Nas Cinzas
Capítulo II
Foi apenas um relâmpago. A visão desaparecera; a janela fechou-se. E André, querendo continuar o seu trabalho, não pôde, porque lhe tremiam os dedos; abandonou a palheta, e foi sentar-se a um dos cantos da casa com os cotovelos fincados nos joelhos e a cabeça entre as mãos. A noite veio surpreende-lo assim. Então cada objecto assumiu para ele um aspecto fantástico; parecia-lhe que, em volta de si, aromatizava o ar um suave perfume de violetas; aplicou o ouvido, e julgou perceber o eco longínquo de uma cançoneta; olhou para o seu quadro, e só viu nele um turbilhão de cabeças louras, iluminadas por grandes olhos pretos.
E por toda a parte, no centro da casa, por detrás dos modelos de gesso e dos cavaletes, nas paredes nuas, entre as vigas do tecto, no meio das telas esboçadas, afigurava-se-lhe sempre ver um sorriso de anjo, um ramo de violetas, uns olhos negros e uns cabelos louros.
—Será assim que nasce o amor? perguntou André a si próprio, tomando-se o pulso. Depois, levantou-se aterrado:
—Se amo, estou perdido! exclamou ele. Vamos jantar!{9}
II
Nesse tempo (refiro-me ao ano da graça de 1853) André Sauvain, bem que fosse proprietário, não jantava todos os dias. Verdade é que a sua propriedade não valia sessenta escudos, e não lhe rendia sequer um franco! Consistia numa casa velha e pequena, num recanto da Normandia; uma ruína musgosa e enegrecida, sempre abalada pelos ventos da costa. Mesmo assim, André podia te-la vendido a algum pescador, mas nem a mais horrível miséria o determinaria a tal: apegara-se-lhe o coração àquele pardieiro pelas raízes profundas, a que chamam recordações; tinha lá nascido e lá morrera sua mãe.
Além da humilde casinha de seus pais, André Sauvain só possuía... a sua pessoa: nem um parente, nem uma amante, nem um amigo, nem um cão! Devera ter começado por dizer: nem um soldo!{10} O resto depreendia-se por simples ilação. Vivia de esperanças e de privações; frugal alimento, que o conservava sadio e alegre. Tanto de verão como de inverno, levantava-se com a aurora, pintava até à tardinha, e aproveitava-se da escuridão para percorrer Paris em todas as direcções; depois recolhia extenuado de fadiga, deitava-se às apalpadelas, para economizar azeite, e dormia a sono solto. Estas caminhadas pelas trevas restabeleciam-lhe a circulação do sangue e entretinham-lhe a actividade do cérebro. De noite, as ruas inspiram os cismadores. Parece que aquelas grandes artérias, onde circulam sem cessar correntes humanas, estão saturadas de fluidos intelectuais, e que as ideias se exalam do solo em vapores invisíveis...
Aqueles prodigiosos passeios eram as únicas extravagâncias de André. Habitava Paris havia doze anos, e nunca quisera saber de outros divertimentos, que não fossem os museus e as bibliotecas. Do teatro abstinha-se ele com extremo cuidado, reflectindo em que um bilhete de plateia lhe cerceava dois dias de subsistência.
Além de que, alimentava na mente uma quimera, como dantes se
mantinha um [1] terno à loteria; consistia ela em reunir alguns centos de francos,{11} não só para reparar o famoso pardieiro natal, mas ainda para cobrir com modesta lousa a pobre viúva, que repousava a um canto do pequeno cemitério da aldeia.
Eis porque, nessa tarde, fugindo do seu atelier, onde perigosas imagens lhe perturbavam o espírito, exclamou: «Se amo, estou perdido! O amor e o trabalho são dois inimigos mortais. Não amemos!»