Não Pare!
Capítulo 20
De início, pensei que estivesse sonhando, o que não seria nada inusitado dadas as circunstâncias das últimas semanas. Dois homens entabulavam uma conversa aos cochichos:
— Por que não acordam ela logo? O sol está ficando forte!
— John prometeu a Richard que a deixaria dormir o quanto quisesse.
— Bobagem! Não vai dar em nada! Ele já se mandou mesmo.
— Também acho. Rick deve estar longe a esta altura.
Rick? Era quem eu estava imaginando? Longe?! Acordei assustada. Não era um sonho, mas um pesadelo, e dos grandes. Pelo calor, o sol já se levantara há um bom tempo, e um grupo de homens invadira meu quarto.
— Richard? Richard! O que está acontecendo? — agarrada aos lençóis eu berrava atordoada com o tumulto que se formara em ambas as portas de entrada do quarto.
— Acalme-se, Nina!
— John?! O que está fazendo aqui? Onde está Richard? — gritava.
— Longe — respondeu o ruivo com indiferença.
— Mentira! Onde ele está?
— Ora, ora! Ele só cumpriu a missão dele, como sempre. Não posso negar que ele é muito bom no que faz.
— Missão?! Que missão?
— Você, é claro! Trocou você por sete mil moedas de ouro. Uma boa barganha, não posso negar… — e suspirava.
— Sete mil moedas? — engoli e não encontrei saliva: estava seca. — Mas… ele me disse que… — Todos os músculos de meu corpo paralisaram por completo. Uma contratura generalizada, inclusive cerebral.
— Vista-se — disse sem vontade.
— Não pode ser verdade — soltei desolada.
— É a pura verdade, garota — retrucou sem paciência e começou a puxar os lençóis com o intuito de me apressar. Foi o suficiente para meus nervos despertarem de seu estado catatônico.
— Não! Eu não vou sair daqui. Isto é uma armadilha! Vocês pegaram o Richard! Estão mentindo! — gritava sem parar.
— Acho que anda mal informada, sua tola. Richard foi quem mentiu para você o tempo todo — e repuxou os lábios, na inútil tentativa de camuflar um risinho. — E, pelo visto, mentiu muito bem…
— Ele… mentiu o tempo todo… para mim. — O golpe foi certeiro. Podia jurar que tinham enfiado pregos em minha garganta. Asfixiada, vi meu mundo girar e ruir.
— Acelerem-na! — John ordenou aos dois rapazes. Reagi antes que eles pusessem suas mãos sobre mim.
— Por que não me matam logo? Por que não acabam com este joguinho diabólico? — rosnei aos prantos.
— Só cumpro ordens, e é o que Kaller deseja. Por mim, teria ficado com as moedas de ouro também, desculpe-me a franqueza.
Eu estava paralisada, em choque.
— Arrume-se depressa!
— Eu não vou a lugar nenhum com vocês!
— Ah, vai sim, garota! Se não for por bem, irá por mal. É melhor decidir logo. Já perdemos muito tempo com essa história de deixar você dormir mais.
— Seus porcos! — chorava descontroladamente.
— Ótimo! Melhor assim. Apronte-se em cinco minutos ou sairá como está. — E saiu batendo a porta, seguido por seus capangas.
Richard havia mentido para mim também? Tudo aquilo de ontem havia sido pura encenação? Enganara-me tão facilmente quanto Kevin? Eu era realmente uma… uma idiota! Havia mordido a isca novamente. E com vontade! Fui tomada por um tremor involuntário, corpo e mente em colapso. A dor da traição deixara de ter apenas um gosto amargo, tornara-se ácida e putrefeita. O ódio consumira o que restou de minha força física e meu equilíbrio emocional. Mais do que minha possível morte, ele era um monstro sanguinário e inescrupuloso. Drenara o elixir de minha existência. Estava árida, completamente seca.
As duas portas vigiadas confessavam-me que o espetáculo em que fora forçada a atuar continuava mais sangrento do que nunca. No entanto, uma certeza gritava dentro de mim: eu não tentaria mais fugir! Pelo contrário, agora eu queria ver como aquela insana trama acabaria. Não tinha mais nada a perder… Algo branco cintilava dentro do bolso da calça jeans pendurada. Puxei-o rapidamente, antes que alguém pudesse aparecer. Era um bilhete composto de duas palavras:
“Sinto muito”.
Direto, como sempre. Era bem típico dele… Aquele mercenário! Mentiroso! Cretino! Surtei num curto-circuito cerebral. Lavei o rosto, acabei de me vestir e saí.
Do lado de fora, toda a magia daquele Éden havia desaparecido. Uma dúzia de motos off-road distribuída pelo pátio arruinava a paisagem, a mais linda que havia visto na vida, agora um verdadeiro inferno.
— Estou pronta — soltei resignada.
— Você vem comigo — berrou John, já sobre sua moto. Subi e rapidamente ele deu a partida. Depois de um longo percurso, eles finalmente pararam para descansar. Meu corpo ardia por inteiro. A febre retornara com força total.
Estávamos em uma espécie de rodoviária perdida no meio de uma estrada que ia do nada para lugar algum. Muito suja, escura e, como sempre, longe de qualquer ser vivente. Neste ponto eu tinha que aplaudir: eles sabiam escolher um lugar desabitado como ninguém. Fuga? Impossível! Também, fugir por que e para onde? Não tinha mais medo ou objetivo. Eles desapareceram assim como os bons sentimentos que habitavam o meu peito. A Nina que eu conhecia havia morrido e sido substituída. No seu lugar, um abatido corpo sem alma.
— Tome. Você precisa se hidratar — era John Bentley trazendo-me uma garrafa de água e um salgado frio. Eu estava deitada sobre um banco de madeira velho e bolorento. Entornei toda a garrafa de uma única golada, mas deixei de lado o salgado.
— Garota, se você adoecer, não saberei tratá-la como vi que Rick foi capaz. É bom você se alimentar.
— Não tenho fome.
Ele deu de ombros e eu voltei a deitar no banco, cada vez mais infeliz e dolorida. Fui obrigada a ouvir dois de seus rapazes rindo em alto e bom tom. Eles não perceberam que eu os observava. Abri ligeiramente os olhos e vi que outros se juntavam à dupla com o intento de se informar da grande fofoca.
— É verdade! — comentou o que parecia ser o mais falador do grupo. — O faxineiro da noite viu tudo direitinho!
— Viu o quê? — perguntou um dos que acabava de chegar.
— Que Richard se deu bem duas vezes! — e gargalhava. — Ele disse que os dois se beijaram e se abraçaram o tempo todo.
— Será que ele… sentiu alguma coisa?
— Não sei. Só sei que o cara é esperto pra caramba. Pegou a grana para Shakur, logo vai ter seu status aumentado, e, ainda por cima, tirou uma casquinha da belezinha ali.
Um latejar furioso reverberava em minha cabeça.
— Será que…? — perguntou outro deles salivando, como eu já tinha visto acontecer antes.
— Apesar de arriscado, pode ser… Afinal, ela é uma híbrida. Seus olhos faiscavam uma maldosa excitação. — Ele entrou no quarto com ela e ficou um bom tempo por lá.
A punhalada não podia ter sido mais profunda. Eu sangrava. Entregara-me de corpo e alma para um mercador que só queria me usar para conseguir o tesouro de seu líder, mas que, antes de completar a tarefa, quis tirar algum proveito da valiosa mercadoria. Cretino! Miserável! Aos poucos eles foram saindo dali, deixando-me sozinha com a minha ferida aberta. Perdi a noção de quantos dias se passaram depois daquela noite. Não tinha mais interesse no fator tempo. Seguia com o grupo, cada vez mais sem forças. Meu corpo doía e eu não lhe dava atenção. Uma morta-viva. John Bentley parecia ser uma morte educada, serena. Apesar de atencioso aos itens básicos para a minha sobrevivência — sono, água e comida —, ele pouco se dirigia a mim. Não sei se era sua característica ou se apenas respeitava o meu doloroso silêncio.
Certa tarde, no entanto, algo diferente aconteceu.
Eu estava fraca, sentada num canto de uma oficina há muito abandonada. Era um lugar sujo e sombrio, como inúmeros outros pelos quais passamos. Normal. A diferença foi o que sucedeu nos minutos seguintes. Percebi um alvoroço além do habitual, mas não tinha acesso ao que estava acontecendo, e nem queria. A despeito da minha falta de interesse, era impossível não ouvir os diálogos berrados, cada vez mais ao meu alcance. Pelo que havia entendido, um de seus homens havia morrido em uma emboscada e o outro retornara seriamente ferido. De início achei graça. Afinal, não é todo dia que se vê uma morte morrer.
— O que houve? — vociferou John para o coitado em via de partida desta para uma melhor, ou seria pior? — Fale, homem! — ordenava.
— F-Foi Collin!
— É muito sério o que você está afirmando! Tem certeza disto? — John gritava.
— Tenho, John. Ele disse que Shakur vai destruir o nosso clã assim que souber que trapaceamos.
— Trapaceamos? O que você está dizendo, homem? Não entendo. Fale!
— Ele disse — e suas forças chegavam ao fim — que nós raptamos a garota, matamos Richard e ficamos com o dinheiro. Estão furiosos! Eles…
— Como?! Matamos Richard? Ficamos com as moedas de ouro? Fale mais, homem, fale! Eles sabem onde nós estamos? — John esbravejava, mas foi tudo que conseguiu sugar daquela pobre alma, se é que o coitado a tinha. Estava morto.
John começou a andar de um lado para o outro como uma fera enjaulada. Suas acentuadas sardas e os cabelos ruivos nunca estiveram tão vermelhos, em chamas. Seu rosto era a visão do desespero.
— Não pode ser! Ele nos trapaceou! Não estão vendo? Richard pegou o dinheiro para si próprio! Ele nos enganou e roubou os dois lados! Aquele ladrão! Trapaceiro! Ele vai ver quando eu puser as mãos nele… — irado, ele vomitava as palavras.
De início, também senti ódio mortal. Richard conseguia ser pior do que eu supunha. Salvou-me diversas vezes porque ainda não era a hora. Canalha! Não a minha hora, como me fez acreditar, mas a hora dele. A hora da sua bem bolada falcatrua. Depois até achei graça de tudo aquilo, achei graça da cólera de John. Seria ele capaz de sentir desespero ou só estava preocupado com a própria pele quando tivesse que prestar contas com o tal Kaller?
— Não podemos mais esperar!
— Mas ainda não estamos na data de passagem dela, John! Como a garota vai atravessar o portal? — perguntou aflito outro rapaz.
— A hora dela está se aproximando e, afinal de contas, quem nos garante que a data que ele nos deu é precisa? Richard mentiu o tempo todo, Tom! Temos que tentar! — esbravejava John.
— Adiantar nossos planos em vinte e quatro horas é muito arriscado — rebateu agitado. Reparei nele com atenção pela primeira vez. Tom era ruivo como John, e forte, muito forte, quase um halterofilista. Como os rapazes daquele mundo paralelo eram fortes! — Se ela conseguir a passagem antes do anoitecer, tudo bem, mas, após o anoitecer, você sabe que não poderemos entrar em Zyrk!
— Eu sei. Mas não temos alternativa — John respondeu sem muita convicção.
— Collin nos alcançará se tivermos que pernoitar por lá! — outro rapaz retrucou.
— Quem lhe garante que ele está por perto? Andem logo! Talvez o tempo esteja a nosso favor!
— Ou contra! — rosnou um terceiro rapaz, bastante contrariado. — Tudo por causa desta garota! Por que Kaller também não a quis morta como os outros?
A pergunta daquele rapaz me atingiu em cheio. Talvez tivesse sido bem melhor ter ficado sob os cuidados de Collin ou Kevin. A esta hora já estaria morta. Fim do meu sofrimento. Fim de uma jornada que nem deveria ter sido iniciada. Simplesmente, fim.
— Esta pergunta não nos cabe. Vamos! — rebateu John impaciente.
Os motores rugiram. Havia tensão no ar. E se houvesse de fato um confronto? E se me perdessem?
Penetramos no deserto sem a sua permissão. O sol cobrava o pedágio sobre nossos corpos, os redemoinhos de areia e vento navalhavam nossos rostos. A areia fofa dificultava o percurso, tornando-o hostil e penoso. A despeito do calor inclemente, meu coração estava congelado. Fui chacoalhada de meus martírios por um grito de pavor de um dos rapazes.
— John, temos que correr! Burt identificou homens de Collin a sete horas de distância do nosso grupo.
John, ao contrário do que eles imaginavam, não se afugentou. Agiu como um líder e, principalmente, como um estrategista. Com as motos ainda em movimento, ele deu comando para que todos reduzissem a velocidade e posicionando-se bem no meio deles, passou a traçar os passos seguintes, berrando como louco na tentativa de transpor os ruídos de fundo:
— Temos que dobrar este tempo! — bradou. — Owen, vá na frente e peça reforço em Zyrk. Eu seguirei para o portal, o mais rápido que conseguir, com mais dois homens me dando cobertura. Os demais ficarão na última saída a Leste.
O comando do embate estava agora realmente declarado.
— A saída Leste é muito óbvia, John! Eles devem estar planejando algo diferente! — berrava um dos motoqueiros.
— Se Richard estivesse com eles, seria provável que sim — confidenciou. — Mas Collin não teria capacidade para tanto, e esta é a nossa sorte.
Os rapazes sorriram. Ficara claro que John contava única e exclusivamente com uma arma: a estupidez de Collin. Os rapazes obedeceram e continuamos nosso caminho infernal.
A moto de John respondia com dificuldade aos seus comandos, sofrendo devido ao peso excedente: eu.
— Temos que descansar um pouco! A garota não está nada bem — ordenou John após algumas horas de viagem.
— Mas, John, estamos bem perto e ainda não tivemos qualquer notícia deles — argumentou um dos rapazes.
— De nada adiantará toda esta luta se eu entregá-la morta nos braços de Kaller. Vejam! Ela está ardendo em febre! Temos que hidratá-la e refrescá-la antes de continuar, senão ela não suportará a viagem restante.
— Vamos continuar. Eu aguento — rebati. Não que eu seja uma garota durona. Longe disso. Eu queria era levar meu corpo à exaustão máxima e, como prêmio, conseguir desfalecer e me ausentar daquela loucura. Sem que eu esperasse, John afagou meu rosto:
— Você é forte, garota. — Pela primeira vez, notei um brilho diferente em seus olhos cor de mel. — Gosto disso. — Ele me lançou um sorriso tímido e, após umedecer meu rosto em brasas com um pano molhado, tornou a comandar: — Vamos! Não temos tempo a perder! Logo vai anoitecer.
Meu esqueleto estava mole, desestruturado. John utilizou-se de uma corda e amarrou meu corpo ao dele, com medo que eu caísse. Era provável. Minha visão nítida e lúcida não era mais a mesma. As imagens iam e vinham sem que eu tivesse controle sobre elas. No entanto, uma paisagem imponente me trouxe à compreensão dos fatos por instantes. Uma enorme montanha rochosa. Rochas de todos os tamanhos esculpiam uma bela e interessante paisagem bem no meio daquele hostil oceano de areia fervente. Tive a impressão de que uma daquelas enormes rochas refletia o pôr do sol de maneira bem distinta das demais. Pura ilusão de ótica. Provável imaginação de meu estado perturbado.
— Vejam! Alguém esteve fazendo estrago recentemente por aqui. — O rapaz grandão tinha um risinho camuflado em seus lábios e apontava para uma dezena de corpos abatidos próximos à tal rocha.
— Confira os clãs, Yly! — ordenou John.
Meio receoso, o segundo rapaz desceu de sua moto e foi em direção aos homens caídos. Checou a mão direita de cada um daqueles coitados e berrou:
— Pertencem a Thron e Marmon!
— Estranho — John murmurou aflito. — Onde estão os resgatadores de Windston? Quem poderia ter feito isto? E por quê?
— Collin também tinha mandado homens para vigiar o portal. Não é tão estúpido assim, hein, John? — soltou ao longe o tal de Tom.
— Não acredito que tenha sido ideia dele — rebateu John. — Mas, de qualquer forma, estamos com sorte. — E, olhando para o segundo rapaz, ordenou:
— Vá logo Yly, enquanto ainda está claro!
Eu estava muito mal mesmo. Constatei meu péssimo estado mental quando um dos rapazes atravessou aquele monte de pedras reluzentes e desapareceu, deixando sua moto ali jogada. Estou tendo alucinações! Logo depois ele retornou, saindo das mesmas rochas e correndo em nossa direção.
— Tudo ok, John. O terreno está limpo.
— Com certeza Collin não acionou ninguém em Zyrk para que Shakur não ficasse sabendo que perdera a garota. Ele pode ser burro, mas dá bastante valor à vida! Conhece o pai que tem — concluiu John.
— Vamos tentar agora! Falta muito pouco para anoitecer! — gritou o outro, muito ansioso.
Por que eles teriam esta preocupação exagerada com o anoitecer?
John desamarrou a corda que nos unia e me desceu da moto. Seu rosto fixo no meu. Senti um tremor involuntário me atingindo. Se eu estivesse em condições normais, poderia jurar que o tremor era procedente de John e não do meu abatido corpo. Ele e o rapaz grandão jogaram meus braços frouxos por cima de seus ombros e me arrastaram lentamente até o mesmo lugar onde Yly havia desaparecido, no meio daquela montanha de rochas.
— Ai! — reclamei. — O que vocês estão fazendo?
— Ela ainda não pode passar pelo portal! Ainda não está na sua hora! — lamentou-se John.
— O que vamos fazer? — perguntou o tal de Yly, superaflito. — Logo eles estarão aqui! Já está anoitecendo e…
— Ainda temos tempo e… — interrompeu-o John. — Bem, lutaremos até o final, como é o nosso dever.
— Mas é certo que vamos morrer!
— Se quer ir embora, então vá agora! — ralhou John, mostrando-se um líder de fato.
— Desculpe. Ficarei — murmurou Yly, encurvando-se de vergonha.
John apenas assentiu com a cabeça, atento a tudo ao seu redor. Virou-se para mim com calma e perguntou:
— Nina, eu preciso que me escute com atenção, pense com calma e me responda. Sua mãe alguma vez lhe disse a exata hora em que você nasceu?
— Minha mãe? Hora? — balbuciei, mentalmente confusa.
— Sim, Nina. Algum comentário qualquer?
— Não — murmurei.
— Desista, John. Ela não está nada bem — concluiu Tom.
— Droga! O que vamos fazer? — John pôs as mãos no rosto, nervoso.
A sorte estava lançada.