Não Pare!

F.M. Pepper · Capítulo 21 de 22

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Não Pare!

Capítulo 21

 

A cada cinco minutos, John pedia que eu tocasse o rochedo de entrada, ou o portal, como ele costumava chamá-lo. O sol deixava seu plantão e era devidamente substituído por uma noite magnífica. O calor dava lugar a um vento frio, cortante. Os aglomerados de rochas nos protegiam de suas rajadas violentas.

— Só nos falta agora uma tempestade de areia! — reclamava Tom, visivelmente aborrecido.

— Talvez até nos ajude, Tom! Sabe como é difícil encontrar este caminho com uma cortina de areia sobre nossos olhos. Pode nos dar um pouco mais de tempo antes do confronto — concluiu.

Confronto? Mais sangue! Meu lado racional ria da situação, mas foi rechaçado pelo emocional. Não que eles merecessem, mas algo me impelia em seu favor. Uma força estranha, incontrolável, crescia dentro de mim e alertava que eu precisava ajudar.

— Podemos deixá-la aqui e sair em busca de ajuda! — disse por fim o segundo rapaz, colocando para fora o que estava vergonhosamente guardado em sua mente há algum tempo. Não havia sugerido anteriormente por medo de assumir a sua covardia. Mas, agora, era a sua vida em jogo, e covardes nunca brincam com isto. Nunca.

— Bem pensado, Yly. Você dois saiam agora e tentem contatar alguns dos nossos na cidade mais próxima. Ficarei aqui com Nina o tempo que for necessário.

Tom percebeu que John estava dando uma ridícula desculpa. Sabia que ele não queria arriscar a vida de mais dois homens na sua batalha perdida. Se era para morrer, ele morreria sozinho. Muito nobre. Confesso que fiquei admirada com John. Sua postura me comoveu. Tarde, de fato. Mas comoveu.

— Não vou — protestou Tom de forma incisiva.

— Por que não? É uma boa ideia! — atiçou o outro colega.

— Deixe de ser fraco, seu covarde! Por que não diz logo que está morrendo de medo? Sabe muito bem que não teremos como pedir ajuda. Até conseguir acionar um grupo de socorro, eles já terão matado John e capturado a garota. Eu fico. Vou dificultar um pouco as coisas para eles.

— Podemos enterrar estes corpos e nos esconder em outro lugar. Eles podem pensar que já entramos com a garota e partir atrás de nós — Yly retrucava inconformado e sem encarar nos olhos os seus colegas.

— Mesmo que a gente faça isto e que Collin continue nos perseguindo em Zyrk, de nada adiantará. — John revirou os olhos fustigados. — Nenhum dos clãs tem exata certeza da data de passagem dela. A partir de agora, todos colocarão vários homens de plantão neste e nos demais portais, ou seja, a entrada dela para Zyrk será definitivamente vetada. Se não tentarmos agora, do jeito em que nos encontramos, estará tudo acabado para nós. Se não pela morte, com certeza pela desgraça e humilhação. Não viverei com isto — concluiu.

A aflição deles me alcançou. Os minutos seguintes pareciam horas, e as horas, dias. A espera de algo ruim é realmente dolorida, lenta. Mantiveram-me sentada em uma lateral do grande rochedo protegida dos golpes do vento, mantendo meu corpo em contato permanente com o tal portal. Meu acesso ainda proibido. Após uma infinidade de horas em espera, Yly teve uma crise nervosa. Gritou, esperneou, chorou e correu para o portal, desaparecendo magicamente bem diante de nossos olhos.

— Além de covarde, aquele imbecil é louco! — berrou Tom.

— Talvez ele não seja tão covarde… mas foi melhor assim. Não me sentirei culpado por seu fim infeliz — concluiu John. E soltou aflito: — Droga! Por que este tempo não passa logo?

— Calma, John. Não podemos perder a cabeça. Não agora — intercedeu o amigo.

— Você está certo! Sempre soube que podia contar com você. Te encontro no Vértice, amigão! — E deu uma risada forçada.

— Para com isto! Nada de praguejar. Nós vamos para o Plano e ponto final — respondeu Tom bem nervoso.

— Com certeza você vai, amigo. Eu não sei de mim… Espere! Você escutou alguma coisa? — perguntou John em alerta máximo.

— Um trepidar.

— Nina?

— O que foi? — perguntei sem ânimo.

— Nada ainda?

— Não. Sem passagem — arfei sem graça enquanto eles me olhavam apreensivos. O controle de meu corpo e raciocínio estava cada vez mais difícil. Minha lucidez se esvaía com rapidez.

— São eles, Tom! É chegado o momento. Posicione-se mais à direita — ordenou ao amigo e, ao se abaixar, disse olhando bem dentro dos meus olhos: — Nós vamos conseguir, Nina. Não vou deixar que ninguém lhe faça mal. Prometo — disse categórico.

Aproximando seu rosto do meu, afastou meus cabelos dos olhos, sorriu e me deu uma piscadela rápida. Meu estado febril conseguiu piorar depois daquele gesto inesperado. Eu estava completamente atordoada. O que acabava de acontecer?

— John…

— Pssiu! — ele me interrompeu. — Você fica aqui. Ouviu bem, Nina?

— Ãh?

— Não adianta. Ela está delirando de febre, John — detectou o amigo.

— Não saia daqui, Nina! — berrou John como nunca antes o vi fazer. — Permaneça encostada no portal e, caso consiga passagem, só entre se tiver amanhecido, fui claro?

— Amanhecido… Por quê?

— Porque sim! Fui claro? — trovejou enquanto me dava as costas. Assenti sem compreender. Meu rosto agora exangue. — Ah! — E virou-se repentinamente para mim. — Se por acaso você conseguir passagem, lembre-se de se proteger com isto. — E lançou-me uma espécie de manta feita de um tecido linóleo, estranhamente aveludado. Para que me serviria esta capa? Seria Zyrk um lugar tão frio assim? Então reparei que todos os rapazes levavam consigo este tipo peculiar de coberta. Quem foi a culpada dos meus devaneios? A minha inocência ou a maldita febre? Cheguei a acreditar que tais vestimentas serviam para agasalhar nossos corpos das geladas noites no deserto…

Um grupo de homens surgiu ao longe, aproximando-se muito rápido. Instintivamente procurei a figura horrenda de Collin e não a encontrei. O vento forte lançava golpes de areia em nossos rostos, prejudicando nossa visão. Era quase impossível enxergar. Tremi. Bem diferente dos arrepios que vinham me assolando, um discreto calafrio começou a tomar conta de mim. Não gostei daquilo. Sabia que tinha uma origem outra que não o meu estado doentio e, como já imaginava, era o meu cérebro alertando-me sobre o perigo iminente. Um prenúncio ruim. Passei a manter uma de minhas trêmulas mãos em contato contínuo com aquela estranha rocha. O calafrio se intensificava. Seria Richard no meio deles? Tentei distinguir as figuras mais visíveis e, para meu horror, deparei-me com a pior de minhas mortes. O calafrio, de fato, era um sinal de defesa.

— Não é Collin. É Kevin! — Ninguém me ouviu. Era quase impossível distinguir minha rouca voz dos uivos agudos do vento.

— O que você disse? — John berrou de volta.

— Acho que é Kevin!

Ele voltou a fixar o olhar e esboçou um sorriso confiante.

— É verdade! Tom, você consegue ver daí quantos são?

— Não estou entendendo. Acho que são apenas cinco! Deve ser uma cilada! — disse Tom, situado mais a frente.

John realmente abriu um sorriso.

— Não é cilada. Estamos com sorte, amigo. Não é Collin. Aquele é Kevin. E ele não tem um grupo grande como o de Collin. Deixe Kevin comigo.

— Ok, chefe. Eu cuido dos outros quatro — salivava o brutamonte.

À medida que se aproximavam, notei que Kevin fazia um sinal de trégua para os meus dois protetores. O calafrio piorava de intensidade. Meu corpo era castigado pela febre altíssima, minha mente torturada pelo pavor de reencontrar aquele assassino inescrupuloso. John e Tom abaixaram suas armas. Armas? Meu estado febril com certeza me fez perder muitos dos detalhes, mas um erro grotesco de percepção eu havia cometido. Minha total apatia dos últimos dias me fez negligenciar algo que não passaria despercebido nem para um cego. Eles carregavam as mantas sempre amarradas a um objeto estreito, longo e reluzente. O objeto era protegido por uma bela capa com algum tipo de brasão bordado. Uma espada! Como não tinha reparado neste instrumento medieval em pleno século vinte e um? Ela destoava de todo o contexto, como dentro de um jogo dos sete erros para imbecis. Eu era a imbecil. Super.

Por que lutar com espadas se poderiam se utilizar de meios muito mais rápidos e letais? Estariam cumprindo algum tipo de ritual? Nada daquilo fazia sentido… Kevin e mais um dos seus desceram de suas motos e vieram andando em nossa direção. Kevin sorria, é claro. Aquele seu falso e contínuo sorriso amarelo céreo.

— Olá, John! — introduziu-se cinicamente.

— Olá, Kevin — a resposta foi seca.

— Os seus lhe abandonaram? — perguntou em tom jocoso.

— O que o traz aqui? — John não estava para bate-papo.

— Ora, ora! O mesmo que você — Kevin cuspiu as palavras.

John permaneceu calado. Tom soltou uma espécie de pigarro. Kevin continuou:

— Vamos ser diretos. — Agora com um semblante nebuloso: — Eu quero a garota e estou em maior número. Logo, se você for um homem sensato, vai entregá-la sem qualquer resistência. Para o bem de todos.

— E se eu não for?

— Estupidez!

Era melhor eu me entregar. Apesar de todo o sofrimento que haviam me causado, não me agradava a ideia de ver John e Tom serem assassinados ali, bem diante de mim, e por minha causa. Estava cansada de tantas mortes. Exausta.

— John! — gritei quase sem forças. — Deixe-me ir com ele!

Os dois pararam de se encarar por um momento e se viraram para mim. John visivelmente aborrecido com a minha intromissão e Kevin curioso com o meu comportamento. Levantei-me com absurda dificuldade e, trôpega, caminhei em direção aos dois. Antes de cair no chão, fui capaz de ver John sacando sua fulgurosa espada e saltando para cima de Kevin, que prontamente se defendeu. Tom também se lançou sobre o outro rapaz e teve mais sucesso, ferindo-o seriamente e partindo para os outros três que se aproximavam.

— Venha para cá! — ordenou Kevin a um dos rapazes que digladiava com Tom. Agora John e seu parceiro lutavam cada um contra dois, e, apesar de ser evidente a superioridade dos dois, a desvantagem começava a mostrar seus efeitos. O cansaço os abatia bem mais rapidamente do que a seus oponentes. As lutas eram hipnotizantes e assustadoras. A cada peculiar ruído que soava das lâminas se chocando, era como se golpes frios estivessem me acertando em cheio os pulmões, asfixiando-me.

Um rosnado sofrido. Vi Tom ser seriamente ferido pelas costas enquanto eliminava um adversário. John, em atitude heroica, plantou-se diante de seu corpo caído e, com bravura, pôs-se a lutar contra Kevin e os dois restantes. Cobri meu rosto com as duas mãos. Não me permitiria presenciar uma carnificina como aquela.

— Foi você que eliminou Alec, não foi? — Tornei a olhar e vi que Kevin espumava, fazendo sinais para que seus dois capangas cercassem John e dessem uma trégua nas investidas. Encurralaram-no, afastando-o do corpo abatido de Tom. — Achou que sairia impune? Que eu não vingaria a morte de meu melhor escudeiro?

— Eu não o matei — retorquiu John, ríspido.

— Antes de acabar com você, vou degolar o infeliz que está ali no chão, assim como você fez com Alec — gritou enlouquecido.

Teria Richard degolado o tal de Alec naquele nefasto atelier? Fui tomada por um misto de horror e prazer com aquela notícia.

— Mate o grandão! — ordenou Kevin para um de seus homens.

John ameaçou correr na intenção de proteger o amigo, mas foi impedido por Kevin e outro rapaz que exibia um rosto atormentado. Era óbvio que Kevin só recomeçaria a luta depois que John presenciasse a morte de seu grande companheiro. Queria vê-lo sofrer. Típico daquela víbora. O segundo capanga se aproximou de Tom e iniciou malabarismos com sua espada afiada. Um tipo de exibição antes do espetáculo propriamente dito. John urrou de cólera e partiu para cima de Kevin e seu comparsa de semblante malévolo. Novamente me vi agindo por instinto. Sempre ele. Meus pulmões se contraíram dentro de minha caixa torácica. Queriam me dizer alguma coisa… É isso!

— NÃO! — berrei, almejando desviar a atenção para mim e comecei a correr em direção oposta ao duelo. Devo ter feito a coisa certa. Imediatamente Kevin ordenou que o executor de Tom paralisasse a sua tarefa e fosse atrás de mim. A boa distância entre nós me conferiu alguns segundos de vantagem. E só. Pouco tempo depois, fraca pela febre que me consumia, eu estava de volta, arrastada pelo capanga enfurecido. De longe ouvíamos grunhidos e uma significante redução na frequência do tilintar das espadas. A tempestade de areia nos castigava piorando a visibilidade e a nebulosa atmosfera de tensão.

— Rápido, idiota! Proteja-me! — era a voz de Kevin pedindo por socorro.

Ele estava combalido, gemendo e rolando de dor de um lado para o outro. Percebi que ele não tinha mais condições de se pôr de pé, muito menos de lutar.

Olhei ao redor e custei a entender o que minha turva visão me confidenciava: um milagre havia acontecido! De pé, plantado exausto em frente ao corpo desacordado de Tom estava John. Ele respirava com muita dificuldade. Encontrava-se ferido nas costas, na cintura e no braço, mas, por sua vez, havia acabado com um deles e ferido seriamente parte do tórax e o braço direito de Kevin.

O homem me empurrou para um canto e correu para o ataque. Tudo parecia se equilibrar agora. Um contra um. Era visível que o escudeiro de Kevin estava menos cansado, mas John tinha honra, e acabar com a honra de quem a tem fundida em sua alma não é uma tarefa muito fácil. Ela se vende caro. Venderia, se o pior ainda não estivesse por ocorrer. Enquanto digladiavam concentrados entre si, percebi que uma nuvem de fumaça e areia começava a se desenhar na linha do horizonte. Pelo tamanho, deduzi que um grupo bem maior de homens aproximava-se rapidamente de nós. Algo em mim pressentia o pior: Collin e seus reforços.

Tudo tinha sido em vão: a luta, as mortes. Desesperada, voltei a tocar naquela estúpida rocha, mas nada. De repente, uma batida seca seguida de um silêncio. Virei-me assustada e vi uma cena comovente: o comparsa de Kevin havia desequilibrado, caindo abruptamente e batendo sua cabeça num amontoado de pedras. Ele estava desacordado e John poderia tê-lo aniquilado se quisesse, mas não o fez. Apenas removeu a espada das lânguidas mãos do rival e a lançou para bem longe do seu alcance. Guardou sua espada na bainha. Começou a pressionar o próprio braço para estancar o sangue que jorrava com abundância, checou onde eu estava e caminhou com dificuldade em direção a Tom. Por um instante minha massa cinzenta se liquefez e eu me esqueci completamente de avisá-lo sobre o perigo que se aproximava, sobre Collin. Fiquei chocada com sua atitude. Ele era nobre até com seus inimigos. Seu semblante de preocupação era a prova cabal de que o estado de saúde de seu grande amigo não era nada bom. Ele se abaixou e começou a pressionar o peito de Tom de maneira ritmada. Fui sugada do magnetismo daquela triste cena por um furtivo movimento logo atrás de John. Compreendi com dificuldade o negro capítulo que se desenhava bem na minha frente.

Quis adverti-lo. Tentei berrar. Inútil. Minha voz saiu do mesmo jeito que eu estava: fraca. Vi John ter sua panturrilha seriamente ferida em um ataque inesperado de Kevin. A víbora, que inicialmente se fingira fora de combate, aproveitara o momento de distração de seu opositor, arrastara-se silenciosamente sobre o próprio ventre e o apunhalara por trás com uma faca.

— Ahrrr! — John urrou e caiu de lado, dando chance a Kevin de roubar a espada que estava apoiada em seu cinturão. Desarmado e com visível semblante de dor, ele começou a se arrastar, trôpego, jogando seu corpo para trás, na tentativa inútil de se afastar do inimigo. Kevin conseguiu se levantar com dificuldade, empunhando a espada meio desajeitada com sua mão esquerda. Concentrado, caminhou lentamente em direção ao nobre guerreiro caído, como que saboreando o momento em seus mínimos detalhes.

Novamente o infortúnio nos assombrava, mas eu me recusava a ser refém dele. Eu tinha de lutar. Reuni o resto de minhas forças e desatei a correr em direção à iminente tragédia. Eles não perceberam a minha aproximação, ocultada pelos ruídos de fundo das motos que se aproximavam. Kevin estava sobre John e erguia a espada no ar:

— Isto é por Alec e para que os seus aprendam a lição! — berrou.

— NÃO! — continuei correndo até chocar-me bruscamente contra as costas de Kevin.

— Argh!

Eu o desequilibrei fazendo-o tombar para a frente, e, antes de cair sobre o meu próprio corpo, ainda consegui chutar a espada para longe de suas mãos assassinas. John e Kevin me fitaram com os olhos arregalados. Não houve tempo para mais nada. Fomos atingidos pela nefasta nuvem de fumaça que, se entranhando por nossos corpos, ocultou por segundos o horror que vinha nos cercando. Quando ela baixou, minha expressão de pavor foi imediatamente refletida nos olhos de John. O número de homens que dava cobertura a Collin era bem maior do que eu poderia imaginar. Deviam ser uns doze. Tudo acabado.

John olhou para mim, se certificando de que eu estava bem. Seu corpo ferido estava camuflado. A fina areia havia se aderido a ele, grudento de suor e sangue. Fez um discreto gesto com a cabeça apontando-me o portal. Eu compreendi e, já não controlando mais minhas inúteis pernas, comecei a me rastejar para a muralha de pedras.

— Onde a garota pensa que vai? — aquela voz irritante era inconfundível: Igor.

— Detenham-na! — Collin ordenou e dois de seus capangas cresceram rapidamente sobre mim. Um deles me acertou o pulso direito com a ponta afiada de um punhal.

— Aghh! — gemi e me curvei sobre os joelhos. Antes mesmo que eu pudesse estancar o sangue que jorrava da ferida, fui abruptamente puxada pelos cabelos pelo segundo rapaz.

— Seus idiotas! — berrou John. — Não vêem que ela está mal?

— Cale a boca!

Um baque surdo. Talvez uma pancada. Não consegui identificar. Meu estado cada vez mais debilitado me distanciava da realidade ao meu redor. A ferida queimava, minha cabeça latejava.

Collin gargalhava satisfeito, como um locutor destes filmes de terror de última categoria.

— Gostou do sopapo, John? Não vai ter a menor graça lhe matar agora. Não neste estado deplorável. Que pena que perdi a briga, deve ter sido boa… — E olhou em volta contando os feridos. — Kevin está morto? — perguntou a um de seus homens.

— Não, Collin. Apenas desmaiado.

— Um fraco! — desdenhou. — Quatro mortos, hein, John? Três do grupo do Kevin, um do seu.

— Nenhum do meu! — mesmo caído, John retrucou. — Tom está apenas ferido!

— É verdade… por enquanto. — E riu novamente em alto tom, sendo imitado pelo seu robotizado séquito. De maneira inesperada, a fisionomia de Collin assumiu uma fúria animal. — Achou que ficaria com o dinheiro depois de matar Richard e pegar a garota? Achou que conseguiria me passar para trás e se safaria com esta tropa ridícula?

— Eu não matei Richard!

— Ah, não? Por sinal, quantos homens você perdeu nesta empreitada, hein?

— Já te disse. Richard te enganou e a mim também! Ele pegou o dinheiro, não percebe? — John falava em tom de desespero. Era claro que ele não queria nem conseguiria lutar.

Collin era o semblante da dúvida.

— Ele está blefando! Não dê ouvidos a ele, Collin! — praguejou Igor.

— Levante-se! — ordenou Collin aos berros. — Eu não quero te matar desta forma vergonhosa. Levante e lute como um homem!

— Escute-me! — John ainda implorava.

— Seu mentiroso! — E partiu para cima de John, direcionando sua espada para o peito de seu adversário. Uma nuvem de areia o fez errar o alvo. Era Tom, que num inesperado rompante de garra e lucidez havia desviado a espada de Collin ainda no ar, chocando a sua contra a dele.

— Matem-no! — ordenou Collin irritado. Imediatamente o gigante ferido foi cercado por meia dúzia de homens, todos empunhando armas em sua direção. Era o fim para Tom.

— Não! — berrei, e todos olharam assustados para mim. Na verdade, não era bem para mim, mas sim para algo que surgia do negrume atrás de mim, saindo daquelas malditas rochas mágicas. Um tremor seguido por um tropel de cascos. Um calafrio paralisante. Um solavanco me fez cair de boca no chão, assim como os sujeitos que me imobilizavam. Minha visão não era contínua, bem como a compreensão dos fatos que ocorriam ao meu redor. Feroz e impaciente, a febre queria colocar um fim imediato naquele último capítulo de minha existência. Com muita dificuldade consegui me reerguer, mas os dois rapazes não. Jaziam mortos na areia sepultadora. Apavorada, virei o rosto na direção do que havia provocado aquelas fulminantes mortes. Uma figura com rosto encoberto e toda vestida de negro montada num imponente cavalo saía por detrás de uma nebulosa nuvem de areia. Quando tomei conhecimento do que estava acontecendo, entendi que meu corpo havia sido levantado sem a ajuda das minhas pernas. Abruptamente, o cavaleiro negro me puxou para junto de si, segurando-me com força junto a seu corpo quente. Zonza, tudo rodava. O majestoso cavalo sob mim empinava-se nas patas traseiras e relinchava com furor anormal.

— Richard!? — A voz de Collin exalou um pânico colossal. Ele parecia estar diante de uma assombração.

“Richard?!”

Olhei para trás e, ao ver o véu cair, deixando seu rosto perfeito à mostra, quase desmaiei. Por uma breve fração de segundo, meus olhos se depararam com suas impiedosas safiras azuis e uma descarga elétrica me atingiu em cheio. Perturbada e imobilizada por suas enormes mãos, desviei o olhar e me obriguei a resistir à sua fulminante presença sobre mim. O que aquele mercenário queria agora? Já não bastavam as sete mil moedas de ouro e toda a amargura pela qual me havia feito passar?

— Bom trabalho, Collin — ele disse em tom de deboche.

— Mas… você… você estava morto!

Richard deu uma gargalhada estrondosa.

— Acertou. — Sua respiração estava mais acelerada. — Aquele Richard que você conheceu realmente está morto.

— Eu… não… eu não entendo…

O sujeito estava para lá de branco, estava translúcido.

— Você não devia acreditar em tudo que escuta, Collin! Que tal se me acompanhasse mais de perto, hein? — soltou irônico. E, mudando o tom de voz, ameaçou: — Escutem todos porque não vou dizer novamente: a híbrida é minha missão! E isto serve para você também, John — acrescentou ele, empinando o cavalo nas duas patas traseiras. — Mas, por hora, obrigado por sua ajuda.

— Seu traidor de uma figa! — Collin finalmente entendeu o que acabava de acontecer, mas estava tão petrificado, que mal reagiu à manobra seguinte de seu adversário. — O que está fazendo? — berrou por fim, atordoado. — Volte aqui e lute como um homem!

— Siga-me você se for homem o suficiente! — bramiu Richard sob o olhar amedrontado de todos ao redor, enquanto jogava uma manta sobre o meu corpo febril. Minha visão estava cada vez mais falhada, minha razão captando tudo aos pedaços, atordoada e perdida. O que ele estava fazendo? Então Richard puxou as rédeas com firmeza, fazendo o belo cavalo negro dar meia-volta e retornar em direção ao portal.

— Impeçam-no! Ele vai matá-la! — distingui os berros apavorados de John ficando para trás.