Nas Cinzas

Eugène Berthoud · Capítulo 17 de 20

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Nas Cinzas

Capítulo XVII

 

Durante quinze dias, André Sauvain vagueou pelas ruas de Paris, como um cão que perdera seu dono.

Quem visse aquele gigantesco moço, com a fisionomia espantada, os cabelos flutuantes, o bigode arrepiado, e o vestuário em desalinho, correr como um doido atrás de qualquer transeunte, mirá-lo em face, e logo voltar-lhe as costas para correr atrás de outro, teria acusado mentalmente de negligencia os guardas e o porteiro de Bicêtre.

Naquele lapso de tempo, um desconhecido visitou, por duas vezes no mesmo dia, a casa do senhor Germinal. Da primeira visita, examinou escrupulosamente os móveis; da segunda, levou-os, depois de exibir um acto de venda perfeitamente em regra. Pode presumir-se como o pintor se agarrou, com ambas as mãos a essa suposta tábua de salvação! Interrogou,{112} suplicou, afagou, ameaçou, e maçou de mil maneiras o infeliz comprador para extorquir-lhe a nova residência do fugitivo, ou ao menos algum indício, que o guiasse na busca de Rosa.

Todavia, a vítima não lhe fornecera o menor esclarecimento. Era um ebanista do faubourg Saint-Antoine; comprara em globo a mobília do senhor Germinal, que lhe anunciou estar em vésperas de empreender uma longa viagem.

Podiam cortar o ebanista em mil pedaços, ou oferecer-lhe os tesouros de Golconda, que ele não saberia dizer mais nada.

Como o senhor Germinal pagara religiosamente o aluguer da casa, ninguém opôs dificuldades à remoção dos moveis. André seguiu-os com os olhos até à esquina da rua; levavam-lhe a última esperança.

Depois recomeçou as suas furibundas correrias. O comer, o beber e o dormir, foram tratados por ele como importunos credores, que se deixam gritar e a quem se não paga. Mas a natureza tem os seus limites; este estado de exaltação originou uma febre cerebral, e o pobre André desceu rapidamente o declive que conduz ao cemitério.

Felizmente, sua mãe moldara-o em bronze: a doença apenas o apalpou de leve, e, não obstante a senhora Poussignol ter chamado dois médicos, o pintor escapou. O seu físico restabeleceu-se à{113} custa do moral: André, sempre profundamente melancólico, atirou-se ao trabalho como quem se atira a um poço.

Este género de suicídio não era dos menos eficazes: André prosseguia nele com uma pertinácia de mau agouro, e qualquer outro convalescente, menos bem construído do que ele, não duraria três semanas com semelhante afã.

Entretanto, onde ele esperava encontrar a morte, encontrou um paliativo. A fadiga do corpo adormentou-lhe, pouco a pouco, a dor do espírito. E a arte ganhou com isso: a pintura de André ressentiu-se das tribulações da sua vida. Desenvolveu nos seus quadros um vigor de colorido, uma fúria de concepção, um arrojo de pensamentos, uma originalidade de meios, que não teriam de certo brotado das plácidas inspirações de um espírito tranquilo. O homem feliz já não existia: revelou-se o artista.

Enfim, o acaso também entrou em cena. Como André, a tudo indiferente, não corria atrás do dinheiro nem da fama, aconteceu naturalmente que a fama e o dinheiro correram atrás dele.

Surgiram no horizonte sinais precursores de gloria. O mercador de quadros, que até ali o explorara sem vergonha, e lhe comprara muitas telas por preços fabulosamente baixos, aumentou-os... oh, prodígio!... e aumentou-os de seu moto próprio.{114}

Fez mais ainda: concordou, sem hesitar, em que o nome de Sauvain ecoava já na opinião de alguns ricos amadores, e que, se André quisesse, o oiro, de ora em diante, seria para ele uma realidade.

O pintor encolheu os ombros, pagou as dívidas que contraíra durante a doença, e voltou à sua lida obstinada.

O verão acabou lentamente. A julgar pelo número de encomendas, os créditos de André não diminuíam; apenas concluído um dos seus quadros, era logo vendido. O seu Faust au sabbat tornou-se propriedade de um capitalista misterioso, que o pagou muito caro e desejou conservar o anónimo.

Noutro tempo, aquela veia de bom êxito teria enlevado Sauvain; agora era-lhe mais um motivo de ironia e de amargura. Pensava em Rosa perdida para ele, em Rosa talvez infiel, em Rosa que o esquecia, pois nem sequer lhe escrevera, e repetia a si mesmo: «De que me serve isto?»

Contudo, a abastança substituíra a pobreza; nada impedia André de trocar o seu escuro cubículo da rua dos Mártires por um atelier mais cómodo e decente; todavia não o quis deixar. Invisíveis cadeias o ligavam ali. Alugara os dois quartos, habitados anteriormente pela sua Rosa e pelo pai. Podia acaso afastar-se daquela janela, onde ela lhe aparecera na flor da sua radiante beleza? Podia afastar-se daquele jardim, onde ela lhe fizera a{115} primeira confissão do seu amor?... daquele banco, onde se sentava a par dele?... daquela casa, onde lhe decorreram horas tão venturosas?...

Ficou, e continuou a torturar a alma na saudade, como torturava o corpo na fadiga.

Porém, quando veio o outono, quando as árvores, que vira frondosas e virentes, amareleceram e deixaram cair as folhas... então abandonou-o a coragem: à sua fictícia actividade seguiu-se uma indolência invencível; como o trabalho o não matara, amaldiçoou o trabalho e aborreceu-o; pálido, enervado, emagrecido, com os olhos brilhantes de febre, sem forças, nem energia, passou os seus dias, inúteis, ruminando a própria dor.

Como as folhas caíam das árvores, uma a uma, assim se desprendiam as suas quimeras. Crenças de gloria e crenças de amor... todas iam pelo mesmo caminho. Da sua mocidade florescente, restava apenas o esqueleto.

Era a estação cismadora, em que a terra e o sol confundem num beijo os seus últimos adeuses, em que o céu se vela num crepe cor de opala, bruma transparente, que o voo das andorinhas rasga ao partirem. Era a estação temerosa, em que o enfermo melancólico pressente o seu próximo fim, e busca um seio amigo, onde reclinar a fronte.

E André, pressentindo também o inverno para a sua alma, buscava ao redor de si um conforto, uma{116} dedicação, uma simpatia... Mas... debalde: nada encontrava... nem um ente, a quem amar! No seu passado, no presente ou no futuro, nenhuma ligação, nenhuma alegria, nenhuma esperança! Em tudo o deserto, em tudo o vácuo, em tudo o desalento!...

Então, prostrado de corpo e desfalecido de espírito, com o peito entumecido de lágrimas, exalou instintivamente o queixume habitual da criança em aflição. Bem como a pérola, lançada nas ondas, volta à superfície, assim uma palavra de há muito esquecida, subindo do fundo da sua fraqueza, do abismo do seu isolamento, lhe vibrou nos lábios: «Minha mãe!»

Oh, maternidade! afeição puríssima e inexcedível, consolação sobre-humana, único amor desinteressado, único apoio... que resiste quando todos os outros se nos despedaçaram nas mãos, e ainda quando os mais indeléveis sentimentos se esvaíram em fumo! Maternidade! santa encarnação do sacrifício! O homem só te aprecia quando te perde!

Oh! se sua mãe vivesse!... Como iria refugiar-se no seu seio! Como ela teria derramado naquele coração o bálsamo da sua ternura! Como o embalaria com aqueles misteriosos acentos, que as mães tiram do vocabulário dos anjos!...

Ai dele! sua mãe era morta!

Àquela recordação pura, tanto tempo abandonada{117} por amor de uma ingrata, André corou de remorsos.

Lembrou-se do tempo, em que o seu máximo desejo fora cobrir com uma campa as cinzas da viúva, e o seu mais acariciado projecto restaurar as ruínas da casinha onde vivera com ela.

O oiro necessário possuía-o agora.

Que significava, pois, o ficar ali covardemente suspirando? A morta esperava.

—Coragem! exclamou André. A caminho!...

E, numa linda manhã de Setembro, partiu com a mala aos ombros, levando sob a blusa de linho os seus modestos haveres, e sentindo amarga satisfação em pensar que ia morrer no tugúrio em que nascera. Para cumprir escrupulosamente o seu voto, empreendeu a viagem a pé, como no tempo em que era tão alegre, quanto pobre. Nesse tempo, sua mãe não tinha rival no coração do pintor; a sua imagem adorada sorria-lhe de entre as árvores do caminho. Agora não acontecia o mesmo: a seu pesar, uma outra imagem substituía a primeira. Queria chorar pela santa guarda da sua infância, e chorava pela fada da sua juventude, Rosa! Debalde concentrava o pensamento no termo da sua peregrinação; a cada passo voltava insensivelmente a cabeça para trás. Em vão evocava o semblante frio e macilento da morta; a memoria só lhe reproduzia um rosto animado, com olhos negros e cabelos louros...{118}

Assim caminhou André por muitos dias, descansando nas estalagens dos almocreves, bebendo na palma da mão, dormindo no meio dos campos matizados de amarelo e púrpura.