Nas Cinzas

Eugène Berthoud · Capítulo 20 de 20

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Nas Cinzas

Capítulo XX

E saiu.{142}

 

XX

 

Imaginem um homem caído do alto de uma torre, uma massa de carne ensanguentada, que ainda respira. Os olhos vêem tudo cor de sangue; os ouvidos só recebem rugidos confusos; a inteligência flutua ao acaso; e o corpo inerte, despedaçado, inútil, sofre demasiado para continuar a viver, mas não o bastante para conseguir morrer.

Assim estava André Sauvain.

Precipitado do alto das suas esperanças, vegetou quinze dias sem pensar, sem acção, sem ter consciência do tempo, nem das alternativas do sol e das trevas, que se sucediam regularmente na marcha imutável das horas.

Porém, um dia, despertou de súbito daquela assustadora prostração.

Ergueu-se, frio e resoluto, juntou os quatro retratos{143} de Rosa, que pintara na época da sua felicidade, e dispo-los nos cavaletes, em volta de si, nas condições de luz mais favoráveis; depois, fechou à chave a porta do atelier e desprendeu da parede uma pistola, que cuidadosamente carregou.

Feito isto, pousou a arma sobre a mesa, ao alcance da mão.

Davam onze horas num relógio próximo.

—Á última pancada do meio dia, disse André falando consigo, farei saltar os miolos.

Era uma espécie de prazo, que concedia à Providência. E com efeito, não podia Rosa regressar, nesses sessenta minutos?... O acaso tem tantos recursos!...

Encostou-se sobre os cotovelos, pensativo e com a vista fixa nos quatro retratos... Acariciando com o olhar aqueles rostos, risonhos e suaves, aquelas pupilas límpidas, aquelas frontes resplendentes de inocência, André recomendava-se às recordações da sua amada, e os seus lábios murmuravam palavras ininteligíveis.

Deu meio dia.

André pegou na pistola.

—Uma carta para o senhor Sauvain: disse nesse momento uma voz, de fora.

—Uma carta?... repetiu André, uma carta dela!... Era tempo!

Atirou a arma para o fundo de uma gaveta, abriu{144} a porta, pegou na carta, e levou-a com gesto de avaro para um canto da janela.

Não era de Rosa!

A missiva dimanava prosaicamente do arquitecto de Granville, reclamando algum dinheiro, à conta, pelas reparações da casa.

André ficou aterrado.

Apagara-se-lhe da memoria aquela dívida sagrada. Recordava-se dela agora, mas não tinha dinheiro, e só o trabalho podia dar-lho.

Portanto... nem sequer tinha a liberdade de morrer!

O pintor apelou, com desespero, para a sua antiga energia.

—Vamos!... pensou ele, mais uns dias de coragem e de tortura!... Ganhemos, com o suor do rosto, o direito ao eterno repouso!

E lívido, desfalecido, vacilante, dirigiu-se ao seu comprador de quadros, e pediu-lhe que lhe adiantasse a soma de que precisava.

O industrial anuiu de bom grado.

—Esperava-o com impaciência, disse-lhe este homem; apresenta-se agora uma ocasião, magnífica para si, e bastante lucrativa.

—Seja como for, disse Sauvain, aproveito-a.

—Eis o negócio: um dos meus fregueses acaba de comprar, nos arredores de Paris, uma casa, que deseja ornar o mais elegantemente possível. Pediu-me{145} que o relacionasse com um pintor de talento, e eu falei-lhe no senhor. Trata-se de alguns quadros e muitas pinturas a fresco; convém-lhe?

—Convém.

—Nesse caso, é necessário começar a obra quanto antes. O meu freguês habita na sua propriedade: vá procurá-lo. É um homem generoso e inteligente. O senhor entender-se-á perfeitamente com ele.

—Como se chama?

—Aqui está a direcção: «Monsieur Nuavias, em Audily-Seine-et-Oise». É no vale de Montmorency, a dois passos da floresta. O sítio é delicioso, e creio que o senhor não terá razão de queixa.

—Irei amanhã, disse André. Com efeito, no dia seguinte, Sauvain desembarcou em Audily pelas três horas da tarde. Não pôde conseguir que lhe indicassem a casa do senhor Nuavias, porque ninguém conhecia aquele nome, o qual decerto era novo no país; mas, após diferentes investigações, descobriu, a dois tiros de espingarda da vila, um pequeno castelo, que alvejava no cume de uma pitoresca colina.

—Deve ser ali, disse ele consigo. Uma gradaria de ferro, delicadamente trabalhado e com portão ao centro, separava da estrada pública os jardins do castelo, permitindo aos transeuntes admirar a alameda, tapetada de verde relva,{146} que se estendia em suave declive até à entrada do edifício, o qual primava pela sua elegante simplicidade. Dois pavilhões simetricamente dispostos de cada lado da grade, pareciam destinados, um para cavalariça, e o outro para habitação do porteiro. Este individuo destacava, no limiar do portão, tomando o fresco e olhando para as moscas.

Era um homem gordo, de rosto jovial e rubicundo, com o pescoço descoberto, ermo de pelos e enrugado como o de uma perua. Usava enormes brincos nas orelhas, e notava-se-lhe numa das faces prodigiosa inchação.

—Mora aqui o senhor Nuavias? perguntou André.

A esta interpelação, o porteiro nada respondeu. Lançou um jacto de saliva negra, fitando André, a quem mediu de alto a baixo. O volume da face direita passou para a esquerda: o inchaço era de tabaco.

—Ao que parece, disse ele, o senhor é o tal pintor?

—Ah! exclamou Sauvain admirado, já estão prevenidos da minha chegada?

O homem obeso assumiu ar malicioso, piscou os olhos, deitou a língua de fora, e entrou num acesso de muda hilaridade, que lhe fazia oscilar o abdómen e retinir os brincos.

—Os artistas são alegres... murmurou ele. Temos muito que rir, se o senhor também entra...{147}

—Se entro!... em quê?

—Na farsa.

—Qual farsa?

—A que vai representar-se.

—A quem?

—Ao senhor Nuavias, já se vê!

—Não entendo.

—Ah; bom! faz-se de novas... Basta!... Bico calado! Faça conta de que eu nada disse... Suponha que me não participaram coisa alguma... que ignoro tudo...

E os brincos a tinirem, e o abdómen a dançar, e o rosto passando de vermelhusco a purpúreo, e de purpúreo a roxo.

—Seu amo está cá? lhe tornou Sauvain com impaciência.

—Não, senhor, respondeu o faceto porteiro quase sem fôlego; ainda não veio. Ora!... o senhor bem o sabe, visto que entra na conspiração.

—Eu!... Está enganado.

—Ele não deve tardar. Vamos divertir-nos muito, esta tarde... Regozijo-me de antemão, palavra de Jacinto!

—Esses negócios não são da minha conta, disse André. Na ausência do senhor Nuavias posso ver a casa?

—Certamente! Tenha a bondade de passear um momento no jardim, enquanto eu enfio um casaco e{148} vou buscar as chaves. Não me demoro cinco minutos.

André fez um sinal de anuência, e dirigiu-se pensativo para uma rua arborizada. Primeiramente, o ar livre pesou-lhe um pouco no cérebro fatigado, mas bem depressa o gracioso aspecto do jardim lhe acalmou o espírito.

Flores em profusão, cascatas e fontes, um pequeno bosque, frondosas árvores, povoadas de chilreantes passarinhos, rodeavam o castelo num círculo encantado. O sol do outono, já declinando para o horizonte, derramava sobre tudo aquilo ondas de luz e matizava-o de vivas cores; o dia extinguia-se lentamente; nuvens de opala flutuavam na atmosfera, orlando o céu azul.

Como podia o pintor alimentar ideias de morte em face daquele panorama tão tranquilo, e ao mesmo tempo tão cheio de vida?... Nenhum rumor se ouvia; nem um som, além dos agudos assobios dos melros, e dos seus próprios passos sobre a areia. André sentiu percorrer-lhe as veias delicioso frescor; a brisa da tarde, morna, pura, embalsamada de mil perfumes, transformou a sua agitação nervosa numa languidez fantasiadora. E, enquanto o sol, próximo do seu ocaso, lhe estendia aos pés as trémulas sombras da folhagem, chegou a invejar a posse daquele sossegado Éden.

Como seria feliz com Rosa num semelhante retiro!{149} Que delicia lhes seria vaguearem a sós, silenciosos, com os braços enlaçados, por aquelas alamedas misteriosas! ele... a rever-se em dois olhos pretos radiantes... e a beijar uns louros cabelos, que a brisa complacente traria para junto de seus lábios! E mais tarde... que delicia, ainda, contemplarem ambos uma linda criança, brincando alegre na relva do parque!...

A voz do porteiro arrancou bruscamente André àquelas perigosas alucinações.

O honrado Jacinto vinha risonho, gracejador, trajando soberba libré, e munido de nova dose de tabaco.

—Se o senhor quer ver as salas, estou pronto para lhas mostrar.

André seguiu-o distraidamente. O interior da casa correspondia ao exterior. Tudo era rico e de bom gosto; somente, na sua disposição, faltava talvez um certo cunho de elegância íntima, que revela sempre a presença de uma mulher.

—O sr. Nuavias é casado? perguntou Sauvain.

—Ainda não, mas não tardará, disse Jacinto, soprando como um cachalote. Deveras... o senhor não está na confidencia?

—Nem pouco, nem muito!

—Pois bem! é precisamente a respeito do seu próximo casamento, que se prepara uma surpresa ao senhor Nuavias.{150}

—E essa surpresa em que consiste?

—Isso é querer saber muito! Parece-me que vai haver grande risota, e eu já começo a rir, só com essa ideia!... Demais, a futura será igualmente mistificada.

—Ela é bonita?

—Encantadora, segundo dizem.

—Nova?

—Muito nova.

—E ele?

—Também é moço.

—Amam-se?

—Apaixonadamente!

André suspirou.

Nesse momento ouviu-se o rápido rodar de uma carruagem.

—É o patrão! exclamou Jacinto. Bravo! a coisa vai principiar. E um rir, silencioso e desordenado, agitou-o desde o topo até à base, pondo em movimento as suas bochechas escarlates, que se tornaram roxas.

—Ufa! arrebento de riso, com certeza! balbuciou ele, meio-sufocado. Mas não se impaciente, que já vou dizer a meu amo que o senhor o procura.

E saiu, apertando as ilhargas.

André encostou a fronte ao caixilho de uma janela. O dia declinava; espalhava-se pelas avenidas um vapor azulado, e, impelidas pela aragem, as{151} flores dos canteiros balouçavam-se como turíbulos.

André padecia. Aquele recôndito lugar, aquela pacífica habitação, aqueles jovens para ele desconhecidos, que a felicidade ia para sempre reunir, tudo enfim... até a alegria daquele criado burlesco, lhe pesava no coração, reabrindo-lhe as feridas que vinha ali buscar... ele, o inconsolável!... àquele retiro festivo? Que figura faria, se o envolvessem na turba indiferente dos convivas descuidosos?

Ao pensar nisto, assaltaram-no os receios, mas... era demasiado tarde. Jacinto surgiu, perfilou-se defronte dele, piscou os olhos, abanou a cabeça, mordeu o lenço para não estoirar de riso, depois conduziu o pintor através de uma enfiada de quartos, empurrou-o para o meio de uma vasta sala, já invadida pelas sombras do crepúsculo, e fugiu.

Ao principio, Sauvain julgou-se só.

Por uma grande porta envidraçada, que abria para o jardim, penetravam livremente os aromas da tarde. Nada se movia; porém André distinguiu, dentro em pouco, a um canto do fogão, que acabava de apagar-se, os contornos indecisos de uma mulher sentada.

—Minha senhora... balbuciou ele, inclinando-se.

Um grito vibrou, como uma nota de cristal.

—André... É André!...

E a forma vaga ergueu-se de súbito. Um último{152} raio de sol, que borboleteava nas vidraças, iluminou um perfil de anjo.

Esse grito, essa voz, essa visão, penetraram no peito de Sauvain, como uma lâmina de oiro. Oscilou e caiu de joelhos.

—Rosa!... murmurou ele, és tu?... ou é o teu fantasma?...

Um fantasma! Não: foi bem realmente um corpo de donzela, um corpo flexível e palpitante, que se lhe lançou nos braços! Foram duas mãos pequeninas, mas bem vivas, que lhe enlaçaram o pescoço! Foi o puro hálito de Rosa, que lhe deslizou nos lábios!

E André, deslumbrado, louco, fora de si, ébrio de felicidade, embebia-se na contemplação de um rosto bem real, de um rosto adorado, de um rosto comovido, radiante de júbilo, envolto numa auréola de cabelos louros...

Entretanto, mais outra forma vaga subia nesse momento as escadas do terraço. Parou estupefacto. Desta vez, era uma sombra masculina, uma sombra estreita e alongada, trajando fantásticas vestes, que ondeavam em volta dela, como um lençol cor de ferrugem dependurado num pau.

A sombra não soltou uma palavra, como convém a uma sombra que se respeita; porém, um som singular atravessou o espaço; jurar-se-ia que a sombra estava raspando uma noz moscada. A este ruído prolongado, os dois jovens despertaram do seu êxtase,{153} e André, chorando e rindo ao mesmo tempo, André mais ébrio do que se tivesse esvaziado seis garrafas de Champanhe, atirou-se ao pescoço da sombra, exclamando:

—Adivinho tudo!... adivinho tudo!... Obrigado... obrigado, meu querido sogro!

A sombra debateu-se violentamente.

—O senhor!... Com a fortuna! Que faz aqui?

—Ora essa!... Abraço-o.

—Quer dizer... que abraçava minha filha?

—Não o nego, meu sogro.

—E eu nego-lhe o direito de chamar-me assim... Proíbo-o!...

—Ora!...

—Não há ora, nem meia ora... Vamos! largue-me!...

—Meu velho amigo!... meu excelente vizinho!...

—Largue-me, com trezentos demónios!...

—Pois sim, meu caro sogro: o gracejo foi delicioso... mas, de que serve prolongá-lo? Sejamos felizes... que não é sem tempo!

—O senhor zomba de mim?

—Eu!... zombar! Ah? antes beijaria o rasto dos seus passos! Zombar, quando a sua presença e a de Rosa, aqui, em casa estranha, sobre este terreno neutro, onde de certo esperava encontrar-me, me provam que...{154}

—Com a breca! interrompeu o senhor Germinal; é de uma rara impudência!... Pretende acaso dizer...

—Que o enterneceram a minha dor e as lágrimas de Rosa... enfim, que é o melhor dos homens? Sim? meu sogro! é o que eu quis dizer: abracemo-nos!...

—Para trás, senhor! bradou o velho exasperado, não junte o escárnio à sua indigna acção!

—Como!... disse o pintor estupefacto; de que escárnio... de que acção indigna fala?

—Sim... finja-se surpreendido! se lhe parece, negue que me atraiu aqui enganado! negue as suas tenebrosas maquinações! Ah!... julgou que triunfaria por uma cilada?

—Eu!...

—Pois bem!... desengane-se! A minha decisão é irrevogável! Não possuirá minha filha!

—Uma cilada!... eu, que o supunha longe de França! eu, que teria dado vinte anos da minha vida para descobrir...

—Jesus! que mentiroso!... exclamou Rosa, sorrindo-se. E as minhas cartas?... acrescentou ela em voz baixa.

—As suas cartas! Meu Deus!... Rosa, de que cartas fala?

—De muitas, que lhe enviei às escondidas?

—Pois escreveu-me?... a mim...{155}

—Sim, senhor, oito ou dez cartas que todas ficaram sem resposta!

—Foram doze, minha filha, disse gravemente o senhor Germinal; tenho-as aqui no bolso.

—Tem-nas?... Oh, meu pai!... É bem mal feito!...

—Horrível, minha filha!... Teria sido mais moral não interceptar a correspondência amorosa, não te parece?

—Confesse ao menos, senhor, disse Sauvain, que uma cilada da minha parte era impossível!...

—Mas... que outra intenção podia trazê-lo aqui? Faz favor de dizer-me?

—Simplesmente a de pintar tectos e bandeiras de portas!

—E a nós, disse Rosa, a esperança de uma encomenda importante; pois eu continuo a fazer flores, e o dono desta casa deseja uma porção delas considerável.

—O senhor Nuavias?

—Sim.

—Quem lho inculcou?

—A modista, para quem trabalho. E André?

—O meu comprador de quadros.

—Os diabos levem o acaso! rosnou o senhor Germinal.

—O acaso!... suspirou André; divino acaso, ou{156} antes Providência, que me restituis a minha Rosa e o meu velho amigo, sê mil vezes bendita!...

—Senhor, disse Germinal, delira certamente!...

—Creio que sim, meu sogro... e muito!

—Já fez fortuna?

—Oh, muito pouca!

—E ainda ama minha filha?

—Apaixonadamente!

—Contudo renuncia à sua mão?

—Isso de modo nenhum!...

—Então, nada de amizade, nem de relações entre nós!... Vá para o diabo!

—Porém...

—Não lhe dou minha filha!

—Entretanto...

—Não casa com minha filha!... Não casa com minha filha!... Não casa com minha filha! Já disse.

O senhor Germinal esganiçava-se debalde; André tinha mais sólidos pulmões, e por isso facilmente cobriu o timbre de cana rachada do seu adversário, bramindo:

—Casarei, com ela, ou deixarei de ser quem sou!

Enfim, a sua cólera fazia explosão. André estava farto de sofrer; e, sorrindo em ar de desafio, valeu-se da escuridão da sala para beijar Rosa, unindo-a docemente ao coração.

Mas, se a voz do senhor Germinal era fraca, em compensação tinha olhos de lince.{157}

—Ah! Vocês querem brincar comigo?... Rosa! o teu xaile... o teu chapéu... Partamos imediatamente!

—Ainda não! exclamou, da porta, uma voz de baixo-profundo.

E logo a sala se iluminou de súbita e viva claridade.

No limiar, entre dois lacaios agaloados, empunhando cada um deles uma serpentina, carregada de velas cor de rosa, apareceu um personagem baixo, de espessa e forte construção, enluvado de fresco, engravatado de branco, vestido de preto, e rescendendo a aromas, que perfumavam o recinto a dez passos de distância. Avançou majestosamente, com os polegares suspensos nas algibeiras do seu faustoso colete, e fazendo ouvir no sobrado o ranger de umas botas novas.

O senhor Germinal e André suspenderam os seus clamores, e inclinaram-se confusos.

—Então!... exclamou o magnífico intruso; há bulhas aqui? Com mil amarras!...

—Pedro Toucard!... exclamaram os assistentes. Era Pedro, sem dúvida... Pedro, o aventureiro! Mas, que transformação!...

Abolida a barba de duas pontas; conservava apenas uma estreita suíça, curta, bem talhada, macia e frisada. O seu crânio resplandecia, como um espelho: ter-se-iam mirado nele as andorinhas em{158} pleno dia. Uma cadeia de oiro, da grossura de um dedo, pendia sobre o seu orgulhoso abdómen as cabeludas falanges estavam meio-estranguladas por enormes anéis; as algibeiras, prodigiosamente entumecidas, transbordavam de napoleões.

Fez um sinal, e os criados pousaram os candelabros; a outro sinal, desapareceram todos eles, mais as suas cabeleiras empoadas e os seus calções curtos, que punham em relevo postiças barrigas de pernas, de dimensões enormes. Pedro sentou-se ao pé do fogão, apoderou-se das tenazes e atiçou o lume.

Uma chama cintilante crepitou no fundo da fornalha; os seus reflexos dançaram alegremente sobre os móveis esculpidos, sobre o luzidio sobrado, e sobre as guarnições de seda azul com franjas de prata.

—Chegue-se para o lume, compadre! as noites estão frias. Aproxime-se do fogão, minha linda menina!... e também o senhor, amigo Sauvain!...

Disse. E era espectáculo digno de admirar-se o sorriso diabólico de Pedro, o perfil espantado do pintor, os olhos maravilhados de Rosa, e a boca aberta do senhor Germinal.

Toucard cruzou a perna direita sobre a esquerda, e afagando o queixo escanhoado, continuou:

—Olá, meus meninos! parece-me que se mostram demasiado frios para com um homem, que os reuniu... contra vento e maré!{159}

—Pois foi o senhor!... exclamou André. E os dois amantes estreitaram as, mãos do aventureiro.

—Sim, meu rapaz, fui eu que descobri o ninho desta linda ave do paraíso.

—Senhor, disse Sauvain, o que acaba de praticar absolve-o de todas as suas culpas!

—Apre!... então passa-me quitação das noventa e duas mil libras?

—De todo o coração! suspirou o pintor; ainda que...

—Ainda que lhe fariam óptimo arranjo, na presente conjuntura; não é assim? E a menina Rosa não me recompensará também?

—Bem o desejara, disse ela, apresentando a cândida fronte aos lábios encortiçados do velho; mas, por muito reconhecida que lhe seja, não posso...

—Não pode oferecer senão o que tem, e eu contento-me!... disse Pedro, entre dois estrondosos beijos. Obrigado, minha linda fada; heis-me rejuvenescido!

—Que significa isto? bradou o senhor Germinal. Caçoam comigo!.... Não sou aqui ninguém?... Com a breca!...

—O compadre, disse Toucard com ironia, é, como nós, hospede do senhor Nuavias; e, nessa qualidade, seria de mau gosto fazer bulha em sua casa. Mas... acrescentou, interrompendo-se de súbito, que é aquilo?... que vejo eu ali?{160}

—Onde?

—Acolá... nas cinzas... Rosa inclinou-se para o fogão.

—É uma chave! exclamou ela.

—Com efeito, disse André apanhando-a, é uma pequena chave, que me faz recordar...

—Oh!... A que demónio de fechadura pertencerá ela? regougou Pedro.

E inequívoca expressão de benévola malícia transparecia no seu enrugado rosto.

—Ah! agora penso eu... Não servirá por acaso essa chavinha naquele cofre, que ali está?... atrás de si... sobre a jardineira...

André voltou-se e viu uma caixa de conchinhas, muito semelhante à que deixara em Granville, na sua arca de nogueira.

—Recorda-se?... perguntou Pedro, apoiando-se-lhe no ombro. Foi dum cofrezinho igual que o senhor desenterrou a única acção louvável da minha vida: estas caixas são de bom agouro!

E dirigindo-se a Rosa:

—Veja o que essa contém, minha linda; uma chave, que desce pelo tubo da chaminé, merece atenção!... Seria algum génio benfazejo, que a deixou cair? Reviste sempre, Rosinha!...

—Infeliz! bradou o senhor Germinal; vai cometer um abuso de confiança!... Que dirá o senhor Nuavias?{161}

—Aprovará, compadre: fico por isso. Procure, minha linda Rosa, procure...

A jovem não se fez rogar; o seu instinto de mulher segredava-lhe que o génio benfazejo era Pedro, e que ele conduzia rapidamente as coisas para um desenredo agradável.

Abriu a caixa, e tirou de dentro um maço de papeis cetinosos.

—Notas do banco!... exclamou ela.

—Devem ser noventa e duas, disse o aventureiro, as mesmas que o senhor Germinal destinava para o dote de Rosa; ora, como não é possível dar-lhes melhor aplicação, o senhor Nuavias resolveu restituir-lhas. Tome-as lá, compadre...

—A mim!... Eu!... balbuciou o senhor Germinal. Mas como?... porquê?... com que direito?... o que significa?...

—Tanta pergunta ao mesmo tempo! Vá sempre guardando... Continue a buscar, minha filha...

Um adereço de diamantes!... e um colar de pérolas!... murmurou Rosa, deslumbrada.

—Isso é consigo, minha menina. É o presente de noivado do senhor Nuavias... Procure mais...

—Mas enfim, disse o senhor Germinal, suando em bagas, esse Nuavias é o senhor, ou é o diabo?...

—Nem um, nem outro... Querem conhecê-lo?{162}

—Quero... quero... quero... gritaram três vozes ansiosas.

—Pois bem! Esse jovem e belo senhor Nuavias, esse feliz senhor Nuavias, que dentro em quinze dias vai desposar uma encantadora menina; esse afortunado senhor Nuavias, de quem somos hospedes, é...

—É... quem?

—André.

—Eu!...

—Sim? sem a menor dúvida! Nuavias é apenas o anagrama de Sauvain.

—Porém, esta casa...

—Ah! tem razão... Esta casa... Ora queira procurar novamente na caixa, senhora noiva...

Na caixa havia ainda outros papeis; mas esses eram espessos, pesados, com selo, cobertos de maçuda escrita, e rubricados por dois tabeliães. Continham um acto legal e autêntico, assegurando a André Sauvain a propriedade de uma casa, situada em Audily (Seine-et-Oise).

—Senhor!... exclamou o pintor fora de si, é demais!... É demais!... Não posso aceitar...

Pedro interrompeu-o com gesto suplicante; a sua fisionomia tornara-se grave e sisuda.

—Meu querido amigo, disse ele com voz comovida, permita-me que resgate, a meu modo os erros passados... Talvez devesse te-lo feito mais cedo...{163} Mas, se prolonguei por alguns dias as suas mágoas, se me apresentei em sua casa sob farrapos mentirosos, foi porque ainda não tinha encontrado Rosa, e queria entregar-lha juntamente com o seu património. Dessa experiência, saiu o senhor vitorioso; outro qualquer ter-me-ia morto, porém o senhor... coração nobilíssimo!... para o homem, que lhe despedaçara a vida, teve ainda uma última e sublime esmola!... Pois bem! seja generoso até ao fim... não recuse os meus dons... não me deixe remorsos...

—Cumpra-se o seu desejo, respondeu Sauvain. Aceito este oásis encantador... com a condição, porém, de restituir-lho quando a fortuna o houver atraiçoado.

—Com mil amarras!... Espere por isso! Graças a Deus, estou curado da febre de traficar; viverei como um bom burguês; o meu amigo Germinal ensinar-me-á o gamão; e nunca mais especularei, senão em sonhos.

—Pelo amor de Deus, murmurou o pai de Rosa, expliquem-me de que se trata!... Que diabo está o senhor para aí a falar em erros, remorsos, e património?... Que significa todo esse aranzel?...

—Significa, respondeu o aventureiro, que encontrei no meu caminho duas virtudes raras, e tão raras que me converteram...

—E quais são essas virtudes?...{164}

—O perdão das injúrias, disse Pedro, apertando a mão a André... e a inteira probidade, acrescentou, estendendo a outra ao senhor Germinal.

Este esfregou desesperadamente o seu ferruginoso crânio.

—Tudo isso para mim é hebraico, replicou o pai de Rosa. A única coisa, que pude coligir, foi que o senhor está milionário!...

—É verdade, meu bom amigo. A sorte favorece os doidos. Esse depósito sagrado, pelo qual velou durante doze anos, como homem probo, que é, arrisquei-o eu, sem reflectir, num lance de dados... Ganhei... Sou portanto um grande especulador. Mas... se tivesse perdido?... Quando penso nisso, sobe-me o coração à garganta, e sinto-me tremer como... como o seu Faust au sabbat, André!... um quadro admirável! que, entre parêntesis, possuo em Paris no meu palacete, e pelo qual me ofereceram já o seu peso em oiro?

—De modo que, disse o pintor, o meu mercador de quadros entrava na conspiração?... Traidor!...

—Ora!... e também a modista, para quem fazia flores a menina Rosa, os criados desta casa, e até o pateta do Jacinto, antigo marinheiro, que eu elevei à categoria de guarda-portão, e que hoje tomo a liberdade de recomendar à sua benevolência.

—Oh! quanto a esse, disse Sauvain rindo, é possível{165} que tentassem inicia-lo no segredo, mas assevero-lhe que nada percebeu!

—Nem eu tão pouco, palavra de honra! replicou sinceramente o senhor Germinal, e por isso... meto a viola no saco. Toque nestes ossos, meu genro!

—Com mil vontades! exclamou alegremente o pintor, apertando nas mãos a garra descarnada do pai da sua noiva. Estava escrito que, riqueza, gloria e felicidade, tudo encontraria...

—NAS CINZAS, concluiu Pedro Toucard.

 

FIM

[1] Reunião de três números, cuja extracção simultânea era uma sorte

feliz.

[2] Hospital de alienados.

OBRAS PUBLICADAS

PELA

 

EMPRESA EDITORA CARVALHO & C.ª

TEATRO

Os sabichões—Comédia original em 4 actos, por E. Biester,

250

Ao calçar das luvas—Comédia original em 1 acto, por Rangel

de Lima, 100

O afilhado de Pompignac—Comédia (tradução) em 4 actos,

por L. C. M., 200

Um homem político—Comédia (imitação) em 3 actos por

Aristides Abranches, 200

O fidalguinho—Comédia original em 3 actos, por Ferreira de

Mesquita, 200

Abençoado progresso—Comédia original em 1 acto, por

Rangel de Lima, 100

As campainhas—Comédia (tradução) em 1 acto, por Pinheiro

Chagas, 100

João o britador—Drama (tradução) em 5 actos, por L. C. M.,

250

As três rocas de cristal—Mágica em 3 actos e 17 quadros,

por Aristides Abranches, 300

A família—Drama original em 5 actos, por J. R. Cordeiro, 300

Quem desdenha—Comédia original em 1 acto, por Pinheiro

Chagas, 100

Caso de consciência—Comédia (tradução) em 1 acto, por

Pinheiro Chagas, 100

Luís XI e o poeta—Comédia (tradução) em 1 acto Ferreira de

Mesquita, 160

A mosca branca—Comédia (imitação) em 3 actos, por

Duarte Santos, 200

A cruz de prata—Drama (tradução) em 5 actos, por L. C. M.,

300

N. B. A quem comprar a colecção completa (15 peças) 40

por cento de abatimento.

ROMANCES

As duas flores de sangue—Original, por Pinheiro Chagas (1

volume), 500

As doze espadas do diabo—Tradução de Guilherme

Celestino (2 volumes), 800

Cláudio—Original, por Júlio César Machado (1 volume), 500

Nas cinzas—Tradução por L. C. M. (1 volume), 300

NO PRELO

Uma noite em Florença—Tradução de Guilherme Celestino

(1 volume), 400

Remetem-se, francos de porte, a quem enviar a sua

importância em estampilhas ao escritório da empresa, rua larga de S. Roque, n.º 100, 1.º andar.

Imprensa Nacional—1875

Você terminou Nas Cinzas

Eugène Berthoud

Livros como este

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*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK NAS CINZAS ***

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