Não Pare!

F.M. Pepper · Capítulo 10 de 22

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Não Pare!

Capítulo 10

 

A fila de entrada estava enorme. Stela parecia estar bem mais ansiosa do que eu.

— Estou tão feliz, filha!

— Eu também, mãe. Finalmente chegou o dia, né? — disse tentando colocar algum entusiasmo em minhas palavras. Ela estava tão leve e satisfeita, que talvez fosse o momento de lhe contar sobre Kevin, sobre os bizarros acidentes e situações pelas quais vinha passando. Talvez ali, no meio de tantas pessoas, ela não armasse um escândalo. Talvez. Mas a fila começou a andar e minha coragem foi embora com ela.

— Vamos! — disse ela entusiasmada.

Acomodamo-nos em nossos assentos. O primeiro ato transcorreu de forma magnífica. Meus olhos se enchiam de lágrimas a todo instante. Os de Stela também. Como era bom estar ali com minha mãe! Era tão bom vê-la tranquila e feliz! Há muito tempo eu não presenciava tal situação. Terminada a primeira parte do espetáculo, nos dirigimos para o saguão, assim como quase todo o público presente.

— Vou comprar uma Coca. Quer uma, mãe?

— Sim. Vou aproveitar para ir ao toalete. A gente se encontra aqui.

— Ok.

Enquanto aguardava Stela, o familiar calafrio trespassou meu corpo com intensidade. Não é possível! Aqui também? Olhei ao redor e nada havia de suspeito. Respirei fundo e me acalmei: — Não é nada, Nina! Pare com isto.

— Está falando sozinha? — Eu conhecia aquela voz suave.

— K-Kevin? — gaguejei. — O que você está fazendo aqui?

— Senti saudades. — Ele me deu uma piscadela e tratou rápido de se explicar: — Como sabia que você viria hoje aqui, aproveitei a oportunidade para lhe fazer uma surpresa!

— Puxa! — foi tudo que eu consegui dizer. E a despeito do meu ego massageado, estava mais preocupada do que propriamente feliz. E se Stela aparecesse bem agora?

— Não está contente em me ver? — ele pareceu desapontado. E com toda a razão.

— É claro que estou! É que… — respondi com urgência. — Minha mãe foi ao toalete e… — continuei tomada por uma súbita vergonha. — Ela deve chegar a qualquer momento e…

— E?

— Não quero que você fique chateado — soltei aflita. — Gostaria muito que você a conhecesse, mas não hoje. É que ela é muito ciumenta, e eu ainda não comentei nada sobre você, quero dizer, sobre nós e…

Ele percebeu meu estado de nervos. Colocou o indicador sobre os meus lábios, fazendo-me parar de falar: — Tudo bem. Já entendi. Te vejo depois então — me deu um beijo delicado no rosto e saiu, deixando-me ali a sós com a minha vergonha. Eu estava recuperando a cor quando uma voz perturbada me atingiu por trás.

— Quem era aquele rapaz? — seu olhar era de pânico.

— Mãe?!

— Quem era ele, Nina?

— Era um colega lá da escola. Por quê?

— O que ele queria com você? — insistiu ela, nervosa.

— Eu já disse! Ele é meu colega. Veio só me cumprimentar — retruquei impaciente.

Foi por um triz! A sirene tocou, convocando todos a retornar aos seus lugares. A fisionomia calma de Stela havia se transformado em uma expressão de pavor, estava completamente transtornada. Cinco minutos após nos sentarmos ela já queria ir embora.

— Não vou — disse eu rispidamente. — Se quiser, pode ir sozinha. Encontro você em casa.

— Nina, eu não estou passando bem.

— Eu sei que é mentira sua!

Psssiuuuu! As pessoas atrás de nós reclamavam do falatório.

— Nina, vamos! — ordenava-me aflita.

— Não! — sussurrei com agressividade. — Você só quer ir embora porque me viu conversando com Kevin! Eu vou assistir ao espetáculo até o final. Se quiser, pode ir.

— Nina, nós precisamos conversar! — seu tom era de desespero.

— Não, mãe. Você vai ter que esperar um pouco e então conversaremos em casa.

Ela se calou. A partir dali já não consegui mais me concentrar na peça. Mas não cederia. Ela tinha que parar com aquela insana mania de me afastar de tudo e de todos. Minha mãe estava doente, com certeza. Olhando-a pelos cantos de meus olhos, percebi que suas mãos estavam trêmulas, sua testa tinha gotas de suor e seu olhar era de um animal sob absurda tensão. Sua fisionomia horrível me gerava uma profunda tristeza. Não conseguia acreditar no que meus olhos me confessavam: ela estava perdendo a lucidez, minha mãe estava mentalmente doente. E eu estava arrasada com aquela conclusão.

Ao término da apresentação, saímos com o aglomerado de gente, mas no grupo da frente. Stela me segurava com tamanha vontade, que suas unhas me feriram. Seus sentidos estavam em alerta como se estivéssemos prestes a ser atingidas por uma bomba ou coisa parecida. Sua expressão facial era assustadora. De todos os seus acessos de pânico, com certeza este fora o pior. Enlouquecida. Suas passadas eram tão largas e velozes, que fomos as primeiras a chegar ao saguão de entrada. Em um movimento brusco, ela parou ao adentrarmos o grande saguão e quase fomos atropeladas pelas pessoas que vinham logo atrás.

— Não! — Seus olhos se estreitaram e seus lábios tremiam.

— O que foi?

Contagiada por todo aquele estresse, avistei o que fazia Stela tremer. Era Kevin sorrindo para mim! O coitado estava de pé, próximo à porta de saída, e parecia feliz em me reencontrar. Não poderia imaginar que o ciúme de minha mãe chegasse àquele nível de insanidade.

— Kevin?! O que está acontecendo, mãe? — perguntei furiosa, mas fui puxada com violência para dentro, em sentido contrário ao da multidão que se deslocava como uma grande barreira humana em direção à saída. Esbarrávamos em uns, tropeçávamos em outros. Meus cabelos colavam em meu rosto suado. Stela murmurava coisas indecifráveis. As pessoas nos empurravam com impaciência, claramente irritadas com o nosso antagônico trajeto.

— Venha! — ela rosnava.

— Mãe, o que está acontecendo? Solte-me! Você enlouqueceu!

— Ele veio te buscar! Ele não vai te levar de mim! Não vai! — berrava descontrolada.

— O quê?! Quem vai o quê?

— Venha, filha! — E me puxava com força descomunal, tentando me arrastar em direção ao palco, mas não era fácil com a enorme quantidade de pessoas transitando. Resgatando-nos do nosso drama particular, alguns berros desencontrados e um princípio de tumulto nos fizeram compreender o que acontecia ao nosso redor. Fogo! Para piorar a nefasta situação, um incêndio se alastrava com velocidade pelo lindo teto do teatro, comprometendo seriamente o grande lustre central, que agora ameaçava ruir. Ele era imenso, composto de dois níveis unidos entre si, todo revestido por espelhos e cristais, que encobriam as toneladas de armações metálicas. As pessoas começaram a correr assustadas e de maneira desnorteada.

— Por aqui! — Stela ordenou nervosa.

— Ãh?! Mãe, temos que sair daqui! — gritava sem sucesso. Ela estava surda, presa em seus imaginários tormentos.

Surgindo do nada, uma força brutal nos separou. Fui arremessada a uma grande distância enquanto Stela era conduzida de forma enérgica por um homem de terno em direção contrária à minha. Ambos aparentavam estar em transe, pareciam não ver nem ouvir ninguém a seu redor.

— Solte-a! Mãe, por aí não! Mãe, não! — berrava tentando correr em sua direção, mas quanto mais eu me esforçava em alcançá-la, mais era afastada pela multidão que fugia ensandecida do fogo e do gigantesco candelabro prestes a desmoronar. Usei todas as minhas forças. Berrei o mais alto dos meus berros. Ninguém me ouvia. A confusão piorara com o primeiro nível do lustre agora preso a delgados fios. Minhas pernas cambaleavam, meu choro me afogava, sentia meus sentidos fugirem, o calafrio se apoderando de meu corpo suado de tanto empurrar, gritar e me atirar contra as pessoas tentando encontrar um caminho, uma brecha. Eu não podia desistir. Stela precisava de mim! Juntei minhas últimas forças e avancei como um animal feroz em direção ao perigo. Meus olhos não conseguiam encontrá-la. Minha visão começava a falhar. De repente eu a vi, marchando como uma sonâmbula em direção à morte. Caminhava para debaixo do descomunal lustre em via de destruição.

— Mãe, não! Pare! Por favor, mãe!

“Oh!” O redundante som de horror das pessoas evidenciava que o candelabro havia cedido mais um pouco. Seguranças perceberam a localização suicida de Stela e correram preocupados rumo a ela. Eu também queria correr em sua direção, mas minhas pernas não me obedeciam mais. Eu estava totalmente sem forças.

— Mãe, não! Não! — E caí de joelhos no mesmo momento que um ruído ensurdecedor preencheu o salão. Tinha acontecido. Sem forças para levantar, só conseguia ouvir gritos e choros de desespero e pavor das pessoas próximas.

— O primeiro nível acaba de cair! — ouvi dizer pelo rádio um dos seguranças. — O segundo também está cedendo! Um homem e uma mulher mortalmente feridos! Rápido! Chamem a ambulância!

“Mortalmente ferida”? Aquelas palavras rasgaram meu peito. Reagrupei o restante de minhas decadentes forças e tentei me dirigir a ela. Tinha de removê-la dali.

Os gritos ao redor denunciavam que a queda do segundo nível do grande lustre era iminente. Mas nada disto me importava. Stela precisava de mim e eu tinha de ajudá-la. Caminhei sem forças para a terrível cena. Enérgico, um segurança que fazia o cerco da área me impediu de passar: — Você é louca, garota? Isto está prestes a desmoronar a qualquer momento!

— Mas eu preciso ir até lá, por favor! — minha voz saía rouca.

— Nunca! Quer morrer?

— Aquela mulher é a minha mãe e eu preciso tirá-la de lá! — berrava chorando copiosamente.

— Sua mãe?! — Rugas instantâneas rasgaram o semblante do homem. — Sinto muito, mas não posso deixá-la passar. Os bombeiros já estão a caminho e vão remover os dois de lá. Vai dar tudo certo.

— O segundo nível vai cair! — eu urrava.

— São ordens! Sinto muito — finalizou a conversa abruptamente, segurando meu braço com firmeza. Comecei a fazer força para me desvencilhar dele, mas era em vão. Quanto mais eu queria escapar, mais seus dedos penetravam em minha pele, machucando-me.

— Eu preciso ajudá-la! — rugi tentando me libertar daquelas mãos enormes.

— Você não entende? Se você for para lá, também poderá morrer!

Os gritos de pânico aumentavam ao nosso redor. Eu não tinha mais tempo. Olhava para Stela, seu corpo caído ali, tão perto e tão distante de mim. Quando menos poderia imaginar, senti, de repente, aquelas gigantescas mãos se afrouxando. Olhei instintivamente para o segurança e a cena só não me surpreendeu porque naquele momento minha razão estava focada em outro lugar. Ele estava com o olhar aéreo, o mesmo olhar que vi se apoderar de Stela. Não quis entender. Aproveitei-me da situação e corri em direção à minha mãe.

O lustre desmoronado estava sobre eles. O suntuoso tapete de outrora desaparecera por debaixo de numerosos pedaços de vigas metálicas e uma chuva de mortíferos confetes de estilhaços de vidro, cristal e espelho. O corpo do homem grisalho estava imobilizado por debaixo do grande lustre assassino. Caído por cima das pernas de minha mãe, com muito sangue ao redor de sua cabeça. Gelado. Stela estava muito ferida, tinha o olhar distante, mas ainda estava acordada. Quando a vi, meu corpo se enrijeceu. O sangue havia parado de pulsar em minhas veias.

— Mãe! — eu só conseguia chorar.

— Nina?

— Sim, mamãe. Sou eu.

— Nina, você tem… correr… rápido! — soltou quase inaudível.

Eu tremia de desespero: — Vai ficar tudo bem, mãe. Os bombeiros já vão te tirar daí. Eu sabia que a estava perdendo. Minha voz saía em soluços, arrasada pela impotência diante daquela cena devastadora.

— Seu pai… seu pai…

Ah, não! Ela estava delirando.

— O que tem meu pai? Mãe, o que você quer dizer? O que tem meu pai?

— Quer você… tirar de mim… Nina… — as palavras sem o menor sentido confirmavam seu péssimo estado.

— Mãe, calma, por favor! — As lágrimas cobriam o meu rosto, meus pulmões estavam saturados de fumaça. O fogo se alastrava rapidamente pelo teto sobre nós. Nosso tempo estava se esgotando.

— Tudo que fiz foi por amor… Eu não queria que acabasse assim.

— Acabar?!

A pancada. Senti-me sendo sugada, como se estivesse sendo aspirada por dentro, como se fosse desintegrar a qualquer instante. Perdi a noção de mim, de tudo. Aquilo era uma despedida? Não. Não podia ser. Eu não podia perdê-la. Não assim. Não agora. Eu não tinha mais ninguém e eu não queria mais ninguém. Eu queria minha mãe.

— Fuja! Prometa-me…

— Não! Pára com isso, mãe. — Eu não conseguia mais respirar. A dor me sufocava. — Por favor, não me deixe, mãe! Não me deixe!

— Prometa-me…

— Mãe, não! Não faça isso comigo! — comecei a sacudi-la quando vi sua consciência se esvaindo. Impotência. Ver minha mãe morrendo bem diante de meus olhos e não poder fazer nada. — Por favor, mãe! Mãe?

— Fuja… — Ela sussurrava agora.

— Fugir do que? Não estou entendendo, mãe! — Meus berros de desespero mais pareciam uivos de sofrimento.

— Prometa-me… Mamãe te ama… fuja… — e, num último suspiro, soltou em um fraco sussurro: — Siga os sinais.

— Eu prometo! Eu prometo o que você quiser, mãe! Sinais? Que sinais? — eu não sabia o que estava prometendo, mas eu tinha de acalmá-la. — Por favor, fique comigo, mãe! Mãe? Mãe?!

E seus olhos fecharam.

Abracei seu corpo inerte. Uma onda de dor invadiu o meu peito, incapacitando-me. Fiquei imóvel, cega e surda para tudo. Devastada. Meus sentidos mais uma vez falhavam, mas agora eu não tinha mais urgência em despertá-los. Era até bom. Eu queria apagar, sumir dali. Queria acordar em outro lugar, um lugar belo e fresco, onde tudo aquilo seria um pesadelo. Isto mesmo. Eu queria acordar distante daquela dor, com Stela gargalhando e me abraçando. Aquela sensação era muito boa e meu corpo estava inerte, anestesiado. Por que as pessoas gritavam tanto? Qual o motivo de tanta inquietação? Silêncio? Agora sim, está bem melhor, e… um vulto de preto?!

— Não! Largue-me! — ordenei sem resistência ou compreensão.

Um segundo estrondo, bem maior do que o primeiro, inundou o grande teatro. O segundo nível do gigantesco candelabro havia ruído, caindo com mais violência que o primeiro. Senti alguém me agarrar e suspender. Eu não tinha forças para me afastar, e curiosamente eu também não queria. Meu corpo frouxo não exprimia qualquer resistência, deixando braços e pernas balançarem desritmados. Imagens borradas de pessoas e paisagens passavam por mim com velocidade. A única sensação de que tinha certeza era a do vento úmido, açoitando agradavelmente meu rosto. Abaixo de mim um motor rugia como um trovão. Interessante… Então tudo escureceu.

E deveria ter permanecido assim.