o facão na loja!

— Ah! É isso? — respondi aliviada. — Quer comprá-lo?

O homem mostrou-se bem interessado após examinar cuidadosamente o facão repleto de pedras que reluziam. Seriam preciosas? Fez-me então uma proposta na sua própria moeda. Como não sabia se era pouco ou muito, retruquei:

— Com este dinheiro consigo me sustentar por algum tempo?

Ele fez um aceno com a cabeça, repuxando os lábios e sobrancelhas com ares de clara evidência. Por falta de opção, tive de acreditar e o negócio estava feito.

Guardei o dinheiro bem junto ao corpo, comprei um sanduíche e ainda o mastigando fiz centenas de tentativas frustradas para o celular “fora da área” de Melly. Desanimada, resolvi enviar-lhe um e-mail e outro para Anna, minha amiga internauta da Espanha. Quem sabe ela não poderia me ajudar? Após lhe contar todos os pormenores, pedi ajuda e disse onde estava. Entreguei à sorte minhas últimas gotas de esperança. Por ser menor de idade, teria que possuir uma autorização do meu responsável para fazer qualquer viagem internacional sem acompanhante. Resolvi não me consumir em lágrimas e tratei de sair rapidinho do cybercafé. Algo que Stela sempre comentava era que ficar muito tempo num mesmo lugar aumentava as chances de alguém gravar nossa fisionomia. Informação intrigante… Não quis dar entrada em nenhum hotel. Seria muito fácil me encontrar por ali, e com certeza eles estavam me procurando. Richard e todos os outros. Após andar o dia inteiro sem rumo pelas ruas, percebi que o movimento de pessoas caíra repentinamente. Já era noite e as pessoas se recolhiam muito cedo. Exausta e com frio, entrei em uma boate. Por sorte não me pediram documentos, só queriam o dinheiro, e eu entendi porque estava escrito na parede de vidro que me separava da recepcionista. As pessoas dançavam uma mesma música eletrônica o tempo todo. Tinham o corpo completamente tatuado e pareciam estar sob efeito de algum tipo de droga. Seus olhos vagavam e esta era a parte boa, porque, com isto, não olhavam para mim. Sentei-me num canto, aproximando-me de um homem bem forte, a figura mais normal que achei naquele ambiente. Talvez fosse um segurança do local, pensei, e adormeci um sono inquieto, cheio de sombras.

O dia amanhecia quando fui obrigada a sair da boate. Eu estava em alerta e desesperada para checar alguma resposta de Melly ou Anna. As horas se arrastavam, quando, por fim, vi o cybercafé abrindo. Aguardei algum tempo escondida até que mais pessoas começassem a transitar pelo local, assim não seria um alvo tão fácil. Trinta minutos depois, e com o coração na mão, senti o familiar calafrio atravessar meu corpo outra vez, fazendo-me precipitar em total desespero para dentro daquele lugar. Chequei meus e-mails e nada. Tentei me convencer de que talvez elas não verificassem seus e-mails com tanta frequência. Para meu desespero, o celular de Melly continuava fora de área.

— Olá! Vai beber alguma coisa? — perguntou o proprietário, agora meu único conhecido na cidade.

— Um chocolate quente, por favor.

Deitei minha cabeça no balcão, lutando com a angústia que invadia meu peito. Fiquei algum tempo ali prostrada, contando as dezenas de minutos e aguardando algum tipo de intervenção divina. À beira de um ataque de nervos, captei ao longe duas vozes masculinas entabulando uma entusiasmada conversa em inglês. Podia jurar que reconhecia uma delas. Desanimada, olhei para trás por cima do meu ombro esquerdo e uma inesperada visão fez meus pulmões tremerem de felicidade. Seria possível? Era Sebastian, o tal amigo que Kevin me apresentara na saída da Strike! O que ele estaria fazendo aqui? Será que, finalmente, Deus ouvira minhas preces e o impossível se tornara realidade?

Sem hesitar, eu me aproximei dos dois.

— Oi! — comecei meio sem graça.

— Oi — ele respondeu no mesmo tom, quase sem me olhar. A conversa continuava animada.

— Desculpe interromper — insisti. — Você não se lembra de mim, não é?

Ele finalmente parou de falar com o colega, tornou a me olhar — só que agora com atenção — e balançou a cabeça.

— Eu já te vi…

— Eu sou Nina, amiga de Kevin, lembra? — respondi aflita. — Você me cumprimentou na semana passada, lá na frente da Strike.

— É verdade! Tudo bem, Nina? — E abriu um simpático sorriso. — Puxa! O que você está fazendo aqui?

— É uma longa história… E você? — desconversei, tentando arrumar tempo para inventar uma boa desculpa.

— Estou a passeio. Tenho parentes na Espanha.

— Mas vai ficar aqui em Túnis? — prossegui.

— Não. Só vim conhecer o lugar. Meus pais ficaram em Toledo. Volto amanhã para lá. — E, ao me ver pensativa, adiantou-se: — O que você está fazendo aqui?

— Minha mãe faleceu…

— Sinto muito — retrucou sem graça.

Senti um nó se formar em minha garganta. Ainda não havia processado a morte de Stela. Parecia um pesadelo terrível, de que logo acordaria. Mas o fato de estar ali falando sobre sua morte era a confirmação da minha perda. Contive as lágrimas e decidi mentir descaradamente, pois se lhe contasse tudo por que havia passado naqueles dias, ele certamente ia me achar uma louca e não me ajudaria.

— Entrei em depressão com a morte de minha mãe e resolvi largar tudo por uns dias e viajar pela Europa. Tinha que espairecer, sabe?

Enquanto me fitava compadecido, adiantei-me antes que ele resolvesse fazer alguma pergunta mais objetiva:

— Resolvi cruzar o Mediterrâneo, mas, assim que cheguei aqui, fui alvo de uma gangue de marginais. Eles me assaltaram e levaram tudo… dinheiro, documentos, etc.

— Já deu parte na embaixada americana daqui?

— Ainda não tive tempo. Foi ontem à noite.

— Ah! É melhor agir logo.

— Eu sei. — E, sem coragem de lhe pedir ajuda, fui surpreendida por uma inesperada oferta.

— Vai ser uma burocracia daquelas! — suspirou. — Você já tem dezoito anos?

Meneei a cabeça, inconformada.

— Quer uma ajuda? Meu pai tem amigos influentes…

— Ãh? — meu queixo caiu. Respondi sem hesitar: — Sim, por favor!

Ele me deu um sorriso e se adiantou:

— Não quero que pense mal de mim…

— De jeito algum. Pelo contrário, faço questão de lhe pagar cada centavo gasto com juros assim que chegar a Nova Iorque.

— Não precisa dos juros. — E riu, sacando o celular do bolso. — Vou ligar para ele agora mesmo. — Pediu licença e se afastou por um breve momento. Retornou com a fisionomia diferente, justificando-se. — Temos um pequeno problema.

Ah, não! O que seria agora?

— Hoje é domingo, e meu pai não tem como acessar seus contatos — arfou. — Só amanhã!

— Puxa! — soltei infeliz. — Será que eu posso encontrá-lo amanhã então para resolver este assunto?

— Claro! Mas acho que você vai ter uma grande surpresa quando eu contar quem vem nos encontrar hoje depois almoço.

— Aqui em Túnis?! — exclamei boquiaberta.

— Aqui mesmo. Quer uma pista?

— Kevin? — indaguei com os olhos arregalados.

— Em carne e osso.

Eu tinha que me beliscar. Finalmente a sorte voltara a ficar do meu lado!

— Sério? — Eu ainda estava incrédula.

— Ele também não vai acreditar!

— Quer dizer então que esta é a famosa Nina? — perguntou o colega que tinha a fisionomia carrancuda. — Kevin vai ficar muito feliz mesmo. Afinal, ele só fala em você — soltou com ar malicioso.

Aquele último comentário conseguiu me emudecer e levar minha face ao rubro.

— Isto se antes você não a matar de vergonha, Alec! — Sebastian intercedera por mim. — Eu lhe pago um lanche, mas você terá que nos aturar um pouco mais, ok?

— Com o maior prazer — respondi feliz.

Ficamos mais umas quatro horas ali no cybercafé. Ao contrário do colega que parecia ter levantado com o pé esquerdo e a cada dez minutos se arrastava até a porta de entrada para atender ligações em seu celular, Sebastian foi gentil.

— Acho que já podemos ir! — soltou Sebastian, levantando-se. — Alec, pague a conta que acerto com você depois. Kevin já deve estar nos esperando.

— Não vejo a hora de ver a cara dele quando chegarmos com a surpresinha… — retrucou o colega, olhando-me de um jeito indecifrável.

— Não ligue para ele. Está num dia ruim… — Sebastian me confessou em segredo.

— Sem problema! — respondi, mas me enganei redondamente.

Não seria um problema, mas milhares deles.