Nas Cinzas

Eugène Berthoud · Capítulo 9 de 20

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Nas Cinzas

Capítulo IX

Charenton [2].

Mas o velho, sempre sério, tirou convulsivamente do bolso um grande maço de notas de banco, folheou-o{49} perante os olhares atónitos dos dois namorados, e repetiu, acentuando cada silaba: «Noventa e dois mil francos!» Tome lá, meu genro!{50}

 

IX

 

Sauvain abriu desmesuradamente os olhos. Tantos valores nas mãos do senhor Germinal, cuja miséria igualava a de Job!... O caso era de natureza a inspirar suposições extravagantes: até Rosa se inquietou.

—Como assim, meu pai! disse ela, tudo isso lhe pertence?

—Pertence-te a ti; pois que to dou.

—E de onde lhe veio tanta riqueza?

A fronte do velho enrugou-se; até aquele momento desenvolvera insólito desembaraço, mas a esta pergunta de sua filha, reapareceram o seu constrangimento anterior, o seu balbuciar e timidez habituais.

—De onde me veio este dinheiro!... retorquiu ele; queres sabe-lo?

—Certamente!...{51}

—Das minhas economias.

—Economias!... quando cem vezes nos tem faltado o necessário!... quando não era raro ignorarmos na véspera se jantaríamos no dia seguinte!

—Minha filha, é bom sofrer no presente para assegurar o futuro.

—Economias!... quando o pai, estando doente, ia morrendo por falta de remédios e de dinheiro para os comprar!

—Sou avarento!... balbuciou o senhor Germinal, evidentemente constrangido.

—Talvez... Mas explique-me por favor, meu pai, como pôde poupar perto de cem mil francos, dos seus seiscentos francos de ordenado?

—Há muito tempo que comecei, disse o velho enxugando o crânio; os pequenos regatos tornam-se em rios, os soldos transformam-se em francos, e os francos em notas do banco.

—Para isso mesmo era necessário recorrer ao cambista, e há doze anos que meu pai não põe os pés fora de casa!

—Estás importuna!... articulou o senhor Germinal, que, de amarelo cor de palha, passou ao amarelo do enxofre; além de que... há mais de doze anos que tive uma herança...

—Agora diz que o herdou!...

—Foi ainda em vida de sua mulher? perguntou André secamente. {52}

—Ao que parece...

—Entretanto, senhor, acaba de confiar-nos que a mãe de Rosa morreu à míngua do necessário!...

—Vão para o diabo! bradou o senhor Germinal. Dar-se-á acaso que me tomem por um ladrão?

—Meu pai!...

—Vizinho!...

—Minha filha... Meu amigo... Não querem o meu dinheiro, não é assim? julgam-no de origem impura? Pois não o queiram. Reembolso-o, e... basta de amor... nada de casamento! Voltemos para nossas casas, e não falemos mais em tal!

—Senhor, exclamou André, afiance-nos ao menos que existe um motivo grave que o obriga a ocultar a origem da sua riqueza!...

—Nada mais desejam?... Pois bem; é verdade, com a breca! Tenho um motivo grave... gravíssimo! tenho dez... tenho cem... tenho mil!

O senhor Germinal estava extremamente agitado.

—Porém, continuou André, como o consideramos um dos homens mais honrados deste mundo...

—Não carecemos saber mais nada, concluiu Rosa.

—Ora... ainda bem! Graças a Deus! exclamou o velho, respirando mais livremente.

E, enlaçando Rosa nos seus braços, envolveu-a num olhar cheio de ternura, e beijou-a na testa.

—Criança má!... murmurou ele, estás com{53} muita pressa de abandonar o teu velho pai?... Porque não esperas cinco ou seis anos?

—E quinze, porque não? resmoneou André.

—Nós não te deixaremos, papá!

O senhor Germinal abanou a cabeça.

—É o mesmo, acrescentou ele, foi uma grande tolice enamorares-te deste arganaz desengonçado!

—Obrigadíssimo pelo elogio, disse o pintor.

—E, a final de contas, se não casasses com ele... nem por isso adoecerias!

—Perdão, meu pai, respondeu Rosa resolutamente, morreria!

—Está bom! basta! interrompeu o velho assustado; já mo disseste... E foi mister essa ameaça, continuou ele entre dentes, para me resolver...

Não disse mais, soltou um suspiro, apalpou as notas do banco através do usado pano da sobre-casaca, e passados poucos segundos exclamou de súbito:

—Vamos! abracem-se diante de mim!

O pintor não se fez rogar, e as faces de Rosa tingiram-se de vivas cores.

—E trabalhe cada um por sua parte, prosseguiu o senhor Germinal. A riqueza de minha filha não deve impedi-lo de dar ao pincel, senhor Sauvain.

—Antes duplicará as minhas forças, lhe tornou André; quero ganhar um dote igual ao de Rosa, e... ganhá-lo-hei!{54}

—Então vá para o seu atelier, e volte depois para jantar connosco. À sobremesa fixaremos... sim, talvez possamos fixar o dia da cerimonia!

Quando acabou de proferir estas palavras, que visivelmente lhe custaram a soltar dos lábios, ouviu-se no pátio o rumor de uma violenta altercação.

Duas vozes masculinas, uma das quais era a da senhora Poussignol, discutiam calorosamente:

—Mas aonde vai o senhor?... uivava a barbuda porteira.

—A casa de um dos seus inquilinos, já lho disse, com mil demónios! respondeu um baixo profundo, de timbre metálico e pronúncia meridional.

—Qual inquilino?

—De certo o menos tolo.

—Isso não basta... Como se chama ele?

—Não sei.

—Ora essa!...

O senhor Germinal, ao ouvir o som de um órgão humano, mudara de semblante.

—Quem está aí? perguntou ele, quem é esse homem?... que quer?... Vamo-nos embora, não digam que estou em casa!

Os olhos rolavam-lhe assustados nas órbitas; os membros tremiam-lhe, os queixos batiam um no outro a seu pesar.

—Mas, disse Rosa, não pode ser para nós, meu pai; não conhecemos pessoa alguma!...{55}

—Vamo-nos... vamo-nos embora! repetia o velho.

—Que tem ele?... perguntou o pintor em voz baixa.

—Sempre esta doença nervosa! respondeu a jovem. A presença de um desconhecido transtorna-o completamente! Veja quem é, meu amigo... e sossegue-o.

André subiu a um banco, e olhou por cima da sebe. Viu a senhora Poussignol, calando baioneta com a vassoura, diante de um individuo de pequena estatura, largo de ombros, e de pernas arqueadas.

—Vamos! Rua! vociferava a digna mulher; falhou-lhe o plano; para cá vem barrado, freguês! Safe-se quanto antes, quando não grito «ó da guarda!»

—Não faça tanta bulha, tiasinha, cale-se aí!... Com mil amarras!... Por quem me toma, você?

—Por um velho larápio, que tratava de se encaixar cá em casa! Ah, seu grande velhaco! julgava que o não viam, quando passou diante da minha loja?

Uma gargalhada sonora acolheu a conjectura da porteira, e o desconhecido fez uma pirueta, apertando as ilhargas. Resultou deste movimento achar-se em frente de André, cujo rosto admirado aparecia por cima da sebe de buxo.

—Ah, ah! exclamou ele; eis o meu homem! E,{56} caminhando direito ao pintor, estendeu-lhe a mão, gritando:

—Como passa, querido amigo, cujo nome ignoro! Estou encantado pelo encontrar!

Depois, vendo o senhor Germinal e sua filha, tirou o chapéu e cumprimentou-os com galantaria.

—Desculpe-me, senhor; peço mil perdões, menina, se os interrompo na sua conversação... São apenas duas palavras que tenho a dizer ao meu jovem amigo. Permitam-me que lho roube por um segundo...

—Perdão, senhor, disse André, estupefacto; a quem tenho a honra de falar?

—Que diabo!... pois não me reconhece?

—Confesso que não.

—Ora olhe bem para mim, com a breca!

André olhou. A sua verificação deu em resultado: uma cabeça calva, um nariz cor de violeta, uma comprida barba de duas pontas, um casaco sórdido, umas botas acalcanhadas, e um chapéu pardo. Tudo isto, iluminado por dois olhos buliçosos, brilhantes e cheios de malícia, despertou-lhe pouco a pouco a memoria...

—Então não se recorda? perguntou o recém-chegado.

—Ora espere!...

—Em 24 de Dezembro, à noite... na véspera de Natal...{57}

—Ah!... sim!...

—Defronte da vidraça...

—De uma casa de pasto, concluiu o pintor. Estou às suas ordens, meu bravo!

Durante este tempo, o senhor Germinal, convencido de que o objecto da visita lhe não dizia respeito, voltara a si do seu estranho pavor. Esfregava lentamente as mãos, soprando como uma baleia ferida. Rosa contemplava Pedro Toucard.

—É um novo conhecimento, disse-lhe baixinho André, sorrindo-se; esta noite lhe contarei como o adquiri.

E despediu-se do pai e da filha.

—Senhor... Menina... disse Pedro Toucard, saudando os dois, tenho a honra de apresentar-lhes os meus respeitos... Linda criatura, com mil amarras! observou ele a André, seguindo-o; e o pai parece bom homem...{58}