Nas Cinzas
Capítulo VIII
Os dois namorados ficaram confusos, como colegiais surpreendidos a furtar maçãs.
—Senhor, balbuciou André, não pense que... Juro-lhe, pela minha honra, que é a primeira vez que...
—Meu caro vizinho, permita-me que lhe diga que é um parvo! interrompeu o senhor Germinal, que se assentou sossegadamente, e puxou para junto de si, ameaçando-a com o dedo, a linda Rosa, um tanto enleada.
Quem, então, ficou de todo embatocado foi o pintor...
Pois supõe, continuou o senhor Germinal, que iria eu próprio meter o lobo no aprisco, se não tivesse... cá o meu plano?
—Será possível!... exclamou Sauvain
—Tudo é possível, meu caro. E possível que, à{45} força de deitar o nariz fora da janela, esta criança reparasse em certo vizinho; é possível que o pai, vendo-a pensativa, procurasse descobrir o que a preocupava; é possível que, adivinhando ele o que de ordinário atormenta uma rapariga de dezassete anos, a seguisse à dita janela e aventurasse um olhar por cima do ombro da filha; é possível enfim, que, por entender que ao longe se vê mal, aproximasse os dois curiosos para se verem de perto.
André lançara-se de joelhos na areia do jardim: com uma das suas mãos apertava a dextra escabrosa do senhor Germinal, com a outra levava aos lábios a alva mão da donzela.
—Rosa!... minha Rosinha! anjo querido! sonho dourado da minha vida! repita diante de seu pai aquelas palavras, que há pouco me iluminaram o coração!
—Amo-o; André! disse ela ingenuamente e sem hesitar.
—Não se morre de alegria!... exclamou o enamorado moço.
—E o senhor... meu bom amigo... meu pai... dá-ma?
—Ela ama-o, André! respondeu o senhor Germinal, arremedando Rosa. Mas levante-se daí, vizinho! há mais janelas e mais inquilinos, no prédio!
André obedeceu: nos seus olhos ardiam fogos de{46} artifício, o coração tocava-lhe a rebate, e no cérebro sentia ressoar uma banda regimental.
—Escute-me, disse o velho.
—Sou todo ouvidos!...
—Não se vive só de ar: não lhe parece?
—É verdade, infelizmente!...
—Bem. E que trará o senhor para a comunidade conjugal?
André mordeu o bigode, e consultou as nuvens, como se elas estivessem encarregadas de trazer-lhe barras de oiro e se houvessem demorado no caminho.
—Trarei, respondeu enfim, o meu amor, a minha coragem, a minha perseverança e... a minha fé no futuro.
—Muito bem, disse o senhor Germinal. E tu Rosa, que levarás em dote a teu marido?
—A felicidade, respondeu ela simplesmente, mas com profunda convicção.
—Muito bem, repetiu o velho. Pois, meus filhos, possuís exactamente o mesmo capital, que eu possuía quando casei.
—E foi feliz, afirmou Rosa.
—Feliz!... redarguiu ele com amargura; feliz, como o ladrão, que se apressa a dissipar o que roubou, pensando incessantemente nas galés que o esperam!... feliz, como o condenado à morte, que afoga a razão numa orgia efémera, e que despertará no cadafalso!... Não sabe, André, quanto custa{47} ver a mulher que adoramos, uma criatura delicada a quem desejaríamos entretecer um ninho com todas as maravilhas do universo, estragando a vista num trabalho ingrato para poder comprar um miserável vestido de chita!... sorrir forçadamente para nos esconder as pálpebras avermelhadas pela vigília!... definhar-se; a fogo lento, à mingua de um pouco de supérfluo!... E tu ignoras também, minha pobre Rosa, o que é ver entrar à noite um homem desanimado, abatido, prostrado pelo excesso de um trabalho mecânico, humilhado por superiores insolentes, escarnecido por subalternos mais bem trajados do que ele, consentindo, para poder ganhar um salário irrisório, em calcar aos pés a sua inteligência e a sua dignidade!... Tu não sabes, repito, o que é sentir-se uma pessoa esmagada por esta luta com a pobreza, prever próxima a morte, e inclinar-se de noite sobre um berço, murmurando: «Que será desta criança, quando eu lhe faltar?»
Rosa e André achegaram-se um ao outro, trocando olhares altivos, que desafiavam a adversidade.
—Ignoram tudo isto, prosseguiu o senhor Germinal; porém eu, que o sei por experiência própria, jurei sobre o túmulo de minha mulher, morta de miséria, vítima de privações de toda a espécie!... que nunca daria minha filha a um homem pobre.
André levantou-se, pálido e com as feições transtornadas.{48}
—A não ser que ela tenha um dote razoável... concluiu o velho.
Os dois jovens ficaram aterrados.
—Oh, meu pai!... meu pai!... exclamou Rosa, quase irrompendo em pranto.
—Senhor! bradou André, trémulo de indignação, se o que diz é um gracejo... é bem cruel!
Papá Germinal esfregou as mãos, produzindo desta vez o ruído de um raspador colossal.
—Senhor Sauvain, a quantos estamos do mês?
—Oh!... o senhor está abusando...
—Responda-me por favor: quantos são hoje?
—Não sei!... 8 de maio, creio eu.
—Pois bem, senhor Sauvain; hoje mesmo, 8 de maio de 1854, minha filha possui um dote.
—Um dote?... eu! exclamou Rosa, incrédula.
—Isso pouco me importa, disse André, o essencial para mim...
—Pelo contrario, deve importar-lhe muito; sem dote, não consentiria eu que casasse com minha filha. Dou-lha... com noventa e dois mil francos.
Desta feita, o susto sufocou Rosa e André. Pareceu-lhes palpável que o senhor Germinal trilhava o caminho que conduz a