Não Pare!

F.M. Pepper · Capítulo 19 de 22

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Não Pare!

Capítulo 19

 

Primeiro chegou a audição. Barulho de água caindo no metal e uma respiração ofegante. Depois, aos poucos, vieram as imagens, nubladas. Por fim, as sensações se fizeram presentes por meio de uma substância gelada sendo esfregada em meu rosto e arrepios. Muitos deles.

— O quê?! Ai!

— Pssiu! Fique quietinha — era ele e sua voz estava suave como nunca. — Já estou acabando. As compressas geladas ajudaram bastante.

As imagens ainda estavam borradas, mas pouco me importava naquele momento. Por mais que eu lutasse contra a decepção que enchera de bílis o meu fígado, eu estava em êxtase ao vê-lo cuidar tão carinhosamente de mim.

— Por que não me deixou morrer? — alfinetei amarga.

— Na primeira vez que poderia ter te matado, sem querer me encostei em seu corpo e algo se mexeu dentro de mim.

Incapaz de ver sua expressão facial com precisão, podia jurar que sua voz saiu fraca, quase trêmula. Aquilo era algum tipo de confissão? Ele finalmente ia se declarar?

— Onde foi? — Não deixei minhas expectativas ganharem força.

— Num restaurante de Amsterdã, um pouco antes de você ir caminhando com sua mãe para uma praça. Naquele momento me senti fraco, impotente.

— A Praça Dam?

Ele confirmou dando um estalo com a língua.

— Fiquei em choque comigo mesmo por ter permitido que aquilo acontecesse… Ter deixado você sobreviver — justificou-se. — Foi a primeira vez que falhei — murmurou. — Convencia-me a cada instante de que aquela falha havia sido casual, que tinha sido vítima de algum poder desconhecido de um híbrido e que não ocorreria novamente. — Percebi um crispar de irritação em sua testa. — Mas não foi o que aconteceu! E falhei nas outras situações porque bem na hora H, não tive forças para eliminar você.

— Outras situações?!

Ele confirmou com a cabeça.

— Quais?

— Na própria Praça Dam, dentro do avião e com o andaime — o volume de sua voz quase zerado.

— Foi você então?

Ele confirmou com outro balançar de cabeça.

— E nos outros episódios, não consegui permitir que Kevin te matasse.

— Outros? Na grande avenida e…

— Na loja de departamentos e no acidente de carro. Na grande avenida não — ele me corrigiu.

— Quem me salvou lá então?

— Foi o próprio Kevin.

— O quê?! — perguntei incrédula.

— Eu sabia que Kevin trapaceava. Em vez de procurar você por conta própria, ele preferia me seguir e ver o que eu havia descoberto. Até que eu descobri você, e ele também. O lado bom disso tudo é que eu o deixei em dúvida. Ele deve ter achado que eu havia me enganado e desistido de lhe matar porque descobri a tempo que você não era a nossa complexa missão.

— Que eu não era a híbrida que estavam procurando?

— Sim. — E passou as pontas dos dedos na palma de minha mão esquerda. Tremi. Não podemos cometer erros… — murmurou.

— Eu sei. — E fechei a mão para senti-lo melhor. Eu tentava ver a expressão em seu rosto, mas me sentia diante de uma televisão sem antena. A imagem era lotada de chamuscados.

— Kevin deve ter ficado muito confuso ao me presenciar desencadeando a sua morte e logo em seguida salvando você daquele andaime em queda. Acredito que ele me testou com o episódio da grande avenida. Ali eu quase perdi você — sua voz estava rouca. — Como eu já disse, de início ele deve ter achado que eu cometi algum engano, mas, malicioso como ninguém, resolveu me colocar à prova na grande avenida. Eu não podia imaginar que ele se arriscaria tanto…

— Se arriscaria?

— Sim. Naquele momento, ele não estava invisível para os seus. — E me surpreendeu com novas revelações: — Nós agimos melhor quando estamos invisíveis, mas, por outro lado, temos maior força sensorial quando estamos visíveis — e continuou: — Então, ficando visível, Kevin ameaçou eliminar você através de uma morte direta, mas você foi mais forte do que imaginei — comentou, colocando uma nova compressa gelada em minha testa.

— Eu?!

— Sim. Mesmo usando todas as suas forças mentais, ele não conseguia penetrar na sua psique. Nina, você não é sugestionável.

— Mas eu fico tonta, sofro calafrios.

— É quando sua mente está se defendendo de alguma intervenção nossa, boa ou má. Daí, ele teve que usar a força física. Como eu estava do outro lado da avenida, não conseguiria atravessá-la a tempo — soltou. — De início, achei que Kevin ia quebrar os protocolos e mataria você ali mesmo, antes do seu dia de passagem. Mas então compreendi que ele é um covarde de índole tão ruim, que acabou sendo atingido pelo próprio veneno. Vendo que eu não aparecia para socorrê-la, acabou sendo paralisado pelo medo da dúvida. Achou que aqueles episódios anteriores foram algum tipo de armadilha minha contra ele, e então resolveu não arriscar. Mesmo contra vontade, ele teve que salvar você.

— Ele poderia me matar antes do dia determinado?

— Poderia, mas geraria uma guerra de proporções inimagináveis no meu mundo, provavelmente com repercussão no seu, além de ser enviado para o Vértice na mesma hora.

— Então foi tudo encenação?

— Talvez… não tenho certeza… para forçar uma situação.

— Como assim?

— Aproveitaria o momento que eu estivesse tentando salvar você para pular fora e me incriminar pela sua morte.

— E o que foi aquela horrorosa perseguição?

— Foi Kevin caminhando para o xeque-mate — explicou, passando as mãos pelos meus cabelos. — A partir dali tive que monitorá-lo vinte e quatro horas por dia. Praticamente dormia na sua rua…

— Então aqueles ruídos de motos que me atrapalhavam o sono todas as noites…

— Eram meus e de outros também. Um vigiando o outro. — Afastou-se e foi buscar outra compressa. — Naquela noite, Kevin estava disposto a eliminá-la de vez.

— E só não o fez por sua causa — relembrei-lhe feliz.

— Tivemos sorte e alguma ajuda.

— Ajuda?

— Hoje sei que homens de Storm nos deram cobertura naquela noite, assim como alguns de Windston. Algo que não consigo entender… — Ele respirava com dificuldade e demorou algum tempo até voltar a falar. — Uma coisa estranha crescia como uma fera dentro de mim. Eu não tinha poder sobre essa coisa, e ela não me deixava machucar você, pelo contrário, queria proteger, cuidar de você. — E desconversou: — Pronto! Se quiser, já pode se levantar.

Foram necessários alguns minutos até minha visão se restabelecer.

— O que é isto? — exclamei aborrecida ao perceber meus braços enfaixados no estilo de uma múmia e meu rosto coberto por uma oleosa pasta branca. Ele deu uma gargalhada com a minha reação.

— Não acredito que está preocupada com a aparência num momento destes! — e continuava a gargalhar.

— Mas estou horrorosa! — guinchei.

— Eu não acho.

Franzi a testa, sem lhe dar qualquer resposta, tentando ocultar a inesperada felicidade por saber que ele me achava bela e que havia retornado apenas para me buscar. Sua confissão dera-me novas esperanças e, pela primeira vez em muitos dias, me senti importante.

— A má notícia é que terá que ficar com estes curativos por alguns dias — anunciou com a voz mansa, deixando soltar uma breve risada.

— E a boa?

— A boa é que já pode tirar este creme de seu rosto. Meu boné salvou a sua pele. Literalmente. — E me lançou uma piscadela, que acertou em cheio meu já danificado raciocínio.

— Hum.

Levantei-me com certa dificuldade, meus braços sem qualquer mobilidade, enfaixados completamente retos.

— Desista da enfermagem, ok? Esta profissão definitivamente não serve pra você — disse eu em tom de desaprovação.

— Puxa! Era justamente o que eu pensava em fazer nas minhas horas vagas, entre uma e outra missão — e ria com vontade. Seu bom humor, por mim tão esperado, agora estava me irritando.

— Pode me ajudar aqui? — resmunguei. — Com os braços deste jeito, não tenho como lavar meu próprio rosto!

E, aproximando-se de mim, abaixou-se e começou a jogar a água com delicadeza, deslizando seus dedos por minha face ardida. Começou limpando minha testa, minhas sobrancelhas, olhos, nariz, bochechas e, à medida que seus dedos caminhavam em direção aos meus lábios, senti sua respiração modificar e meu coração sapatear no peito. Ele fez uma pequena pausa e me pediu permissão para continuar. Assenti paralisada. Sua respiração estava cada vez mais forte, seu cheiro penetrando em meu cérebro. Pude perceber que seus dedos também tremiam.

— Pronto! — soltou sem mais rodeios. Impaciente, entregou-me uma toalha felpuda, afrouxou as ataduras e saiu como um foguete daquele minúsculo quarto.

Terminei o serviço esfregando a toalha em meu rosto ainda mais ruborizado pelo acontecido. Tentei me acalmar e saí logo em seguida. Ele estava de pé, olhando para o nada com a cabeça encostada nas ruínas de um enorme muro de pedras. Era palpável a sua agonia.

— Uau! — exclamei para mim mesma, admirada com a maravilhosa pintura desenhada ao nosso redor. Estávamos numa pousada construída a partir das ruínas de um antigo forte que havia sobrevivido bravamente à erosão do tempo e das guerras no grande deserto. Como prêmio por sua determinação em resistir, fora presenteado com inúmeras palmeiras, cada uma mais frondosa que a outra. Seus altíssimos e centenários troncos emergiram nas condições mais improváveis, dando-lhes um aspecto fotográfico, quase artificial de tão perfeito. — Um oásis de verdade! — soltei, tentando puxar assunto ao me aproximar.

— Existiam vários deste tipo. Restaram muito poucos.

Fui direto ao assunto que me importava.

— Diga-me logo, por que você voltou, Richard? O que quer de mim?

Ele me olhava de maneira diferente, suas safiras conseguiam brilhar ainda mais que o habitual.

— Eu sinto uma dor terrível quando estou longe de você ou quando sei que você está em perigo, mas, por outro lado, fico estranho e perco a noção de tudo quando estou ao seu lado. — Ele olhava para o chão, remexendo os pés pela areia fina. — Eu não sei o que é isto. Ben comentou que eu ando esquisito. De repente passei a observar o modo como os humanos interagem. É tudo tão sem sentido!

— Sem sentido?

— Presenciar as pessoas do seu mundo se abraçando e se beijando… Como se sentissem algo de excepcional nestes gestos tão… tão…

— Tão?

— Irrelevantes!

— Irrelevantes?! — perguntei exaltada.

— É que nunca significaram nada para nós!

— E aquele beijo cinematográfico que você me tascou?

— Aquilo foi… foi um erro — rebateu ele com a testa lotada de vincos. — E também é um erro ficar aqui sozinho com você.

Ele radiografou a decepção em minha face.

— Eu não devia ter feito aquilo, Nina. Nós… simplesmente não podemos.

A dor voltara a invadir seus olhos preciosos.

— Se tem tanta certeza disso, por que você está sempre nervoso? Se já está definido que nunca poderá haver nada entre nós, o que lhe aflige então? — enfrentei-o.

— Nada e tudo ao mesmo tempo — sua voz saiu baixa. Ele voltou a se calar.

— Eu sei que não é verdade! Existe um motivo específico! Você precisa me dizer! — insisti numa inflamada contestação.

Como de costume, ele me assustou com sua abrupta mudança de comportamento. Socou ferozmente o tronco de uma palmeira a seu lado. Havia sangue entre seus dedos. Voltara ao seu estado habitual: rude.

— O que é verdade para você, Nina? Quais são as suas verdades, hein? — rugia, deixando sua voz mais contraída que seus músculos.

Emudeci num instantâneo arrependimento de ter insistido naquele assunto. Seu golpe fora certeiro e extremamente doloroso. Ele era preciso com as palavras que empregava. Minha vida sempre fora uma mentira, uma grande e infeliz mentira, logo, quem era eu para falar sobre verdade?

— Verdade? A única verdade que tenho neste momento é que gosto de você — confessei num murmúrio sofrido. — Como nunca gostei de ninguém, Richard. Sei que não é lógico e muito menos sensato, mas é o que sinto.

Ele arregalou os olhos e ameaçou caminhar em minha direção, mas parou no meio do caminho.

— Impossível! Você não sabe o que está dizendo. Eu sou a sua morte, Nina! — seu rugido mais parecia um gemido. Desnorteado, ele passava as mãos pelos cabelos e andava de um lado para o outro. Desatou a pisotear as folhas secas que estavam pelo chão em uma inútil tentativa de liberar a tensão que distorcia suas feições esculturais. — Por Tyron! Teoricamente, nós não poderíamos ter nenhum contato físico mais… — e parou para pensar na palavra que utilizaria — …íntimo com nenhuma mulher humana. Mas você é diferente de tudo que conhecemos — completou. — Afinal, você é uma híbrida! E com híbridos não sabemos se existem reais possibilidades. Droga!

— Quer dizer que…

— Que qualquer um de nós poderia matar um dos seus muito facilmente, dispensando qualquer tipo de arma! — rosnou e voltou a me encarar com ferocidade. Ele percebeu meu semblante atordoado e se adiantou: — Um gesto impensado, um pouco mais incisivo, já seria capaz de matá-los!

— Um gesto? Você quer dizer…

— Eu não sei dizer que gestos especificamente! — trovejou. — Só sei que não podemos ter qualquer tipo de relacionamento físico com humanos!

Ele se virou, encostando a testa na palmeira. Estava angustiado. Caminhei em sua direção. Pela primeira vez, senti a sua dor. De impulso, abracei-o por trás, inconsequente. Ele não me repeliu, sua rigidez inicial foi rapidamente substituída por um tipo de tremor e então cuidadosamente ele se soltou de meus braços e se afastou.

— Minha vida se resume em trazer problemas para os que estão ao meu redor — sussurrei. — Me desculpe, eu não sei o que fazer, eu… eu estou perdida.

— Eu também — soltou constrangido. — É tudo absurdamente novo e sem sentido para mim. Não consigo mais ser razoável.

— Então não seja — as palavras saíram impensadas, assim como meus gestos. Sem pensar, tornei a me aproximar. Senti seu hálito quente em meu rosto. Pungente, delicioso, era diferente de tudo o que eu conhecia.

— Nina, não! Eu não posso… — Ele não me impediu, mas congelou com a minha aproximação. Talvez estivesse mais perdido do que eu. Por fim, segurou meu rosto com delicadeza e, fulgurando meus lábios trêmulos com seu olhar penetrante, tocou-os com seus dedos macios. — Não podemos — sussurrou.

— Eu sei.

Então ele afundou o rosto na curva do meu ombro e lançou os braços ao redor da minha cintura. Cautelosamente, suas mãos traçaram a linha do meu corpo gerando um caminho de arrepios enquanto as minhas percorriam os músculos e cicatrizes sob sua camisa de malha. Seus lábios úmidos fizeram uma trilha de beijos pelo meu pescoço e, prestes a encontrarem os meus, Richard parou e me presenteou com um raro sorriso de felicidade, aberto.

— Ah, Tesouro! — ele soltou um gemido de satisfação e tornou a me abraçar. — Caso tenha algum mal-estar, afaste-se imediatamente de mim, compreendeu? — advertiu-me sussurrando em meu ouvido enquanto começava a beijar meu ombro desnudo. Sempre com seu ar de comandante, só que desta vez estava entregando as armas.

Jamais me afastaria, eu queria mais era sentir! Menti de imediato, assentindo a cabeça enquanto ele me beijava. Minha pulsação ultrapassara todos os limites, meu corpo queimava num fogo enlouquecedor à medida que seus lábios se aproximavam mais e mais dos meus, percorrendo a base do meu pescoço, roçando meu queixo, até pousarem lenta e delicadamente sobre os meus. Eu respondia da mesma forma, incrédula de poder experimentar tamanho sentimento. Eu estava indiscutivelmente louca por ele. E agora sabia que ele correspondia ao meu sentimento, ele também estava apaixonado por mim.

De repente ele fechou os olhos, franziu a testa e se afastou de mim. Curvado sobre o próprio corpo, Richard parecia sentir uma dor dilacerante.

— Richard? O que houve?

Sem resposta.

— Richard?! — insisti.

— O que senti agora foi bem mais forte que o da vez anterior, eu… — arfava, atordoado. — Eu… eu não imaginava que fosse assim.

— Nem eu. — E sorri, inundada de felicidade.

— Mas eu não poderia sentir, Nina. Não desta maneira.

Aninhei-me em seu peito largo e ficamos ainda algum tempo ali, abraçados e imóveis. Ter seu corpo forte me envolvendo era o meu porto seguro. E era disso que eu precisava. Paz. Finalmente a calmaria após a tempestade. Um magnífico bálsamo para minhas perdas e tormentos. Permaneci por um breve momento entregue àquelas sensações entorpecentes que emanavam de seu corpo quente e me atingiam sem cerimônia. Não comentei nada nem me afastei dele. O quebra-cabeça começava a se encaixar com perfeição. Tudo por que passei havia um motivo, e este motivo era ele.

— O que está te afligindo? — tornei a insistir ao sentir sua respiração vacilante.

— Quando você desapareceu lá naquele restaurante, eu estava disposto a lhe esquecer, pensei até em abandonar tudo e deixar que outro resgatador concluísse a missão. Eu não conseguiria matá-la de qualquer maneira… — arfou. — Nunca me senti tão impotente em toda a minha vida. No entanto, a mínima ideia de que outro poderia eliminá-la a qualquer instante, me consumia ferozmente, como uma profunda ferida aberta. Não consegui! — E, de repente, tornou a me beijar com mais intensidade, deixando-me tonta com a emoção que fluía de dentro de seu corpo. Ele percebeu meu estado alterado e se afastou.

— Desculpe-me! Está vendo? — sua voz saiu ácida.

— O quê?

— Esta sua sensação de fraqueza, tonturas… sou eu quem as provoca.

— Eu já sabia — respondi calmamente.

— O que você não sabe é que qualquer um dos meus pode gerar isto nos seus. Sugar sua energia vital.

— Ãh? — Não gostei daquilo. — Vocês extraem nossa energia?

Ele assentiu com a cabeça.

— Nunca ouviu falar no famoso “beijo da morte”? — E me lançou um sorriso infeliz. — Era isto que eu não conseguia te dizer. Eu sou a morte, lembra-se? — indagou sarcástico. — Por isto não entendo como você foi concebida… É inexplicável o fato que seu pai tenha vivenciado um contato mais… profundo com sua mãe! Ele a teria matado!

Outra facada em meu peito em recuperação. Richard bradava, deixando à mostra seu alto grau de irritação. Sua inconstância emocional me atordoava.

— Você não entende! — continuou. — Não era para eu sentir nada! Queima tudo. Só quando estou perto de você é que sinto esta febre abaixar, esta dor acalmar. Como se você fosse a minha cura, o meu remédio. Eu não sei o que fazer. Não tenho mais controle de minhas ações. E meu corpo…

— O que tem? — perguntei agora mais curiosa ainda, porque meu corpo já dava provas concretas do sentimento arrasador que nutria por ele.

Afastando-se ainda mais de mim, ele respirou profundamente, encarou as próprias mãos e desabafou:

— Não tenho controle sobre ele também.

— Como assim? — indaguei reaproximando-me com cuidado.

— Não vê? Eu tremo — e deu uma gargalhada nervosa. — A Morte tremendo! Como pode isto? — E me apontou as enormes mãos. — Elas tremem perto de você! Nunca tremeram! Nem diante das mais difíceis missões.

— Eu também tremo. Isto é normal quando estamos nervosos — expliquei.

— Quando vocês HUMANOS estão nervosos! Nós não! Nós somos frios, lembra?— respondeu-me ficando agressivo e deixando suas pupilas estreitarem-se no sentido vertical.

— Por favor — pedi delicadamente —, fique calmo.

Ele balançava a cabeça de um lado para o outro.

— Não são apenas as minhas mãos que tremem. Outras coisas estão surgindo dentro de mim, incontroláveis.

Tudo dentro de mim já havia perdido o controle há um bom tempo.

— Tesouro — sua voz agora estava empostada —, eu não tenho como te livrar dos meus por muito tempo. Não suporto a ideia de te matarem e menos ainda de te usarem para experiências. Só em pensar nisso, eu fico louco! Estou a ponto de explodir!

— Calma! — O mais engraçado é que estávamos ali discutindo meu desgraçado futuro e era eu quem o consolava. — E se eu tiver outro tipo de valor para Kaller? — argumentei.

— Não consigo imaginar qual — foi taxativo.

— Leila disse que eu sou parte de uma lenda. E se for verdade? Não percebe? O improvável está acontecendo bem diante de nossos olhos! Sou uma híbrida que conseguiu sobreviver por quase dezessete anos e… e você pode ter sentimentos até então impossíveis para os seus!

— Eu não sei se isto dentro de mim são bons sentimentos! — tornou a vociferar.

— Richard, veja! — peguei uma de suas mãos e a encostei em meu corpo. Queria que ele sentisse a trepidação enlouquecida de meu coração. — Eu também sinto isso.

Ele não se entregava, lutava contra aquilo que o martirizava. Suas pupilas descontroladas eram a prova do tormento que eu lhe infligia.

— Mas não são iguais aos seus! — esbravejou.

— Como pode ter tanta certeza? — indaguei-o severamente.

— Não sou capaz de ter sentimentos! Não os bons, Nina! — rugiu. — O que sinto é uma reação ao que você gera em mim! Viu o que foi capaz de fazer com aqueles rapazes? Eles perderam a cabeça como nunca antes vi acontecer! Seu poder sobre as nossas mentes e corpos é avassalador, e nos faz ter atitudes insanas como esta que estou tendo!

— Sua atitude é boa — minha voz saiu fraca.

— Mas a minha essência é má! Ainda não percebeu? — deu-me um sorriso irônico. — E acredito que o que eu sinto é o que vocês chamam de… — sua fala travou.

— De…?

— Egoísmo — acrescentou pesaroso.

Aquela confissão me deixou confusa. Definitivamente não era o que eu esperava.

— O que você quer dizer com isto? — agora era eu quem estava incisiva.

— Que eu não valho a pena, garota! Aliás, não valho nada. O medo que tenho de te perder não é por você. É por mim — arfava. — Eu estou enlouquecendo!

— Richard, eu…

— Eu sou a sua morte, Nina — murmurou. — Eu não posso esquecer que sou a sua morte… — Seu olhar transtornado era a prova cabal de que ele continuava impiedosamente torturado por uma dúvida ou medo atroz.

— Não. Você não é. — E, hesitante, caminhei em sua direção e afundei meu rosto em seu peito. Pude sentir sua respiração descompassada. Demorou algum tempo até que ele me envolvesse em seus braços. Ficamos ali entrelaçados por um longo tempo. Não que eu sentisse, pois para mim o tempo agora passava de um jeito diferente, como seu eu já estivesse em outro mundo…

— Nina, logo vai amanhecer e você precisa descansar. Sua febre está voltando.

— Como sabe?

Arqueando uma sobrancelha, ele me fitava com seu costumeiro ar de superioridade. Ele sabia e pronto!

— E você?

— Também vou descansar, vamos! — E me conduziu até o quarto.

Quando estava perto de entrar, ele me fez um pedido inusitado:

— Posso entrar?

— Ãh?! — Eu estava assustada e sem graça. Ele compreendeu minha reação e com desenvoltura se retratou:

— Não é nada do que você está pensando! E nem poderíamos, lembra? — emendou e deu uma gargalhada gostosa, apressando-se em me explicar. — Seu quarto tem duas portas e eu não tenho como vigiá-las ao mesmo tempo. Ficou claro?

— Ah!

— Vou ficar dentro do quarto, mas, bem longe de você, se é o que lhe preocupa.

— Não. Quero dizer, eu…

— Tudo bem. Estamos esclarecidos — lançou-me um sorriso torto à medida que ia entrando no quarto. — Vamos! Deite-se! — E ajeitou os lençóis enquanto me apontava a cama.

— Não estou com sono. O que Leila quis dizer com “siga os sinais”?

Seus olhos azuis se arregalaram por um instante, mas ele se esquivou: — A gente conversa depois. Boa noite, Tesouro.

Richard estabelecera que era o fim das conversas por aquele dia e ponto final. Dei de ombros com a situação. Estava feliz demais para brigar. Amanhã ele me daria mais explicações. Deitei-me tão confortavelmente, que me esqueci de minhas queimaduras, permanecia anestesiada.

— Boa noite — respondi em baixo tom, forçando-me a parar de olhar aquela estupenda figura à minha frente. Ele era um oásis para os meus olhos, minha miragem pessoal.

Ele abaixou-se, deu um carinhoso e demorado beijo em uma de minhas mãos e ajeitou o lençol que me cobria. Pude sentir algum grau de tensão naquele gesto.

— Sinais… — balbuciou e me envolveu em seus braços.

O que ele saberia sobre o assunto? Amanhã haveria de me responder. Agora era só endossar aquele abraço. Por mais que lutasse contra o sono, sua força era oceânica, enorme. Mergulhei tranquila naquele mar sem ondas, incapaz de imaginar o sangrento maremoto que estava por vir.